quarta-feira, 6 de abril de 2011

MOÇA, INTERROMPIDA - RESUMO E ANÁLISE CRÍTICA LITERÁRIA


I – AUTORA:


SUSANNA KAYSEN nasceu em Cambridge, Massachusetts, em 11 de novembro de 1948.


"A única coisa que me salvou da loucura foi escrever", conta a escritora Susanna Kaysen, autora de três romances, “Asa, As I Knew Him, 1987, “Far Afield”, 1990, “The câmera my mother gave me”, 2001, além da obra autobiográfica “Girl, Interrupted”, 1993 que, tornou-se um best-seller e foi estrelado no cinema, ganhando reconhecimento mundial e indicado a vários Oscars. A crítica comparou-o a diversas outras crônicas contundentes e hoje auto-retratos clássicos sobre a loucura, como “Um Estranho no Ninho” (One Flew Over the Cuckoo’s Nest), “I Never Promised You A Rose Garden” e “A Redoma de Vidro” (The Bell Jar, cuja autora, Sylvia Plath, também é ex-interna do manicômio McLean).
A escritora, através do humor negro, da linguagem direta, da ousadia e do intimismo, traz à tona temas universais, embora extraia sua matéria-prima de sua vida pessoal.

II – TÍTULO:

O título em inglês, “Girl, Interrupted”, traz uma perspicaz inversão que só ficará esclarecida em seu epílogo.
A protagonista visitou o Museu Frick, de New York, pela segunda vez e ao observar a tela de Vermeer, pintor barroco holandês, “Garota Interrompida em Sua Música”, identificou-se com o olhar vago da garota do quadro, ignorando seu professor e a própria aula de música. Assim, como a estudante interrompera a música, ela havia sido,“interrompida na música dos 17 anos, como a vida dela havia sido, roubada e presa numa tela; um momento congelado no tempo mais importante que todos os outros momentos, quaisquer que fossem ou que viessem a ser. Quem pode ser recuperar disso?”


“Garota Interrompida em Sua Música”.


É importante lembrar que no idioma inglês os adjetivos precedem os substantivos. Kaysen, entretanto, inverteu sua ordem propositalmente, na intenção de enfatizar sua vida, antes e depois de sua internação e, adicionou uma vírgula desnecessária entre os dois verbetes do título com o intuito de realçar essa transição.

III – ESTRUTURA:

“Moça, interrompida” é narrada em primeira pessoa pela protagonista Susanna Kaysen.
A obra não segue uma estrutura narrativa linear e possui uma atmosfera memorialista e autobiografia.
Trata-se de um documento pessoal de sua estada no Hospital MacLean, contando incidentes vividos e testemunhados por Susanna, que apresenta a rotina hospitalar, o relacionamento com o pessoal da equipe de saúde, os pacientes e a sua própria experiência de vida.
Os acontecimentos exteriores são considerados na medida em que revelam o interior, os motivos profundos da ação, que a narradora devassa e apresenta. Daí, os menores gestos são significativos na composição do quadro psicológico das personagens, onde nada é desprovido de interesse.
“Moça, interrompida” é composta por capítulos curtos e independentes o que acelera, só por si, o ritmo de leitura e por títulos bem precisos.

IV – TEMPO:

“Moça, interrompida” é construído a partir de um flash-back. Debruçada sobre a sua passagem durante quase dois anos no hospital psiquiátrico, 1967-68, Kaysen vai reconstituindo o “tempo interrompido” e o “universo paralelo” de sua existência, filtrando os fatos sob sua ótica, num processo que se aproxima do impressionismo associativo.
No entanto, os fatos e as ações não seguem um fio lógico ou cronológico e obedecem a um ordenamento interior, assim, são relatados à medida que afloram à consciência ou à memória da narradora.
A preocupação maior é com o tempo psicológico - o que se passa dentro das personagens, dentro da própria vida. Dessa forma, a escritora faz uma análise dissecante e profunda, desnudando a si mesma e as pacientes que conheceu no hospital.

V – PERSONAGENS PRINCIPAIS:

LISA: charmosa sociopata. Lisa era magra, amarelada, com belas e longas unhas e muitas olheiras, por causa das insônias.
DAISY: uma "filhinha de papai" mimada, com uma queda por frangos de padaria e laxantes.
POLLY: trazia cicatrizes terríveis cor-de-rosa que marcavam seu corpo, principalmente, na área do pescoço e nas faces, contrastando com o branco da pele que não foi tingida pelo fogo. Polly era sensível, amiga, companheira e alegre. Estava sempre pronta para ouvir e consolar os outros.
LISA CODY: ex-dependente de drogas.
GEORGINA: companheira de quarto de Susanna
TORREY: mexicana e dependente de drogas.
ALICE CALAIS-CALOS: aparentemente abobalhada e tímida, logo foi aceita no grupo. Sua falta de informações sobre coisas prosaicas da vida causou curiosidade entre as garotas, chegando a imaginar que ela esteve isolada o tempo todo de sua vida. Um mês depois de sua chegada, ocorreu sua explosão e foi trancada na solitária.
VALERIE: a funcionária do hospital que inspirava confiança. Ela era severa, inflexível, calada, sincera e não demonstrava medo das internadas.
JERRY: atendente esguio e ansioso.
DRA.WICK: representava o conservadorismo e a rusticidade do colonialismo inglês. Retraída, chocava-se facilmente com algumas expressões utilizadas pelas internadas.
SRA. MC WEENEY: seca, contraída, miúda, com olhinhos de porco, determinada, inflexível e acaciana. A Sra. Mc Weeney vestia-se de maneira formal e impecável e, olhava com censura para os cabelos e as roupas de Valerie. De personalidade instável, às vezes, apresentava comportamentos estranhos.

VI – RESUMO DO ENREDO:


EM BUSCA DE UMA TOPOGRAFIA DO UNIVERSO PARALELO


Susanna Kaysen inicia a narrativa questionando sobre o porquê das pessoas escorregarem “para um universo paralelo”, o mundo marginalizado.
A narradora cita o exemplo de Georgina, sua companheira de quarto, que foi abatida quando estava no cinema e, de repente, uma onda negra a engoliu. Na época, a jovem cursava o antepenúltimo ano da Universidade de Vassar.
Susanna divaga que, geralmente, essa onda negra chega aos poucos e não se têm forças para evitá-la, visto que as pessoas só tomam consciência desse universo paralelo quando já estão fazem parte dele

“[...] depois que entramos fica fácil enxergar o mundo do qual vivemos.”

O TÁXI

Susanna revive os últimos dez minutos antes de ser colocada num táxi, rumo ao hospital McLean, em 27/04/67. Ela sentia-se cansada, com problemas com o namorado complicado e entediada com seu emprego na loja de utensílios para cozinha.
Em sua averiguação pré-internação que duraram três horas, constou que a paciente apresentava depressão aguda; desencanto; ideias suicidas; descompensação progressiva; inversão do ciclo do sono; fantasiosa; retraimento e isolamento progressivos. No fundo, essa internação, parecia-lhe, confortável.

ETIOLOGIA

A protagonista apresenta uma lista de dez itens sobre opções e procedimentos para se lidar com uma paciente com esse quadro.

FOGO

Susanna relata a tentativa de suicídio de Polly, que antes de sua internação, banhou-se de gasolina e ateou fogo.
Polly trazia cicatrizes terríveis cor-de-rosa que marcavam seu corpo, principalmente, na área do pescoço e nas faces, contrastando com o branco da pele não foi tingida pelo fogo.

“As cicatrizes não têm personalidade. Não são como a pele da gente: não mostram a idade ou alguma doença, a palidez ou o bronzeado. Não têm poros nem pêlos, nem rugas. São uma espécie de fronha, que protege e esconde o que houver por baixo. Por isso as criamos. Porque temos algo a esconder.”

Polly era sensível, amiga, companheira e alegre. Estava sempre pronta para ouvir e consolar os outros.
Nunca tiveram coragem de perguntar por que fizera tal ato contra seu próprio corpo.
Susanna ficava a imaginar de que maneira Polly arquitetou seu plano suicida. Tinha que ter muita frieza, afinal, para tanto, era necessária muita coragem.
A narradora cita outras formas suicidas como: ingerir aspirinas, cortar os pulsos e até com um revólver enfiado na boca. E, em seguida, descreve o dia que ingeriu cinquenta aspirinas.

“Era a minha incumbência para aquele dia.”

Não concluiu seus planos, saiu pela rua e desmaiou.
Com Polly foi diferente, onde e como ela executou seu plano?
E, agora, com apenas dezoito anos, quem beijaria uma pessoa sem pele?
Todos estes questionamentos absorviam Susanna.

“A vida era um inferno, ela sabia. Mas seu sorriso deixava entrever que ela queimara tudo dentro dela.”

Talvez, ela sorrisse porque era superior a todas internas: “nós não teríamos tido aquela coragem de nos queimar por dentro; e isso ela também compreendia.”
Um dia ouviram Polly chorar e gritar: “ – Meu rosto! Meu rosto! Meu rosto!”
Foi então que, naquele momento, compreenderam que estavam enganadas, “algum dia poderíamos sair, mas ela estava aprisionada naquele corpo para sempre.

LIBERDADE

Lisa, novamente, fugiu. Sempre que isso ocorria, ela era capturada até o final da tarde. Mas, dessa vez, a fuga tomou outra dimensão.
No terceiro dia, Susanna ouviu alguém da sala de enfermagem, mandar que intensificassem as buscas.
Lisa era magra, amarelada, com belas e longas unhas e muitas olheiras, por causa das insônias. Quando foi encontrada, foi colocada na solitária e lá, permaneceu por dois dias.
Assistíamos a muitas violências no hospital: o eletrochoque que Cynthia tomava semanalmente; Polly enrolada em lençóis umedecidos com água gelada e tremendo de frio; mas, a volta de Lisa da solitária foi algo desesperador. Apararam suas unhas, alegando serem “objetos cortantes” e confiscaram seu cinto para que ela não se enforcasse.
Depois, devolveram-lhe o cinto, suas unhas tornaram a crescer; entretanto, Lisa nunca voltou a ser aquela garota engraçada de outrora. Ficava sentada, assistindo à TV com as mais irrecuperáveis, comportamento que ela sempre recriminou.
Ela que ao invés de dormir, fazia as unhas, preparava chocolate para a equipe da noite; agora, vivia alienada, possivelmente de tanta medicação, enfrente à televisão.
Passado algum tempo, Lisa trocou a sala de TV pelos banheiros.
Um dia, depois do café da manhã, Lisa sorriu e pediu que a esperássemos no refeitório.
Houve grande barulho e correria.

Lisa tinha embrulhado todos os móveis – alguns deles ocupados pelas catatônicas -, bem como a TV e o sistema de sprinklers do teto, com papel higiênico, metros e mais metros de papel higiênico esvoaçando, pendurados, embolados e enrolados em tudo e por toda parte.”

Lisa, enfim, tinha voltado ao seu estado normal. Renasceu a sua alegria, voltou a contar histórias e relatou tudo o que viu e viveu durante sua fuga.

O SEGREDO DA VIDA

O namorado problemático de Susanna não foi visitá-la no hospício. Ele se justificou que não suportaria essa situação, visto que sua mãe já passara por um problema parecido com o dela. Dessa forma, Susanna e seu namorado problemático romperam o relacionamento.
Seu pai, também, não a visitava. Ele alegava que vivia sempre ocupado. Assim, Susanna, raramente, recebia visitas. Foi com surpresa, que um dia recebeu a visita de Jim Watson.

Fiquei contente em vê-lo, pois, nos anos cinquenta, ele descobrira o segredo da vida, e talvez agora me contasse qual era.”

James Watson foi uma das personagens principais num dos grandes avanços científicos.
Os seus esforços permitiram descobrir que a molécula de ADN tem a forma de uma dupla hélice. E que no meio se encontram quatro unidades químicas (adenina, timina, citosina e guanina). Watson, Crick e Maurice Wilkins, que também contribuiu para esta descoberta, receberam o Prêmio Nobel da Medicina de 1962.
Essa pequena informação explica as palavras de Susanna ao referir-se a ele, como descobridor do segredo da vida.
James Watson ou simplesmente Jim para os íntimos, sugeri-lhe que fugissem para Inglaterra; mostrou-lhe um carro luxuoso que os esperava e fez-lhe uma proposta para tornar-se sua governanta.

Durante uns dez segundos fiquei imaginando aquela outra vida que começava comigo entrando no carro vermelho de Jim Watson e nós dois disparando a toda do hospital para o aeroporto. A parte de ser governanta não me parecia clara. Aliás, nada me parecia claro.

Susanna, disse-lhe, não.

POLÍTICA

A narradora traça o perfil opositivo entre o mundo real externo e New Haven, o mundo paralelo.
Relata a namoro de Giorgina e Brad Barker, um garoto de dezesseis anos que dizia que seu pai era espião e que matou muitos cubanos com suas próprias mãos. Barker quando não estava trancafiado em seu pavilhão, visitava Georgina e namoravam sentados no chão do quarto.
Às vezes, mesmo não sendo convidada, Susanna acompanhava as conversas do casal na tentativa de obter alguma informação sobre o terrível Sr. Barker.
Brad entrou numa fase violenta e se afastou várias semanas de Giorgina.
Susanna na tentativa de animá-la sugere fazer uma comida. As duas dirigem-se à cozinha na intenção de fazer caramelos, mas por descuido de Susanna a calda quente cai na mão de Georgina, que não esboçou nenhuma reação.

SE VOCÊ MORASSE AQUI, JÁ ESTARIA EM CASA

Daisy, como sempre ocorria, foi internada às vésperas do feriado de Ação de Graças e ficava até depois do Natal. Houve um ou outro ano em que também, internou-se em seu aniversário. Ela necessitava ter um quarto só para ela e as enfermeiras precisaram remanejar alguma paciente.
A enfermeira-chefe reuniu as paciente e perguntou se alguém aceitaria dividir o quarto com uma companheira. Susanna e Georgina já dividiam e ficaram fora da discussão.
A namorada de um marciano que tinha um pênis pequenininho e que vivia a exibi-lo, se prontificou de imediato, mas ninguém aceitou.
Cynthia, que tornara a falar depois de seis meses em estado de choque se ofereceu e, Polly aceitou. Porém, dessa forma, o problema não estaria resolvido, já que Polly dividia seu quarto com uma anoréxica chamada Janet.
No final, juntaram duas catatônicas e o quarto para a chegada de Daisy foi liberado.
Daisy tinha duas obsessões: laxantes e frango. Diariamente pedia laxantes às enfermeiras e duas vezes por semana, seu pai, trazia-lhe um frango inteiro.
O comportamento de Daisy aguçava as curiosidades das outras jovens.
Daisy apesar de sexy também, fedia. Usava roupas ousadas atraindo atenção da namorada do marciano, que também estava apaixonada por ela e queria mostrar o seu pênis.
Lisa traçou em plano para entrar no quarto de Daisy. Simulou que estava com prisão de ventre e conseguiu alguns laxantes com a enfermeira. Com isso, bateu à porta de Daisy e conseguiu ser recebida.
No quarto havia nove carcaças de frango enfileiradas no chão. Daisy tirava toda a carne do frango e guardava a carcaça inteira, inclusive da asa. Depois, colocava a carcaça no chão, junto da anterior. Dizia que quando tivesse quatorze carcaças, era hora de ir embora.
Na outra semana, outra novidade circulou no hospício: Daisy ganharia de presente de natal um apartamento.
Georgina queria saber mais sobre seu presente natalino e quando, perguntou-lhe qual a parte que ela mais gostava, a resposta veio de imediato:

“– A placa onde está escrito, “Se você morasse aqui, já estaria em casa.”
Daisy brandiu o punho, empolgada.
– Entendeu? Todo dia as pessoas vão passar por ali e ler a placa, e ai vão pensar “É mesmo, se eu morasse aqui, já estaria em casa”.

Certa tarde circulou no hospital a notícia de que Daisy havia cometido suicídio, no dia do seu aniversário.

MEU SUICÍDIO

Susanna através do flash-back recorda-se de sua tentativa de suicídio. Antes, disserta sobre o pré-suicídio e suas sensações.
Na época de sua tentativa de suicídio, namorava o Johnny, um garoto romântico e apaixonado.

Liguei para ele, disse que ia me matar, deixei o fone fora do gancho, tomei as minhas cinquenta aspirinas e percebi o meu erro. Aí, saí para comprar leite, coisa que minha mãe me pedira para fazer, antes das aspirinas.
Johnny chamou a polícia, que veio até minha casa e contou para a minha mãe o que eu havia feito. Ela apareceu no supermercado da Av. Massachusetts no instante em que eu ia desmaiar em cima do balcão do açougue.
No trajeto de cinco quarteirões até o supermercado, a humilhação e o arrependimento me invadiram. Eu havia cometido um erro e agora ia morrer por causa dele. [...] A lavagem estomacal me fez recuperar os sentidos.”

Susanna, depois desse dia, sentiu que algo dentro de si havia morrido.
Novas mudanças ocorreram em sua vida: retornou ao colégio; separou-se do namorado; começou um relacionamento com seu professor de inglês e tornou-se vegetariana, talvez por relacionar o balcão do açougue com o seu desmaio no supermercado.

TOPOGRAFIA ELEMENTAR

Susanna esclarece que sua internação foi voluntária, visto que, na época, já contava com dezoito anos de idade. Ela não representava um perigo para sociedade e sim, para si própria.
Depois do episódio das cinquenta aspirinas, a protagonista sentiu-se restabelecida como se parte da personalidade que tanto lhe incomodava fora abortada.
No entanto, esse período passou e, em 1967, uma nova onda de depressão tomou-lhe conta, foi quando procurou ajuda médica.
O médico desconhecido em poucos minutos diagnosticou seu transtornou e optou pela internação. Na época, disse-lhe que bastavam duas semanas para descansar, mas, na realidade, foram quase dois anos.
Será que o médico, na ocasião, preferiu eliminar um problema social futuro e optou por uma espécie de medicina preventiva, passando o problema para outros?
Mais tarde, Susanna leu que o médico foi acusado por assédio sexual por uma ex-paciente.
Retomando a sua internação, a narradora recorda-se que após ouvir seu “veredicto”, tomou o táxi e dirigiu-se ao Setor Administrativo do Hospital McLean.

Eu estava tendo um problema com padronagens. Tapetes orientais, pisos de cerâmicas, cortinas estampadas, coisas desse tipo. Pior de tudo eram os supermercados, com seus corredores lembrando tabuleiros de xadrez compridos e hipnóticos. Quando olhava para essas coisas, eu via outras coisas dentro delas. Pode parecer que eu sofria de alucinações, mas não era o caso. Eu sabia que estava olhando para um piso ou para uma cortina. [...] A realidade estava se tornando demasiado densa.”

Susanna, também, ao olhar para o rosto de alguém, não conseguia sustentar uma conexão ininterrupta com o conceito de rosto. E, mesmo tendo consciência que suas interpretações eram equivocadas, elas persistiam.
Pensava, ela:

Quando você olha para um rosto e vê uma massa de borracha, é porque teme que o seu rosto seja mesmo uma massa de borracha.”

Susanna temeu estar louca ou que alguém pudesse achar que, realmente, ela estava louca. Outra característica marcante de sua personalidade foi á negação perante a tudo e a todos.
Assim, sua internação era uma forma de resistência.

Era um Não descomunal – o maior Não do lado de cá do suicídio.”

TOPOGRAFIA APLICADA

A decoração dos primeiros compartimentos do hospital agradava aos visitantes e convencia-os que se tratava de um estabelecimento sério e responsável. No entanto, após a sala de estar e ao dobrar o corredor, a realidade era bem diferente.
A narradora descreve a parte estrutural do hospital (quartos, banheiros, sala de estar, sala de TV) e ressalta a existência de um quadro negro que acusava entradas, saídas e mortes das internadas, sem nenhuma sensibilidade.
No final do corredor há a terrível solitária.

A solitária era do tamanho de um banheiro residencial. A única janela era a da porta, reforçada com tela de galinheiro, permitindo que espiassem para ver o que a gente estava fazendo. Não dava para fazer grande coisa ali dentro. Sobre o piso de linóleo verde, apenas um colchão sem lençol. As paredes estavam descascando, como se alguém as tivesse atacado com unhas ou dentes. A solitária, supunha-se, devia ser à prova de som. Não era.”

A solitária estava disponível para quem quisesse lá adentrar-se, gritar ou até pedir para ser trancado lá, fato que raramente acontecia.

Segundo as regras de etiqueta da solitária, qualquer pessoa podia juntar-se a você, desde que você não estivesse trancada. Uma das enfermeiras podia interromper sua gritaria para averiguar o seu motivo, ou outra maluca qualquer podia entrar e começar a gritar junto com você. Daí essa história de “solicitação”. O preço da privacidade era a liberdade.”

No entanto, a função da solitária era punitiva. Objetivava corrigir e acalmar quem extrapolasse o grau de loucura.

PRELÚDIO PARA UM SORVETE

Nosso hospital era famoso e abrigara muitos grandes poetas e cantores. Seria especializado em poetas e cantores? Ou poetas e cantores é que se especializavam em loucura?”

A narradora cita algumas celebridades que lá estiveram internadas, entre elas: Ray Charles; a família Taylor: Kate e Livingston; Robert Lowell; Sylvia Plath etc, músicos e escritores.

“Por que será que a métrica, a cadência e o ritmo produzem loucura em quem os produz?”

Os jardins eram bem formados, porém intocados. Quando recebiam o prêmio para tomar sorvete em Belmont, passavam pelo belo jardim. Essa retirada do hospital era acompanhava por enfermeiras e dependia do grau de insanidade.
Esta visita ao mundo exterior muitas vezes causava constrangimentos aos moradores da região e apreensão nas enfermeiras que as acompanhavam.

SORVETE

Em uma das idas a sorveteria, Susanna ao reparar no assoalhado que formava quadrados pretos e brancos teve uma recaída.

O chão queria dizer Sim, Não, Isto, Aquilo, Em Cima, Embaixo, Dia, Noite...todas as indecisões e opostos que, se na vida já são ruins, ficam ainda piores assim, explicitados no chão.”

RONDA

A vigilância das enfermeiras tirava a privacidade e incomodava as pacientes.

Clique, estalo, “ronda”, estalo, clique.”

Os casos mais graves eram fiscalizados de cinco em cinco minutos. Susanna atingiu a fiscalização de meia hora, mas como Georgina continuava no patamar dos cinco minutos, não fazia diferença para Susanna que dividia o quarto com a amiga. E a ronda prosseguia o tempo inteiro.

OBJETOS AFIADOS

Todos os objetos afiados eram confinados no hospício. No refeitório, somente talheres de plásticos e para raspar as pernas somente com autorização e fiscalização.

Havia muitas pernas cabeludas no nosso pavilhão. Precursoras do feminismo.”

OUTRA LISA

Chegou outra Lisa no hospital e para diferenciá-la da anterior, passou a ser chamada por Lisa Cody. Tornaram-se amigas e uma de suas atividades prediletas era conversar por telefone. Ambas eram ex-drogadas.
As cabines telefônicas eram um lugar onde se obtinha privacidade, embora, só eram permitidas ligações que constavam numa determinada lista autorizada.

Lisa Cody ainda não recebera um diagnóstico.”

Quando o recebeu constava que era uma sociopata o que lhe causou felicidade por ser o mesmo diagnóstico de Lisa. Enquanto que, no prontuário de Susanna, constava distúrbio da personalidade.

Passei a achar que minha personalidade era como um prato ou uma camisa com defeito de fabricação e, consequentemente, inútil.”

As Lisas passaram a “atuar”, pois se identificavam demais, travando uma guerra em torno de suas vidas pregressas.
Um dia desapareceram as lâmpadas do pavilhão. Todas saíram á procura. Lisa manteve-se na sala de TV. Quem as achou foi Lisa Cody.
Dois dias depois, Lisa Cody desapareceu.
Alguns meses mais tarde, Lisa, também desapareceu e conseguiu dois dias de liberdade. Quando voltou disse que esteve com Lisa Cody e que ela agora, era uma “autêntica viciada”.

A RONDA DOS NAMORADOS

As garotas discutem sobre as possibilidades e as dificuldades que elas têm em se relacionarem sexualmente, pois eram vigiadas, constantemente pela ronda.

EM QUEM VOCÊ ACREDITA, NELE OU EM MIM?

Susanna apresenta argumentos que ela estava com a razão sobre o tempo que se passou entre sua consulta até sua internação.

VELOCIDADE X VISCOSIDADE

A protagonista expõe sua definição sobre velocidade e viscosidade.

A viscosidade e a velocidade, embora opostas, podem parecer iguais. A viscosidade gera a inércia da falta de inclinação; a velocidade gera a inércia da fascinação. Quem observa não consegue saber se uma pessoa está calada e quieta porque sua vida interior estacionou ou porque sua vida interior é de uma atividade paralisante.”

TELA DE SEGURANÇA

Lisa exige que a enfermeira abra a janela do seu quarto, sob ameaça de chamar seu advogado.

GUARDIÃS

Susanna descreve os funcionários do hospital atentando às suas características físicas e comportamentais.
Valerie era considerada a funcionária do hospital que inspirava confiança. Ela era severa, inflexível, calada, sincera e não demonstrava medo das internadas.
Jerry era o atendente esguio e ansioso.
A Dra. Wick era a chefe do pavilhão South Belknap Dois, onde Susanna estava internada. Ela representava o conservadorismo e a rusticidade do colonialismo inglês. A sua imagem e voz, lembrava-se um cavalo.
Retraída, chocava-se facilmente com algumas expressões grosseiras utilizadas pelas pacientes. Em uma das sessões de terapia a Dra. Wick pede que Susanna fale sobre o seu relacionamento com o professor de inglês.

“ – Fomos ao Museu Frick. Eu nunca tinha ido antes. Havia um Vermeer, entende? Uma pintura maravilhosa, de uma moça na aula de música...Era tão maravilhosa que eu fiquei pasma...
- E quando foi que vocês...humm...quando foi?”

Depois dos interrogatórios com a Dra. Wick, era a vez dos residentes colherem depoimentos. Estes eram substituídos de seis em seis meses, assim, quando começava surgir efeito seu trabalho, eram transferidos.
Em seguida, ocorriam as sessões com o terapeuta. Os terapeutas não tinham poder de decisão junto ao hospital, nem interferir em seus problemas cotidianos.
Eles se limitavam a ouvir e passar receituários. Em caso de emergência, os residentes podiam interceder no trabalho dos terapeutas e medicar as pacientes.
Esses remédios tidos como controladores da depressão causavam dependência nas pacientes.
A equipe de funcionárias do turno da noite era mais sensível e compreensível. Elas demonstravam carinho para com as pacientes, abraçava-as quando carentes e chamava-as de “queridas” ou “benzinhos”. Diferente da equipe diurna que seguia firmemente a norma do hospital: “Nada de Contato Físico”.
Entre a transição das duas equipes, havia ainda, a seca, contraída, miúda, com olhinhos de porco, a Sra. Mc Weeney.
A Sra. Mc Weeney vestia-se de maneira formal e impecável e, olhava com censura para os cabelos e as roupas de Valerie.
A responsável pelo turno intermediário era determinada, inflexível e acaciana, vivia a repetir frases feitas. De personalidade instável, às vezes, apresentava comportamentos estranhos.
Sra. Mc Weeney dividia o seu turno com o misterioso Médico de Plantão. Misterioso, porque ninguém o conhecia e, raramente era consultado. Ela preferia resolver os problemas por sua própria iniciativa, inclusive sobre as normas, horários e medicamentos.
No dia seguinte, as garotas reclamavam a Valerie sobre o atraso dos medicamentos durante o turno da Sra. Mc Weeney. Mas, de nada adiantava, todos a protegiam, pesando a necessidade financeira que a mesma tinha de assegurar o seu emprego.
Havia, também, as estagiárias. Estudantes jovens, ansiosas, asseadas que se trajavam impecavelmente.

“[...] olhar para as estagiárias de enfermagem era olhar para versões alternativas de nós mesmas. Elas viviam uma vida que nós poderíamos estar vivendo se não estivéssemos às voltas com ser doentes mentais. Dividiam apartamentos, tinham namorados e conversavam sobre roupas. Queríamos protegê-las, para que pudessem continuar vivendo essa vida. Eram as nossas representantes por procuração”.

Assim, as garotas identificavam-se com as estagiárias e acabavam estreitando laços de amizade. Durante a curta passagem das estagiárias, as garotas apresentavam certa normalidade e controle.

Por causa disso, elas nunca aprendiam nada sobre enfermagem psiquiátrica. Quando seu estágio terminava, só levavam consigo uma versão melhorada de nós, um meio caminho entre nossa existência azarada e a normalidade que elas encarnavam aos nossos olhos.”

Tão logo elas partiam, a vida dentro do hospital retomava a sua rotina, pior do que antes, resultando em trabalho dobrado aos funcionários que lá permaneciam.

MIL NOVECENTOS E SESSENTA E OITO

O mundo lá de fora não parava seu percurso para esperar as confinadas alcançá-lo. Suas transformações e avanços eram televisionados diariamente e acompanhados na sala de TV.

Depois veio a época em que pessoas que conhecíamos – ainda que não pessoalmente – começaram a tombar. Martin Luther King, Robert Kennedy. [...] As pessoas estavam fazendo o tipo de coisa que nós fantasiávamos fazer: ocupavam as universidades e suspendiam as aulas; faziam abrigos com caixas de papelão e, com elas, obstruíam o caminho; mostravam a língua para a polícia.”

As garotas vibravam por esses “libertadores” que de certa forma, direta ou indireta, assumiam seu lugar e defendiam seus ideais. Claro que era cômodo torcer por seus rebeldes heróis, estando protegidas num hospital caro e bem equipado. Enquanto havia discórdias no mundo exterior, no hospital viviam tempos de calmaria para a equipe do hospital.

A gente não “atuava”; estavam atuando por nós lá fora.”

Entretanto, a esperança de um mundo mais justo conquistado através de seus heróis foi se dispersando. E, quando as garotas viram Bobby Seale, amarrado e amordaçado num tribunal de Chicago, compreenderam que o mundo não ia mudar nem para aqueles que reivindicaram nem á elas. Essa imagem causou sensações diversas nas pacientes.

OSSOS EXPOSTOS

A vida no hospital adquire dois valores entendidos como prisão e liberdade. Prisão, porque as limitava de seu livre arbítrio e liberdade, pois, ao mesmo tempo em que as isentava de suas responsabilidades perante a sociedade, também, protegia-as.

Enquanto estivéssemos dispostas a continuar transtornadas, não precisaríamos arranjar trabalho ou estudar. [...] Num estranho sentido, éramos livres. Chegáramos ao fim da linha. Não tínhamos mais nada a perder. Nossa privacidade, nossa liberdade, nossa dignidade, tudo isso acabara. Estávamos despidas até o osso da nossa própria pessoa.”

Essa suposta proteção tinha um custo alto. Além da hospedagem, eram cobrados à parte, os remédios, consultas, seguro, etc valor que correspondia aos custos de um curso universitário.
Algumas famílias sentiam-se culpadas pelos distúrbios mentais que seu filho ou parente apresentavam; outras, afirmavam: “não somos loucos; ela é que é”; e, também, existiam, ainda, aquelas que queriam provar que ninguém em sua família era louco.
Torrey é um bom exemplo das reações familiares diversas. Ela foi internada, pois era dependente de anfetaminas. Quando seus pais a visitavam, ela dissimulava uma loucura ensaiada, para não ter que voltar a viver com sua família no México.

Estar no México significa morrer e tomar pico para não se sentir totalmente morta.”

Em agosto os pais de Torrey telefonaram avisaram que viriam buscá-la.
As pacientes partiram em sua defesa e empenharam-se em protegê-la, traçando planos para Torrey fugir.
Os pais de Torrey combinaram com o hospital receber a filha no aeroporto de Boston.
As meninas arrecadaram dinheiro e entregaram a Torrey para que ela tivesse condições de sobrevivência após a sua fuga. Pela manhã, duas enfermeiras esperavam para levá-la ao aeroporto. As meninas estavam apreensivas, temiam que o plano não tivesse êxito.
Lisa saiu pelo corredor, gritando e batendo portas para chamar a atenção das funcionárias, na intenção de que somente uma enfermeira ficasse disponível para acompanhar Torrey, facilitando seu plano de fuga.
Antes da partida, Valerie encaminha Torrey à enfermaria e obriga-a tomar um dosador cheio de remédios, afirmando que era só para ela relaxar.
Na verdade, eram calmantes fortes que a doparam e isso se confirmou ao ver os olhos de Torrey brilhando e desequilibrando-se ao caminhar.
Havia uma pequena esperança de Torrey fugir, mas as garotas não tinham mais como lhe ajudar.
O resto do dia passou vazio. Sentadas na sala de estar, caladas e tristes.
Susanna evitava pensar em Torrey e passou a observar sua mão.
Em certo momento, Susanna tentou sentir seus ossos e como não conseguisse, passou a morder sua mão até sangrar.
Georgina sai em busca de Valerie que lhe dá uma dose de Thorazine. Susanna não havia tomado esse medicamento e em poucos minutos, o remédio começou a fazer efeito.

“- Uau – exclamei. Não consegui ouvir direito a minha voz. Decidi ficar de pé, mas, quando o fiz, me vi no chão.”

Esse episódio foi avaliado pelo corpo médico como despersonalização por motivo não diagnosticado. No entanto, foi de suma importância esclarecedora para Susanna: “agora estava de fato louca e ninguém poderia me tirar dali.”

SAÚDE BUCAL

Susanna teve que ser encaminhada ao dentista. O dentista era alto, mal-encarado e sujo. Seu jaleco guardava respingos de sangue de outros procedimentos.
Examinou Susanna sem profissionalismo e decidiu extrair o abcesso.
Susanna não permitiu e teve o apoio de Valerie que pediu ao dentista uma receita de antibiótico para controlar a infecção. Na volta chamou-a de ajuizada.
Passados alguns dias, a penicilina ingerida apresentou efeitos colaterais.
Valerie prontificou-se de levar Susanna ao seu dentista, em Boston.
Ao saberem disso, as garotas pediram-lhe diversos favores de Boston e Cynthia sugeriu que ela saltasse do táxi e fugisse.
No consultório, o dentista aplicou-lhe uma anestesia e extraiu o dente.
Quando Susanna retomou a consciência queria saber:

“ – Onde é que ele foi parar?”

O dentista entendeu que ela se referia ao dente, e, mostrou-lhe.
Valerie na volta entregou-lhe o dente que ela havia trazido do consultório.
Mas, na realidade, Susanna questionava sobre o seu tempo perdido.

CALAIS ESTÁ GRAVADA NO MEU CORAÇÃO

Uma nova garota é internada, Alice Calais-Calos. Aparentemente abobalhada e tímida, logo foi aceita no grupo.
Sua falta de informações sobre coisas prosaicas da vida causou curiosidade entre as garotas, chegando a imaginar que ela esteve isolada o tempo todo de sua vida.
Um mês depois de sua chegada, ocorreu sua explosão e foi trancada na solitária.
De lá vinham batidas, gritarias e estrépitos abafados.
Depois de libertada da solitária e monitorada por duas enfermeiras, Alice é transferida para a ala de segurança máxima.
Passado algum tempo, as garotas decidem visitá-la e contaram com o apoio das enfermeiras.

Visto de fora, o lugar não parecia nada de especial. Nem sequer tinha mais portas. Lá dentro, porém, era diferente. As janelas tinham telas, como as nossas, mas havia grades em frente às telas. Havia barrotes – finos e separados por muitos centímetros, mas, ainda assim, barrotes. Os banheiros não tinham portas e as privadas não tinham assentos. (...) A sala das enfermeiras não era aberta, como a nossa, mas fechada por um vidro reforçado com tela. As enfermeiras ficavam lá dentro ou do lado de fora. Na segurança máxima, nada de se debruçar sobre a parte de baixo da porta para bater papo.
Além disso, os quartos não eram propriamente quartos. Eram celas. Na verdade, eram solitárias. Não havia nada neles, além de colchões sem roupa de cama, ocupados pelos pacientes. Ao contrário de nossa solitária, tinham janelas, mas eram janelas mínimas, altas, reforçadas com tela de galinheiro, telas de segurança e grades. Quase todas as portas dos quartos estavam abertas, de forma que, ao passar pelo corredor para visitar Alice, víamos as pessoas deitadas nos colchões. Algumas estavam nuas. Outras, em vez de deitadas, estavam de pé num canto ou encolhidas junto à parede.”

Alice estava sentada no colchão, abraçava os joelhos com os braços manchados. A sua cela fedia e Lisa comentou que Alice tinha espalhado merda por todo o local. Ela estava rouca, mas afirmou que se sentia melhor. A visita terminou rapidamente, por conta do cheiro forte que exalava e pela falta de diálogo.

A SOMBRA DA REALIDADE

A protagonista relata suas sessões de análise com Melvin e sua descoberta dos túneis que integravam todo o hospital. Susanna relaciona os túneis do hospital ao Mito da Caverna, de Platão.
Comenta que Melvin morreu jovem e que só depois de algum tempo, descobriu que ela foi sua primeira analisanda.

ESTIGMATOGRAFIA

O endereço do hospital psiquiátrico, 115 da Mill Street, era famoso e denunciava um passado marcante, principalmente ao tentar uma vaga na carreira profissional.

Aos olhos do mundo, porém, todas estávamos estigmatizadas.”

AVANÇOS RECENTES NO CAMPO DA SAÚDE BUCAL

Pronta para receber alta, Susanna passa a preocupar-se com seu futuro profissional.
Antes de sua internação, ela teve dois empregos frustrantes. No primeiro permaneceu durante três meses, como vendedora de utensílios domésticos; no segundo emprego, foi contratada como datilógrafa no departamento de cobranças da Harvard, nesse, trabalhou por uma semana e aterrorizou vários estudantes enviando-lhes cobranças erradas.
Na loja de utensílios de culinária para gourmets, Susanna deixava os objetos cair e quebrarem; no departamento de cobranças, não podia fumar e nem usar minissaia o que a deixava contrariada.

O negócio do cigarro foi na segunda-feira, o da minissaia, na terça. Quarta-feira eu vesti uma minissaia preta com meias pretas e esperei para ver se tinha sorte.”

O supervisor era um negro elegante e atraente, que passava o dia inteiro fumando e fiscalizando o trabalho das datilógrafas. Depois, de repreendê-la por seus trajes, Susanna dirigiu-se ao banheiro para fumar. Nova advertência do supervisor e a partir daí, passou a cometer erros graves no enviou das cobranças.

Discriminação sexual, sem dúvida. Mas agora o problema é com as leis antitabagistas. O problema passou a ser “discriminação tabagística”. Esse foi um dos motivos que me levaram a ser escritora: poder fumar em paz.”

Susanna recorda-se do momento em que a assistente social perguntou-lhe que carreira profissional seguiria ao sair do hospital. Susanna responde-lhe que seria escritora. Perante essa resposta, a assistente social acrescentou que ser escritora era um ótimo passatempo, mas que ela devia tentar a carreira de protética.

Por sorte, recebi um pedido de casamento e eles me deram alta. Em 1968, todo mundo entendia um pedido de casamento.”

TIPOGRAFIA DO FUTURO

Susanna conheceu Baptiste Perder Gareance, seu futuro marido, no natal em Cambridge. Ele tinha vindo de Reed passar o feriado com os pais. Foram apresentados pelo irmão de seu amigo, no Cinema Brattle. Naquele dia assistiram “O boulevard do crime” e depois, passaram a noite juntos.
Baptiste voltou para Reed e Susanna voltou para a sua rotina na loja de utensílios culinários e esqueceu-se dele. Depois de formado, Baptiste voltou para Cambridge e a visitou no hospital. Ele estava de partida a Paris, prometeu escrever-lhe, mas não cumpriu sua promessa.
Quando Baptiste retornou de Paris, visitou-a novamente no hospital, porém, Susanna passava por grande crise e recusou-se a recebê-lo.
Baptiste, antes de partir para Ann Arbor, ligou para Susanna e, depois de oito meses, retornou e a procurou novamente.
Nessa época, Susanna gozava de alguns privilégios e pode acompanhá-lo ao cinema, jantarem juntos e às onze e meia, regressar num táxi rumo ao hospital.
No verão daquele ano, o corpo do seu amigo de ambos foi encontrado em decomposição parcial no poço do elevador.
Em setembro, Baptiste pediu-a em casamento.
A protagonista imaginava que quando se cassasse, sua vida iria parar.

Não parou. Também não foi tranquila. No fim, eu o perdi. Fiz de propósito, como quando Garance perdeu Baptiste no meio da multidão. Achei que precisava ficar sozinha. Queria seguir sozinha em direção ao meu futuro.”

MENTE X CÉREBRO

A narradora disserta sobre os rótulos imbuídos nos termos: personalidade, alma e mente ou cérebro.

Dez vezes por semana, os neurobiólogos publicam dez artigos cheios de dados novos. Entretanto, parece que um grupo não lê os trabalhos do outro. Isto porque os analistas escrevem sobre um país que chamam de Mente, enquanto os neurocientistas informam sobre um país chamado Cérebro.”

DISFUNÇÃO DA PERSONALIDADE LIMÍTROFE

Susanna explicita as características determinantes da disfunção da personalidade limítrofe. Trata-se de “um padrão invasivo de instabilidade da auto-imagem, das relações interpessoais e do estado de espírito e que se manifesta no início da idade adulta e em diversos contextos”, afetando a orientação sexual, as metas a longo prazo ou a escolha de profissão, o tipo certo de amizades ou namorados que deve ter e que valores aceitar.
Em seguida, a narradora apresenta alguns sintomas básicos sobre essa disfunção: características secundárias; incapacitação; complicações; fator sexual; incidência; predisposição e quadro familiar e diferenciação do diagnóstico.

MEU DIAGNÓSTICO

Susanna depois de vinte e cinco anos, após contratar um advogado, teve acesso a sua ficha do hospital e constatou as definições em seu diagnóstico.
Ela leu atentamente o seu prontuário e concluiu que, exceto alguns itens, o diagnóstico correspondia a um retrato realístico do seu estado quando contava dezoito anos de idade.

A única coisa que posso fazer é acrescentar detalhes, apresentando um diagnóstico comentado.
[...] Se o meu diagnóstico tivesse sido moléstia bipolar, por exemplo, eu e a minha história provocaríamos uma reação um pouco diferente. Trata-se de um problema químico, diriam. Mania, depressão, Lithium, essas coisas. Em todo caso, eu não teria culpa. E se fosse esquizofrenia? Vocês sentiriam um arrepio na espinha. Afinal de contas, isso sim é loucura de verdade. Ninguém se “recupera” de uma esquizofrenia. Vocês inevitavelmente ficariam na dúvida se o que eu lhes conto é verdade e se perguntariam até que ponto é apenas imaginação minha.”

Enfim, personalidade limítrofe é “algo que fica a meio caminho entre a neurose e a psicose (...) cujo estilo de vida incomoda os outros”, como afirmou o psiquiatra pós-Melvin.

Um analista que conheço há anos disse: “Freud e seus seguidores acreditavam que todas as pessoas fossem histéricas; depois, nos anos cinquenta, elas passaram a ser psiconeuróticas; e hoje em dia, todo mundo tem personalidade limítrofe.”

Susanna passa a estudar sobre a loucura, seus sintomas e consequências. Reviu sua vida escolar, os trabalhos de história que para ela eram tediosos e sua dedicação à literatura; os sonhos de seus pais em vê-la encaminhada em uma universidade qualificada; seu relacionamento com o professor de inglês e seus vários namorados; o vazio e o tédio que sentia e a incompreensão de todos que a cercavam.

Namorados e literatura: como construir uma vida com esses dois elementos? No cômputo final, foi o que eu fiz; mais literatura do que namorados, ultimamente...mas não se pode ter tudo, imagino...”

Questiona os motivos que levam a essa disfunção ser diagnosticada com maior frequência em mulheres, levando-se em consideração a “promiscuidade compulsiva”; “potencialmente auto-agressivas”; “compulsão de compras, furtos em lojas e comilanças desenfreadas” e “abuso de substâncias psicoativas”. E, contra-argumenta esses dados. Depois, reflete sobre “morte prematura” e lembra-se de Daisy.
Volta a refletir sobre a loucura e chega à conclusão de que: “os túneis, as telas de segurança, os garfos de plásticos, a fronteira reluzente e sempre móvel que, como todas as fronteiras, nos acena e nos pede que a atravessemos. Não quero atravessá-las de novo.”
E, no final do capítulo, faz um balanço de seu diagnóstico e do que é a doença mental, de como os psicólogos e psiquiatras têm uma abordagem diferente do paciente (segundo ela, os primeiros tratam a mente, e os últimos, o cérebro, interessando-se somente pelas reações químicas que acontecem lá).

MAIS ADIANTE, NA ESTRADA, VOCÊ ME ACOMPANHARÁ

A narradora relata que a maioria das garotas de sua ala, tivera alta.
Susanna manteve contato com Georgina. A amiga morou algum tempo numa comunidade de mulheres no norte de Cambridge; depois, envolveu-se com um grupo de conscientização e insistiu muito que Susanna o aderisse.

As mulheres do grupo me deixavam com uma sensação de inadequação. Sabiam desmontar motor de carro e escalar montanhas. Eu era a única casada. Notei que Georgina tinha um certo privilégio, por causa de sua loucura; por algum motivo, esse privilégio não se estendia a mim. Mas o tempo que frequentei o grupo bastou para me deixar desconfiada com relação ao casamento e especialmente ao meu marido.”

Passado algum tempo, Georgina casou-se e abandonou o grupo.
Certo dia, Susanna e seu marido visitaram o casal. Moravam num celeiro rodeado de alguns hectares de mato, no sopé de um morro, no oeste de Massachusetts e tinham uma cabra que se chamava Darling.
Nesse dia fazia muito frio e o casal ocupava-se em colocar vidros nas molduras das janelas. No almoço foi servida batata-doce e, em seguida, Georgina com uma batata-doce nas mãos, fazia a cabra dançar.
Mais tarde, Georgina e seu companheiro, se mudaram para o Colorado. Georgina tentou dois contatos via telefone público com Susanna, mas perderam-se de vista.
Depois de alguns anos, Susanna encontrou-se com Lisa e uma criança de pele escura, seu filho. Contou-lhe que morava no Brookline; vivia sozinha em prol do menino; tinha um apartamento com móveis e que às sextas-feiras frequentava a sinagoga.

Quero que sejamos uma família de verdade, com móveis e tudo o mais. Quero que ele tenha uma vida de verdade. E a sinagoga ajuda. Não sei por que, mas ajuda.”

Na época Lisa ostentava algumas jóias e afirmou que “tudo muda quando a gente tem um filho”.
Susanna nada respondeu, já tinha decidido não ter filhos e seu casamento não estava com jeito de durar.
Lisa mostrou-lhe seu abdome flácido e antes de entrar no metrô, perguntou-lhe se ainda ela pensava naqueles dias.

MOÇA, INTERROMPIDA

Susanna recorda-se, quando em companhia do seu professor de inglês, visitou pela primeira vez o Museu Frick. Lá, estavam expostas três telas de Vermeer entre outras. Na época, Susanna tinha dezessete anos e uma das telas de Vermeer, atraiu-a em demasia.

Passei pela dama de vestes amarelas e pela criada que lhe entregava a carta, pelo soldado com seu magnífico chapéu e pela moça que lhe sorria, pensando em lábios cálidos, olhos castanhos, olhos azuis. Os olhos castanhos dela me fizeram parar.
É o quadro em que uma moça espia para fora da moldura, sem dar atenção ao robusto professor de Música, que apóia na sua cadeira a mão de proprietário. A luz é uma meia-luz invernal, mas o rosto da moça é luminoso.
Olhei dentro dos olhos seus olhos castanhos e me assustei. Ela me avisava alguma coisa – levantara os olhos da pauta para me avisar. Tinha a boca ligeiramente aberta, como se tivesse acabado de respirar fundo antes de me dizer, “Não faça isso!”

Susanna dividia sua atenção entre a obra de arte e o beijo que estava por vir; além da preocupação com o seu desempenho na prova de biologia e conseguir sua aprovação no segundo grau. Embora, a narradora interessa-se por essa disciplina, principalmente nos tópicos de genética, seria a sua reprovação pelo segundo ano consecutivo. Ela não lhe deu ouvidos à garota do quadro; ocorreu o beijo; jantou com o professor de inglês; reprovou em Biologia e, logo, em seguida, enlouqueceu.
Passado dezesseis anos, de volta a Nova York, Susanna com seu novo e rico namorado, visita, novamente o Frick.

Deixei os Fragonard para trás e caminhei pelo corredor que levava ao pátio. [...] Desta vez, li o título da pintura: “Moça interrompida em sua música”. Interrompida em sua música: tal qual acontecera com a minha vida, interrompida durante a música dos dezessete anos, tal qual a sua vida, arrebatada e presa à tela; um instante forçado à imobilidade, forçado a representar todos os demais instantes, fossem quais fossem ou pudessem ter sido.”

Susanna pôs-se a chorar e quando seu namorado perguntou-lhe o que estava acontecendo, ela respondeu, apontando ao quadro:

“ – Não está vendo? Ela está pedindo para sair.”

O namorado olhou para o quadro, acusou-a de egoísta e não entendedora de arte.

Desde então, tenho voltado ao Frick para vê-la e ver os outros dois Vermeer. Afinal de contas, é difícil encontrar um Vermeer, e o de Boston foi roubado.
Os outros quadros são auto-suficientes. As pessoas se entreolham – a dama e sua criada, o soldado e a namorada. Contemplá-los é espiar por um buraco na parede. E a parede é feita de luz – aquela luz de Vermeer, irreal e, no entanto, totalmente plausível.
Uma luz como essa não existe, mas nós desejamos que exista. Desejamos que o sol nos faça jovens e belos, desejamos que nossas roupas reluzam e deslizam sobre nossa pele e, acima de tudo de tudo, desejamos que todos os nossos conhecidos possam se iluminar com um simples olhar nosso, como acontece com a criada que segura a carta e o soldado de chapéu.
A moça e sua música vivem em outro tipo de luz, a luz caprichosa e mortiça da vida, que só permite que nos vejamos e aos outros imperfeitamente, e raras vezes.”

CONSIDERAÇÕES GERAIS:

Em “Moça, interrompida”, nota-se a perceptibilidade da narradora em relatar e conhecer profundamente sua própria patologia mental. Em Psiquiatria/Psicologia esse fato recebe o termo “Insight”, que significa o grau de entendimento que o paciente apresenta acerca da própria condição de estar doente.
Susanna explora a dualidade entre mente e cérebro a partir da evolução dos estudos em neurociências e mostra boa compreensão acerca do funcionamento de circuitos cerebrais e neurotransmissores. Dotada também de uma veia irônica fina, de realce tênue, ela critica a tendência já crescente em direcionar o tratamento das doenças mentais unicamente pelo ponto de vista químico. Essa questão norteia importantes pontos de divergências entre dois ramos que deveriam seguir contíguos, que são a Psicologia e a Psiquiatria. Mais tarde ela foi diagnosticada como tendo Transtorno de Personalidade Limítrofe (borderline personality disorder). Como a doença nem era conhecida na época, ela sofreu com a falta de um diagnóstico preciso, sem saber na verdade de que mal, sofria.




Um comentário:

Anônimo disse...

Maravilhoso texto!Vou ler o livro, amei a pintura de Vermeer.