quarta-feira, 13 de abril de 2011

MENINO DE ENGENHO, JOSÉ LINS DO REGO


I - AUTOR:


"Quando imagino nos meus romances tomo sempre como modo de orientação o dizer as coisas como elas surgem na memória, com os jeitos e as maneiras simples dos cegos poetas, José Lins do Rego."


Paraíba, 1901 – Rio de Janeiro, 1957
 
José Lins do Rego nasceu em Engenho Corredor, Pilar, Paraíba, 1901, filho de João do Rego Cavalcanti e de Amélia Lins Cavalcanti (morta pelo marido esquizofrênico), fez as primeiras letras no Colégio de Itabaiana, no Instituto N. S. do Carmo e no Colégio Diocesano Pio X, na então cidade da Paraíba, atual João Pessoa. Depois estudou no Colégio Carneiro Leão e Osvaldo Cruz, em Recife.

Após passar sua infância no engenho do avô e ver de perto os engenhos de açúcar perder espaços para as usinas, provocando muitas transformações sociais e econômicas, foi para João Pessoa, onde fez o curso secundário e depois, para Recife.
Em 1920, ingressou na faculdade de Direito.
Formou-se em 1923. Durante o curso, ampliou seus contatos com os intelectuais que seriam os responsáveis pelo clima Modernista Regionalista do Nordeste, tornando-se amigo de José Américo de Almeida, Osório Borba, Luís Delgado, Aníbal Fernandes e, sobretudo, Gilberto Freyre de quem receberia estímulo para dedicar-se à arte de raízes pernambucanas.
Ingressou no Ministério Público como promotor em Manhuaçu, em 1925, embora, por pouco tempo. Casou-se em 1924 com d. Filomena (Naná) Masa Lins do Rego e transferiu-se em 1926 para a capital de Alagoas, onde passou a exercer as funções de fiscal de bancos, até 1930, e fiscal de consumo, de 1931 a 1935.
O mundo rural do Nordeste, com as fazendas, as senzalas e os engenhos, serviu de inspiração para a obra do autor, que publicou seu primeiro livro, “Menino de engenho”, em 1932, chave de uma obra que se revelou de importância fundamental na história do moderno romance brasileiro. Além das opiniões elogiosas da crítica, sobretudo de João Ribeiro, o livro mereceu o Prêmio da Fundação Graça Aranha.
O colega Gilberto Freyre afirmou que José Lins havia iniciado, de fato, um "novo romance em língua portuguesa" e provocado no Nordeste a poesia modernista-tradicionalista.
Passou a conviver com um grupo de escritores muito especial: Graciliano Ramos (o autor de “Vidas Secas”), Rachel de Queiroz (a jovem cearense, que já publicara o romance “O Quinze”), o poeta Jorge de Lima, que se tornariam seus amigos para sempre.
Convivendo num ambiente tão criativo escreveu os romances “Doidinho” (1933) e “Banguê” (1934), O Moleque Ricardo (1935), e Usina (1936). Em 1935, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde participou ativamente da vida literária, defendendo com vigor e polêmica a região de onde proveio.
O autor era um homem atuante e participava ativamente da vida cultural de seu tempo. Gostava de conversar, tinha um jeito bonachão e era apaixonado por futebol, ou melhor, pelo Flamengo. Seus livros são adaptados para o cinema e traduzidos na Alemanha, França, Inglaterra, Espanha, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras.
Em 1957, José Lins morreu. Sua obra foi publicada pela editora, José Olympio.

II – CARACTERÍSTICAS:

“Mas a verdade é que o romancista busca também o sentido de humanidade que define a consciência e o sentimento coletivos do homem da região. Contamina assim o mundo dos engenhos com outros aspectos e elementos da paisagem nordestina, com manifestações de cangaço e misticismo. A visão dessa humanidade em ruína e dessa sociedade decadente, presa à experiência da infância e da adolescência do romancista, sofre a deformação determinada pelo orgulho íntimo que gera o processo de seu próprio reconhecimento, como se desse vidas a fantasmas, que parecem presentes na moldura dos relatos orais. O íntimo orgulho da tradição, embora nos últimos reflexos de sua grandeza, e a imaginativa popular que ao mesmo tempo rebate o sentimento e os impulsos da alma coletiva, são assim componentes essenciais da obra do ficcionista. Ele se compara a um verdadeiro aedo popular, com o privilégio do poder de visão total. E de tal natureza, que só nos cantores e cantadores do Nordeste, que refletem a memória coletiva, através dos seus processos narrativos e da sua linguagem característica, o escritor, como ele próprio reconheceu, encontraria modelos e sugestões expressivas para os seus romances”. (Antonio Candido & José Aderaldo Castelo)
O estilo de José Lins é inteiramente despojado e sem atitudes ou artifícios literários. Ele próprio via a si mesmo como um escritor instintivo e espontâneo, chegando a apontar que suas fontes da arte narrativa estavam nas ruas.
Apesar desta simplicidade linguística com que escreve, ele descreve com muita técnica os estados psicológicos de suas personagens.
"Bem examinadas as coisas, este livro pungente é de uma realidade profunda. Nada há nele que não seja o espelho do que se passa na sociedade rural e na das cidades do Norte e do Sul do Brasil. É de todo o Brasil e um pouco de todo o mundo", disse José Ribeiro.
Alfredo Bosi, por sua vez, encontrou na obra de José Lins a mais alta expressão literária, poética e recordativa da transição do engenho para a usina na região canavieira da Paraíba e de Pernambuco.
Sérgio Milliet afirmou que José Lins fez uma grande obra ao "oferecer-nos uma imagem muito nítida do Nordeste dos últimos engenhos, evoluindo lentamente entre crises políticas e lutas domésticas, modorrento sob o sol das secas."
Carpeaux escreveu que todo o universo da casa-grande, da senzala, dos senhores de engenho e etc. não "existirão nunca mais a não ser nos romances de José Lins do Rego."
O livro faz referências a crendices populares, como a do lobisomem, que é citada através de João Cutia, um comprador de ovos da Paraíba. “Não tinha uma gota de sangue na cara e andava sempre de noite, para melhor fazer as suas caminhadas, sem sol”. Achava-se que ele era lobisomem.
“O lobisomem é outro mito presente no imaginário nordestino. Vinda da Europa, onde o mito do ser humano que vira lobo é conhecido desde a Grécia Antiga, onde Liacon, por ter atacado Zeus, foi transformado num desses animais, esse mito, que por sinal existe no resto do Brasil, no Nordeste é explicado de várias formas. Uma delas é que quando um casal tem sete filhos homens, se não der o último para ser batizado pelo mais velho, ele vira lobisomem. Irmão que tem relações sexuais com a irmã caso venham a ter filho, ele será lobisomem. Também filho de relação sexual entre compadre e comadre tem tudo para se um “lobo-homem”. Dizem que são nas noites de quinta para sexta-feira, principalmente se for noite de lua cheia, que a pessoa se transforma. Para haver o desencantamento há várias maneiras: deve-se tirar sangue dele, mas sem se sujar, pois se isso acontecer vira-se lobisomem também. Quando ele aparecer, deve-se fazer o sinal da cruz diante dele que ele corre. Ou, então, rezar três ave-marias.
Já para matar o lobisomem um jeito é usar bala besuntada com cera benta de vela de igreja”. (O Grande livro do folclore).
Quando José Gonçalo, um negro que trabalhava no engenho de José Paulino, é morto por Mané Silvino, aparece o lendário do engenho mal-assombrado, o qual no Nordeste ocorre à meia-noite, no meio do silêncio, quando o engenho começa a funcionar sozinho. Dizem que esta noite assombrada, só pode ser presenciada por aqueles que têm amor aos tempos que não voltam mais.
José Paulino também fazia remédios, uma crença nos medicamentos naturais. Ele tratava de tudo, fazia sinapismos de mostarda, dava banhos quentes, óleo de rícino, jacaratiá para vermes. Curava assim os negros, os netos, os trabalhadores e lancetava furúnculos.

III - FOCO NARRATIVO:

Primeira pessoa, narrado por Carlos Melo.
Segundo depoimento do próprio autor, sua intenção ao elaborar a obra era escrever a biografia de seu avô, o coronel José Paulino, a quem considerava uma figura das mais representativas da realidade patriarcal nordestina.
Seria também uma autobiografia das cenas da infância que ainda estavam marcadas em sua mente. O que se constata é que o biógrafo foi superado pela imaginação criadora do romancista. A realidade bruta é recriada através da criatividade do gênero nordestino.

IV - TEMPO E ESPAÇO:

O tempo da narrativa é cronológico, segue desde os quatro anos de Carlinhos até os doze anos, quando ingressa no colégio interno.
“Eu tinha uns quatro anos no dia em que minha mãe morreu”.
“Tinha uns doze anos quando conheci uma mulher, como homem”.
O cenário apresentado é a Zona da Mata nordestina, especificamente no engenho Santa Rosa, do coronel José Paulino. Dentro desse espaço do engenho encontramos outros ambientes como a senzala, a casa-grande, a cachoeira, o engenho Santa Fé, do coronel Lula de Holanda, que estará presente no livro "Fogo Morto", de José Lins. Dessa forma, o engenho constitui o microcosmo da construção da obra.

V – LINGUAGEM:

A linguagem, perpassada de termos regionais, retrata bem a realidade do mundo enfocado e evocado pelo autor. Como é comum no Modernismo, são frequentes termos e construções próprios, porém equilibrados, apresentando a oralidade dos contadores e cantadores populares do folclore nordestino.

VI – ESTRUTURA DA OBRA:

“Menino de engenho” é composto por quarenta capítulos curtos.
Capítulos de 1 a 3:
Marca a passagem da criança para um novo mundo a ser apreendido. O pai mata a mãe e vai para um hospício, e Carlos com apenas quatro anos ouve e vê tudo sob a perplexidade da compreensão impossível.
Capítulo 4 em diante:
O tio Juca leva o menino para o engenho do avô materno. Inicia-se uma Segunda infância que vai até a puberdade. Há rápidos flagrantes: a viagem de trem; a chegada ao engenho; o tio Juca; a tia Maria (irmã de sua mãe); avô José Paulino; os primos; a prima Lili; os moleques; o moleque Ricardo; o banho de rio; o leite mungido; a primeira visita ao engenho; os meninos e os banhos ruidosos, proibidos; as brincadeiras e as traquinagens; o retrato da tia Sinhazinha, brutal e arbitrária; a presença do cangaço no famigerado Antonio Silvino; a visita aos engenhos vizinhos; o primeiro castigo da tia Sinhazinha; a revolta contida do órfão; a enchente; a escola; a professora; as primeiras letras e as “lições de sexo”.
Capítulos 16, 23, 26, 28 e 33:
Apresenta o coronel José Paulino e sua propriedade, no momento agudo de um poderio irremediavelmente ameaçado. Sucessivamente aparecem: o quadro religioso; as superstições; as crendices; o folclore; a literatura oral; notícias dos ambulantes dos engenhos; a briga e assassinato; o carneiro e seu cavaleiro; a doença e a medicina caseira; os incêndios de partido de cana e o heroísmo do homem na luta contra os elementos de uma natureza em convulsão; os serões; a mesa de refeição; a cozinha; o casamento da tia Maria e a segunda orfandade; os preparativos para o colégio e a transferência para este novo mundo, que ao contrário da primeira transposição, será envolvido pelas sombras das gameleiras, cheiros, sons e imagens do mundo inesquecível do “Menino de engenho”.

VII – PERSONAGENS:

CARLOS:
É o narrador do romance. Órfão aos quatro anos tornou-se um menino melancólico, solitário e bastante introspectivo. Em sua solidão guarda suas preocupações, medos e sonhos. De sexualidade exacerbada, mantém, aos doze anos, a sua primeira relação sexual, contraindo “doença-do-mundo”.

DONA CLARISSE:
Mãe de Carlos. É assassinada pelo marido no início do livro.

PAI DE CARLOS:
Homem alto e bonito, com olhos grandes, bigode preto. Beijava o menino, contava histórias, fazia os seus gostos. Tudo era para o menino, que mexia nos livros, sujava as roupas. Por outro lado, discutia com Dona Clarisse. Tinha um coração arrebatado pelas paixões, um coração sensível demais às suas mágoas. Assassinou sua esposa Dona Clarisse e, depois enlouqueceu.

CORONEL JOSÉ PAULINO:
Avô de Carlinhos. Representa a figura patriarcal nordestina. Homem trabalhador, honesto, realista e generoso, para Carlinhos, um ser infalível. Não era um devoto, mas era justo nem que para isso tivesse que suprimir alguns dos mandamentos. Todos no engenho respeitavam o senhor José Paulino. Depois do jantar ele sentava-se numa cadeira perto do grande banco de madeira do alpendre. Lia os telegramas do “Diário de Pernambuco” ou dava as suas audiências públicas aos moradores. Todo o dinheiro dele era para comprar terras.

TIA MARIA:
Irmã e muito parecida com Clarisse á mãe de Carlinhos. Querida e estimada por todos pela sua bondade e simpatia, era chamada carinhosamente de Maria Menina. Com seu amor e carinho substituirá a mãe na memória de Carlinhos.

VELHA TOTONHA:
Representa bem o folclore ambulante dos contadores de histórias. Vivia a contar história de Trancoso. Era pequenina e engelhada, tão leve que uma ventania poderia carregá-la, andava muito a pé, de engenho a engenho, “como uma edição viva das “Mil e uma noites”. Tinha talento em contar histórias. Não tinha nenhum dente na boca, mas dava tons às palavras”. Recitava contos inteiros em versos, intercalando a prosa com notas explicativas.
“O que fazia a velha Totonha mais curiosa era a cor local que ela punha nos seus descritivos. Quando ela queria pintar um reino era como se estivesse falando dum engenho fabuloso. Os rios e as florestas por onde andavam os seus personagens se pareciam muito com o Paraíba e a Mata do Rolo. O seu Barba-Azul era um senhor de engenho do Pernambuco”.
Para Carlinhos, sinhá Totonha possuía um “pedaço de gênio que não envelhece”.

ANTÔNIO SILVINO:
Cangaceiro temido pelo povo. Simboliza a justiça roubando dos ricos e protegendo os fracos.

TIO JUCA:
Filho do Coronel José Paulino. Goza de regalias e proteção no engenho. Libertino com as mulatas do engenho, por outro lado, representa o papel de pai de Carlinhos.

CORONEL LULA DE HOLANDA:
Alegoriza a decadência do engenho e do senhor de engenho, embora insista em manter seu perfil aristocrático.

SINHAZINHA:
Senhora idosa, mal-amada e carrancuda. Administrava a casa-grande e era odiada pelas crianças e pelas criadas, por seu autoritarismo e violência.

NEGRA GENEROSA:
Controlava a cozinha da casa grande.

VOVÓ GALDINA:
Velha doente que vivia entrevada numa cama.

VIII - ENREDO:

Carlos tinha quatro anos quando acordou com um enorme barulho, gritos e choros vindos do quarto de seus pais. Correndo até lá encontrou pessoas desconhecidas, sua mãe estendida no chão toda ensanguentada e seu pai caído em cima dela como um louco.
Com a chegada da polícia, todos foram retirados. Carlos foi levado para o quintal, donde ouvia os comentários dos empregados. Um criado dizia que acordara com uns tiros e ao correr, vira o doutor com o revólver na mão e dona Clarisse já morta.
Ninguém sabia o motivo e no momento, o que Carlos mais desejava, era correr e abraçar seus pais. Poucos detalhes ficaram na memória do narrador, como se ele não estivesse vivendo aquele fato, como não passasse de uma história com outras personagens, mas ao ver algumas fotos no jornal, onde sua mãe estendida, com cabelos soltos e a boca aberta, o menino caiu na realidade e chorou.
Á tarde brincou com os meninos, mas ao chegar á noite um vazio o amedrontou e chorou baixinho como se tivesse medo de chorar.
O doutor, um homem alto, bonito, com olhos grandes e um bigode preto era um excelente pai. Brincava com Carlinhos, contava-lhe histórias, enfim, fazia-lhe todos os gostos. Outras vezes, quando chegava á casa, permanecia calado, triste e rancoroso e geralmente, discutia com sua esposa.
Clarisse corria aos soluços para o quarto; mas, depois, estavam os dois novamente a se acariciarem, beijarem - ambos com os olhos vermelhos de tanto chorar...
Carlinhos o amava. Depois é que descobriu que seu pai tinha um temperamento excitado, um coração sensível, pois à vida só lhe tinha mostrado o lado amargo.
Carlinhos lembra-se do abraço apertado que lhe dera na ocasião que fora levado pelos soldados para a prisão.
Na verdade ele amava loucamente a sua esposa. Morreu dez anos depois, na casa de saúde, liquidado por uma paralisia geral.
A mãe, pequena, cabelos pretos, terna, era considerada como uma estampa. Tendo sido criada em colégios de freiras (seu pai ficara viúvo quando ela ainda nem falava), “filha do senhor de engenho, parecia mais, pelo que me contaram dos seus modos, uma dama nascida para a reclusão”.
Carlos reflete o porquê o destino reservara um final tão trágico para sua mãe, ela que era toda pura, sendo agora exposta com histórias mentirosas de sua vida íntima.

“Esta força arbitrária do destino ia fazer de mim um menino meio cético, meio atormentado de visões ruins.”

Três dias depois da tragédia, o Tio Juca e alguns homens vieram buscá-lo. Ele iria morar no engenho do avô materno, o Coronel Zé Paulino. O Tio Juca alegara que o doutor tinha enlouquecido.
Viajaram de trem e isso era uma novidade para Carlinhos, que não desgrudava da janela a reparar em tudo que via.
Uma senhora passa perto de Carlos e diz:

“ - Que menino bonitinho! Onde está a sua mãe, meu filho?”, Carlinhos novamente pôs a chorar.

Na estação, um pretinho os esperava e seria a primeira vez que Carlinhos cavalgaria.
Carlinhos achava tudo novo e bonito, os açudes, o caminho, os bois, a casa branca...Sua mãe e uma criada sempre lhe contava sobre maravilhas do engenho e Carlinhos o imaginava como de um conto de fadas.
No alpendre todos queriam conhecer o filho da D. Clarisse. Havia uma moça muito parecida com sua mãe e um velho a quem teve que pedir benção.


Carlinhos foi levado para conhecer a Tia Galdina que ao ver o menino começou a chorar. A moça parecida com sua mãe era a Tia Maria que o amparou e o encorajou para não chorar, que agora em diante, seria a sua mãe.

À tarde já estava íntimo dos moleques que o levaram ao pomar e colheram goiabas. De manhã, experimentou leite tirado ao pé da vaca.
Carlinhos observava o avô, homem sério dando ordens por onde passava. Os moleques estavam todos ocupados, não tinha com quem brincar. Tio Juca leva-o para o rio e ensina-o a nadar. Nunca mais esse banho sairia de sua memória, acostumado a tomar banhos de chuveiro, aquilo só poderia ser coisa de outro mundo.
Na volta, o café já estava pronto e Carlos notou que na mesa não estavam somente os familiares, mas também, homens de aspecto humilde - os pedreiros, carpinas etc.
As divergências de seu pai com o seu avô, nunca tinham permitido que sua mãe trouxesse-o para uma temporada no engenho, portanto tudo o que ele via, ficava deslumbrado.
Depois do café, Carlinhos foi conhecer o engenho, que estava nos fins da moagem. A fábrica ficava perto da casa-grande. O tio Juca mostrou-lhe como se faz o açúcar. Andaram pela boca da fornalha, pela bagaceira, mas o que mais o impressionou foi o maquinismo, “o movimento ronceiro da roda grande, e a agitação febril das duas bolas do regulador.”



Passados alguns dias, Carlos já era senhor de sua vida no engenho. Vieram dois meninos e uma menina, seus primos, passar uns dias lá.

Os primos eram bem afoitos, sabiam nadar, montar a cavalo no osso e comiam tudo e nada lhes fazia mal.
Tia Maria se preocupava com Carlos. Dizia que ele estava ficando um negro e que os meninos de Emília já estavam acostumados, mas ele não. Carlinhos não obedecia e passava horas inteiras dentro d’água.
Tia Sinhazinha era uma velha de uns sessenta anos, irmã da avó de Carlinhos. Ela tomava conta da casa, mandava as negras ao serviço doméstico, sempre com voz áspera e de temperamento esquisito.
Tinha sido casada com o Dr. Quincas, do Salgadinho e contava-se que foi devolvida, amarrada num carro de boi com uma carta do marido ao sogro.
Tia Maria um anjo, Tia Sinhazinha um tormento para a sua meninice. Ninguém gostava dela. Tia Sinhazinha criava sempre uma negrinha, que dormia aos pés de sua cama, para judiar, para satisfazer os seus prazeres brutais. Invocava com tudo e quando estava ausente, tudo era uma perfeita paz.
A prima Lili, magrinha, loirinha, pálida, sempre calada, “parecia mais um anjo do que gente”. Tudo lhe fazia mal: o chuvisco, o mormaço, o sereno e só vivia nos remédios.
Carlinhos gostava de lhe fazer companhia. Chegou até lhe dar um preá-da-índia.
Um dia ela amanheceu vomitando preto e com febre.


“Suas bonecas andavam por cima da cama como se fossem suas amigas em despedidas.”


Morreu no dia seguinte. Carlinhos lembra-se do caixão branco, cheio de rosas, e da tia Maria chorando.

“Ainda hoje, quando encontro enterro de crianças, é pela minha prima Lili que me chegam lágrimas aos olhos.”

Com a morte de Lili, Tia Maria dobrou os cuidados para com Carlinhos e começou a lhe ensinar as letras.

“Os meus ouvidos e os meus olhos só sabiam ouvir e ver o que andava pelo terreiro. E as letras não me entravam na cabeça.”

Passou então a prestar atenção nas conversas das costureiras. Falavam de outros engenhos. Uma contava que no Santarém só se comia bacalhau no almoço e no jantar; outra contava que o senhor do engenho do Poço Fundo, tinha mais de vinte mulheres...
Era a época das rolas sertanejas que desciam batidas pela seca, para o litoral. Carlinhos, os primos e os moleques as matavam á cacetadas. A sede era tão grande que elas não se davam pelos seus instintos.
Depois no colégio, lendo o “Gênio do Cristianismo”, onde falava sobre os pássaros da Bretanha que fugiam do inverno de sua pátria, com remorso, Carlos se lembrava das rolas que havia matado.
Uma tarde chegou um portador com um recado do Coronel Anísio, informando que Antonio Silvino, estaria naquela noite no engenho.
Antônio Silvino era um cangaceiro temível por todos, menos pelos meninos que em suas brincadeiras faziam-se de cangaceiros e o mais forte, representava o Antônio Silvino. O avô se transformou transparecendo preocupação, Tia Sinhazinha dando ordens e Tia Maria pôs-se a rezar.


Antônio Silvino vinha ao engenho em visita de cortesia, mas no ano passado, tinha estado em Pilar para cobrar uma nota falsa que o Coronel Napoleão tinha lhe passado como não encontrou o velho, destruiu sua loja e jogou uma barrica cheia de dinheiro para o povo.

À noite chegou o bando. Vinha Antonio Silvino acompanhado de mais doze homens. Os moleques punham-se a admirá-lo, com aqueles anéis de ouro, a medalha de pedras de brilhantes que trazia no peito. Jantaram tranquilamente ouvindo suas estórias e quando partiram Carlos sentiu decepção pelo seu herói.
No dia seguinte, o primo Silvino contou que havia dito ao Antonio Silvino que tia Sinhazinha não gostava dele. Eles sabiam de uma estória parecida com essa, que fez Antonio Silvino fazer uma velha dançar nua.
Um dia a Tia Maria o levou até o sítio do Seu Lucino. No caminho encontraram pessoas que voltavam da feira de São Miguel, inclusive o Zé Passarinho, bêbado como sempre.
Enquanto brincava com os primos, Tia Maria falava com as meninas de Seu Lucino como o povo chamava àquelas três velhas solteironas. As infelizes queixavam-se de doenças, e perguntavam quando viria ao engenho o doutor.
Na volta, já escurecia e os moleques conversavam sobre coisas mal-assombradas.
A Tia Sinhazinha dava-lhe beliscões, cocorotes e vivia com a chave da despensa no cós da saia para contrariar as gulodices. O ódio de Carlos para com a Tia Sinhazinha crescia. Um dia jogando pião na calçada, o brinquedo veio a cair no pé dela.


Ela levantou-se e começou a dar chineladas de couro em Carlinhos que teve de ser socorrido por Tia Maria. Carlinhos nunca tinha apanhado na vida. Chorou mais de vergonha que das pancadas e quando a negra Luísa disse-lhe que a velha faz isso porque ele não tinha mãe, o pranto veio à tona. Imaginou tudo o que era de vingança e “aquela injustiça brutal despertava em meu coração puro de menino os impulsos mais cruéis de desforra”.

Há oito dias chovia. Era o inverno chegando. O rio no verão ficava seco de se atravessar a pé enxuto, o povo pobre vivia de água salobra e das vazantes do Paraíba, o gado comia capim ralo. Dessa forma, era uma alegria quando anunciavam a chegada das cheias. Diziam que vinha do Itabaiana. Quando chegou, veio com uma grande força, arrastando tudo.
O avô contava episódios da enchente de 75, naquele ano o rio tinha subido até a calçada da casa-grande e que o velho Calixto querendo salvar um animal, foi arrastado pela correnteza.

“Mas há muito anos que o Paraíba não repetia a façanha.”

À noite, foram acordados com o barulho que ia pela casa. As águas estavam crescendo tanto que podia entrar pela casa-grande e acabar com a safra de açúcar que se encontrava em caixões de madeira e nos tanques cheios de mel-de-furo. Mandaram uma canoa com José Ludovina pela várzea em busca de socorro.


Carlinhos não sabe explicar, mas torcia para que as águas continuassem a subir e inundasse a casa-grande. De manhã a enchente já estava sobre controle e o avô vira a sua safra quase toda perdida.


“- Gosto mais de perder com água do que com sol”.

Os canoeiros traziam notícias tristes: pessoas que tinham perdido tudo; muitos desabrigados; o negro Salvador havia desaparecido e não se via um pé de cana, era só água.

“A canoa passou por cima do cercado do engenho.”

O Coronel Zé Paulino dava ordens para levarem alimentos para àquele povo.
À noite, o rio que vazara começou a encher novamente e eles tiveram que partir urgentemente. Para as crianças parecia uma festa toda aquela arrumação. No caminho encontravam pessoas fugindo e souberam de mortes e de pontes caídas.


No carro de boi, vieram a velha Tia Galdina, paralítica, tia Maria, quatro costureiras, e quatro negras. Tia Sinhazinha não quis abandonar o engenho sozinho. Todos tiveram respeito por esse ato grandioso que até perdoaram a sua ruindade.

Alojaram-se na casa do Sr. Amâncio e junto com outras famílias pobres desfrutaram do mesmo café e da mesma batata-doce. No dia seguinte chegaram os suprimentos da casa-grande e Tia Maria distribuiu carne-de-ceará com farofa a todos. Eles tinham perdido a sua plantação de mandioca, mas não desanimavam, dizia que o importante era ter saúde e confiar em Deus.
Voltaram para o engenho no dia seguinte e foram informados que Zé Guedes tinha encontrado o corpo do negro Salvador. Ele havia falecido há três dias e os urubus rodavam por cima dele.
Por onde as águas tinham passado, espelhava ao sol uma lama cor de moeda de ouro:

“O limo que ia fazer a fartura dos novos partidos”.

O engenho e a casa de farinha estavam repletos de flagelados. A enchente tinha sido pior que a de 75. João Umbelino aproveitava e mentia à vontade, contando estórias que ninguém tinha visto.
O engenho inteiro estava infeliz, só os canoeiros que lucravam com essa desgraça.
Carlos foi estudar na casa do Dr. Figueiredo, era a primeira vez que passaria o dia inteiro com gente estranha. Na realidade a sua professora era uma moça morena e bonita, chamada Judite. Carlos gostou dela, mas era um amor diferente que sentia por da Tia Maria.
Uma vez Carlos a viu chorando e outras, ouviu pancadas e gritos de quem estivesse apanhando. Judite o beijava, o abraçava e dizia que o queria como um bem de mãe. Carlos sonhava com ela e não gostava dos domingos, porque não tinha aula e não a veria.
Em seguida, foi estudar com outro professor. Tinha mais cinco alunos, pessoas pobres, e ele tinha um regime de exceção.


O outro mestre foi o Zé Guedes, professor também de coisas ruins.

Zé Guedes contava-lhe histórias de amor e de sacanagem. Um dia mostrou-lhe a casa de Zefa Cajá, um prostíbulo. Falava-lhe sobre as mulheres da vida e as “doenças-do-mundo” (cavalo, mula, crista-de-galo).
Às vezes, pediam para ele comprar algumas necessidades na vila e quando ia entregar, puxava conversa longa com as mulatinhas.
Um dia, Zé Guedes apontou uma mulatinha e contou-lhe que ela pertencia ao Dr. Juca. Outro dia, entrou numa casa que morava só uma negra e demorou muito a sair de lá.
No curral, os moleques tinham a sua lição de sexo e reprodução. Carlos lembrava-se de uma vaca malhada que morreu por malvadeza de seu primo Silvino. Ele quis dar um de médico e acabou matando a vaca.
Um dia Silvino chamou Carlos para fazer porcaria no curral e Carlos pode ver o primo trepado na cerca, “procurando pôr-se por cima de uma vaca mansinha”.
O avô gostava de percorrer sua propriedade e sempre levava Carlos para acompanhá-lo. Paravam nas portas dos casebres, ouviam reclamações. Quando perguntava por que Zé Ursulino não tinha ido trabalhar, respondiam que ele estava doente, mas o coronel não acreditava e logo depois, acabavam encontrando-se com Zé Ursulino, aliás, muito bem de saúde. Em outras casas, batia e ninguém atendia. Estavam todos na roça, inclusive as crianças.
Na casa de Chico Baixinho, encontrou a mulher fraca, com uma criança recém-nascida, dizia que o marido havia abandonado “com a barriga rachando, e danou-se”, ninguém sabia de seu paradeiro. Mandava, então, trazer bacalhau para alguns, remédios para outros e assim, eram as longas diligências do coronel Zé Paulino.
Nos dias de festas, descobriam o oratório e o quarto dos santos ficava aberto para quem quisesse ver. Não havia capela no Santa Rosa. O coronel José Paulino não era devoto.


Não iam a missas, não se confessavam, mas em tudo que diziam, colocavam um Deus ou uma Nossa Senhora. Tia Maria ensinava as rezas a Carlinhos e aos meninos, mas o avô, nunca foi visto rezando.

No engenho tinha uma imagem do menino Jesus que lembrava a prima Lili. Ele segurava com uma das mãos um bastão e na outra, uma bola do mundo. Carlinhos temia que a bola caísse e o mundo se acabasse. O menino Jesus vestia um manto azul, e as crianças levantavam o seu manto para ver “aquela rolinha bicuda de criança”.
Havia também algumas estampas das paredes: São Sebastião atravessado de setas; Anjo Gabriel com a espada no peito; São João com um carneiro; São Severino fardado, estendido num caixão de defunto.
Os moleques mostravam uma santa mulata com uma criança no colo e com uma marca de ferro no rosto. Contavam que a senhora queimou o rosto da escrava com um garfo quente.
Pela Semana Santa contavam-nos as malvadezas dos judeus com Nosso Senhor e na Sexta-Feira Santa, só se comia uma vez no engenho.
Às vezes, vinha uma velha ao engenho, a Totonha que contava sobre a Vida, Paixão e Morte de Jesus Cristo.
O avô mandou colocar Chico Pereira no tronco. Chico Pereira gritava que não tinha culpa e dizia: “ela botou pra cima de mim os estragos que os outros fez”, que não assumiria, não casaria com ela, podia ser preso, morto, mas ele não tinha culpa, “eu não tapo buraco dos outros”.
Todos acreditavam que ele que tinha feito mal a Maria Pia e o avô disse que ele só sairia do tronco, quando aceitasse casar-se com a sua vítima. No dia seguinte, Carlos não saiu de perto de Chico Pereira que continuava negando.
À tarde, chegaram Maria Pia e sua mãe, o avô mandou buscar o livro sagrado e fez com que Maria Pia colocasse suas mãos em cima do livro e jurasse a verdade. Então, Maria Pia, contou-lhe que o culpado na realidade era o Sr. Juca. Soltaram o cabra e à noite o Tio Juca não se sentou à mesa.
O Coronel disse: “- Não sei pra que servem os estudos. A gente gasta um dinheirão; e eles voltam pra fazer besteiras desta ordem.”
A estrada de ferro passava no outro lado do rio. Um dia o primo Silvino colocou uma pedra bem na curva da rampa em que o trem passaria, queria ver desgraça. Quando o trem estava chegando, Carlinhos teve a sensação de ver pessoas mortas, e num ímpeto, deslocou a pedra do caminho. Chorou muito e certificou-se que “nunca mais em minha vida o heroísmo me tentaria por essa forma.”
Corria-se a notícia que havia no local um lobisomem. Manuel Severino tinha fugido dele na Mata do Rolo. A desconfiança recaiu em José Cutia, um pobre comprador de ovos, muito branco, que procurava fazer suas caminhadas à noite para evitar o sol.
O povo não tinha raiva dele, tinha dó. Os meninos tinham medo. Comentavam que comia fígado de criança e tomava banho com sangue de criança de peito. Era o papa-figo!
Um dia o padre Ramalho ao dar a extrema-unção a um doente, viu uma coisa estranha puxando o rabo de um cavalo.
O cavalo não saía do lugar, tirou a caixinha da hóstia e apontou. Ouviu o baque de um corpo e o cavalo disparou. No outro dia encontraram José Cutia desfalecido na estrada.
O medo do lobisomem acompanhou Carlos até depois de crescido. Havia também os zumbis, era a alma dos animais. Quando morria um boi, não se enterrava, deixava no cemitério dos animais, à beira do rio, mas ele não tinha o poder dos lobisomens.
Carlinhos acreditava nessas estórias como acreditava em Deus. Só que de Deus tinha uma imagem abstrata, o lobisomem era de carne e osso. Jesus era diferente de Deus, ele tinha nascido, tinha mãe e pai e era jovem.

“Só depois o catecismo viria destruir a minha crença absoluta nos bichos perigosos do engenho”.

A velha Totonha era excelente contadora de histórias. Uma vez ela narrou sobre um homem condenado à forca, acusado de crime de morte. E, que quando passou o cortejo pela porta da casa de sua mulher, ela estava amamentando o seu filho, a criança tirou a boca do bico do seio da mãe e começou declamar versos, descobrindo assim a verdade e salvando o seu pai.
O interessante é que Totonha quando ia descrever algum reino, usada de cores locais, como se estivesse falando dum engenho fabuloso.
A história da madrasta que enterrara uma menina era sua obra prima. O pai saíra em viagem e deixara sua filha do primeiro casamento sobre os cuidados da segunda esposa. A madrasta com ciúmes de ter que dividir o amor de seu marido, pôs-se a judiar da menina, chegou até mandar que ela ficasse um dia inteiro debaixo de um pé de figueira com uma vara na mão a espantar sabiás. Um dia ela adormeceu pensando no pai, os sabiás picaram as frutas, a madrasta deu-lhe uma surra de matar, depois a enterrou ainda viva na beira do rio. Quando o pai voltou, a madrasta mentiu, dizendo que a menina tinha adoecido e morrido com a sua ausência. Um capineiro foi cortar capim para os cavalos e ouviu uma voz pedindo que não lhe cortassem os cabelos. Quando cavaram o lugar, encontraram a menina. Amarraram as pernas da madrasta em dois poldros brabos e os pedaços dela ficaram pela estrada, fedendo.
Havia outras histórias de Jesus e seus apóstolos. Jesus chegou para dormir na casa de uma família pobre, pediu para Pedro buscar o saco de mantimentos. Pedro falou que estava vazio e Jesus respondeu:

“- Homem de pouca fé, vai ver o saco!”.

Quando Pedro voltou, encontrou duas cargas de farinha e de carne na porta. Contavam histórias de naufrágios na Bahia que até dava medo antecipado de embarcar num desses navios.
As escravas depois da abolição, não deixaram a senzala e preferiram ficar no engenho, morrendo de velhice. Carlinhos conheceu algumas: Maria Gorda, Generosa, Galdina e Romana. Generosa foi á mãe-de-leite de D. Clarisse e defendia Carlinhos com unhas e dentes.
Carlos não conheceu marido de nenhuma, mas todas viviam parindo os seus filhos. Os filhos das escravas sabiam fazer tudo melhor que os primos, a única diferença é que não sabiam ler, mas isso parecia não ter importância na época.


Eles relatavam como se faziam crianças e o que os homens faziam com as mulheres, mesmo porque as escravas recebiam os seus homens na frente das crianças. No quarto de Maria Gorda não se podia entrar, fedia carniça, veio de Moçambique, e falava uma mistura de línguas, sempre resmungando.

A velha Galdina, nós a chamávamos de vovó. Andava de muletas, porque quebrara a perna brincando de cabra-cega com os meninos, viera da África, fora roubada do seu pai e vendida por um irmão aos compradores de negros.
A velha Generosa cozinhava para a casa-grande, era só pedir as coisas no seu ouvido, “e ela nos dava, sem ligar importância às impertinências da velha Sinhazinha.”
Uma vez chegou ao engenho um homem que tinha matado um sujeito no Oiteiro e viera pedir proteção ao coronel. O avô negou ajuda, dizendo que não protegia criminoso.
Foram passar o dia no Oiteiro. Iam parando e dando notícias de todos. O senhor de engenho de lá, era primo do Coronel Zé Paulino, o Coronel Lula, morrera deixando um palácio para os seus.
Carlinhos era um menino triste, tinha isolamentos de melancolia, e pensava que já estava no engenho há quatro anos e logo iria pro colégio. Os primos falavam que o colégio era horrível, tinha castigos, diretor medonho...
Às vezes perguntava pelo pai e respondiam que ele estava num hospital. Carlinhos tinha medo de morrer. Uma vez viu um homem morrendo no engenho e essa imagem não o deixou dormir. Mas, por outro lado, desejava a morte de Tia Sinhazinha.
A única alegria que tinha era quando algum canário caía em seu alçapão.
Carlinhos passava o dia inteiro próximo aos mestres de ofício atento para ouvir suas histórias. Um, contou-lhe que um senhor de engenho só mandava para eles bacalhau, a semana inteira e eles passavam o dia, bebendo água com a boca seca. Um dia, um negro reclamou e ele mandou peru. Agora era só peru. Outro, contava que o velho Duda do Riachão não gostava de mulheres e sempre que a mulher estava para dar à luz, ele fica apreensivo e se fosse mulher, mandava acabar com ela.
O Capitão Quincas, irmão do velho José Paulino, tinha uma mulher bonita, chamada Calu. Um dia a cabrocha deu corda ao feitor Salvino. O capitão chamou o feitor para a briga e acabou estendido com uma facada.
Carlinhos ganhou um carneiro. Chamava-o de Jasmim. Saía a passear com o carneiro e ouvia desabafos como: “- Se o velho fechar os olhos, quem vai sofrer é a pobreza do Santa Rosa.”
Pensava em Tia Maria que se preparava para casar-se com o seu primo do Gameleira.
O Santa Fé ficava encravado no engenho do Coronel José Paulino. Herdara o Santa Rosa pequeno, e fizera dele um reino. O Santa Fé ficara estacionado, de fogo morto, Carlinhos já o conheceu arruinado nas mãos do Coronel Lula de Holanda. Vinham visitar o Santa Rosa e traziam a filha Nenem que havia estudado nos colégios do Recife. Aquela menina sentava-se como se estivesse de castigo e sua mãe D. Amélia, também não saía da etiqueta, até sabia tocar piano. O mato cada vez mais ia tomando conta do Santa Fé. Falavam que o povo de lá não comia, que as negras viviam em jejum, que uma lata de manteiga dava para um mês e que o Sr. Lula tinha dinheiro de ouro enterrado.
Não se sabe se eram verdadeiros esses comentários. Mas, quem passava pelo local, via a irmã de D. Amélia, a Sra. Olívia, uma senhora, de cabelos brancos, andando de um lado para o outro, totalmente enlouquecida. Nada contavam sobre sua vida, parecia até que ela não tinha história.
Um dia chegou uma carta do Seu Lula pedindo socorro. Mais tarde, soube-se que o Doutor Luís Viana, pretendia roubar sua filha, Nenem.
Na realidade, ele tinha encontrado uma carta combinando a fuga. Nada aconteceu e fizeram até versos sobre o assunto.
Carlos começa a sofrer de puxado (peito chiando, falta de fôlego, vômitos). Passava dias em seu quarto num resguardo rigoroso. Os primos tinham chegado do colégio, parecia que tinham endireitado, mas era engano. O avô vinha até o quarto para medir-lhe a febre. A febre para ele era o grande mal e o seu grande remédio era as lavagens. Curava os negros, os netos, os trabalhadores.
O quarto do Dr. Juca vivia trancado, mas o Carlos era o seu sobrinho preferido. Mostrava-lhe livros, álbuns de fotografias. Um dia Carlos descobriu uma coleção de postais de mulheres nuas no quarto do tio e toda vez que acontecia uma oportunidade de ficar sozinho, era para esses postais imundos que corria.
Uma vez foi surpreendido pelo tio e foi proibido de entrar lá.
Um incêndio veio a queimar o canavial, a casa do negro Damião e do Zé Passarinho. Todos ajudaram a conter o fogo, enquanto o avô curava os feridos.
Era tempo de limpar o partido da várzea. Homens, mulheres e crianças trabalhavam o dia inteiro com a enxada na mão. O costume de ver todo dia esta gente na sua degradação, habituava Carlinhos com a sua desgraça. Esse fato era encarado como uma obra de Deus.

“Eles nasceram assim porque Deus quisera, e porque Deus quisera nós éramos brancos e mandávamos neles. Mandávamos também nos boi, nos burros, nos matos.”


Depois da ceia o avô costumava a contar fatos antigos. Lembrava do Major Ursulino que maltratava os escravos e tinha orgulho de falar que o dia 13 de Maio nada serviu para os seus escravos, que preferiram ficar no engenho. Contava que D. Pedro chegou uma vez em Pilar sem avisar. O Tio Henrique era vereador nessa época e tinha mandado todos os móveis da Câmara para o marceneiro. D. Pedro vendo isso acabou deitando-se na rede de um pedreiro e o Tio Henrique foi preso pelo desastre.
A primeira paixão de Carlos tinha sido por Judite. Até que um dia, chegaram alguns parentes do Recife, os filhos do Tio João que revolucionaram os hábitos pacatos do engenho.
Passavam o tempo todo de meias, conversavam em francês e sobre teatro.
Os moleques ficavam espantando os sapos e as meninas tinham medo de baratas.
A prima Maria Clara era mais velha que Carlos e vivia a passear com ele pela horta.
Maria Clara tocou tão forte o coração de Carlos que ele até se esqueceu do carneiro e dos seus passeios melancólicos. Ela contava-lhe suas viagens a navio; ele, a cheia, a enchente, o fogo e sobre Antonio Silvino.
Maria Clara dizia que a mãe falava que vivendo no engenho acabaria virando bicho.
Um dia, após a prima narrar um filme de dois namorados, Carlinhos a beijou e correu para a casa. Sonhou com ela a noite inteira.
Estava chegando o dia da despedida, vinham presentes de todos os lados, “os bichos dos engenhos gostavam das primas assanhadas”.
Na terça-feira partiram, o tio Juca e tia Maria acompanharam até a estação, Maria Clara não demonstrava tristeza com a separação, ao contrário, estava alegre e ansiosa com a viagem.
Alguém comentou que Carlinhos tinha ficado sem namorada.
Carlinhos chorou o que foi motivo de graça durante o dia todo.
O coronel José Paulino recebeu uma carta do diretor do hospício onde estava internado o pai de Carlinhos.
O coronel conversava com o tio Juca sobre o assassino de sua filha Clarisse e não notaram a presença de Carlinhos.
O hospital reclamava as prestações em atraso e o coronel José Paulino refletia se deveria pagar a pensão. Depois de muita discussão decidiram que pagariam.
A imagem que seu pai estivesse amarrado num quarto e doente doía muito em Carlinhos.
Uma vez chegou um louco no engenho, foi amarrado e passou a noite inteira gritando.
De manhã estava com um sorriso de menino, diziam que o diabo tinha saído de seu corpo e que os doidos iriam para o céu, pois eram inocentes.
Carlinhos imaginava que seu pai deveria proceder igualmente àquele doido e, o medo da doença ser hereditária amedrontava-o.
Um médico tinha ido ver o Carlos por causa do puxado, perguntou de que a mãe morrera, sobre o pai e passou uma grande dieta. Outra vez ele e o Silvino brigavam pela mesma coisa. Acabaram dando a ele e diziam: “- Carlinhos é doente, ninguém pode fazer raiva a ele!”
Carlinhos queria ser independente e sentia raiva quando insistiam cuidar dele. Às vezes fugia para os arredores dos engenhos e passava tardes inteiras na casa de Maria Pitu. Ela tinha três filhos, um era doente, vivia sentado num caixão, não andava, não falava e tinha uma cabeça enorme. A mãe tratava-o como um bicho doméstico. Como não foi batizado, não tinha um nome próprio e passou ser chamado por Cabeção.
Maria Pitu pedia sempre a morte do filho, dizendo que seria um alívio. Carlinhos ouviu dizer que o pai de Cabeção tinha morrido de tanto beber, podia acontecer o mesmo com o filho de Zé Passarinho. Desse modo, o problema da hereditariedade o perseguia.
Pensava em Maria Clara com desejos. Depois, passava horas no curral a observar a reprodução das vacas.

“O sexo crescia em mim mais depressa do que as pernas e os braços.”

Nessa época, a negra Luísa arrastava-o para brincadeiras íntimas.
Tia Maria se casaria no dia de São Pedro. Os preparativos corriam a todo vapor. Chegava gente de todo o lugar e começava a matança dos porcos e dos carneiros. Jasmim estava muito gordo e seria morto também. A casa-grande estava tomada por uma multidão. Diziam que agora a educação do Carlinhos ficaria a encargo da Tia Sinhazinha.
Carlinhos não foi ao casamento, ficou chorando em seu quarto, ouvindo toda a festa de lá. Quando Maria Menina, ou tia Maria se foi com seu noivo a impressão de Carlinhos era que estava perdendo a sua segunda mãe.
Tia Sinhazinha chamou Carlos, fez-lhe um carinho e comunicou-lhe que no próximo mês, ele iria para o colégio. A partir daí, todos se empenhavam a fazer o enxoval do menino.
Com a chuva e ausência da Tia Maria, tudo ficava mais triste e Carlinhos tinha mais tempo para pensar.
Tinha doze anos e diziam que ele era um atrasado. Os meninos do colégio sabiam fazer contas e ele conhecia só ruindades, na maioria das vezes ligadas ao sexo. Já não tinha mais a negra Luísa que estava grávida, olhava para um São Luís Gonzaga e sentia vergonha dos seus atos imundos de sem-vergonha.
Ocorreu uma briga no engenho, dois cabras se atracaram: o Mané Salvino e o negro José Gonçalo. O negro Gonçalo deu um grito e tombou de lado morto, deixando cinco filhos pequenos e um de peito ainda.
Carlinhos tinha doze anos quando conheceu uma mulher, como homem. Era a Zefa Cajá. Há dias ficava atrás dela, levava coisas do engenho para ela, dava-lhe dinheiro que o avô deixava por cima das mesas.
Ela dizia que o Carlos tinha gosto de leite na boca. Quando o avô ficou sabendo, deu uns gritos com o menino, que não adiantou nada. Quando ele brigou com o tio Juca por causa da Maria Pia, Carlinhos ouviu uma negra dizer: “Quem fala! Quando era mais moço, parecia um pai-d’égua atrás das negras. O Seu Juca teve a quem puxar.”
Carlinhos pegou doença-do-mundo. No começou tentou esconder do pessoal da casa-grande, mas doía muito e ele tinha medo até de urinar.
Foi um escândalo. Falavam que ele estava com gálico.
Colocaram a Zefa Cajá na cadeia e o tio Juca cuidou do tratamento do menino.
De repente Carlinhos começou a se envaidecer com a doença. Achava que as pessoas do sexo masculino o veriam como uma “espécie de virilidade adiantada” e passava a andar de pernas abertas para chamar a atenção.
O amigo Ricardo também tinha pegado a doença, mas sofria mais que ele, estava sendo medicado somente com ervas domésticas.
A doença operou uma transformação no menino, que agora já era visto como um homem pelas criadas do engenho.
Nessa época, o engenho oferecia-lhe amor por toda a parte. Sentia vergonha em pensar em Tia Maria quando soubesse de tudo aquilo. Agora, Carlinhos corria com um cachorro no cio. Os moradores reclamavam que não podiam deixar suas meninas em casa com o Seu Carlinhos solto por aí.
João Rouco “deu-me uma carreira por causa do filho pequeno, que eu quis pegar.”
Em junho iria para o colégio.

- Lá ele endireita.”

No dia seguinte tomaria o trem para o colégio. Já sentia saudades do engenho. Precisava de freio, não tinha religião, estava atrasado nos estudos, e tinha um grande mal dentro de si. Diziam que quando voltasse do colégio, viria outro. Com certeza esse outro era o sonho de sua mãe.
Zé Guedes levava a mala, o tio Juca o acompanhava, os moleques vinham se despedir. Na porta de Zefa Cajá só se viam panos estendidos no sol. O engenho inteiro se despedia dele.
Quando o trem passou pelo Santa Rosa, os moleques estavam na beira da linha para lhe dar adeus, com os olhos cheios de lágrimas, partia.

“ - Não vá perder o seu tempo. Estude, que não se arrepende.”

Eu não sabia nada. Levava para o colégio um corpo sacudido pelas paixões de homem feito e uma alma mais velha do que o meu corpo. Aquele Sérgio, de Raul Pompéia, entrava no internato de cabelos grandes e com uma alma de anjo cheirando a virgindade. Eu não: era sabendo de tudo, era adiantado nos anos, que ia atravessar as portas do meu colégio.
Menino perdido, menino de engenho.”

IX - CONSIDERAÇÕES FINAIS:


O autor apela constantemente para as recordações de sua infância e adolescência, para compor seu ciclo de cana-de-açúcar, séries de romances de caráter memorialista que retratam a Zona da Mata nordestina num período crítico de transição: a decadência dos engenhos esmagados pelas poderosas usinas.

Em todo o ciclo, o cenário é o engenho de Santa Rosa, do velho coronel Zé Paulino, avô de Carlos Melo (o narrador de “Menino de Engenho”, que, em muitas passagens, é o próprio José Lins do Rego). Além deles, povoam o Santa Rosa o tio Juca, os moleques - filhos dos empregados que vivem soltos pelos engenhos e brincam com os meninos, os filhos dos proprietários, na ingênua igualdade da infância, apesar dos preconceitos dos adultos.
Dessa forma, tudo será carregado de um saudosismo que tornará a obra melosa, sentimental, próxima da idealização da realidade, muitas vezes até ingenuidade. No entanto, pode-se verificar no romance certa postura social engajada, principalmente, ao contrapor as desigualdades econômicas, entre os habitantes da casa-grande e da senzala, envolvendo as mais diversas castas, desde o senhor de engenho até o moleque da bagaceira.
A obra nasceu com a intenção de ser memórias, o primeiro título de fato ia ser “Memórias de um Menino de Engenho”. Dentro desse contexto agrário-rural, o menino de engenho cresce solto, na ampla liberdade do latifúndio. Carlinhos, assim, tem precocemente a sua sexualidade exacerbada, pois vivia em contato direto com o mundo de “porcarias”, à solta com os moleques “depravados” da bagaceira, a ver livremente o sexo do gado no curral da fazenda. As masturbações precoces são inevitáveis, e o sexo, estimulado pela negra Luísa, que se torna para ele uma verdadeira professora de iniciação sexual, aflora em toda sua intensidade. Precocemente, aos doze anos de idade, o menino de engenho conhece a sua primeira mulher e contrai “doença-do-mundo” — a gonorréia. Esse fato, contudo, não o deprecia ou humilha; ao contrário, a gonorréia era, no mundo do engenho, uma espécie de atestado de virilidade adiantada.
O autor está mais preocupado em reunir flashes do passado do que em produzir uma análise aprofundada de sua realidade, essa técnica faz lembrar o estilo impressionista de “O Ateneu” de Raul Pompéia, romance que o próprio José do Lins do Rego citou no último parágrafo de seu livro comparando os protagonistas Carlos, “Menino de Engenho” com Sérgio, de “O Ateneu”: Carlos sai de uma vida jovem e “levava para o colégio um corpo sacudido pelas paixões de homem feito e uma alma mais velha do que o corpo” para seguir seus estudos, enquanto, o segundo, ingênuo e sem experiências “entrava no internato de cabelos grandes e com uma alma de anjo cheirando a virgindade”.
No romance de Raul Pompéia há uma atitude de exigência interior de libertação de uma amargura avassaladora, intensificada e marcada pela caricatura, pelo sarcasmo e impiedade. Já o que ocorre no romance de José Lins do Rego é algo de ternura e intensa humanidade, dominado pela nostalgia do ambiente do engenho sob a decadência do poderio da civilização açucareira. Esse autor procura sentir e compreender a grandeza e a memória da natureza humanos limites de um mundo do qual não deseja se desprender.

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