segunda-feira, 14 de março de 2011

O HUMANISMO E A PROSA HISTORIOGRÁFICA DE FERNÃO LOPES


1. INTRODUÇÃO:


O antropocentrismo – o predomínio do humano sobre o transcendente – era o eixo dessa nova filosofia, que seria posteriormente conhecida sob o nome de Humanismo. A palavra deriva da expressão latina “studia humanitatis”, que se referia ao aprendizado, nas universidades, de poética, retórica, história, ética e filosofia, entre outras disciplinas. Elas eram conhecidas como artes liberais, porque se acreditava que dariam ao ser humano instrumentos para exercer sua liberdade pessoal.


Num sentido específico, tem ainda o seguinte sentido: para o pensador romano Cícero, “humanitas” significa “cultivo da mente”, certo tipo de educação ampla necessária à atuação adequada na vida social; para os gregos, a palavra “paidéia” designava o mesmo tipo de educação; essa educação deveria permitir às pessoas a exploração de todo a trajetória do conhecimento humano, incluindo as ciências e a Matemática, a fim de desenvolver todo seu potencial.


O homem é a medida de todas as coisas”, frase de autoria do filósofo grego Protágoras que sintetiza o Humanismo.


A fonte original de todo Humanismo foi o estado de espírito que grou o Renascimento e, num primeiro momento, entende-se como uma retomada do estudo dos autores antigos de uma maneira numérica e qualitativamente mais intensa do que se fazia durante a Idade Média.

A época era de redescoberta e reinterpretação das obras dos pensadores da Antiguidade a partir de seu próprio contexto histórico.
O interesse por esse período da história resultou o Humanismo europeu do século XIV, que consistiu basicamente na afirmação da dignidade e dos valores humanos, desdobrando-se historicamente no Iluminismo do século XVIII, até chegar aos nossos dias, por exemplo, na Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Deve-se lembrar que no momento em que aflora o movimento humanista a Europa se encontra por um lado, dominada pela ideologia da Igreja Católica, o Teocentrismo, a serviço da dominação das massas e da manutenção do poder das autoridades religiosas que, normalmente, acumulavam os poderes espiritual e temporal, e por outro, a revitalização das cidades, a formação de redes de comércio entre centros distantes, a consolidação de uma classe mercantil muito abastada, a criação de bancos e a centralização do poder político em torno de cidades ou de reinos.
A principal arma de combate dos humanistas contra o Teocentrismo e seus dogmas foi á faculdade humana da razão, exercida por meio da observação do mundo pelos filósofos. O uso da razão tinha por fim promover o desenvolvimento das capacidades humanas, abrindo novas possibilidades para a humanidade como um tal. Tal concepção de pensamento chamava-se Antropocentrismo. Essa nova perspectiva de ver o universo e a natureza fez com que o homem tentasse explicá-los através da ciência. Desse modo, essa nova atitude implicou o nascimento da ciência moderna e da Matemática nos trabalhos de Giordano Bruno, Leonardo da Vinci, Galileu e Nicolau Copérnico, entre outros.


2. CONTEXTO HISTÓRICO-SOCIAL:

O humanismo é, dentro do revolucionário mosaico renascentista, um nostálgico e sentimental retorno à cultura e às letras clássicas.


Ambrogio Lorenzetti (c. 1290 - c. 1348). A Vida na Cidade. Os Efeitos do Bom Governo (c. 1337-1340). Afresco (detalhe). Siena, Palazzo Pubblico, Sala dei Nove.


O Humanismo surgiu inicialmente nas cidades prósperas da Itália, aonde vieram se alojar, sob a proteção dos mecenas, sábios foragidos da sede do Império Romano do Oriente, Constantinopla, antiga Bizâncio. Tais sábios traziam consigo as obras dos autores antigos, gregos e latinos. Esses autores, pouco lidos durante a Idade Média, começaram a ser novamente divulgados no Ocidente e o interesse por suas obras é que constituirá o Humanismo, movimento preparador do Renascimento.
O Humanismo português vai desde a nomeação de Fernão Lopes para o cargo de cronista-mor da Torre do Tombo, em 1434, até o retorno de Sá de Miranda da Itália, em 1527, quando começou a introduzir em Portugal a nova estética clássica.
Torre do Tombo: arquivo do Reino, onde se guardavam os documentos oficiais. A Torre do Tombo foi destruída por um terremoto em 1755, mas o arquivo conservou sempre o mesmo nome.
Situada no Campo Grande, na Cidade Universitária, na zona norte da cosmopolita capital de Portugal, Lisboa, a Torre do Tombo é a designação do arquivo central do País, desde os remotos tempos da Idade Média.
Anteriormente, o arquivo central situava-se na Torre do Tombo do Castelo de São Jorge (de 1378 a 1755), ficando desde aí a sua designação.


Estando em perigo no grande terramoto de 1755, mudou-se o seu importante conteúdo para o Palácio de São Bento onde se manteve até à construção do edifício atual em 1990, pertencendo agora à tutela do Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo (IANTT).


O projeto do atual edifício foi assinado por Arsénio Cordeiro e António Barreiros, ocupando uma área de 54.900 metros quadrados, contando com uma área de arquivo e investigação, outra para a realização das mais variadas atividades culturais e outra para os necessários serviços administrativos.


3. PROSA HISTORIOGRÁFICA DE FERNÃO LOPES:

"Fernão Lopes é a perfeição do estilo simples,
direto e nervoso na prosa portuguesa....".

William J. Entwistle.


3.1. DADOS CRONOLÓGICOS:

A compreensão das mudanças políticas e das decorrentes transformações sociais no cenário português nos fins do século XIV torna-se uma tarefa mais fácil e agradável, graças à possibilidade de utilização da obra de Fernão Lopes. Não é de impressionar o grande número de historiadores que se serviram e se servem dos relatos deste cronista: Fernão Lopes é o maior responsável pelas fontes históricas da nação portuguesa.
Abolindo a barreira do tempo, faz ressurgir o passado, permitindo aos leitores viver com ele acontecimentos que alteraram profundamente a sociedade portuguesa.
Um "homem de comunal ciência", Fernão Lopes foi apelidado de "pai" da História Portuguesa. E, de fato, este cronista/historiador teve uma importância fulcral para a História e Cultura de Portugal.
Fernão Lopes deu-nos a conhecer uma nova concepção da História, marcada, sobretudo, pela imparcialidade que se esforça por manter.
As suas crônicas transbordam de visualidade, realismo descritivo e dramatização, que a par de uma simplicidade linguística a todos atrai. Embora a sua obra não seja extensa a Crônica de D. João I é considerada uma obra-prima.


3.2. TRAÇOS BIOGRÁFICOS:


Fernão Lopes deve ter nascido entre 1378 e 1390, aproximadamente, visto que em 1418 já ocupava funções públicas de responsabilidade. Pertencia, portanto à geração seguinte à que se bateu no cerco de Lisboa e na batalha de Aljubarrota. A guerra com Castela acabou em 1411, pelo que Fernão Lopes pode ainda acompanhar a sua fase, e conhecer pessoalmente alguns dos seus protagonistas, como: D. João I, Nuno Álvares Pereira, os cidadãos de Lisboa que enfrentaram D. Leonor Teles e elegeram o Mestre de Avis seu defensor em comício popular, alguns dos procuradores às Cortes de Coimbra de 1385 que, apoiando o Dr. João das Regras declararam o trono vago e, chamando a si a soberania, elegeram um novo rei e fundaram uma nova dinastia.
Profissionalmente, Fernão Lopes era um tabelião, provavelmente de origem humilde, viloa, mesteiral, porque contava um sapateiro na família de sua mulher. Foi empregado da família real e da corte, escrivão de D. Duarte, ainda infante, do rei D. João I, e do infante D. Fernando, em cuja casa ocupou o importante posto de «escrivão da puridade».
Foi um dos últimos representantes do saber popular, pois já no seu tempo a imitação aos clássicos começava aflorar. Do ponto de vista da forma, o seu estilo representa uma literatura de expressão oral e de raiz popular. Ele próprio diz que nas suas páginas “não se encontra a formosura das palavras, mas a nudez da verdade”. Era um autodidata e considerado o maior historiógrafo de língua portuguesa, aliando a investigação à preocupação pela busca da verdade.
A partir de 1418 aparece a desempenhar as funções de guarda-mor da Torre do Tombo, ou seja, de chefe dos arquivos do Estado, lugar de confiança da corte.
Como burocrata ao serviço do Rei e da Corte, ele se apresentava como "...guardador das escrituras do Tombo, isto é, responsável pela conservação do Arquivo Geral do Reino, que, desde o Reinado de D. Fernando, ocupava uma Torre do Castelo de Lisboa" (FERREIRA:09).
Como prêmio dos seus serviços recebeu o título de «vassalo de El-rei», carta de nobreza atribuída então com certa liberalidade a membros das classes não nobres.
E foi em 1434 que Fernão Lopes recebeu o encargo de D. Duarte de "pôr em crônicas as histórias dos reis que antigamente foram em Portugal e os feitos de D. João I" (COELHO:199). Assim, vemos que a crônica maior deste escritor foi concebida 60 anos após os acontecimentos de 1383-1385.
Durante este longo período de atividade, Fernão Lopes atravessou os reinados de D. João I, D. Duarte, o governo de D. Pedro, e parte do reinado de D. Afonso V. Conheceu muitas alterações políticas e sociais. Ao rei eleito e popular, D. João I, viu suceder um rei mais dominado pela aristocracia, D. Duarte; viu crescer o poder feudal dos filhos de D. João I, e com ele o predomínio da nobreza, que saíra gravemente abalada da crise da independência. Assistiu à guerra civil subsequente à morte de D. Duarte, à insurreição de Lisboa contra a rainha viúva D. Leonor, e à eleição do infante D. Pedro por esta cidade, e em seguida pelas cortes, para o cargo de Defensor e Regedor do Reino, em circunstâncias muito parecidas com as que tinham levado o mestre de Avis ao mesmo cargo e seguidamente ao trono.
Assistiu depois à reação da partida da nobreza, à queda do infante D. Pedro, à sua morte na sangrenta batalha de Alfarrobeira, à perseguição e dispersão dos seus partidários, ao triunfo definitivo da nobreza, no reinado. Foi testemunha do início da expansão ultramarina e teve a sua quota parte no desastre militar de Tânger, por causa da morte de seu filho médico do infante D. Fernando que veio a morrer em cativeiro, em Marrocos. Fernão Lopes viveu uma das épocas mais perturbadas da história de Portugal, cheia de ensinamentos para o historiador.
A carreira de Fernão Lopes como historiador é provavelmente mais longa do que se supõe, pois é provável que já em 1419 realizasse por encargo do então infante D. Duarte a compilação e redação de uma Crônica geral do reino de Portugal ou Crônica dos sete primeiro reis de Portugal, manuscritos que só foram descobertos em 1942 e 1945.
A última obra em que Fernão Lopes trabalhou foi a “Crônica de D. João I” que, ficou incompleta e foi continuada por Zurara.
Aos nossos dias chegaram três obras cuja autoria é incontestavelmente sua: a Crônica de D. Pedro, a Crônica de D. Fernando e a Crônica de D. João I (primeira e segunda partes).
Em 1454 foi reformado do cargo de guarda-mor da Torre do Tombo devido à sua idade. Ainda vivia em 1459.

3.3. CARACTERÍSTICAS DAS CRÔNICAS DE FERNÃO LOPES:

O que se entendia por crônica à época do Humanismo foge da caracterização dos dias atuais. Crônica, atualmente, é o gênero literário cujas características são a brevidade (trata-se de um texto curto) e o caráter prosaico (normalmente sobre um tema extraído da vida cotidiana), surgido no século XIX, com o aparecimento do jornal, no qual até hoje a crônica é frequentemente veiculada.
A crônica é considerada um gênero de tanta grandeza artística quanto o romance ou o conto.
No entanto, para os humanistas, a crônica compreendia um gênero que se pode considerar o ancestral imediato da historiografia moderna. Obedecendo ao sentido etimológico da palavra: crônica advém do grego “cronos” igual a tempo, os homens do século XIV chamavam de crônica os textos que relatavam o transcorrer das dinastias, isto é, a sucessão no tempo dos nobres pertencentes a uma mesma família, nos “Livros de Linhagem” ou “Cronicões”. A crônica medieval, assim, era o relato dos feitos dos príncipes, entendidos como os autores da história. Essa concepção do desenvolvimento da história chama de concepção regiocêntrica.
A inovação no gênero da crônica que faz de Fernão Lopes, o “pai da moderna historiografia portuguesa é o fato de ele introduzir como agente histórico em seus escritos a figura do homem do povo, “a raia miúda”, além de praticar a escritura do gênero de forma literária e histórica e com qualidades artísticas antes nunca vistas.
Do ponto de vista histórico sua “modernidade” está na valorização dada ao estudo detalhado dos documentos escritos da Torre do Tombo, em vez de valorizar o relato oral, como era hábito em seu tempo.
O documento escrito é para ele a base fundamental para pintar os retratos de reis e fidalgos, passagens dramáticas da vida da nação e enredos com tal dinamismo, que possibilita ler algumas passagens de seus textos com o interesse de um romance. Na procura da verdade dos fatos examinará minuciosamente as fontes que consulta, fará a comparação de diferentes versões dos fatos, saberá ler com a desconfiança crítica necessária ao historiador, realizando, enfim, seus textos com um rigor que antecipa métodos da historiografia tal como praticada na atualidade.
Segundo Luís de Souza Rebelo, o ofício da cronistica é "...sempre um discurso de outros discursos, que se fazem e refazem numa interminável urdidura de textos recebidos e renovados...". (REBELO, 1986:16) Isto mostra que á concepção dos relatos seguem um processo de investigação de documentos e testemunhos, que, ao unirem-se ao fio condutor do escritor, tornam-se, por fim, a história relatada de maneira fiel ao ocorrido.
É neste método de trabalho que António Borges Coelho insere as crônicas de Fernão Lopes:"...(ele) construiu fatos, isto é, descreveu, narrou, criou descrições dos acontecimentos servindo-se quer de testemunhos orais ou escritos em primeira ou segunda mão, quer de documentos de onde extraiu, construiu narrações de acontecimentos" (COELHO:46).

3. 4. CRÔNICA DE D. JOÃO I:


No prólogo da “Crônica de D. João I”, afirma Fernão Lopes:


“Nosso desejo foi em esta obra escrever verdade, sem outra mistura, deixando nos bons aquecimentos todo fingido louvor, e nuamente mostrar ao povo, quaisquer contrárias cousas, da guisa que avieram.”

Mais adiante, volta a afirma:

“Se outros por ventura em esta crônica buscam fremosura e novidade de palavras, e não a certidão das estórias desprazer-lhes-á de nosso razoado, muito ligeiro a eles de ouvir, e não sem grão trabalho a nós de ordenar. Mas nós, não curando de seu juízo, deixados os compostos e afeitados razoamentos, que muito deleitam àqueles que ouvem, antepomos a simples verdade, que a afremosentada falsidade. Nem entendais que certificamos cousa, salvo de muitos aprovada, e por escrituras vertidas de fé; doutra guisa, antes nos calaríamos, que escrever cousas falsas.”

É interessante ressaltar a importância dada pelos diversos autores à crônica de D. João I, em detrimento das crônicas de D. Pedro e D. Fernando.
Pode-se encontrar uma justificativa para este fato se traçar a relação entre a Revolução de 1383 em Portugal e a subida de D. João I ao poder, como rei, em 1385. Em vários momentos, os historiadores tentaram ver Fernão Lopes como um defensor da legitimidade do poder real, ou seja, tendo escrito sua obra com o intuito de justificar o poder concedido a D. João, Mestre de Avis. Esta tentativa de justificação ou não do poder real é um ponto de partida para examinar a obra de Fernão Lopes com os olhos na história de Portugal.
As possibilidades de análise histórica no quadro dos acontecimentos de 1383 são propostas pela leitura das crônicas, e tornam-se vastas na medida em que, enxerga-se o conflito dinástico como um elemento de perturbação da ordem social da época.
Outra maneira de analisar a relevância dos relatos de Fernão Lopes é lançar luz à discussão sobre o verdadeiro caráter da Revolução de 1383.
Este caráter que poderia ter obedecido aos interesses da camada burguesa, que, segundo António Borges Coelho, era a dona do capital, bem como proprietária de casas, terras e navios. Senão, poderia ter obedecido aos interesses da "a raia miúda", que vendiam a sua "força de trabalho aos proprietários de terras e rendeiros protocapitalistas...os braceiros, pastores, mancebos, homens de soldada..." (COELHO, 218).
O que procura nesta questão da definição do caráter é justamente saber para qual grupo social a Revolução de 1383 foi mais vantajosa. E, partindo deste ponto, medir as possibilidades de se reconhecer Fernão Lopes como um cronista do povo ou então identificado com o núcleo burguês dirigente da sociedade, escrevendo, deste modo, seguindo os interesses desta camada.

D. Pedro I


D. Fernando


D. João I


FERNÃO LOPES E A REVOLUÇÃO DE 1383


Segundo António Borges Coelho, em "A análise da concepção de poder", desenvolvida no livro (de Luis de Souza Rebelo), "pareceu-me obedecer à ideia subjacente de que o fim das crônicas, sua causa final, seria justificar a legitimidade do monarca ex-Mestre de Avis...(e que) Fernão Lopes...defenderia moral e politicamente a legitimidade da via eletiva do poder" (COELHO:40). Realmente, na obra do autor citado encontramos toda uma trama que, ao ser tecida, firma-se na organização da exposição de Lopes, tendo como base a ideia de justificação. Nas próprias palavras de Rebelo, ele diz que "(da legitimação)...vem o relevo muito especial que se confere no discurso de Fernão Lopes do plano providencial, onde uma paulatina acumulação de sinais prodigiosos e um sábio uso dos recursos da retórica fazem do Mestre de Avis a figura indigitada como rei tanto por Deus como pelo povo" (REBELO:20). E, numa outra passagem, completamos o pensamento do autor, vendo que "...as manifestações de simpatia e apoio popular ao Mestre de Avis, as premunições e sinais de ordem sobrenatural, que o elegem como objeto, ganham a força da prova necessária à legitimação da personalidade carismática do Mestre..." (REBELO:36).

Mas tal atitude tomada por Fernão Lopes poderia, talvez, ser considerada como correta. Afinal, ao obedecer ao encargo de escrever sobre os feitos de D. João I, tantos anos após o seu reinado, é natural que o cronista organizasse uma linha óbvia de pensamento para mostrar a racional indicação e a consequente escolha do Mestre de Avis como rei. É este o discurso que Teresa Amado emprega, ao concordar com tais razões de justificativa, dizendo que "antes, pois, de mostrar como a história do reinado veio a comprovar o acerto da escolha, tratava-se de fazer ver que ela se impusera por razão e por justiça, vindo por isso a merecer a sanção da proteção divina. Creio que é esta a linha dominante da estratégia narrativa do cronista e um dos motivos que o levaram a dar tão grande destaque aos dezessete meses da crise da sucessão" (ABADO, 1991:31-32).
Pode-se considerar como justa a maneira de narrar de Fernão Lopes também pelo lado social, se pensarmos que, para o cronista, nenhuma falha ou ruptura na dinastia real seria proveitosa, já que ele era um burocrata do rei. Com seu encargo de cronista, Fernão Lopes nada mais fez do que mostrar os acontecimentos reais como fatos envolvidos numa áurea divina e, de certa maneira, piedosa para com a sociedade. Neste trecho, percebemos que a finalidade de seus relatos era simplesmente a de mostrar à população que ela tinha um bom rei e que este era hábil o suficiente para lidar com tão importante cargo: "...Fernão Lopes compraz-se na descrição das reações das massas populares, que, instintivamente patrióticas, ao defenderem a eleição do Mestre de Avis, lutavam por um rei português..." (FERREIRA:28).
Note-se que o cronista realmente tinha a necessidade de centrar sua narração neste aspecto de legitimidade, já que "Bastardo, clérigo, frei da Ordem de Avis, e, consequentemente, incapacitado pela natureza de seus votos religiosos para ascender ao trono, tomar o governo do reino e casar, D. João aparece na cena política como um pretendente sem grandes possibilidades de êxito" (REBELO:53). Assim, Fernão Lopes transfere para sua narrativa, seis décadas depois, os anseios sociais ocorridos na época em que D. Leonor, rainha regente, não possuía nenhuma base popular para governar, e o Mestre de Avis era chamado pelo povo para servir como Defensor do Reino. O cronista mostra-nos de que maneira os caminhos foram abertos para que D. João conquistasse a população portuguesa e, por fim, o poder real.

O CARÁTER DA REVOLUÇÃO DE 1383

Ó cidade de Lisboa, famosa entre as cidades, forte
esteio que sustém todo Portugal!



Entre todos os autores citados, reina o consenso de que Fernão Lopes era um cronista popular. Mas, certamente, ele não era só isto, pois ele também estava interessado em defender a classe burguesa dirigente com a qual se identificava. Afinal, os acontecimentos de 1383-1385 acabaram por atender aos privilégios (ou necessidades?) desta nova classe social, desta nova ordem que emergia com a certeza de que teria, algum dia, o poder em suas mãos.
É interessante o fato de Fernão Lopes ter tomado um partido e "escolhido um lado"; deste modo, ele aparece-nos não como um escritor interessado em relatar fatos e datas sem jamais compreendê-los ou analisá-los, somente jogando para a crônica tudo o que realmente aconteceu. Ocorre o oposto: este cronista parece ter personalidade própria, possuindo razões de sobra para escrever à sua maneira e deixando transparecer certa dose de orgulho pelo povo de Lisboa.

"Como todos os historiadores, como todos nós, Fernão Lopes não é inocente, toma partido, mas sem comprometer a verdade a esse partido. O seu partido é o da cidade de Lisboa, é o da arraia-miúda, o dos ventres ao sol, o do bom Portugal e, também, o de João, Mestre de Avis, chefe eleito, rei de boa memória dos revolucionários de Aljubarrota" (COELHO:201).

Na obra de Joel Serrão é exposta uma possibilidade de definição do caráter da Revolução de 1383, diversa da exibida por António Borges Coelho. Na visão do primeiro autor, os acontecimentos do ano citado foram realmente colocados em prática pela "arraia miúda", e a revolução teve um caráter social até o momento em que a burguesia entra em cena e utiliza-se do povo para ganhar a luta. Já Borges Coelho nos revela que a revolução de 1383 fora "...desencadeada, dirigida e aproveitada no essencial pela burguesia das cidades e vilas de Portugal" (COELHO:12).
É importante ressaltar que a situação de Portugal nos tempos anteriores à Revolução era de choques entre os extremos, choques estes representados, principalmente, pela grande crise rural e pelo desgosto do povo em relação à promoção de Leonor Teles ao cargo de rainha.

"Tal era pois a situação social no momento de rebentar a revolução de Lisboa: por uma banda, a classe média dos mais honrados a pretenderem obrigar os da classe inferior a servirem por salários opressivamente baixos, e desejando que o rei os impusesse à força; pela outra, uma verdadeira greve da classe operária...Vivia-se assim numa atmosfera de ódios".

Seguindo a ordem dos acontecimentos, vemos que D. João surge como "defensor do povo" ao assassinar o amante da rainha regente (D. Leonor), pois este último começara a inspirar em demasia a política por ela acatada:

"Os rumores do povo miúdo, esse povo miúdo que Fernão Lopes simbolizara, recrescem: murmura-se e conspira-se contra o conselheiro da rainha..." (SERRÃO:36).

O Mestre de Avis, porém, não pretendia tornar-se o defensor do povo o que ocorreu foi que o próprio "comum povo livre e não sujeito a alguns que o contrário disto sentissem lhe pedissem (ao Mestre) por mercê se chamasse Regedor e Defensor dos Reinos" (Crônica de D. João I, cap. XXVI.).

"Quando o Mestre outorgou de ter cuidado e regimento do reino, toda tristeza foi fora das gentes, e seus corações não deram lugar a nenhum trespassado temor; mas todos ledos sob boa esperança, fundada em bem aventurado fim..." (Crônica de D. João I, cap. XXVI.).

Para Serrão, é neste instante que a burguesia impõe o seu caráter à revolução; pois esta classe "...compreendeu, a tempo, de que lado soprava o vento dos seus interesses e, a partir desse momento, deu então todo seu apoio ao Mestre d'Avis" (SERRÃO:44). Ora, isto quer dizer que a revolução teve uma ruptura em seu caráter. Ela iniciou-se como um movimento nitidamente popular, mas terminou caracterizada pela camada burguesa. No fim de tudo, esta última classe social foi a grande beneficiária, conseguindo-se "...impor...como política nacional, a sua política, isto é, a largada para além mar" (SERRÃO:47).

E, afinal, onde encontramos o papel de Fernão Lopes nesta revolução vencida pela burguesia? No fato de que este cronista "...tomava partido pela a raia-miúda, pela cidade burguesa, marítima e mercantil de Lisboa..." (COELHO:210). E, inclusive, que "Como escritor dos vilões e, portanto, também do seu estrato dirigente, a burguesia (a do comércio, a dos mestres, a da pesca, a agrícola), Fernão Lopes personifica a ascensão desta classe na sociedade portuguesa e européia" (COELHO:214).
Todas estas afirmações anteriores parecem contradizer o fato sustentado por vários autores: o de Fernão Lopes ser um cronista do povo. Mas, atentando para o que diz Maria Ema Tarracha Ferreira, vê-se que tais afirmações são plausíveis: "Contudo, o elogio à “comunal gente” não significava, para a mentalidade do cronista e da sua época, a reivindicação do poder político para um grupo ou classe social, nem Fernão Lopes atribui ao “povo miúdo” a iniciativa do movimento revolucionário" (FERREIRA:29). E esta autora acrescenta que "Do Terceiro Estado, isto é, da “comunal gente” que se batera pelo Mestre de Avis e o tomara por “Regedor e Defensor do regno” provinha grande parte da “nova nobreza”...".
Por fim, fica claro que Fernão Lopes escreve para "todas as gentes" de Portugal, e que, de algum modo, este cronista tem a habilidade de escrever também para Lisboa. É como se esta cidade fosse sua ouvinte, como se ela tivesse uma alma própria: "...Mas, do ponto de vista social, o espaço alarga-se. A zona da luz, o teatro da ação é agora ocupado, por vezes mesmo centrado, na a raia miúda, nos homens bons, nos comunais, nos honrados...O cenário também não se circunscreve apenas ao palácio ou ao campo de batalha. Vêm à praça, à reunião da Câmara, ao campo onde avançam camponeses de ventres ao sol e armados com pedras e estevas aguçadas." (COELHO:50).
Talvez não fosse possível conceber a Revolução de 1383 sem os relatos deste tão brilhante cronista. Todas as impressões que ele nos passa através da escrita, narrando não só os feitos do rei D. João I como também enfocando os comentários na vida pessoal e íntima das personagens mais influentes da época, têm um valor histórico inestimável.
Inestimável também é a possibilidade de reflexão sobre a história de Portugal através das crônicas, pois são infindáveis os debates e os questionamentos que giram em torno da órbita da realeza lusitana. E não é por acaso que tudo o que nos interessa nesta órbita real está reunido em Fernão Lopes; os acontecimentos desta parte da memória de Portugal são todos ligados entre si, a partir das crises de 1383. A crise no meio rural, o enfrentamento da arraia miúda com a classe exploratória e dona do poder, e a questão da sucessão dinástica são os principais elementos que, após deixarem a sociedade portuguesa em meio ao caos, dirigem-se naturalmente como colaboradores a subida de D. João, Mestre de Avis, ao poder real. E é aqui que Fernão Lopes atua. Depois que a poeira do tempo já estava levando os fatos passados carregados ao vento, para reavivar a história de uma nação, ele apresentou que, ao menos em um momento, sua pátria buscou recorrer à memória para tentar compreender o que estava vivendo no presente do ano de 1434.

4. RESUMO DA CRÔNICA DE D. JOÃO I:

D. João era filho ilegítimo do rei D. Pedro I e de D. Teresa, uma dama galega (ms. 352 do Arquivo Nacional da Torre do Tombo da “Crônica de el-rei D. Pedro I”, de Fernão Lopes). Em 1364 foi consagrado Grão Mestre da Ordem de Avis.
À data da morte do rei D. Fernando I, Portugal colocava em risco a sua independência. A rainha D. Leonor Teles de Menezes era impopular e olhada com desconfiança. O fato de se ter tornado pública a sua ligação amorosa com o nobre galego João Fernandes Andeiro, personagem influente no paço, atraiu todas as críticas contra a sua pessoa e a do seu amante.
Para além do mais, a sucessão do trono recaía sobre a princesa D. Beatriz, única filha de Fernando I e de Leonor Teles de Menezes, casada aos onze anos de idade com o rei João I de Castela.
No entanto, a burguesia e parte da nobreza juntaram-se à voz popular que clamava contra a perda da independência, tão duramente mantida por D. Fernando I. Dois pretendentes apareceram para competir com João I de Castela e D. Beatriz pela coroa portuguesa:
D. João, príncipe de Portugal, filho de D. Pedro I e D. Inês de Castro, era visto por muitos como o legítimo herdeiro, dado o suposto casamento dos seus pais, e D. João, filho de D. Pedro I e de Teresa Lourenço, que veio a tornar-se rei.
Acicatado por um grupo de burgueses e nobres, entre os quais Álvaro Pais e o jovem D. Nuno Álvares Pereira, e tomando em linha de conta o descontentamento geral, o Mestre de Avis assassina o conde de Andeiro no paço a 6 de Dezembro de 1383. Com a posterior fuga de Leonor Teles de Lisboa para Alenquer, inicia-se a sucessão de acontecimentos que lhe entregará a regência, a qual de início planejava exercer em nome de seu meio-irmão, o Infante D. João. Mas como este último já fora aprisionado por D. João I de Castela, abria-se então a possibilidade política de o Mestre de Avis vir a ser rei.


O assassinato do conde Andeiro explica-se, bem mais do que pela vontade de vingar a honra do falecido rei Fernando I, ainda que este tenha sido um dos motivos, pela razão de que João I de Castela havia começado a violar o pacto antenupcial de Salvaterra de Magos logo no primeiro dia em que se fez aclamar, em Toledo, "Rei de Castela e Portugal". Aquele tratado antenupcial apenas conferia a si e à sua mulher Beatriz, sendo esta herdeira de Fernando I, o título nominal de reis e senhores de Portugal, mas sem deterem poderes de efetiva governação. Além disso, os reinos de Castela e Portugal deviam manter-se separados. Para além de logo ter mesclado as armas dos dois reinos, João I de Castela, continuando a desrespeitar o tratado, entra em Portugal pela Guarda nos finais de Dezembro de 1383. Queria ser soberano pleno, e não de dois reinos separados mas dum único, considerando que não tinha que atender em nada ao tratado de Salvaterra porque a sua mulher Beatriz era a herdeira do trono português. Quem o diz de forma mais clara não é Fernão Lopes, mas sim o cronista castelhano Pero Lopez Ayala, contemporâneo dos acontecimentos, na sua “Crônica do Rei Dom João o primeiro de Castela e Leão”. Consultem-se, para o constatar, os capítulos IX e XI do ano quinto e os capítulos I e II do ano décimo segundo desta Crônica. Seguiu-se a Crise de 1383-1385, ou Interregno, um período de anarquia e instabilidade política onde as diferentes cidades e vilas de Portugal se declaravam umas por D. Leonor Teles (a maioria destas até ela abdicar da regência em benefício de João I de Castela e da filha), outras por D. Beatriz e o seu marido, outras ainda pelo Mestre de Avis, além das que se mantiveram neutras, na expectativa do desenlace.

A guerra civil arrastou-se por mais de um ano. D. Nuno Álvares Pereira, posteriormente Condestável de Portugal, revelou-se um general de grande valor, ao contrário, ao início, do próprio pretendente ao trono. Fernão Lopes é um crítico feroz das ações militares do Mestre durante o primeiro ano de guerra, dado que tinha tendência a preferir os cercos e a assistência dos grandes fidalgos, sem outros resultados que não fossem traições, ao contrário da luta militarmente inovadora e terrivelmente eficaz de Nuno Álvares, que arrancou muitas vitórias no Alentejo e deu boa ajuda a Lisboa, onde o Mestre ficou sitiado sem se ter podido abastecer das provisões necessárias para aguentar durante muito tempo o cerco. No entanto, depois das Cortes de Coimbra, o rei D. João I mostrou-se um bom seguidor das táticas militares de D. Nuno Álvares, e do conselho de guerra deste constituído por escudeiros.
Finalmente a 6 de Abril de 1385, as Cortes portuguesas reunidas em Coimbra elevam o Grão-Mestre de Avis, como D. João I, a rei de Portugal. Esta tomada de posição significava na prática que a guerra com Castela prosseguiria sem quartel, visto que declarava nulo o estatuto de D. Beatriz de Portugal, rainha consorte de Castela, como herdeira de D. Fernando, e isto devido em especial à violação do tratado de Salvaterra tanto pelo seu marido como por ela (com 11 anos de idade tivera de jurar o tratado em Badajoz, aquando do casamento). «Venhamos a outra maior contradição», disse João das Regras, ao começar a falar da «quebra dos trautos» no seu discurso perante as Cortes de Coimbra (Crônica de el-rei D. João I, cap. CLXXXV). E como os quebrara, não podia suceder ao pai, o «postumeiro (último) possuidor» destes reinos. É por isso que na História de Portugal, Beatriz não figura como Rainha, pois foram as próprias Cortes de 1385 a proclamar que ao rei D. Fernando I, postumeiro possuidor do reino de Portugal, quem sucedeu foi o rei D. João I.
Pouco depois, João I de Castela invade Portugal com o objetivo de tomar Lisboa e ver-se livre do «Mestre D'Avis que se chamava rei» (era o modo como os castelhanos o designavam). Com os castelhanos vinha então um grande contingente de cavalaria francesa. A França era aliada de Castela enquanto os ingleses haviam tomado o partido de D. João I (Guerra dos Cem Anos). Como resposta D. João I prepara-se com Nuno Álvares para a batalha decisiva. O Condestável de Portugal, que o rei nomeara quando das Cortes de Coimbra, e o seu conselho de escudeiros montaram então uma tremenda armadilha ao exército castelhano.
A invasão castelhana transformou-se em debandada durante o Verão, depois da decisiva batalha de Aljubarrota travada a 14 de Agosto, perto de Alcobaça, onde o exército castelhano foi quase totalmente aniquilado. Castela teve de retirar-se do combate e a estabilidade da coroa de D. João I ficou solidamente garantida. Muitos anos depois um tratado de paz será definitivamente confirmado, reconhecendo Castela sem quaisquer reservas D. João I como rei de Portugal.
Em 1387, D. João I casa com D. Filipa de Lencastre, filha de João de Gaunt, Duque de Lencastre, fortalecendo por laços familiares os acordos do Tratado de Aliança Luso-Britânica, que perdura até hoje. Depois da morte em 1390 de João de Castela, sem herdeiros de D. Beatriz, a ameaça castelhana ao trono de Portugal estava definitivamente posta de parte. A partir de então, D. João I dedicou-se ao desenvolvimento econômico e social do país, sem se envolver em mais disputas com a vizinha Castela ou a nível internacional. A excepção foi a conquista de Ceuta, no Norte de África, em 1415, uma praça de importância estratégica no controle da navegação na costa de África que é conquistada a 21 de Agosto. Após a sua conquista são armados cavaleiros, na mesquita daquela cidade, os príncipes D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique. Entretanto, na véspera da partida de Lisboa, falecera a rainha D. Filipa de Lencastre.
Cronistas contemporâneos descrevem D. João I como um homem arguto, cioso em conservar o poder junto de si, mas ao mesmo tempo benevolente e de personalidade agradável. Na juventude, a educação que recebeu como Grão Mestre da Ordem de Avis transformou-o num rei invulgarmente culto para a época.
O seu amor ao conhecimento passou também para os filhos, designados por Luís Vaz de Camões, nos Lusíadas, por "Ínclita geração": o rei D. Duarte de Portugal foi poeta e escritor; D. Pedro, Duque de Coimbra o "Príncipe das Sete Partidas", foi um dos príncipes mais esclarecidos do seu tempo e muito viajado, e o Henrique, Duque de Viseu, "o navegador", investiu toda a sua fortuna em investigação relacionada com navegação, náutica e cartografia, dando início à epopéia dos Descobrimentos.
A sua única filha, D. Isabel de Portugal, casou com o Duque da Borgonha e entreteve uma corte refinada e erudita nas suas terras.
No reinado de D. João I são descobertas as ilhas de Porto Santo (1418), da Ilha da Madeira (1419) e dos Açores (1427), além de se fazerem expedições às Canárias. Tem início, igualmente, a colonização dos Açores e da Madeira.
D. João morreu a 14 de Agosto de 1433. Jaz na Capela do Fundador, no Mosteiro de Santa Maria da Vitória, na Batalha.
Foi cognominado "O de Boa Memória", pela lembrança positiva do seu reinado na memória dos portugueses; alternativamente, é também chamado de "O Bom" ou "O Grande".







Um comentário:

Anônimo disse...

Ajudou bastante na minha pesquisa!!