quinta-feira, 7 de abril de 2011

ILÍADA, HOMERO (?) - EPOPÉIA CLÁSSICA


I – GÊNERO ÉPICO OU EPOPÉIA:


Todos os povos têm as suas narrativas. Dos poemas orais ao romance contemporâneo, a literatura registra a trajetória das narrativas e seu estudo, é um grande aliado para a compreensão das transformações formais e da temática por que passaram.
A poesia épica ou epopéia deriva do grego “épos”, que, dentre os seus significados, quer dizer: palavra, verso, discurso, tem a finalidade de manter a tradição, registrar os fatos heróicos, garantindo-lhes a sobrevivência; preservar a memória do herói, do ser que se coloca entre a divindade e o homem comum, partilhando da natureza dos deuses (semideus, pessoa de filiação divina) ou operando como instrumento divino; pessoa que realiza coisas que os outros não são capazes de realizar.
Dessa maneira, a poesia épica é um longo texto narrativo em que se agrupam os mitos fundamentais ou fundantes de um povo, de uma nação.
Suas características internas são a “imitatio” e originalidade (criatividade, poder de inovar); presença da romanidade (ufanismo, nacionalismo, costumes); erudição; estilo puro e elegante; vocabulário rico, frase harmoniosa; grande capacidade descritiva.
De qualquer forma, as epopéias tiveram função didática importante na vida dos gregos porque descrevem o período da civilização micênica e transmitem os valores da cultura por meio das histórias dos deuses e antepassados, expressando uma determinada concepção de vida.

II – DADOS CRONÓLOGICOS:



A primeira epopéia documentada trata-se da história de “Gilgamesh”, rei de Uruk, na Babilônia, que viveu por volta de 2700 a.C.

A civilização grega teve uma formação prolixa e diversificada com um alto grau de criação artística e intelectual. Não se tem informações precisas a respeito de tudo o que foi produzido, conhece-se apenas textos e obras de arte que resistiram ao tempo. De qualquer forma, o que foi recuperado confirma o brilhantismo daquela civilização.
As várias lutas empreendidas, a trajetória dos povos que se enfrentaram, suas religiões e crenças foram se intercalando, gerando fábulas, mitos, histórias que eram cantadas pelos “aedos” ou “rapsodos” davam forma poética aos relatos populares e fixavam na memória e no imaginário popular que as transformava e enriquecia.
Era difícil conhecer os autores de tais trabalhos de formalização, porque num mundo em que predomina a consciência mítica não existe a preocupação com a autoria da obra, já que o anonimato é a consequência do coletivismo, fase em que ainda não se destaca a individualidade. Além disso, não havia a escrita para fixar obra e autor.
“Ilíada” e “Odisséia”, de Homero, concebidas num tempo pré-literário, são consideradas as obras épicas mais importantes para a literatura ocidental
Na atualidade supõe-se que tanto a “Ilíada” quanto a “Odisséia” tenham se originado de cantos populares e declamações em eventos religiosos, autoria de vários autores que viveram nos séculos VIII e VII a.C, inclusive, pelo estilo diferente dos dois poemas. Também, há controvérsia a respeito da época em que teria vivido Homero, e até se ele realmente não seria um poeta lendário.

III – ESTRUTURA:


A “Ilíada” é composta de 15.693 versos em hexâmetro dactílico, que é o formato tradicional da épica grega. Hexâmetro é um verso composto de seis sílabas poéticas e dactílico faz alusão ao ritmo do poema, composto de uma sílaba longa e duas breves, já que o grego e o Latim não possuem sílabas tônicas, e sim breves e longas.

Sua linguagem não é a comumente falada entre os gregos antigos, mas sim um amálgama de vários dialetos, entre eles o grego jônico, o eólico e outros, resultando em uma variante artificial do idioma grego daquela época.
Existem diversas seções que se repetem como “ganchos” que facilitariam a memorização, indicando sua natureza de obra transmitida oralmente.
O poema foi então posteriormente dividido em 24 Cantos, divisão que persiste até hoje. A divisão é atribuída aos estudiosos da Biblioteca de Alexandria, mas pode ser anterior.
A estrutura dos poemas homéricos serviu de base para outros épicos, como a “Eneida”, de Virgílio, e “Os Lusíadas”, de Camões. Por esse motivo, a “Ilíada” e a “Odisséia” são consideradas poemas épicos clássicos ou primários. Todos os que se inspiram neles são considerados de imitação ou secundários.

IV – CARACTERÍSTICAS:


O termo “Ilíada” é um aportuguesamento da expressão grega “ílion”, nome grego para a cidade de Tróia.

Os gregos acreditavam que a guerra de Tróia era um fato histórico ocorrido durante o período micênico, durante as invasões dóricas, por volta de 1200 a.C.. Entretanto há na “Ilíada” descrições de armas e técnicas de diversos períodos, do micênico ao século VIII a.C., indicando ser este o século de composição da epopéia.
Não retrata fielmente a guerra, mas é um ótimo relato histórico sobre a cultura, o comportamento e a vida cotidiana dos gregos antigos. Aquiles, Heitor, Ulisses e Agamenon são as principais personagens deste poema.
Apesar de o cerco feito àquela cidade pelos aqueus terem durado dez anos, apenas o décimo e último anos deste conflito são narrados, especialmente, cinquenta dias deste combate.
Os conflitos anteriores são narrados através de digressões feitas pelo narrador e pelas próprias personagens. Estes conflitos são lendários, sem integral comprovação histórica, porém arqueólogos têm feito descobertas que confirmam certos detalhes da narrativa.
Embora “Ilíada” aborda um episódio da Guerra de Tróia e se refira a uma série de outros acontecimentos, seu tema principal é o ciclo da Ira de Aquiles, e isto é evidente logo na primeira linha do poema.
A palavra grega “mēnin”, ira, é a primeira do poema, cujo famoso verso é “Menin aeide, Thea, Peleiadeo Aquileos“. Em português seria “Ira canta, Deusa, Peléio Aquiles” ou, adaptando, “Cante, Deusa, a ira do filho de Peleu, Aquiles”. Através da consumação dessa ira, é tratada a humanização do herói e semideus Aquiles, sempre conflitado por sua dupla natureza, filho de deusa e homem, portanto mortal.
O leitor, portanto, deve ter conhecimento sobre a Guerra de Tróia para melhor compreender este poema. Ela foi deflagrada pelo sequestro de Helena, esposa de Menelau, rei de Esparta, por Páris, filho do rei troiano, Príamo.


Os combates são comandados por Agamenon, soberano de Micenas, irmão do rei ultrajado contra o chefe dos troianos, Heitor, irmão de Páris.

Os gregos avançam contra Tróia e sitiam a cidade, exigindo a devolução de Helena. A guerra, porém, é apenas o cenário escolhido para retratar um confronto ainda mais doloroso e sério, o que se desenrola na alma humana, aqui representada pelas paixões conturbadas de Aquiles.
Alguns deuses tomam partido nesse conflito: Juno ou Hera, deusa da fidelidade, protetora das esposas e dos amores legítimos; Atenas ou Minerva, deusa da sabedoria e das artes, protetora dos atenienses e Netuno ou Posidon, o deus cavalo, senhor dos mares, ficam ao lado dos aqueus; enquanto que Marte ou Ares, deus da guerra e da força; Vênus ou Afrodite, deusa do amor e da fertilidade e Apolo ou Febo, deus da beleza, ao lado dos troianos.


V – RESUMO DA NARRATIVA:


A lenda conta que a deusa (ninfa) do mar, Tétis era desejada como esposa por Zeus e seu irmão Posídon. Porém Prometeu profetizou que o filho da deusa seria maior que seu pai. Então os deuses resolveram dá-la como esposa a Peleu, um mortal já idoso, intencionando enfraquecer o filho, que seria apenas um humano. O filho de ambos é o guerreiro Aquiles. Sua mãe, visando fortalecer sua natureza mortal, mergulhou-o, ainda bebê, nas águas do mitológico rio Estige. As águas tornaram o herói invulnerável, exceto no calcanhar, por onde a mãe o segurou para o mergulhar no rio (daí a famosa expressão calcanhar de Aquiles, significando ponto vulnerável). Aquiles tornou-se o mais poderoso dos guerreiros, porém, ainda era mortal. Mais tarde, sua mãe profetiza que ele poderá escolher entre dois destinos: lutar em Tróia e alcançar a glória eterna, mas morrer jovem, ou permanecer em sua terra natal e ter uma longa vida, mas sendo logo esquecido.
Para o casamento de Peleu e Tétis todos os deuses foram convidados, menos Éris, ou Discórdia. Ofendida, a deusa compareceu invisível e deixou à mesa um pomo de ouro com a inscrição “à mais bela”. As deusas Hera, Atena e Afrodite disputaram o pomo e o título de mais bela. Zeus então ordenou que o príncipe troiano Páris, à época sendo criado como um pastor ali perto, resolvesse a disputa. Para ganhar o título de “mais bela”, Atena ofereceu a Páris poder na batalha, Hera o poder e Afrodite o amor da mulher mais bela do mundo. Páris deu o pomo a Afrodite, ganhando assim sua proteção, porém atraindo o ódio das outras duas deusas contra si e contra Tróia.
A mulher mais bela do mundo era Helena, filha de Zeus e Leda. Leda era casada com Tíndaro, rei de Esparta. Helena possuía diversos pretendentes, que incluíam muitos dos maiores heróis da Grécia, e o seu pai adotivo, Tíndaro, hesitava tomar uma decisão em favor de um deles temendo enfurecer os outros. Finalmente um dos pretendentes, Odisseu (cujo nome latino era Ulisses), rei de Ítaca, resolveu o impasse propondo que todos os pretendentes jurassem proteger Helena e sua escolha, qualquer que fosse. Helena então se casou com Menelau, que se tornou o rei de Esparta.

Quando Páris foi a Esparta em missão diplomática, se enamorou de Helena e ambos fugiram para Tróia, enfurecendo Menelau. Este apelou aos antigos pretendentes de Helena, lembrando o juramento que haviam feito. Agamenon então assumiu o comando de um exército de mil barcos e atravessou o mar Egeu para atacar Tróia. As naus gregas desembarcaram na praia próxima a Tróia e iniciaram um cerco que duraria dez anos, custando a vida de muitos heróis, de ambos os lados.


No décimo ano do cerco a Tróia, há um desentendimento entre as forças dos aqueus (gregos) comandadas por Agamenon. Ao dividirem os espólios de uma conquista, o comandante aqueu fica, entre outros prêmios, com uma moça chamada Criseida, enquanto que a Aquiles cabe outra bela jovem, Briseis (Briseida). Criseida era filha de Crises, sacerdote do deus Apolo, e este pede a Agamenon que lhe restitua a filha em troca de um resgate. O chefe aqueu recusa a troca, e o pai ofendido pede ajuda a seu deus. Apolo passa então a castigar os aqueus com a peste. Quando forçado a devolver Criseida ao pai para aplacar o castigo divino, Agamenon toma a Aquiles sua Briseis, como forma de compensação e afronta a Aquiles. Este, ofendido, se retira da guerra junto com seus valentes Mirmidões. Aquiles pede então a sua divina mãe que interceda junto a Zeus, rogando-lhe para que favoreça aos troianos, como castigo pela ofensa de Agamenon. Tétis consegue a promessa de Zeus de que ajudará aos troianos, a despeito da preferência de sua esposa, Hera, pelo lado aqueu.

Então Zeus manda a Agamenon, através de Oneiros, um sonho incitando-o a atacar Tróia sem as forças de Aquiles. Agamenon resolve testar a disposição de seu exército. A tentativa por pouco não termina em revolta generalizada, incitada pelo insolente Tersites. A rebelião só é evitada graças à decisiva intervenção de Odisseu, que fustiga Tersites e lembra a profecia de Calcas de que Ílion cairia no décimo ano do cerco.
Os dois exércitos perfilam-se no campo de batalha, diante de Tróia. Páris, príncipe de Tróia, se adianta, mas logo recua ao ver Menelau, de quem roubara a esposa causando a guerra. Menelau o insulta e Páris responde propondo um duelo entre ambos. Os aqueus respondem com agressões, porém seu irmão Heitor, o maior herói troiano, reitera o desafio, propondo que o destino da guerra seja decidido numa luta entre Menelau e Páris. Menelau aceita, exigindo juramento de sangue sobre o pacto de respeitar o resultado do duelo. Enquanto os preparativos são feitos, Helena se junta a Príamo, rei de Tróia, no alto de uma torre para observar a contenda. Ela apresenta os maiores comandantes gregos, apontando-os para Príamo.
O duelo tem início e Menelau leva vantagem. Quando está para derrotar Páris, Afrodite intervém e o retira da batalha envolto em névoa, levando-o ao encontro de Helena.


Agamenon declara então que Menelau venceu a disputa e exige a entrega de Helena e pagamento do resgate. Porém, Hera e Atena protestam junto a Zeus, pedindo a continuidade da guerra até a destruição de Tróia. Zeus cede em troca da não intervenção de Hera caso deseje destruir uma cidade protegida por ela. Atena então desce entre as tropas troianas e convence Pândaro, arqueiro troiano, a disparar contra Menelau, ferindo-o e rompendo o pacto com os gregos. O exército troiano avança, e Agamenon incita os aqueus ao combate. Tem lugar então uma luta violenta, na qual os gregos começam a levar vantagem. Porém, Apolo incita aos troianos, lembrando-os que Aquiles não participa da peleja.


Os troianos então avançam, retomando a vantagem sobre os gregos, a despeito dos grandiosos esforços de Diomedes, que, insuflado pela deusa Palas Atena, chega a ferir os deuses Afrodite e Ares, que defendem os troianos. Os gregos por sua vez parecem retomar a vantagem, o que faz com que Heitor então retorne à cidade para pedir a sua mãe que tente acalmar Palas com oferendas. Após falar com a mãe, encontra-se com sua esposa e seu filho em uma torre. O encontro, em que Heitor fala com a esposa e o filho sobre o seus futuros, é bastante triste, pois Heitor pressente que Tróia cairá. A seguir, convoca Páris e com ele volta à batalha.

Apolo combina com Atena uma trégua na batalha e para consegui-la incitam Heitor a desafiar um herói grego ao duelo. Ajax é o escolhido num sorteio e avança para o combate. O duelo é renhido e prossegue até a noite, quando é interrompido. Os aqueus então aproveitam para recolher seus mortos e preparar um baluarte.
Com a manhã, o combate recomeça, porém Zeus proíbe os outros deuses de interferir, enquanto que ele dispara raios dos céus, prejudicando aos aqueus. O combate prossegue desastroso para os gregos, que acabam por se recolher ao baluarte ao final do dia. Os troianos acampam por perto, ameaçadores.
Durante a noite Agamenon se desespera, percebendo que havia sido enganado por Zeus. Porém, Diomedes garante que os aqueus têm fibra e ficarão para lutar. Agamenon acaba por ouvir os conselhos de Nestor, e envia a Aquiles uma embaixada composta por Odisseu, Ajax, dois arautos e o veterano Fenix presidindo, para oferecer presentes e pedir ao herói que retorne à batalha. Aquiles, porém, ainda irado, não cede.
Agamenon então envia Odisseu e Diomedes ao acampamento troiano numa missão de espionagem. Heitor, por sua vez, envia Dolon espionar acampamento aqueu. Dólon é capturado por Odisseu e Diomedes, que extraem informações e o matam. A seguir invadem o acampamento troiano e massacram o rei Reso e doze guerreiros que dormiam, retirando-se de volta para o lado aqueu, onde são recebidos com festa.
Durante o dia o combate é retomado, e os troianos novamente são superiores, empurrados por Zeus. Heitor manda uma grande pedra de encontro a um dos portões e invade o baluarte grego, expulsando-os e os empurrando até as naus, de onde não haveria mais para onde recuar a não ser para o oceano. Há amargo combate, com os aqueus recebendo apoio agora de Posidon, enquanto Zeus favorece os troianos, com heróis realizando grandes feitos de ambos os lados.
Hera, então, consegue convencer Hipnos a adormecer Zeus. Os gregos, acuados terrivelmente, se aproveitam desse momento para recuperar alguma vantagem, e Ajax fere a Heitor. Mas, Zeus acorda e, vendo os troianos dispersos e a momentânea vitória grega, reconhece a obra de Hera e a repreende. Hera diz que Posidon é o único culpado, e Zeus a manda falar com Apolo e Íris para que estes instiguem os troianos novamente à luta. Então Zeus impede Posidon de continuar interferindo, e os troianos retomam a vantagem. Os maiores heróis aqueus estão feridos.
Pátroclo, vendo o desastre dos aqueus, vai implorar a Aquiles que o deixe comandar os Mirmidões e se juntar à batalha. Aquiles lhe empresta as armas e consente que lidere os Mirmidões, mas recomenda que apenas expulse os troianos da frente das naus, e não os persiga. Pátroclo então sai com as armas de Aquiles (incluindo a armadura, o que faz com que aqueus e troianos achassem que Aquiles havia voltado à batalha) e combate os troianos junto às naus. Ao ver fugindo os troianos, Pátroclo desobedece a recomendação de Aquiles e os persegue até junto da cidade. Lá, Heitor, percebendo que é Pátroclo e não Aquiles, o confronta em duelo e acaba por matá-lo.
Há uma disputa pelas armas de Aquiles, e Heitor as ganha, porém Ajax fica com o corpo de Pátroclo. Os troianos então repelem os gregos, que fogem, acossados. Aquiles, ao saber da morte do companheiro, fica terrivelmente abalado, e relata o acontecido a Tétis. Sua mãe promete novas armas para o dia seguinte e vai ao Olimpo encomendá-las a Hefestos. Enquanto isso, Aquiles vai ao encontro dos troianos que perseguem os aqueus e os detém com seus gritos, permitindo que os gregos cheguem a salvo com o cadáver. A noite interrompe o combate.


Na manhã seguinte, Aquiles, de posse das novas armas e reconciliado com Agamenon, que lhe restituíra Briseida, acossa ferozmente os troianos numa batalha em que Zeus permite que tomem parte todos os deuses. Trucidando diversos heróis, Aquiles termina por empurrar o combate até os portões de Tróia. Lá, Heitor, aterrorizado, tenta fugir de Aquiles, que o persegue ao redor da cidade. Por fim, Heitor é enganado por Atena, que o convence a se deter e enfrentar o maior herói aqueu. Ele pede a Aquiles que seja feito um trato, com o vencedor respeitando o cadáver do vencido, permitindo seu enterro digno e funerais adequados. Aquiles, enlouquecido de raiva, grita que não há pacto possível entre presa e predador. O terrível duelo acontece e Aquiles fere mortalmente Heitor na garganta, única parte desprotegida pela armadura. Morrendo diante de seus entes queridos, que assistiam de dentro das muralhas, Heitor volta a implorar a Aquiles que permita que seu corpo seja devolvido a Tróia para ser devidamente velado. Aquiles, implacável, nega e diz que o corpo de Heitor será pasto de abutres enquanto o de Pátroclo será honrado.

Aquiles amarra o corpo de Heitor pelos pés à sua biga e o arrasta diante da família e depois o traz até o acampamento grego. São feitos os jogos funerais de Pátroclo. Durante a noite, o idoso Príamo vem escondido ao acampamento grego pedir a Aquiles pelo corpo do filho. O seu apelo é tão comovente que Aquiles cede, chorando, com a ira arrefecida. Aquiles promete trégua pelo tempo necessário para o adequado funeral de Heitor. Príamo leva o cadáver de seu filho de volta para a cidade, onde são prestadas as honras fúnebres ao príncipe e maior herói de Tróia.
Depois de inúmeras batalhas, os aqueus conseguem lançar mão de uma estratégia para vencer as muralhas da cidade: deixam à porta dos troianos um gigante cavalo de madeira, o “Cavalo de Tróia”, que traz no seu interior os mais fortes guerreiros. Os troianos, presumindo que fosse um presente, o acolhem. Já dentro da cidade, os aqueus a incendeiam e destroem-na, vencendo, enfim, a guerra.


CONSIDERAÇÕE FINAIS:


As ações heróicas relatadas em “Ilíada” mostram a constante intervenção dos deuses, ora para auxiliar um protegido seu, ora para perseguir um inimigo. O homem homérico é presa do Destino (Moira), que é fixo, imutável, e não pode ser alterado. Até distúrbios psíquicos como o desvario momentâneo de Agamenon são atribuídos à ação divina. É nesse sentido a fala de Heitor; “Ninguém me lançará ao Hades contra as ordens do destino! Garanto-te que nunca homem algum, bom ou mau, escapou ao seu destino, desde que nasceu.”
Heitor ao mencionar Hades refere-se ao deus do Mundo Subterrâneo ou ao Mundo dos Mortos, o Inferno.
Homero trata de forma brilhante as contradições humanas; as terríveis decisões tomadas em momentos culminantes; a liberdade de escolha; as intervenções dos deuses e os resultados de suas orientações. A verdadeira guerra, aqui, tem como palco a esfera íntima do homem.
O herói vive, portanto, na dependência dos deuses e do destino, faltando a ele o livre-arbítrio. Mas isto não o diminui diante dos homens comuns. Ao contrário, ter sido escolhido pelos deuses é sinal de valor e em nada tal ajuda desmerece a sua virtude.
A virtude do herói se manifesta pela coragem e pela força, sobretudo no campo de batalha, mas também na assembléia, no discurso, pelo poder de persuasão.
O preceptor de Aquiles diz: “Para isso me enviou, a fim de eu te ensinar tudo isto, a saber fazer discursos e praticar nobres feitos”. Nessa perspectiva, a noção de virtude não deve ser confundida com o conceito moral de virtude como entendido posteriormente, mas como excelência, superioridade, alvo supremo do herói. Trata-se da virtude do guerreiro belo, bom, fiel, honrado, etc características alegóricas universais.











Um comentário:

Ravel disse...

Parabéns pela verdadeira aula; além do ótimo conteúdo, está belissimamente ilustrada!