segunda-feira, 21 de março de 2011

A FARSA DE INÊS PEREIRA, GIL VICENTE


I – INTRODUÇÃO:


“A Farsa de Inês Pereira” foi escrita no clímax da carreira dramática de Gil Vicente e representada, pela primeira vez, perante o rei D. João III e sua corte, no seu convento de Tomar, em 1523.
A peça vinha como resposta a certos detratores da arte do genial dramaturgo português, que duvidavam da autenticidade de suas peças e o acusavam de plagiar obras do espanhol, Juan Del Encina.
O autor furioso com as acusações dos “homens de bom saber” deferidas à sua arte propõe que sugerem um mote sobre o qual ele deve escrever uma peça.
O adágio proposto foi o ditado popular: “Mais quero um asno que me leve que cavalo que me derrube”.


Ao apresentar a peça, Gil Vicente diz:


“A seguinte farsa de folgar foi representada ao muito alto e mui poderoso rei D. João, o terceiro do nome em Portugal, no seu Convento de Tomar, era do Senhor de MDXXIII. O seu argumento é que porquanto duvidavam certos homens de bom saber se o Autor fazia de si mesmo estas obras, ou se furtava de outros autores, lhe deram este tema sobre que fizesse: segundo um exemplo comum que dizem: mais quero asno que me leve que cavalo que me derrube. E sobre este motivo se fez esta farsa.”

Desenvolvendo nessa farsa, escrita em espanhol e português, o tema que lhe fora dado, legou-nos Gil Vicente a peça profana mais importante da época, tanto pelo seu argumento quanto pela sua arquitetura dramática.
“A Farsa de Inês Pereira” é uma comédia de costumes. A unidade de ação da farsa mantém-se apenas pela presença central de Inês Pereira e pelo propósito de ilustrar, nas três etapas da vida desta personagem, o provérbio com que desafiaram o talento dramático de Gil Vicente.
A peça constitui testemunho de uma tradição na educação familiar medieval de classe burguesa, em que as filhas viviam sob a permanente vigilância da mãe, limitadas aos afazeres domésticos e a um casamento arranjado.
Inês Pereira recusa os papéis preestabelecidos, reclama do tédio de sua rotina doméstica e deseja libertar-se das obrigações impostas à mulher na sociedade quinhentista, ou seja, romper a clausura que a condena à submissão.
O oportunismo; o desprezo pela vida camponesa; o prestígio das maneiras cortesãs; a ignorância do rústico e sua ingenuidade; a falta de escrúpulos; a ambição; o adultério e a superficialidade são alguns temas apresentados nessa farsa o que concebe atualidade á obra, porque tratam de temas universais e reforça a ideia que a sociedade tem mudado muito pouco em tantos anos.

II – CONTEXTO HISTÓRICO E SOCIAL:

“A farsa de Inês Pereira” é uma comédia de costumes, retrato de comportamentos poucos recomendáveis. Gil Vicente compõe um painel, cujas cores ainda se firmam em valores medievais, para tecer profundas críticas a vários setores da sociedade.
A temática da peça está profundamente ligada à realidade vivida pela sociedade portuguesa da época de Gil Vicente: a decadência medieval e do início do Renascimento. Neste tempo de transição, as contradições culturais foram nítidas e atingiram inclusive os conceitos estéticos. As expressões literárias expressam a oscilação entre dois mundos: em primeiro lugar, uma extensão da velha ordem feudal e teocêntrica; em segundo lugar, como uma busca de renovações propugnadas pelo novo contexto capitalista e antropocêntrico.
O desenvolvimento do capitalismo reforçou o poder do monarca e provocou a decadência da nobreza feudal. A riqueza vinda do comércio ultramarino tendia a ser grande base do prestígio social. A aristocracia dependia dessa riqueza e procurou diminuir sua importância desprezando-a e valorizando a origem de sangue, a educação, a fineza, as boas maneiras, a honra e a coragem, enfim os ideais cavalheirescos. E como a nobreza mesmo decadente, ainda conservava grande prestígio social, acabou por impor o estereótipo do cavaleiro como modelo a que deviam aspirar todos aqueles que queriam pertencer à classe superior. Desse modo, o desejo de ascensão social da pequena burguesia encontra no casamento uma forma de consegui-la.

III – CARACTERÍSTICAS:

Segundo Massaud Moisés: “do Latim farsa; farcire, rechear. Sutil, se não difícil de precisar, é a distinção entre a Farsa e a Comédia. De modo genérico, pode-se afirmar que a diferença é de grau: a farsa consistiria no exagero do cômico, graças ao emprego de processos grosseiros, como o absurdo, as incongruências, os equívocos, os enganos, a caricatura, o humor primário, as situações ridículas. A Farsa dependeria mais da ação que do diálogo, mais dos aspectos externos (cenário, roupagem, gestos, etc) que do conflito dramático (...) Lembrando o burlesco nalguns aspectos e relacionada até certo ponto com a “Fabliau”, a Farsa despontou no crepúsculo da Idade Média Francesa: a princípio, consistia numa breve peça cômica inscrita, a modo de intervalo, no meio de mistérios. Dentre os numerosos exemplares no gênero (mais de cento e cinqüenta), produzidos entre 1440 e 1560, época do seu florescimento, destaca-se “La farce de maítre Pathélin”, composta entre 1460 e 1470. Após exercer notável influência sobre o teatro seiscentista (Molière, Shakespeare, “Commedia dell’arte”) a Farsa continuou a ser apreciada até os nossos dias com experientes pediculares à Farsa.
Em vernáculo e em Espanhol, o vocábulo Farsa não encerra sentido determinado: tendia a comutar com as palavras “comédia” e “auto” (por exemplo: “Farsa dos Físicos”, de Gil Vicente, “Farsas Del Nascimiento de Nuestro Redemtor Jesu-cristo”, de Lucas Fernández).
A rigor, a Antigüidade greco-latina desconheceu a Farsa conforme se cultivou na Idade Média: não que a gênese da Farsa Medieval se encontra no teatro satírico pré-cristão”.

Moisés, Massaud, Dicionário de Termos Literários; São Paulo; Cultrix, s/d.

N’A Farsa de Inês Pereira, Gil Vicente apresenta um tom extremamente crítico e caricato dos costumes, fazendo da máxima “ridendo castigar mores (“rindo castigam os costumes”), onde a ironia soma-se à tipificação de situações e personagens.
Gil Vicente explorou os recursos textuais recorrendo ás características do teatro medieval: estrofação irregular; versos curtos, principalmente os redondilhos, resultando em musicalidade.
Suas farsas mesclam drama e poesia conjuntamente. Mas, enquanto que seu teatro é rico em recursos textuais, ele é pobre em recursos cenográficos. Essa diferença encontra justificada no propósito didático do autor: como recurso de fixação de valores do painel da Idade Média portuguesa.
O dramaturgo em “A farsa de Inês Pereira” utiliza-se da vivacidade, do realismo e da diversidade linguística para compor diálogos bem humorados e, ao mesmo tempo, didático-moralizantes, concorrendo para formar um texto repleto de belezas e riquezas literárias que, deixam entrever um dos enredos mais organizados de Gil Vicente, já, bem próximo da estrutura novelesca.
Os recursos cenográficos, por sua vez, com a ausência de orientações de cena; despreocupação com um roteiro rígido; paralelismo estrutural e semântico estabelecidos entre as cenas; e, ainda, o desrespeito as leis de unidade e de sequência do teatro clássico, dão margem á uma monotonia cenográfica.
A cena da mocinha oprimida pela mãe, que é retomada na cena da mocinha oprimida pelo primeiro marido, que, por sua vez, é confirmada na cena em que o segundo marido é oprimido por Inês. O mesmo paralelismo, provavelmente inspirado na estrutura paralelística das Cantigas de Amigo medievais, acontece entre as cenas em que Lianor apresenta o primeiro pretendente e a cena em que os judeus apresentam o segundo pretendente, ratifica a despreocupação com os aspectos de palco, como a teatralidade popular vicentina.
Esse paralelismo confere á “A farsa de Inês Pereira” uma estrutura cenográfica bastante simplificada, a despeito das riquezas poéticas e exige das doses de humor e moralismo um papel mais significativo pela sustentação da peça.
As personagens femininas do texto são marcantes – não por acaso, uma delas dá título à peça - e apresentam diferenças entre si, sendo expressivo o fato de cada uma refletir um aspecto da sociedade de então. Por meio dos diferentes discursos enunciados por elas, o texto desvela a ideologia de cada uma, num entrelaçamento de falas, provérbios e negações.

IV – TEMPO E ESPAÇO:

O tempo é circunscrito pelo tempo cronológico e linear que vai do desejo de casamento de Inês até o desfecho do segundo casamento.
O espaço abrange a casa de origem de Inês e as casas de destino da moça após os dois casamentos. A casa da mãe de Inês e a casa do primeiro casamento cumprem um mesmo papel de ambiente castrador e submissão da figura feminina medieval.

V – PERSONAGENS:

As personagens vicentinas representam muito mais pelas relações sociais, pelo caráter institucional, pelo elemento coletivo e cultural que pelo elemento psicológico individualizante. Possuem uma dimensão simbólica inerente: ora como tipos sociais ou comportamentais ora como alegorias de valores morais.

INÊS PEREIRA:

É a personagem melhor caracterizada na peça, a mais complexa, a única que sofre alguma transformação de personalidade.
A protagonista, assim, tipifica o comportamento das mocinhas casadoiras do final da Idade Média que trocam os valores tradicionais pela ilusão das aparências sedutoras. Porém, a independência e o comportamento de Inês conferem a ela um caráter único, quer seja, uma mulher muito avançada para o seu tempo. Ela, tudo indica, é pintada como uma bela mulher, e como tal idealizada.
Ela representa uma condenação à mudança de valores operada na sociedade portuguesa no século XVI.
Moça bonita, solteira, burguesa, sonhadora e rebelde, Inês sonha casar-se, vendo no casamento uma libertação dos afazeres domésticos e automaticamente, sua ascensão social, imaginando um casamento com um homem que seja discreto, galante, bailarino e músico. Dessa forma, Inês despreza o casamento com um homem simples, trabalhador, honesto, respeitador e que a ame, deixando-se levar pelas aparências, preferindo um marido de comportamento refinado, mesmo indo contra as recomendações de sua mãe.
Assume, a princípio, uma posição de submissão em relação ao seu papel social, no entanto, revela-se rebelde, quando percebe que seus ideais de liberdade não cumpridos com o primeiro casamento podiam se cumprir num segundo casamento.
Ela é o centro do enredo que revela as formalidades vazias do amor e do casamento arranjado por interesse.

MÃE:

É a típica dona de casa pequeno-burguesa e provinciana. Preocupada com a educação e o futuro da filha em idade de casar. Dá conselhos prudentes, inspirada por uma sabedoria popular imemorial.
Surge assim, como reprodutora dos costumes tradicionais submetendo Inês ao aprendizado de um papel social feminino submisso e escravo.
Chega a ser comovente em sua singela ternura pela filha, a quem presenteia com uma casa por ocasião das núpcias.

PERO MARQUES:

Camponês simples, com aparência tola, honrado, não conhece os costumes das pessoas da cidade. É uma personagem ambígua, ao mesmo tempo em que, é ridicularizado pela ingenuidade, é valorizado pela integridade de caráter. Num segundo momento, porém, sua aparência é deixada de lado, em nome de sua dedicação, de seu afeto, de sua submissão e em nome dos interesses amesquinhados de Inês, que acaba aceitando-o como marido, depois de viúva. Fiel e dedicado, revela se um gentil e carinhoso marido.

BRÁS DA MATA:

Brás da Mata é um escudeiro, isto é, homem das armas que auxiliava os cavaleiros fidalgos. Na mudança do feudalismo para o capitalismo, a maioria permaneceu numa condição subalterna, procurando imitar a aristocracia.
Interesseiro e dissimulado é a representação da esperteza das classes superiores. É um nobre decadente que não perde o orgulho e pretende aproveitar-se economicamente de Inês através do dote.
Surge como revelação do cotidiano mais amesquinhado de herói, que é apresentado como um carrasco da esposa, e que morreu, ironicamente, nas mãos dos árabes, bem diferentemente do que se idealiza na História Sagrada da Cavalaria. Surge assim, como uma verdadeira caricatura do que seria o herói medieval.

LIANOR VAZ:

Lianor Vaz é uma típica alcoviteira. Representa a invasão da privacidade e a costumeira, mas, indesejada, exposição da vida privada à esfera pública, mesmo sem consentimento. Lianor serve bem para indicar exatamente essa passagem ilustrativa, desejada por Gil Vicente, para construir sua comédia da vida privada publicada a partir de aspectos individuais do comportamento, atingir, de modo humorado, crítico, algumas vezes, moralista, a esfera social.
Quando atacada no caminho por um padre devasso mostra sua frouxidão moral.

LATÃO E VIDAL:

Dois judeus casamenteiros, caricatura de hábeis negociantes que circulavam pelo universo do comércio medieval visando lucros.
São muito parecidos, possuem as mesmas características como fossem o mesmo repartido em dois. Faladores, insinuantes e maliciosos estabelecem o contato entre Inês e Brás da Mata.

MOÇO DO ESCUDEIRO:

Pajem de Brás da Mata. Pobre coitado, explorado por um amo infame. Humilde, deixa-se explorar e acredita ingenuamente nas promessas do Escudeiro.

ERMITÃO:

Constitui uma caricatura da figura clerical: chegou ao clérigo, não por opção ou vocação, mas por decepção com a vida pessoal, sobretudo no quesito amoroso.

CLÉRIGO:

Padre que atacou sexualmente Lianor Vaz. Simboliza o rebaixamento e a devassidão do comportamento clerical.

VI – ENREDO:

“A farsa de Inês Pereira” divide-se em três jornadas:

- INÊS FANTESIOSA;
- INÊS MAL-MARIDADA;
- INÊS QUITE E DESFORRADA.

E estrutura-se a partir de sete quadros que se sucedem, organizados da seguinte forma:
1. Apresentação da vida de Inês, ainda solteira, com a mãe;
2. Conselhos de Lianor Vaz sobre o casamento;
3. Apresentação de Pero Marques;
4. Entrada do escudeiro;
5. As desilusões do casamento;
6. A viuvez de Inês Pereira;
7. A vida de casada com Pero Marques.

A apresentação de Inês, já no início do texto, é marcada por uma atitude de revolta diante das entediantes tarefas impostas à mulher da época.
Inês Pereira, mocinha em idade de casamento, vivia submissa à mãe e ao aprendizado dos serviços cotidianos; enquanto a mãe vivia aos passeios, Inês tomava conta da casa e da reputação para que, não sendo tomava como preguiçosa ou vulgar, cumprisse o propósito de atrair um marido prudente, sabido e discreto.
A mãe, muito rigorosa, exigia e aconselhava sempre mais e mais empenho da moça nesse propósito, já que ela era uma moça humilde, sem dote, cuja fidelidade e sobrevivência dependiam do casamento.
A fala da protagonista, no entanto, queixa-se dos afazeres domésticos e do isolamento social a que a mãe a destina e são acentuadas pelos termos tormento, cegueira e canseira, refletindo o tédio presente em sua vida.

INÊS:

Renego deste lavrar
e do primeiro que o usou!
Ao diabo que o eu dou,
que tão mau é d'aturar!
Ó Jesu! Que enfadamento,
e que raiva, e que tormento,
que cegueira, e que canseira!
Eu hei de buscar maneira
d'algum outro aviamento.

Sua fala é repleta de expressões que sugerem uma crítica à falta de perspectivas para a mulher da época. Seu desencanto diz respeito, principalmente, à estagnação que vitimava as moças de então.
Isabel Allegro de Magalhães, em seu estudo “O Tempo das Mulheres” destaca o tempo estático das mulheres na Idade Média em contraste com o tempo masculino, o tempo de partir, marcado por aventuras e por um espaço aberto e externo. Já às mulheres resta á clausura, o emparedamento. Note-se que é justamente nesse ponto que reside á queixa de Inês, que lamenta o marasmo de sua vida:

INÊS:

Coitada, assi hei d’estar
encerrada nesta casa
como panela sem asa,
que sempre está num lugar?
E assi hão de ser logrados
dous dias amargurados,
que eu possa durar viva?
E assim hei d’estar cativa
Em poder de desfiados?

(...)

Já tenho a vida cansada
De jazer sempre dum cabo.

(...)

Esta é mais que morta.
São eu coruja ou corujo,
Ou são algum caramujo
Que não sai senão à porta?

Seu posicionamento ideológico de recusa dos valores vigentes verifica-se, linguisticamente, por um discurso repleto de exclamações, marcando o seu temperamento intempestivo, e por indagações, como que a interrogar a própria condição.
O lamento de Inês esbarra na oposição da mãe, humilde e simples, cuja fala reflete o conformismo diante da sociedade de então. Além de censurar os desejos da filha, defende as regras e valores da época, ao aconselhar Inês a ter bom senso:

MÃE:

Toda tu estás aquela...
Choram-te os filhos por pão?

(...)

Como queres tu casar
com fama de preguiçosa?

(...)

Não te apresses tu, Inês:
"Maior é o ano que o mês".
Quando te não precatares,
virão maridos a pares,
e filhos de três em três.

O discurso da Mãe, impregnado de lugares-comuns e provérbios populares, marca a reprodução de valores da época. Sua fala, que atua como contraponto à de Inês, é marcada pelo conservadorismo. Valendo-se de frases feitas, demonstra, no plano discursivo, sua identificação com o pensamento de então. Enquanto Inês simboliza a renovação, as demais personagens femininas representam a perpetuação de um pensamento ainda marcado por um ranço medieval. A Mãe, conformista, pensa que o destino natural da filha é o casamento e a maternidade.
Aparece, então, Lianor Vaz, uma alcoviteira da região que lhe traz uma proposta de casamento.
A alcoviteira relata que no caminho, um clérigo pretextando saber se era macho ou fêmea importunou-a com malícias. A Mãe confessa que o mesmo fato se deu com ela outra vez, quando fora atacada por um homem no campo.
Enquanto, Lianor valendo-se de subterfúgios para se justificar por não ter resistido ao ataque: ela estava cansada e teve um acesso de tosse, a Mãe comenta que na ocasião, teve um ataque de riso.
Mãe e Inês demonstram desconfianças dos argumentos de Lianor, uma vez que a alcoviteira não apresentava marcas de arranhões e machucados e como suas forças foram poucas, significa que não se defendeu do ataque, entregando-se a ele.
Após chorar sua sina, diz trazer proposta de casamento para Inês, por parte de Pero Marques, filho de um lavrador inculto, rústico, mas rico e com boas intenções.

LIANOR:

Eu vos trago aviamento.

INÊS:

Porém, não hei-de casar
Senão com homem avisado
Ainda que pobre e pelado,
Seja discreto em falar,
Que assi o tenho assentado.

LIANOR:

Eu vos trago um bom marido,
Rico, honrado, conhecido;
Diz que em camisa vos quer

INÊS

Primeiro eu hei-de saber
Se é parvo, se sabido.

LIANOR:

Nesta carta que aqui vem
Pera vós, filha, d'amores,
Veredes vós, minhas flores,
A discrição que ele tem.

INÊS:

Mostrai-ma cá, quero ver

LIANOR:

Tomai. E sabedes vós ler?

INÊS (lê a carta)

“Senhora amiga Inês Pereira,
Pêro Marquez, vosso amigo,
Que ora estou na nossa aldea,
Mesmo na vossa mercea
M'encomendo. E mais digo,
Digo que benza-vos Deos,
Que vos fez de tão bom jeito.
Bom prazer e bom proveito
Veja vossa mãe de vós.

E de mi também assi,
Ainda que eu vos vi,
Est'outro dia folgar,
E não quisestes bailar,
Nem cantar presente mi..."

Lianor e a Mãe comungam dos códigos vigentes, fato que pode ser percebido nos conselhos dados por Lianor a Inês:

LIANOR:

Não queirais ser tão senhora!
Casa, filha, que te preste,
não percas a ocasião.
Queres casar a prazer
No tempo d'agora, Inês?
Antes casa em que te pês,
que não é tempo d'escolher.
Sempre eu ouvi dizer:
"ou seja sapo ou sapinho,

ou marido ou maridinho,
tenha o que houver mister."
Este é o certo caminho.

Em uma sociedade em que a única forma de sobrevivência feminina estava no matrimônio, Lianor aconselha a moça a se casar, mesmo que isso a incomode, numa reprodução dos valores da época. A Mãe utiliza-se de ditados populares, um discurso que se limita a repetir os costumes e pensamentos da época, sem questioná-los.

MÃE:

"Mata o cavalo de sela
e bô é o asno que me leva".

LIANOR:

Filha, “no Chão do Couce
quem não puder andar, choute.”
E “mais quero eu quem me adore
que quem faça com que chore”.

Significativa é uma das imagens evocadas pela Mãe: mais vale um asno que a leve do que um cavalo que a derrube, numa retomada do mote e num prenúncio do desfecho do auto. Inês é firme em suas convicções: quer um homem culto e esperto, ainda que não seja rico. Movida por essa ilusão, após ler a carta, despreza o remetente, o rude Pero Marques, filho de lavradores, que lhe parece parvo por sua rusticidade.
Sua linguagem revela a timidez e a ignorância, além de marcar a sua ingenuidade, aspecto fundamental para o desfecho da peça. No processo de caracterização por meio da linguagem, os traços mais flagrantes de Pero Marques são evidenciados, gerando o repúdio de Inês. Seu discurso denuncia sua falta de cultura, ora exagerando na formalidade, ora indicando a sua forma provinciana de se expressar:
Inês repudia o pretendente, chegando mesmo a depreciá-lo, criticando-lhe a simplicidade. Sua condição financeira não a atrai, e ela recusa o pedido de casamento.
A alcoviteira insiste em um encontro e Inês aceita apenas para que possa se rir do enamorado tolo, caracterizando-o como “fora de mão”.

INÊS:

Venha e veja-me a mi.
Quero ver quando me vir
Se perderá o presumir
Logo em chegando aqui,
Pera me fartar de rir.

Como ficou combinado, chega Pero Marques, o camponês pretendente à mão de Inês. Apesar de proprietário de terras e gado, demonstra ser um idiota. Pero traz umas peras de presente, não sabe sentar-se na cadeira, constrange-se ao ver-se sozinho em presença de Inês, quando a mãe desta se ausenta. Apesar da insistência de Lianor e da Mãe a aconselhando-a a aceitar o pedido de casamento, Inês dispensa-o, sobretudo por causa da aparência caipira do pretendente e reafirma que só aceitará como marido um sujeito galante, que soubesse tocar, cantar, dançar, fazer poesia, e, assim, com certeza, se sentiria feliz.


PERO:

Homem que vai aonde eu vou
Não se deve de correr
Ria embora quem quiser
Que eu em meu siso estou.
Não sei onde mora aqui...
Olhai que m'esquece a mi!
Eu creo que nesta rua...
E esta parreira é sua.
Já conheço que é aqui.

Chega Pero Marques aonde elas estão, e diz:

Digo que esteis muito embora.
Folguei ora de vir cá...
Eu vos escrevi de lá
Üa cartinha, senhora...
E assi que de maneira...

MÃE:

Tomai aquela cadeira.

PERO:

E que val aqui uma destas?

INÊS:

Ó Jesu! que João das bestas!
Olhai aquela canseira!

Nos versos seguintes, o jeito caipira e desastrado de Pero Marques contribui para arrefecer o juízo que Inês fazia dele. Pero Marques senta-se com as costas para as mulheres, e diz:

PERO:

Eu cuido que não estou bem...

MÃE:

Como vos chamais, amigo?

PERO:

Eu Pero Marques me digo,
Como meu pai, que Deos tem.
Faleceu, perdoe-lhe Deos,
Que fora bem escusado,
E ficamos dous heréus.
Porém meu é o mor gado.

MÃE:

De morgado é vosso estado?
Isso viria dos céus.

Nestes versos ocorre um trocadilho com a palavra “morgado”: a mãe entendeu que ele herdou (“heréus” – herdeiro) um morgado, portanto era riquíssimo e vivia de rendas e, no entanto, tratava-se de “mor gado”, proprietário de muito gado.

PERO:

Mais gado tenho eu já quanto,
E o mor de todo o gado,
Digo maior algum tanto.
E desejo ser casado,
Prouguesse ao Espírito Santo,
Com Inês, que eu me espanto
Quem me fez seu namorado.
Parece moça de bem,

E eu de bem, er também.
Ora vós er ide vendo
Se lhe vem milhor ninguém,
E segundo o que eu entendo.
Cuido que lhe trago aqui
Pêras da minha pereira...
Hão-de estar na derradeira.
Tende ora, Inês, per i.

Nestas duas estrofes mostram que Pero Marques julga ser o melhor candidato para Inês e acaba por fazer outro trocadilho com “pêra e Pereira” (sobrenome de Inês) demonstrando o embaraço de Pero Marques.

INÊS:

E isso hei-de ter na mão?

PERO:

Deitae as peas no chão.

INÊS:

As perlas pera enfiar..
Três chocalhos e um novelo...
E as peias no capelo...
E as pêras? Onde estão?

PERO:

Nunca tal me aconteceu!
Algum rapaz m'as comeu...
Que as meti no capelo,
E ficou aqui o novelo,
E o pente não se perdeu.
Pois trazia-as de boa mente...

INÊS:

Fresco vinha aí o presente
Com folhinhas borrifadas!

PERO:

Não, que elas vinham chentadas
Cá em fundo no mais quente.
Vossa mãe foi-se?
Ora bem... Sós nos leixou ela assi?...
Cant'eu quero-me ir daqui,
Não diga algum demo alguém...

Pero Marques tira uma série de coisas de seu capuz: peas (corda para segurar animais), chocalho e novelo; mas as peras foram roubadas.
O pretendente é dispensado pela moça, mas promete que não vai se casar senão com ela, portanto ficará esperando até que Inês decida aceitar sua proposta.
Tal recusa, nesse momento, é importante, pois marcará a diferença de perspectivas da protagonista no decorrer da história. Curiosamente, a ingenuidade de Pero Marques, que será vista ao final como algo extremamente conveniente, é agora motivo de escárnio por parte de Inês, que o ridiculariza por não se ter aproveitado de estarem a sós.
Logo chegam dois judeus casamenteiros, Latão e Vidal, a quem a moça encomenda um noivo ideal. Segue os dois judeus e depois de muito reclamarem do cansaço que lhes deu a encomenda, afirmam que encontraram um homem perfeito é um escudeiro, Brás da Mata.
A Mãe recrimina a filha por se envolver com gente tão pouco confiável, mas Inês pede que ela não se intrometa.

VIDAL:

Esperai, aguardai ora!
Soubemos dum escudeiro
De feição d'atafoneiro
Que virá logo essora,
Que fala... e com' ora fala!
Estrugirá esta sala.
E tange... e com' ora tange!
E alcança quanto abrange,
E se preza bem da gala.

Vem o Escudeiro, com seu Moço, que lhe traz uma viola, e diz, falando só:

ESCUDEIRO:

Se esta senhora é tal
Como os Judeus ma gabaram,
Certo os anjos a pintaram,
E não pode ser i al.
Diz que os olhos com que via
Foram de Santa Luzia,
Cabelos, da Madanela...
Se ela fosse donzela
Tudo essoutro passaria...

Moça de vila será ela,
Com sinalzinho postiço,
E sarnosa no toutiço,
Como burra de Castela.
Eu, assi como chegar
Cumpre-se bem atentar
Se é garrida, se honesta,
Porque o milhor da festa
É achar siso e calar.

Enquanto isso, a Mãe aconselha à filha que represente um papel para agradar ao rapaz, sugerindo a hipocrisia vigente. Expressivos são os conselhos dados à Inês, demonstrando que os atributos femininos desejáveis então eram aqueles ligados à passividade e à submissão: falar pouco, não rir, não encarar e olhar para baixo, numa atitude subserviente condizente com a misoginia da época.

MÃE:

Se este escudeiro há-de vir
e é homem de discrição
hás-te de pôr em feição,
e falar pouco e não rir.
E mais, Inês, não muito olhar,
e muito chão o menear,
porque te julguem por muda,
porque a moça sesuda
é ua perla pera amar.

Em seguida, o escudeiro acompanhado por Fernando, um moço, seu criado, entram em cena.
Ele recomenda ao rapaz se comportar: não usar barrete quando o amo não usar; quando cuspir no chão, limpar o cuspe com o pé e desculpar-se; não rir, caso ele conte muitas mentiras à moça.
Fernando reclama que não tem sapatos nem calças para se apresentar dignamente e o escudeiro promete-lhe que em breve terá dinheiro para pagá-lo.
Brás da Mata, um nobre falido, finge e atua diante de Inês um papel de homem cortesão e discreto.
O escudeiro pede a Fernando a viola e encanta com seus dotes físicos, artísticos e seu discurso ensaiado. Numa única visita, repleta de aparências e cenografia, Inês convence-se dos dotes do pretendente e aceita sua proposta de casamento, mesmo a contragosto de sua Mãe.
Os judeus exaltam a decisão e cobram seu pagamento pelo êxito de seus préstimos. A Mãe promete entregar o dinheiro no dia seguinte.


ESCUDEIRO:

Oh que boas vozes tem
Esta viola aqui!
Leixa-me casar a mi,
Depois eu te farei bem.

MÃE:

Agora vos digo eu
Que Inês está no Paraíso!

INÊS:

Que tendes de ver co isso?
Todo o mal há-de ser meu.

MÃE:

Quanta doudice!

INÊS:

Oh! como é seca a velhice!
Leixai-me ouvir e folgar,
Que não me hei-de contentar
De casar com parvoíce.
Pode ser maior riqueza
Que um homem avisado?

MÃE:

Muitas vezes, mal pecado,
é milhor boa simpreza.

LATÃO:

Ora oivi, e oivireis.
Escudeiro, cantareis
lguma boa cantadela.
Namorai esta donzela

O falsário, assim, alcança seus objetivos e se casa com Inês. Há uma festa com a presença de algumas moças e mancebos vizinhos e a Mãe presenteia os noivos com sua casa, partindo logo em seguida.

ESCUDEIRO:

(...)

Nome de Deus, assi seja!
Eu, Brás da Mata, Escudeiro,
Recebo a vós, Inês Pereira
Por mulher e por parceira
Como manda a Santa Igreja.

INÊS:

Eu, aqui diante Deus,
Inês Pereira, recebo a vós,
Brás da Mata, sem demanda,
Como a Santa Igreja manda.

(...)

MÃE:

Amenhã vo-los darão.
Pois assi é, bem será
Que não passe isto assi.
Eu quero chegar ali
Chamar meus amigos cá,
E cantarão de terreiro.

ESCUDEIRO:

Oh! quem me fora solteiro!

INÊS:

Já vós vos arrependeis?

ESCUDEIRO:

Ó esposa, não faleis,
Que casar é cativeiro.


Após as bodas, com cantorias, banquete e alegria, os recém-casados ficam sozinhos e Inês põe-se a lavrar e a cantar de felicidade. Brás da Mata, que até então, portava-se como um cavalheiro transforma-se num tirano e ordena que a esposa se cale; proíbe que ela cante; dance; não responda ao marido; não converse com ninguém; só saia de sua casa para ir à igreja e nem sequer apareça na janela.

Enfim, Inês deverá ficar reclusa em casa, como se fosse uma freira. E, entre gritos acusa-a de volúvel e desprezível.

ESCUDEIRO:

Vós cantais, Inês Pereira?
Em vodas m'andáveis vós?
Juro ao corpo de Deus
Que esta seja a derradeira!
Se vos eu vejo cantar
Eu vos farei assoviar..

INÊS:

Bofé, senhor meu marido,
Se vós disso sois servido,
Bem o posso eu escusar.

ESCUDEIRO:

Mas é bem que o escuseis,
E outras cousas que não digo!

INÊS:

Porque bradais vós comigo?

ESCUDEIRO:

Será bem que vos caleis.
E mais, sereis avisada
Que não me respondais nada,
Em que ponha fogo a tudo,
Porque o homem sesudo
Traz a mulher sopeada.

Vós não haveis de falar
Com homem nem mulher que seja;
Nem somente ir à igreja
Não vos quero eu leixar
Já vos preguei as janelas,
Por que não vos ponhais nelas.
Estareis aqui encerrada
Nesta casa, tão fechada
Como freira d'Oudivelas.

INÊS:

Que pecado foi o meu?
Porque me dais tal prisão?

ESCUDEIRO:


Vós buscastes discrição,
Que culpa vos tenho eu?
Pode ser maior aviso,
Maior discrição e siso
Que guardar o meu tisouro?
Não sois vós, mulher meu ouro?
Que mal faço em guardar isso?

Vós não haveis de mandar
Em casa somente um pêlo.
Se eu disser: - isto é novelo
Havei-lo de confirmar
E mais quando eu vier
De fora, haveis de tremer;
E cousa que vós digais
Não vos há-de valer mais
Que aquilo que eu quiser.

Depois, o escudeiro comunica que vai para terras d’além mar, para guerrear e tentar fazer-se cavaleiro. Obriga o pajem vigiar a Inês, mas o moço reclama que não tem recursos para se sustentar. Brás da Mata diz que, até a sua volta, ele deve se virar.
Após a partida do escudeiro, Fernando vai para a rua, divertir-se com as mulheres, mas antes tranca a esposa de seu amo em casa.
Inês, abandonada, fechada, lavra e põe-se a cantar, declamando de sua sina. Ela acreditava que os fidalgos fossem gentis com suas damas. Jura que, se conseguir se livrar desse infeliz destino, não se casará senão com marido que possa dominar.

INÊS:

Quem bem tem e mal escolhe
Por mal que lhe venha não s'anoje.

Renego da discrição
Comendo ò demo o aviso,
Que sempre cuidei que nisso
Estava a boa condição.
Cuidei que fossem cavaleiros
Fidalgos e escudeiros,
Não cheios de desvarios,
E em suas casas macios,
E na guerra lastimeiros.

Vede que cavalarias,
Vede que já mouros mata
Quem sua mulher maltrata
Sem lhe dar de paz um dia!
Sempre eu ouvi dizer
Que o homem que isto fizer
Nunca mata drago em vale
Nem mouro que chamem Ale:
E assi deve de ser.

Juro em todo meu sentido
Que se solteira me vejo,
Assi como eu desejo,
Que eu saiba escolher marido,
À boa fé, sem mau engano,
Pacífico todo o ano,
E que ande a meu mandar
Havia m'eu de vingar
Deste mal e deste dano!

A infelicidade de Inês durou três meses. Ela recebe uma carta de seu irmão que estava na mesma guerra que Brás de Mata, informando-a que o seu marido foi morto por um pastor mulçumano, quando tentava fugir da batalha em Arzila. Logo, Inês dispensa o pajem e planeja arranjar um marido manso, que lhe permita gozar a vida.

MOÇO:

Ó meu amo e meu senhor!

INÊS:

Dai-me vós cá essa chave
E i buscar vossa vida.

MOÇO:

Oh que triste despedida!

INÊS:

Mas que nova tão suave!
Desatado é o nó.
Se eu por ele ponho dó,
O Diabo me arrebente!
Pera mim era valente,
E matou-o um mouro só!

Guardar de cavaleirão,
Barbudo, repetenado,
Que em figura de avisado
É malino e sotrancão.
Agora quero tomar
Pera boa vida gozar,
Um muito manso marido.
Não no quero já sabido,
Pois tão caro há de custar.

Fingindo tristeza pela morte do escudeiro, Inês recebe Lianor com o intuito de que ela se compadecesse de sua dor e pudesse tratar de um novo pretendente.
Arrependida de sua precipitação, Inês afirma que, se lhe fosse dada outra chance, não incorreria no mesmo equívoco. Significativamente, ela principia seu novo discurso com o mesmo termo com que antes amaldiçoava o lavrar: renego. Entretanto, o que ela renega aqui é a discrição, qualidade que a fez desposar o homem que a fez infeliz. A protagonista modifica-se ao longo do auto, passando por um processo de sofrimento e de aprendizagem.

LIANOR:

Como estais, Inês Pereira?

INÊS:

Muito triste, Lianor Vaz.

LIANOR:

Que fareis ao que Deus faz?

INÊS:

Casei por minha canseira.

LIANOR:

Se ficaste prenhe basta.

INÊS:

Bem quisera eu dele casta, Mas não quis minha ventura.

LIANOR:

Filha, não tomeis tristura,
Que a morte a todos gasta.

A alcoviteira traz o remédio para a sua tristeza: casar-se novamente, mas agora com o seu primeiro pretendente que ela tanto desprezara, afinal, a experiência lhe ensinara que Pero Marques, em sua parvoíce era sua melhor opção matrimonial. Mas, agora que Pero Marques herdou fazendas de mil cruzados e ainda é apaixonado por Inês.
Ela se faz de preocupada com a moral, casar-se tão logo de ficar viúva, mas Lianor diz que a opinião alheia não importa, e vai buscar o camponês.

INÊS:

Andar! Pêro Marques seja.
Quero tomar por esposo
Quem se tenha por ditoso
De cada vez que me veja.
Por usar de siso mero,
Asno que me leve quero,
E não cavalo folão.
Antes lebre que leão,
Antes lavrador que Nero.

Pero Marques chega e o casamento se realiza rapidamente, sem preocupação com o ritual ou a tradição, inclusive sem o trigo da sorte para jogar sobre os noivos. Em seguida, Lianor se retira.
Inês pede ao marido para sair e passear sozinha e Pero Marques, prontamente, consente.

INÊS:

Marido, sairei eu agora,
Que há muito que não saí?

PERO:

Si, mulher saí-vos i,
Qu'eu me irei pera fora.

INÊS:

Marido, não digo isso.

PERO:

Pois que dizeis vós, mulher?

INÊS:

Ir folgar onde eu quiser

PERO:

I onde quiserdes ir,
Vinde quando quiserdes vir
Estai onde quiserdes estar.
Com que podeis vós folgar
Qu'eu não deva consentir?

Quando Inês usufruía das vantagens do novo casamento, passa por ali um ermitão pedindo esmolas. O ermitão conta-lhe sobre seus dissabores: vive sozinho, rezando e sofrendo por um amor não correspondido.
Inês vai até ele e lhe dá a esmola. Então, o ermitão revela a sua verdadeira identidade: tratava-se de um ex-pretendente de Inês, que ela dispensou.
A moça reconhece o Ermitão numa imagem evocada do seu passado de menina, na casa da tia: era o moço que lhe mandava presentes, pretendendo, naquele tempo, conquistá-la. Ela, porém, o desprezara por conta da idade ainda muito tenra.

ERMITÃO:

Sea por amor de mi
Vuesa buena caridad.
Deo gratias, mi señora!
La limosna mata el pecado,
Pero vos teneis cuidado
De matar-me cada hora.
Deveis saber
Para merced me hacer
Que por vos soy ermitaño.
Y aun más os desengaño:
Que esperanças de os ver
Me hizieron vestir tal paño.

O ermitão dá entender que ele tomou o hábito porque Inês dispensou, em tempos passados, o seu amor. O ermitão afirma que por determinação de Deus e por vontade do Cupido, levou-o a viver em clausura, no alheamento.

INÊS:

Jesu, Jesu! manas minhas!
Sois vós aquele que um dia
Em casa de minha tia
Me mandastes camarinhas,
E quando aprendia a lavrar
Mandáveis-me tanta cousinha?
Eu era ainda Inesinha,
Não vos queria falar.

Logo combinam um encontro na ermida do ermitão, para recuperarem o tempo perdido.

INÊS:

Padre, mui bem vos entendo
Ó demo vos encomendo,
Que bem sabeis vós pedir!
Eu determino lá d'ir
À ermida, Deus querendo.

ERMITÃO:

E quando?

INÊS:

I-vos, meu santo,
Que eu irei um dia destes
Muito cedo, muito prestes.

Inês convence seu marido a acompanhá-la até a ermida distante, onde deverá encontrar-se com um “anjinho de Deus”, na verdade, o ermitão-amante.
No caminho, há um rio. Inês pede ao marido que a carregue nos ombros, para que a água fria não lhe faça mal, cortando seu ciclo menstrual.
Pero Marques feito um ASNO obedece-a prontamente, dando assim, mostras de sua afeiçoa, de sua dedicação e de seu amor pela mulher, e, ao mesmo tempo, dando mostras de sua submissão, de sua condição vassala diante de Inês.

INÊS:

Passemos primeiro o rio.
Descalçai-vos.

PERO:

E pois como?

INÊS:

E levar me-eis no ombro,
Não me corte a madre o frio.

Em seguida, Inês vê umas lousas que servem para colocar talhas. Ela ordena Pero Marques carregar duas delas.
Inês viaja feliz nas costas do marido e sugere que eles cantem.
Pero Marques afirma que não sabe cantar, então, ela pede que ele repita o refrão da cantiga: “Pois assi se fazem as cousas”, verso que sintetiza a sua aquiescência.
Na letra da música, ele é chamado por “marido cuco” (“marido traído”), “gamo” e “cervo”, referindo-se a três animais de chifres que tradicionalmente servem como símbolo de marido enganado, antecipando a sua traição. Mas, a ingenuidade do inocente Pero impede-o de perceber o comportamento de Inês.

INÊS:

Cantemos, marido, quereis?

PERO:

Eu não saberei entoar..

INÊS:

Pois eu hei só de cantar
E vós me respondereis,
Cada vez que eu acabar:
“Pois assi se fazem as cousas”.

Canta Inês Pereira:

INÊS:

“Marido cuco me levades
E mais duas lousas.”

PERO:

“Pois assi se fazem as cousas.”

INÊS:

“Bem sabedes vós, marido,
Quanto vos amo.
Sempre fostes percebido
Pera gamo.
Carregado ides, noss'amo,
Com duas lousas.”

PERO:

“Pois assi se fazem as cousas”

INÊS:

“Bem sabedes vós, marido,
Quanto vos quero.
Sempre fostes percebido
Pera cervo.
Agora vos tomou o demo
Com duas lousas.”

PERO:

“Pois assi se fazem as cousas.”
E assi se vão, e se acaba o dito Auto.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

O tema de “A farsa de Inês Pereira” é desenvolvido com bastante humor, que tem uma função crítica: serve para expor ao ridículo os comportamentos censuráveis dos membros da sociedade.
O mote da farsa: “antes quero asno que me carregue do que cavalo que me derrube”, constitui a síntese estrutural da peça, e a dicotomia que atravessa o texto metaforiza, as atividades estéticas e sócio-culturais medievais e renascentistas, que circunscreveram o período Humanista.
Gil Vicente, um homem situado entre dois mundos, soube como poucos escrever a história de uma sociedade em transição, em seus aspectos histórico, social e linguístico, sobretudo no que se refere ao papel da mulher.
Esse fato pode ser comprovado na mudança de comportamento da protagonista.
Inês reflete os valores do mundo em que está inserida: do encantamento e da fantasia, onde o parecer vale mais do que o ser, em relação à figura cortês do cavaleiro.
A figura do escudeiro Brás da Mata, calculista e mentiroso, representante de uma aristocracia decadente, que finge viver de forma abastada, apenas para impressionar, representa a imagem do CAVALO e, que, significativamente desmorona e a derruba no decorrer da farsa.
Inês, então, percebe as vantagens de aceitar a chegada do simplório, porém bem situado Pero Marques, o ASNO, numa troca que sugere as inúmeras mudanças a que a sociedade assistia, na medida em que, retrata a decadência da nobreza, no cavaleiro sem posses e a ascensão da burguesia, na figura do parvo Pero Marques.
É importante ressaltar que Inês ao conhecer Brás da Mata ficou impressionada e convencida por seu discurso galante, adjetivoso e pelo seu tom que remontava as cantigas de amor, além, de sua aparência pomposa.
Interessante notar que é justamente á falta dessas “qualidades” que a decepcionaram com relação a Pero Marques.
Em segundo plano, encontram-se a ironia e a estarrecedora revelação do condenável comportamento do clero na figura do padre que tenta agarrar Leonor Vaz, daquele que já tentou fazer o mesmo com a mãe de Inês e do ermitão que se tornará amante da jovem. Gil Vicente não poupava o clero e suas peças insistem numa crítica contundente, mediante mordaz comicidade. Devido a isso, muitos estudiosos o consideram um reformista.
Desse modo, pode-se caracterizar a dramaturgia vicentina a partir de três contradições:
1. Forma de Expressão: vincada pela pobreza cenográfica e, ao mesmo tempo, pela riqueza textual;
2. Construção do Conteúdo: reflexo do contraste entre a cultura medieval e a cultura renascente;
3. Personagens: entregue, ora à tipificação, ora à alegorização. Uma dramaturgia que, apesar de ter origem no teatro litúrgico medieval, os autos, se popularizou, alcançando características renascentes, ao tornar-se mais telúrico, pagão, humorado e cotidiano.

4 comentários:

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