sexta-feira, 15 de abril de 2011

CORRER NOS GERAIS, VALÉRIA DE CÁSSIA PISAURO LIMA

O sol nascia no desejável,
Banho na serra amarelada,
Amanhecedor!
E o vento vinha quietinho,
Assoprando, devagarinho,
Como cantiga de amor!

A gente acordava desavisada,
Virando serra, penhas e nada,
Sem vontade de clarear.
Gemia como lenha no fogão,
Café, manteiga e pão
Sem medo de arriscar.

O tempo não tinha pressa,
Vivia de trapacear,
Qual riacho no sertão,
Duvidosa correnteza
Margeados de cantar,
Brejos e cantos sem razão.

O trem avisava saudades,
Distância de quem partia,
Para o longe, para sempre.
Buritizal, ribanceira,
Idas e despedidas,
Sertão prá vida inteira.

E no terreiro a romaria,
Jesus menino e Maria,
Oratório, cantorias,
Penitências e travessias,
No devagar do perdão.
Pedra Sabão e Rei-Folias.

E os pagãos, sem batismo,
No oco sem eiras e beiras
Sonhos incertos, sem oração
Exalavam nas gameleiras,
Excomungados por Deus
Vida sem penitências e perdão.

Eu, Miguilim-menino,
Míope e pé encardido,
Seguia na incerta causa,
Entre o sim e o não.
Descia as ladeiras,
De amarramento e desarrumação.

Um cantador sem plumagem,
Destino de opinião,
No meio às pedras, imagem,
Adélia, Rosa e Drummond
Sem rima, métrica ou candeia
Desnublado de poetização.

E o Gerais não sabia,
No devagar de sustentação,
Que o canto, sonho e poesia,
Era cumpridor de obrigação.

Autoria: Valéria de Cássia Pisauro Lima

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