segunda-feira, 25 de abril de 2011

CAMÕES ÉPICO: "OS LUSÍADAS"


“Mas na vastidão do império estava implícitas as causas da ruína. O pequeno reino português, nascido entre brados de guerra e fortalecido no meio do estrondo das armas, sabia conquistas; mas o mesmo pequeno reino, de recursos diminutos e pobre de gente, pela continuação da peleja, não pôde conservar as suas conquistas. As riquezas do além-mar, o ouro do novo mundo, tornaram-se a perdição da pátria. As virtudes cívicas do velho Luso não existiam às novas condições de vida. Todos queriam gozar e chegar rapidamente ao ócio que a fortuna proporciona. O arado e a enxada não bastavam para alcançar este fim; só os serviços ultramarinos, na frota e nas colônias. As grandes armadas exigiam um pessoal numeroso de marinheiros e de soldados. Naufrágios e guerras, os climas inóspitos, os cansaços das viagens, febres e pestes, a vida desregrada, dizimavam anualmente as legiões de imigrantes que saiam do Continente. Muitos deixavam-se estar nas terras estrangeiras, porque não tinham com que pagar a volta.

Assim foram escasseando pouco a pouco em Portugal os braços robustos. A indústria e o comércio definhavam; os campos jaziam incultos e maninhos. Portugal adoecera de anemia, resultante da sua grandeza colonial.”

STORCK, Wilhelm. Vida e obras de Luís de Camões. Lisboa, 1897.p.86-7.

I – INTRODUÇÃO:



Ao publicar “Os Lusíadas”, em 1572, Luís de Camões garantiu para sempre um lugar de honra na tradição cultural portuguesa. Considerado como o “Poema da Raça” ou a “Bíblia da Nacionalidade” é em termos literários a maior expressão em língua portuguesa e uma das mais importantes epopéias da literatura universal, principalmente por ser majoritariamente baseada em fatos reais e comprováveis historicamente.

Dialogando intensamente com seu tempo histórico, Camões nos legou uma visão abrangente de um momento especial: o período das grandes navegações, que não só demarca um acontecimento fundamental e ousado da própria humanidade, mas também, e, sobretudo, demarca o apogeu histórico-cultural do Império luso que, nas palavras do próprio poeta, “O Sol, logo em nascendo, vê primeiro”.
Em “Os lusíadas”, Camões procura não só justificar a empreitada portuguesa de alargamento da Fé e do Império, como também procura, de maneira patriótica, louvá-la. Para tanto, o próprio poeta procura situar sua obra num plano superior em relação às outras grandes obras épicas da Antiguidade greco-latina, tanto que logo no início de seu poema, afirma: “Cessem do sábio Grego e do Troiano/As navegações grandes que fizeram;/(...)/Que eu canto o peito ilustre Lusitano.”

II – MODELO:

Se a imitação dos clássicos antigos é á base de sustentação da nova arte, “Il dolce stil nuovo”, Camões optou pelo resgate da poesia épica. Ao fazer essa escolha, o poeta luso não só procurou uma matriz para sua obra maior, como também, se inseriu na galeria dos grandes autores universais.
“Os lusíadas”, apesar de se basear no modelo da epopéia clássica (“Odisséia” e “Ilíada”, de Homero (?), e “Eneida”, de Virgílio), diferencia-se por ser um poema fortemente impregnado da ideologia do momento em que foi escrito.
A primeira grande diferença do poema camoniano em relação ao modelo clássico é o fato de que o herói, Vasco da Gama, não é como os heróis gregos, um ser entre o divino e o humano. Ainda, embora o assunto central do poema seja a viagem de Vasco da Gama às Índias, pelo fato de se tratar de uma empresa muito próxima ao presente em que o poema foi escrito, é preciso que o poeta engrandeça o poema com fatos alheios à viagem ela mesma. Desse modo, o caráter heróico individualizado, típico das obras clássicas, é substituído no poema camoniano por uma postura coletiva, isto é, a proeza lusitana acaba se tornando obra de todo o povo português.
Camões, assim, procura enfatizar fatos remotos da história portuguesa a fim de dar dimensão épica ao poema. Constroem-se, com essa função, episódios como o de Inês de Castro, o dos Doze da Inglaterra, o do Gigante Adamastor, o da Ilha dos Amores, entre outros.
Dessa forma, o poema se desenvolve em dois planos: o histórico ou realista e o mítico ou maravilhoso, onde as referências à mitologia clássica se misturam á referências cristãs. Essa coexistência é típica do ambiente cultural do Renascimento.
Outra característica importante do poema é a sua dubiedade emocional. Seria de se esperar que, como poema épico, predominasse nele um tom de euforia e entusiasmo, que é o tom com que é aberto um poema desse estilo. No entanto, em episódios como “O Velho do Restelo” e em certa parte do epílogo, surge respectivamente, um lamento crítico pelo rumo tomado pela história portuguesa e uma melancolia depressiva diante da consciência do embrutecimento do povo português. O poeta declara que tem “a lira destemperada e a voz enrouquecida,/E não do canto, mas de ver que venho/Cantar a gente surda e endurecida”.
A atitude crítica de Camões em relação à sorte de seu país e de sua gente, bem como sua índole tão intensamente lírica, torna-se responsável por interferências da subjetividade do poeta no decurso do poema, o que é bastante diverso do que ocorre na epopéia clássica, em que a subjetividade do autor cede espaço total à objetividade dos fatos relatados.
O modelo adotado por Camões foi a “Eneida”, de Virgilio. Nessa epopéia, o poeta latino canta “as armas e o herói”, no caso Enéias, que, num primeiro momento, ocupa-se com a viagem do herói até o Lácio (Itália); e, num segundo momento, preocupa-se em narrar ás várias guerras pelas quais o herói passou para conseguir conquistar o Lácio e, finalmente, descreve a fundação do reino latino.


Virgílio relata que foi longo o tempo em que sobre a terra e sobre o mar dominou o poder dos deuses superiores, em virtude da ira da cruel Juno, irmã e esposa de Zeus ou Júpiter. Durante esse tempo, imperava os males da guerra até fundar uma cidade e transportar seus deuses para o Lácio, pequena região da Itália central, habitada pelos povos latinos, que aí fundaram várias cidades, entre as quais Roma, nascendo á raça latina.


III – ESTRUTURA:

“Os lusíadas” estão divididos em dez grandes unidades chamadas cantos, possuindo 1.102 estrofes de oito versos cada (oitava rima), totalizando 8.816 versos.
As estrofes estão organizadas em um esquema de rimas que se pode representar da seguinte maneira: ABABABCC, isto é, 1º verso rima com o 3º e 5º versos, o segundo com o 4º e 6º versos e, finalmente, o 7º com o 8º. Quanto à métrica e ao ritmo, os versos são decassílabos heróicos (acentuação na 6ª e 10ª sílabas) e sáficos (acentuação na 4ª, 8ª e 10ª sílabas).

IV – TÍTULO:

Camões foi buscar a palavra, “lusíadas” numa epístola escrita por André de Resende, em 1531. A palavra significa “os lusitanos” e, como afirma Hernâni Cidade, é um “nome que logo nos anuncia a história heróica de todo um povo. Os lusíadas são os próprios Lusos, em sua alma como em sua ação”.

V – HERÓI:


O herói de “Os lusíadas” não é Vasco da Gama, como se poderia pensar numa leitura superficial do poema, mas, sim, todo o povo português, do qual Vasco da Gama é digno representante, personagem real e simbólica. O poeta resume em Vasco da Gama toda a glória dos descobridores que o precederam e lhe sucederam. O próprio poeta afirma que vai cantar “as armas e os barões assinalados” que navegaram “por mares nunca dantes navegados”. Ou seja, todo o povo lusitano navegador que enfrenta a morte pelos mares desconhecidos (lembre-se de que corriam várias lendas sobre o Mar Tenebroso).


VI – TEMÁTICA:


O poeta deixa expresso o tema da epopéia nas duas primeiras estrofes: a glória do povo navegador português, que “entre gente remota edificaram/ Novo Reino que tanto sublimaram”, isto é, os navegadores que conquistaram as Índias e edificaram o Império Português do Oriente, bem como as memórias dos reis portugueses que tentaram ampliar o Império: “E também as memórias gloriosas/ Daqueles reis que foram dilatando/ A Fé, o Império...”. Portanto, Camões cantará as conquistas de Portugal, as glórias dos navegadores, os reis do passado; em outras palavras, a história de Portugal.


VII – ESTRUTURA CLÁSSICA:

“Os lusíadas”, como poema épico é fiel ao modelo clássico e divide-se em cinco grandes partes:

PROPOSIÇÃO: é a apresentação do poema, com destaque para o tema e o herói. São as estrofes 1,2 e 3 do Canto I:


Estrofe 1

As armas e os Barões assinalados
Que, da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca dantes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;




Estrofe 2


E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando:
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.


Estrofe 3

Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Netuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.

Na proposição, o narrador propõe a matéria épica, quer dizer, apresenta o assunto do poema informando quais os feitos heróicos que pretende celebrar: cantar os feitos dos guerreiros e dos barões ilustres (os feitos militares e os homens escolhidos) que, com extraordinária coragem enfrentaram mares descobertos (“nunca de antes navegados”) e fundaram um novo reino em terras distantes (“além da Taprobana”, antigo Ceilão, atual Sri Lanka); quer também, cantar os feitos dos reis que ampliaram as fronteiras da fé cristã (“A Fé, o Império, e as terras viciosas”, terras às quais faltava a religião cristã) e do reino português (“Novo Reino”, o Império luso na África e Ásia); e ainda, exaltar todos aqueles que, pelos feitos heróicos realizados, alcançaram a imortalidade.
O narrador, ainda, informa quais epopéias da Antiguidade Greco-Latina lhe serviram de modelo: “Cessem do sábio Grego e do Troiano” (sábio grego é Ulisses, herói da “Odisséia”, provavelmente de Homero; sábio troiano é Enéias, herói da Eneida de Vírgilo).

INVOCAÇÃO: o poeta pede inspiração as Tágides, ninfas do rio Tejo, para que lhe dêem um “engenho ardente” e “um som alto e sublimado, um estilo grandiloco”. A invocação inicial é feita nas estrofes 4 e 5 do Canto I.


Estrofe 4

E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mim um novo engenho ardente,
Se sempre em verso humilde celebrado
Foi de mim vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloquo e corrente,
Porque de vossas águas, Febo ordene
Que não tenham inveja às de Hipocrene.

O narrador declarando não mais querer o estilo singelo, parecido com o som suave da flauta, pede um estilo sublime, eloquente, parecido com o som da trombeta que incita à guerra, um estilo adequado, portanto, ao assunto grandioso que pretende desenvolver. Se atendido, Febo, o deus da poesia, ordenaria que as águas do Tejo, não mais invejarem as águas da fonte de Hipocrene, onde habitavam as Musas, que inspiravam os poetas.

DEDICATÓRIA: o poema é dedicado a D. Sebastião, rei de Portugal à época da publicação do poema. A Dedicatória se estende da estrofe 6 a 18 do Canto I.


E vós, ó bem nascida segurança
Da Lusitânia antiga liberdade,
E não menos certíssima esperança
De aumento da pequena Cristandade;
Vós, ó novo temor da Maura lança,
Maravilha fatal da nossa idade,
Dada ao mundo por Deus (que todo o mande),
Pera do mundo a Deus dar parte grande;



(...)



Vereis amor da pátria, não movido
De prêmio vil, mas alto e quase eterno;
Que não é prêmio vil ser conhecido
Por um pregão do ninho meu paterno.
Ouvireis o nome engrandecido
Daqueles de quem sois senhor supremo,
E julgareis qual é mais excelente,
Se ser do mundo Rei, se de tal gente.



Ouvi: que não vereis com vãs façanhas,
Fantásticas, fingidas, mentirosas,
Louvar os vossos, como nas estranhas
Musas, de engrandecer-se desejosas:
As verdadeiras vossas são tamanhas,
Que excedem as sonhadas, fabulosas,
Que excedem Rodamonte e o vão Rugeiro,
E Orlando, inda que fora verdadeiro.

O narrador invoca o Rei de Portugal, D. Sebastião, adolescente à época da publicação do poema, (“E vós”), cujo império estendia-se de Oriente a Ocidente: império que é o primeiro que o sol vê ao nascer e o último que deixa quando se põe.
Invoca-o como garantia da Independência de Portugal (“ó bem nascida segurança”) e esperança da expansão do mundo cristão e temor aos mouros (“novo temor da maura lança”) tenro ramo de uma dinastia preferida por Cristo.
Declara que o Rei verá amor da pátria que não busca recompensa no dinheiro, mas em ser conhecido pelo canto com que proclama a terra em que nasceu; verá seus súditos enaltecidos e poderá julgar se é melhor ser rei do mundo ou dos portugueses.
Enfatiza, ainda, que não louva façanhas mentirosas, imaginárias, porque as façanhas verdadeiras dos portugueses são superiores às de heróis lendários, como Rodamonte, personagem do poeta italiano Boiardo em “Orlando Innamorato” (séc. XV); Rugeiro, personagem de “Orlando Furioso”, de Ariosto, poeta italiano do século XVI e Orlando, de Roland, herói de Chanson de Roland, século XI, heróis dos poemas de Boiardo e Ariosto.
Camões afirma que foi levado a escrever seu poema, não pelo desejo de um prêmio vil (material), mas de um prêmio alto e quase eterno: a fama de grande poeta entre os portugueses.
O poeta exalta D. Sebastião como jovem rei destinado pelo Fado, ou pela Providência, a grandes feitos, num império já imenso, mas que ele acrescentaria ainda, dilatando a fé e o império (“para do mundo a Deus dar parte grande”).
A ideia do jovem Rei como salvador da pátria reflete a crise em que a nação já se encontrava, mas ela estava lá tão arraigada no povo que não desapareceu da sua alma nem com a morte do rei. O sebastianismo é precisamente isso: a imagem de um rei fatalmente destinado a ser salvador de uma nação em crise.
Aos louvores, segue-se o apelo. Referindo-se com modéstia à sua obra, que designa como “um pregão do ninho (...) paterno”, pede ao Rei que a leia.
Há quem considere que esta parte do poema apresenta uma estrutura própria do gênero oratório:
- um exórdio, que corresponde ao início do discurso, em que o poeta dirige-se a D. Sebastião declarando-o como o enviado providencial para assegurar a independência de Portugal, continuando a obra da dilatação da fé e do império. D. Sebastião é nos apresentado como defensor nato da liberdade da Nação, como o continuador da dilatação da Fé e do Império, como o Rei temido pelo Infiel, como o homem certo no tempo certo, “dado ao mundo por Deus”.
- uma exposição ou corpo do discurso;
- uma confirmação, em que seriam apresentados exemplos e ou argumentos;
- epílogo ou conclusão.

NARRAÇÃO: é a longa parte na qual o poeta desenvolve o tema contando os episódios da viagem de Vasco da Gama e a história de Portugal. Estende-se da estrofe 19 do Canto I até a estrofe 144 do Canto 10, totalizando 1072 estrofes.
A narração se inicia com a frota portuguesa em pleno oceano Índico, portanto, já no meio da viagem:

Canto I


Já no largo Oceano navegavam,
As inquietas ondas apartando;
Os ventos brandamente respiravam,
Das naus as velas côncavas inchando;
Da branca escuma os mares se mostravam
Cobertos, onde a proas vão cortando
As marítimas água consagradas,
Que do gado de Próteo são cortadas,



Quando os Deuses no Olimpo luminoso,
Onde o governo está da humana gente,
Se ajuntam em consílio glorioso,
Sobre as cousas futuras do Oriente.
Pisando o cristalino Céu fermoso,
Vêm pela Via Láctea juntamente,
Convocados, da parte de Tonante,
Pelo neto gentil do velho Atlante.




Essas são as duas primeiras estrofes da Narração, a parte mais longa do poema, já que nela vai-se desenvolver a matéria épica apresentada na Proposição.

Ocorre, porém, que a obra clássica exige a unidade de ação; assim, dentre os inúmeros feito portugueses, Camões escolhe narrar a viagem de Vasco da Gama, que descobriu o caminho marítimo para as Índias.
Observe que a ação começa com os portugueses já em alto-mar, cortando as águas povoadas pelos peixes, o gado de Proteu; nesse momento, no Olimpo, Tonante, isto é, Júpiter, pede que o neto gentil do velho Atlante, o deus Mercúrio, convoque os deuses para um conselho, uma assembléia, sobre as cousas futuras do Oriente: os deuses julgarão se os portugueses devem ou não ser bem-sucedidos nessa empreitada.
Aos deuses reunidos, Júpiter declara ter decidido que os portugueses, tendo já vencido tantos obstáculos e passado por tantas provações, inclusive todo o inverno no mar, deveriam ser recebidos como amigos na costa oriental da África e, depois de reabastecidos, seguiriam viagem, pois achava justo que lhes fosse mostrada a terra que procuravam.
Baco, deus que preside a luxúria e os excessos da mesa e do vinho, porém, discorda: não queria perder seu domínio no Oriente e temia ser esquecido, caso os portugueses lá chegassem; Netuno, deus dos oceanos, também se opõe, pois os portugueses dominariam os mares.
Vênus, deusa do amor e da beleza, contudo, revela-se afeiçoada aos lusitanos, que lhe lembravam seus queridos romanos, na coragem e na língua que falavam, parecida com o latim; Marte, deus da guerra, fica ao lado de Vênus, pois admira a bravura dos portugueses.
Importa saber o papel desempenhado pela mitologia ao longo da narrativa: esse “maravilhoso”, isto é, esses elementos fantásticos vão intervir na ação, participando intensamente das peripécias da viagem.
Nesse sentido, ocorre certa inversão de papéis, já que os homens mostram-se impassíveis e os deuses é que se conduzem de acordo com suas paixões: inveja, ciúme, afeto, admiração etc. Enquanto Baco e Netuno agem para pôr a perder os portugueses, preparando ciladas e armadilhas, Vênus, principalmente, e Netuno vão-nas desfazendo.
Assim, do ponto de vista dramático, são os deuses que dão sustentação à ação do poema; a ação passa a desenvolver-se não só no plano histórico-factual, mas também no plano poético.
Veja que, se não houvesse a intervenção do maravilhoso, o poema seria a narração monótona de uma viagem por mar, um diário de bordo em versos.
Depois da assembléia, a narração volta a acompanhar a frota de Vasco da Gama, que chega a Moçambique, onde Baco prepara uma cilada. Os portugueses conseguem safar-se e prosseguem a viagem até Mombaça.

Canto II

Narra a viagem de Mombaça a Melinde. Em Mombaça, o rei, aliciado por Baco, convida os portugueses a desembarcarem.
Vasco da Gama envia a terra dois emissários. Baco, disfarçado de cristão, fornece-lhes informações falsas. Vênus intervém, impedindo que os lusitanos sejam derrotados pelos mouros, e vai queixar-se a Júpiter, pedindo-lhe que proteja os bravos portugueses. A viagem continua até Melinde, onde a esquadra é recebida festivamente.

-Mas antes, valeroso Capitão,
Nos conta (lhe dizia), diligente,
Da terra tua o clima e região
Do mundo onde morais, distintamente;
E assi de vossa antiga geração,
E o princípio do Reino tão potente,
Cos sucessos das guerras do começo,
Que, sem sabê-las, sei que são do preço.



Canto III

Camões instaura o próprio Vasco da Gama como segundo narrador. De fato, ao chegar a Melinde, na costa oriental da África, o Gama é recebido pelo rei que, estupefato diante da proeza dos portugueses, pede-lhe que conte a história de povo tão valoroso.
Neste Canto, é contada a história da primeira dinastia portuguesa desde a formação do Estado independente até a Revolução de Avis.
Narra a batalha de Ourique, que deu origem ao país, em que Afonso Henriques venceu os castelhanos. Narra os acontecimentos dos reinados de Sancho I, Afonso II, Sancho II, Afonso III e D. Dinis. Contando os fatos do reinado de Afonso IV, destaca a batalha do Salado.
Ao narrar o governo de D. Pedro, Camões escreve o mais belo episódio lírico do poema: o caso de Inês de Castro.
D. Pedro, filho de D. Afonso IV apaixonou-se por Inês de Castro, de Castela. O amor que devotava a essa mulher fazia-o recusar qualquer casamento que a corte lhe impunha por razões políticas.
Da união de D. Pedro e Dona Inês nasceram filhos, e a corte temia que quando se tornasse rei, D. Pedro, influenciado pela amante, anexasse novamente Portugal a Castela.
Assim, os cortesãos exigiram de D. Afonso que mandasse matar Inês, para que Portugal não corresse tal risco.
Morto D. Afonso, D. Pedro sobe ao trono e vinga-se espetacularmente: persegue os assassinos da amada e os mata. Além disso, manda exumar o cadáver de Inês e a coroa rainha.
Camões, ao poetizar esse episódio, desloca o problema histórico-político para um segundo plano, sobrevalorizando o amor em si dos dois amantes, isto é, a justificação do martírio de Inês relacionada ao fato de ela ter simplesmente amado demais.
Nesse sentido, observa Carlos Felipe Moisés, “ao personificar o amor, qualificando-o de “fero, áspero e tirano”, o poeta pretende mostrar a insaciabilidade e o caráter irracional desse sentimento, que não levaria ao prazer e à felicidade, mas à infelicidade. A metáfora do sacrifício (...) sugere que os amantes devem ser punidos pela ousadia do amor extremado (“puro amor”), só justificável quando do homem para com Deus, e não entre humanos. A dramaticidade do episódio provém dessa ideia de que Inês foi assassinada por amar demais”.

Estrofe 118

Passada esta tão próspera vitória,
Tornado Afonso à Lusitana terra,
A se lograr da paz com tanta glória
Quanta soube ganhar na dura guerra,
O caso triste, e digno de memória
Que do sepulcro os homens desenterra,
Aconteceu da mísera e mesquinha
Que depois de morta foi rainha.


Estrofe 119

Tu, só tu, puro amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano.

Nessa estrofe o narrador acusa o Amor ser o causador da morte de Inês, como se ela fosse uma inimiga, acrescentando que o amor é cruel, pois não se contenta com lágrimas; exige, como um Deus tirano, que vitimas humanas sejam sacrificadas em seus altares.


Estrofe 120


Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito;
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus formosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.

O narrador evoca Inês, recordando que ela estava em Coimbra, desfrutando da alegria breve e enganosa da juventude; nos campos do Mondego, rio que corta a cidade de Coimbra, chorando lágrimas de amor, ensinava aos montes e às plantas o nome do amado que trazia escrito no peito – Pedro.

Estrofe 121

Do teu Príncipe ali te respondiam
As lembranças que na alma lhe moravam,
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus fermosos se apartavam,
De noite, em doces sonhos que mentiam,
De dia,, em pensamentos que voavam.
E quanto, em fim, cuidava e quanto via
Eram tudo memórias de alegria.

As lembranças do Príncipe respondiam-lhe em sonhos e pensamentos, pois, mesmo distante, dela jamais se esquecia; pensava nela e sonhava com ela, e tudo quanto penava ou via deixava-o feliz.
Nessa estrofe Camões instaurou intencionalmente a ambiguidade: os sonhos e os pensamentos, duas formas de lembranças, sugerindo a perfeita união dos amantes, identificados um no outro.

Estrofe 125

Pera o céu cristalino alevantando,
Com lágrimas, os olhos piedosos
(Os olhos, porque as mãos lhe estava atando
Um dos duros ministros rigorosos);
E depois nos meninos atentando,
Que tão queridos tinha e tão mimosos,
Cuja orfandade como mãe temia,
Pera o avô cruel assim dizia:

Nessa estrofe o narrador informa que, quando os carrascos trouxeram Inês diante do Rei, ele já estava comovido e apiedado, arrependido; o povo, porém, alegando falsas razões, convence-o a matá-la.
Inês, com palavras ditadas pela mágoa e pela saudade de seu Príncipe e filhos, o que a fazia sofrer mais que a própria morte, levantou chorando os olhos para o céu, só os olhos, porque um carrasco lhe estava atando as mãos; depois, olhando para os filhos que ficariam órfãos, começou a falar ao cruel avô.


Estrofe 126


Se já nas brutas feras, cuja mente
Natureza fez cruel de nascimento,
E nas aves agrestes, que somente
Nas rapinas aéreas tem o intento,
Com pequenas crianças viu a gente
Terem tão piedoso sentimento
Como co’a mãe de Nino já mostraram,
E c’os irmãos que Roma edificaram;

Estrofe 127

Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito
(Se de humano é matar uma donzela,
Fraca e sem força, só por ter sujeito
O coração a quem soube vencê-la),
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o não o tens à morte escura dela;
Mova-te a piedade sua e minha,
Pois não te move a culpa que não tinha.


Estrofe 128

E se, vencendo a Maura resistência,
A morte sabes dar com fogo e ferro,
Sabe também dar vida, com clemência,
A quem pera perdê-la não fez erro.
Mas, se to assim mercê esta inocência,
Põe-me em perpétuo e mísero desterro,
Na Cítia fria ou lá na Líbia ardente,
Onde em lágrimas viva eternamente.



Estrofe 129

Põe-me onde se use toda a feridade,
Entre leões e tigres, e verei
Se neles achar posso a piedade
Que entre peitos humanos não achei.
Ali, c’o amor intrínseco e vontade
Naquele por quem morro, criarei
Estas relíquias suas que aqui viste,
Que refrigério sejam da mãe triste.

Inês dirige-se a D. Afonso e observa que já se viu animais ferozes e aves de rapina terem piedade com crianças, recordando o caso de Semíramis, a mãe de Nino, que, segundo escritores da Antiguidade, teria sido criada por aves de rapina, e o caso dos fundadores de Roma, Rômulo e Remo, que teriam sido amamentados por uma loba.
Se assim era entre animais, ele, D. Afonso, que tinha o coração e o rosto humano, se realmente é um ato humano matar uma mulher só porque entregou o coração a quem soube cativá-la, devia ter consideração com as crianças, já que não a tinha pela morte da mãe delas. Pede então ao rei que se compadeça dela e dos filhos, já que não lhe perdoava a culpa que não tinha.
Inês pondera, em seguida, que D. Afonso, sabendo dar a morte, como já o demonstrara com os mouros, devia saber também dar a vida a quem era inocente; mas, se mesmo sabendo-a inocente, quisesse castigá-la, que a desterrasse para um lugar distante, para a gélida Cítia ou para a tórrida Líbia.
Inês sugere, enfim, que o rei a mande viver junto de feras, nas quais poderia achar a piedade que não encontrara nos homens. Ali, por amor daquele por quem morria, criaria os filhos, relíquias que o amado lhe dera e, que seria sua consolação.
Comovido pelas palavras de Inês, o bondoso rei queria perdoar-lhe, mas o povo e o próprio destino de Inês não lhe perdoam. Os que queriam a morte da moça, porque a julgavam um ato legítimo, puxam as espadas.

Estrofe 131

Qual contra a linda moça Policena,
Consolação extrema da mãe velha,
Porque a sombra de Aquiles a condena,
C’o ferro o duro Pirro se aparelha;
Mas ela, os olhos com que o ar serena
(Bem como paciente e mansa ovelha)
Na mísera mãe postos, que endoudece,
Ao duro sacrifício se oferece:



Estrofe 132

Tais contra Inês os brutos matadores,
No colo de alabastro, que sustinha
As obras com que Amor matou de amores
Aquele que depois a fez Rainha,
As espadas banhando, e as brancas flores,
Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Se encarniçavam, férvidos e irosos,
No futuro castigo não cuidosos.

Neste momento, o narrador compara o sacrifício de Inês ao de Policena. Segundo a mitologia, Policena era noiva de Aquiles. Morto Aquiles em combate, seu fantasma apareceu ao filho Pirro, ordenando-lhe que imolasse Policena sobre seu túmulo. Ela entregou-se ao sacrifício serenamente, olhando para a mãe com olhos de mansa ovelha; já a mãe, de dor, enlouqueceu.
Do mesmo modo, os matadores de Inês a ela se atiram, descuidosos do castigo que os esperava: banham as espadas no pescoço de alabastro, que sustentava o belo rosto que matou de amores aquele que depois a fez rainha.
Observe que as “obras” de que fala o narrador são os traços do rosto de Inês, que despertaram a paixão de Pedro. A metáfora “brancas flores” corresponde às faces de Inês empalidecidas, cobertas de lágrimas, que também acabaram banhadas de sangue.

Estrofe 134

Assim como a bonina que cortada
Antes do tempo foi, cândida e bela,
Sendo das mãos lascivas maltratada
Da menina que a trouxe na capela,
O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Tal está, morta, a pálida donzela,
Secas do rosto as rosas e perdida
A branca e viva cor, co’a doce vida.


Estrofe 135

As filhas do Mondego a morte escura
Longo tempo chorando memoraram;
E, por memória eterna, em fonte pura
As lágrimas choradas transformaram,
O nome lhe puseram, que inda dura
Dos amores de Inês, que ali passaram.
Vede que fresca fonte rega as flores,
Que lágrimas são a água e o nome Amores.

Com pesar, o narrador compara a morte de Inês a de uma flor, uma bonina, quando cortada por uma criança que a quer numa grinalda. Morta, Inês, como a flor, perde o perfume e a cor: com a morte, Inês perdera a vida e tivera secadas as flores do rosto, isto é, perdera também o rosado que iluminava sua alva face.
Segundo o narrador, as ninfas do rio Mondego por muito tempo recordaram com lágrimas a morte de Inês; essas lágrimas, porém, perpetuam sua memória, pois delas brotou exatamente onde aconteceu o infeliz romance de Pedro e Inês, fonte chamada “dos amores de Inês”.
Ainda no canto III, Vasco da Gama relata o reinado do justiceiro D. Pedro I e de D. Fernando.

Canto IV

Vasco continua a narrar ao rei de Melinda a história de Portugal: a confirmação de D. João I no trono português e a inauguração da segunda dinastia, período que vai desde a Revolução de Avis, depois da batalha de Aljubarrota, cujo principal herói é Nuno Álvares até a saída da frota de Gama, já no governo de D. Manuel.
Informa que no reinado de D. João I teve início a expansão ultramarina, com a tomada de Ceuta. Narra, em seguida, os acontecimentos dos reinados de Duarte I, Afonso V, João II e Manuel I, quando a expansão alcançou seu apogeu.
Em tal circunstância, de profunda comoção, já que tais viagens eram norteadas por grandes incertezas e o risco de não voltar era real, Vasco, ao descrever os vários lamentos e saudades dos que ficavam, destaca que entre as diversas vozes que choram a saída dos portugueses está á voz do velho do Restelo. Mas palavras do crítico literário Hernani Cidade, essa voz é a que se apresenta “com sentido mais profundo e mais largo” e que haveria de ressoar por vários séculos.

Estrofe 89

Em tão longo caminho e duvidoso
Por perdidos as gentes nos julgavam,
As mulheres c’um choro piedoso,
Os homens com suspiros que arrancavam.
Mães, Esposas, Irmãs, que o temeroso
Amor mais desconfia, acrescentavam
A desesperação e frio medo
De já nos não tornar a ver tão cedo.

Vasco da Gama relata que, no dia de sua partida, vieram pessoas da cidade por causa dos amigos ou parentes ou só para ver o grande acontecimento, mostrando-se temerosas e tristes.
Os marinheiros, acompanhados de frades, que rezavam, dirigiam-se aos navios, enquanto os que presenciavam a cena já os tinham como perdidos: as mulheres choravam e os homens suspiravam, pois a viagem era longa e incerta.


Estrofe 90


Qual vai dizendo: - Ó filho, a quem eu tinha
Só pêra refrigério e doce amparo
Desta cansada já velhice minha,
Que em choro acabará, penoso e amaro,
Porque me deixas, mísera e mesquinha?
Porque de mim te vás, ó filho caro,
A fazer funéreo enterramento
Onde seja de peixes mantimento?



Estrofe 91

Qual em cabelo: - Ó doce e amado esposo,
Sem quem não quis Amor que viver possa,
Porque is aventurar ao mar iroso
Essa vida que é minha e não é vossa?
Como, por um caminho duvidoso,
Vos aquece a afeição tão doce nossa?
Nosso amor, nosso vão contentamento,
Quereis que com as velas leve o vento?


As mães, esposas e irmãs sofriam mais intensamente que os outros, desesperadas. Uma delas queixa-se ao filho, alegando que ele a abandonava na velhice para ser comido pelos peixes; outra, com o cabelo descoberto, fala ao marido, dizendo-se magoada, porque ele iria arriscar uma vida que pertencia a ela e trocaria o amor de ambos pela incerteza do mar e dos ventos.
As lágrimas da multidão encharcavam as areias da praia. Os marinheiros, a fim de não se arrependerem, nem olhavam para as mães e esposas desesperadas.
Os marinheiros, acompanhados de frades, que rezavam, dirigiam-se aos navios, enquanto os que presenciavam a cena já os tinham como perdidos.
Os velhos e as crianças, mais fracos pela idade, acompanhavam as lamentações, também ecoadas pelos montes.
As lágrimas da multidão encharcavam as areias da praia.
Vasco da Gama decidiu então que não haveria despedidas, pois elas fazem sofrer quem parte e quem fica. Mas um velho, de aspecto venerável, que estava no meio da multidão, olhando os marinheiros, meneando a cabeça, descontente, levantou a voz, que do mar se pôde ouvir, e começou a fazer um discurso, tirando as palavras do experiente peito:


Estrofe 95


Ó glória de mandar, ó vã cobiça
Desta vaidade a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
C’uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!



Estrofe 97

A que novos desastres determinas
De levar estes Reinos a esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas,
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessa de reinos e de minas
De ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?

Esse episódio sempre suscitou discórdia entre os estudiosos de Camões, pois como conceber um momento de censura e condenação à viagem de Vasco da Gama num poema que, todo ele, foi feito para louvar os grandes feitos dos portugueses emblematizados justamente nessa mesma viagem. Segundo Hernani Cidade, essa aparente contradição se resolve se pensarmos que, na realidade, a condenação é contra “a vaidade e a cobiça dos que governam” que para a execução de seus projetos de alargamento da fé e do império impõem ao povo luso uma grande dose de sacrifício: “A que novos desastres determinas/De levar estes Reinos e esta gente?/Que perigos, que mortes lhe destinas,/Debaixo dalgum nome preminente?”
Por meio de prosopopéia, personificando “a glória de mandar” e “a inútil cobiça da fama”, o velho as interpela duramente. Ressalta que são apenas vaidades, já que os homens se atiram com prazer a ambas, porque são estimulados pela noção de honra, por sua vez dependente da reputação que lhes atribui á opinião pública.
Além disso, acusa de castigar os homens de coração vazio com mortes, perigos, tormentas e crueldades.
O velho acrescenta, ainda, que essa ambição, embora seja chamada de ilustre e sublime,, causa abandonos e adultérios, destrói riquezas e impérios.
Ao invés de nomearem-na Fama e Glória, nomes com os quais se engana o povo ignorante, ela na verdade deveria merecer só nomes infamantes.
Irado, indaga-lhes sob que pretexto altissonante pretendia levar aqueles homens e o reino a novos desastres; indaga-lhes que promessas levianas de minas de ouro, reinos, triunfos e vitórias faziam para seduzi-los.

Estrofe 100

Não tens Juno contigo o Ismaelita,
Com quem sempre terás guerras sobejas?
Não segue ele do arábio a lei maldita,
Se tu pela de Cristo só pelejas?
Não tem cidades mil, terra infinita,
Se terras e riquezas mais desejas?
Não é ele por armas esforçado,
Se queres por vitórias ser louvado?

O velho dirige-se agora à geração de Adão, o louco que, pelo pecado e desobediência, fora expulso do Paraíso, privado da inocente idade de ouro e desterrado para a de ferro e guerras.
Observa que, já que o gênero humano se iludia nessa vaidade, já que dava o nome de valentia à crueldade, já que desprezava tanto a vida que o próprio Cristo receou perder, aqueles descendentes de Adão que partiam tinham junto de si os mouros, com quem sempre guerreavam; se diziam guerrear pela fé cristã, os mouros seguiam a lei de Maomé; se queriam terras e cidades, os mouros as tinham em quantidade; se procuravam a glória das vitórias, os mouros eram valentes guerreiros.

Estrofe 102

Oh! Maldito o primeiro que no mundo
Nas ondas vela pôs em seco lenho!
Digno da eterna pena do Profundo,
Se é justa a justa Lei que sigo e tenho!
Nunca juízo algum, alto e profundo,
Nem cítara sonora ou vivo engenho,
Te dê por isso fama nem memória,
Mas contigo se acabe o nome e a glória!



Num assomo de indignação, o velho do Restelo amaldiçoa o primeiro que construiu um navio, dizendo-o digno do Inferno, e exorta a que nenhum homem de grande espírito ou nenhum poeta lhe eternize a memória, pois ele só merece o esquecimento.
Apesar de alertar os perigos e sacrifícios que norteiam tal empreendimento e ainda o possível risco de Portugal se enfraquecer despovoando o “reino antigo”, deve-se ressaltar também que, na última estrofe do episódio, o velho do Restelo termina sua fala colocando o problema da superação humana, isto é, a capacidade humana de sempre tentar superar as suas adversidades. Tal fato confere um tom universalizante ao poema, já que a superação humana, segundo o crítico português Silvério Augusto Benedito “é um dos valores que tornam universal no espaço e no tempo este poema épico que cantou um grande passo da Humanidade”.

Canto V


Ainda em Melinde, Vasco da Gama agora narra a viagem de Portugal ao Canal de Moçambique, no Índico. São vários obstáculos, representados ora por fenômenos naturais, como a tromba marítima, ora por doenças como o escorbuto. Neste Canto, Vasco narra a passagem pelo Cabo das Tormentas, personificado na figura do Gigante Adamastor, que os deuses haviam punido transformando-o no promontório; diálogo entre Vasco da Gama e o Gigante.

Continua o relato até a chegada da esquadra a Melinde.

Escorbuto:

Nome de uma doença provocada pela carência de vitamina C. Surgem placas esbranquiçadas pelo corpo, as gengivas incham e sangram, há hemorragias internas e externas. Em pouco tempo, as gengivas apodrecem e os doentes falecem.
O escorbuto atacava os navegadores portugueses principalmente na região próxima ao trópico de Capricórnio, nas costas africanas, daí o escorbuto ser também conhecido como “mal de Luanda”- Luanda, capital de Angola.
Era um dos males mais temidos pelos navegadores, assim mostrado por Camões:

Estrofe 81

E foi que, de doença crua e feia,
A mais que eu nunca vi, desampararam
Muitos a vida, e em terra estranha e alheia
Os ossos para sempre sepultaram.
Quem haverá que, sem o ver, o creia,
Que tão disformemente ali lhe incharam
As gengivas na boca, que crescia
A carne e juntamente apodrecia?



Canto VI

Os portugueses partem de Melinde em direção às Índias. Baco desce ao reino de Netuno e pede aos deuses marinhos que liberem os ventos contra a frota portuguesa. O marinheiro Veloso entretém os companheiros contando-lhes a lenda dos “Doze de Inglaterra”, mas sua estória é interrompida pela sobrevinda de uma tempestade. Vênus intervém, e com as ninfas, que seduzem os ventos, abranda a tempestade. Cessada a tempestade, já se avista Calicute, na Índia.


Canto VII


Há uma descrição da Índia e dos primeiros contatos com os mouros. Camões interrompe a narração para lamentar-se de sua vida miserável, de várias injustiças sofridas, e mostra os primeiros sintomas de cansaço.
Em terra, o Gama é recebido pelo catual, o embaixador do Samorim, governante local. Ao visitar as caravelas, o catual fica impressionado com as insígnias e bandeiras.

Canto VIII

Continua a narração dos acontecimentos na Índia; mais problemas com os mouros, incitados por Baco e referências ao comércio.
Vasco da Gama é preso, mas liberta-se dando aos mouros, mercadorias valiosas.

Canto IX

Relato dos últimos acontecimentos na Índia; há perigo de navios vindos de Meca e destruírem os portugueses. Vasco apressa a partida, iniciando a viagem de volta.
Como prêmio, os navegadores param na Ilha dos Amores e recebem o carinho das ninfas. Vasco da Gama ama Tétis, enquanto os marinheiros entregam-se a jogos eróticos com as Ninfas.

Canto X


Ainda na Ilha dos Amores, Tétis oferece um banquete aos portugueses. Depois, conduz Vasco da Gama ao alto de uma colina, de onde lhe descortina “a máquina do mundo”, a organização do Universo, que segue ainda a concepção geocêntrica, de Ptolomeu.


Uma ninfa profetiza novos feitos heróicos dos portugueses; Tétis antevê novas glórias a tão notável povo, e despe-se. A frota deixa a Ilha dos Amores e regressa a Portugal.


EPÍLOGO: é o final do poema, abrangendo as estrofes 145 a 156 do Canto X. O Epílogo inicia-se com uma das mais belas e angustiadas estrofes de todo o poema, na qual o poeta mostra-se triste, abatido, desiludido com a Pátria, que não merece mais ser cantada:


Estrofe 145


No’mais, Musa, no’mais, que a lira tem
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho,
Não no dá a Pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza.

Com essa estrofe, o narrador propõe a terminar o canto, alegando que sua lira está desafinada e sua voz enrouquecida, isto é, não há como continuar, não porque tenha cantado muito, mas por fazê-lo para gente “surda e endurecida”. Dessa forma, a pátria não mais o inspira, não mais acende seu engenho, já que se deixou levar pela cobiça e está mergulhada em grave e soturna tristeza.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

- Desde o século XV, já se alimentava a ideia de celebrar a expansão marítima portuguesa num poema épico, e até um humanista italiano, Ângelo Policiano, se oferecera a D. João II para realizar tal obra. Assim, é importante relacionar o Epílogo com o episódio do velho do Restelo que parecem corresponder a uma nota dissonante nesse poema de exaltação patriótica.
Entretanto, é possível admitir outra interpretação. Trata-se de identificar, na voz do narrador, a voz do poeta que soube reconhecer o relaxamento moral do povo português, o qual se teria deixado inebriar pelo poder e riquezas alcançadas com a expansão ultramarina.
Dessa forma, a fala do velho do Restelo, condenando a aventura de Vasco Gama e amaldiçoando o primeiro a construir um navio, reveste-se de extraordinária dimensão poética, porque pode ser lida como a recuperação do coro das tragédias gregas, no seu papel de profetizar as consequências funestas de certos atos humanos.

- Embora a presença da mitologia dê dimensão poética a “Os Lusíadas”, não se pode afirmar que a obra tenha vínculos doutrinários como o paganismo, já que o poema pode ser lido como cristão, como expressão artística do “espírito de cruzada”.

- Camões faz em seu poema a exaltação do homem do Renascimento, como um ser superior, tanto que Baco, quando incita as divindades marinhas a destruir os portugueses, demonstra o receio de que “venham a deuses ser, e nós humanos”.
Essa dimensão homens versus deuses explicita-se no Canto IX, por meio do encontro sexual dos marinheiros com as Ninfas. Além de imortalizar os homens que se havia submetido ao esforço sobre-humano, ele permite que Vasco da Gama, conduzido por Tétis, contemple a “máquina do mundo”, isto é, a cosmovisão, de acordo com a teoria ptolomaica: se o homem é a “medida de todas as coisas”, nada mais adequado que a Terra fosse o centro do Universo.
Assim, a visão moderna da superioridade do Homem sobre a Natureza, presente na obra, talvez explique a importância dos episódios líricos que se sucedem em seu decorrer. Nesse sentido, além dos atos de bravura, muitas vezes circunstanciais, valeria enfatizar o que há de propriamente “humano” nos mortais: seus sentimentos e emoções.
Assim, a obra “Os lusíadas” oferece-se como espelho ao homem do século XXI, para que reflita sobre o verdadeiro móvel de suas ações.

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