terça-feira, 29 de março de 2011

CLASSICISMO EM PORTUGAL, SÁ DE MIRANDA

I – INTRODUÇÃO:


“Nunca uma civilização dera tão grande lugar à pintura e à música, nem erguera ao céu tão altas cúpulas, nem elevara ao nível da alta literatura tantas línguas nacionais encerradas em tão exíguo espaço. Nunca no passado da humanidade tinham surgido tantas invenções em tão pouco tempo. Pois o Renascimento foi, especialmente, progresso técnico; deu ao homem do Ocidente maior domínio sobre um mundo mais bem conhecido. Ensinou-lhe a atravessar os oceanos, a fabricar ferro fundido, a servir-se das armas de fogo, a contar as horas com motor, a imprimir, a utilizar dia a dia a letra de câmbio e o seguro marítimo”.

DELUMEAU, Jean, A Civilização do Renascimento, vol. 1, p.23.

II – CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL:



O Renascimento teve por berço a Itália, logo se estendendo aos demais países europeus.

A crise do século XIV (fome, peste negra e Guerra dos Cem Anos) determinou algumas mudanças no sistema feudal que originaram um grande avanço e fortalecimento do setor mercantil. As rotas marítimas internacionais ganharam maior importância, impulsionados pelo desejo de acumular riquezas, pela sedução da aventura, pelo mistério que cercava a imagem que tinham lugares distantes e, principalmente, pela necessidade de se livrarem da dependência dos mercadores venezianos para conseguir as especiarias tão valorizadas e apreciadas pela corte.
A situação geográfica de Portugal, debruçado sobre o Atlântico e o Mediterrâneo, favoreceu o surgimento de uma burguesia mercantil marítima. Essa mesma geografia proporcionou o isolamento necessário à paz interna e fortalecimento do Estado nacional.
Na Dinastia de Avis (1383-1580) iniciou-se em Portugal o processo de expansão marítimo-comercial, que teve como resultado a conquista da costa ocidental africana e uma nova rota marítima para os mercados indianos. Esse momento histórico vivido é propício à entrada dos novos ventos trazidos da Itália.
Já no final do século XV (1487) foi introduzida a imprensa em Portugal. Começam a ser lidos autores humanistas italianos como Dante Alighieri, Francesco Petrarca e Giovanni Boccaccio.


No século XIV, verifica-se o fim do monopólio clerical no que diz respeito à cultura. Os filhos dos burgueses começam a frequentar as universidades e a tomar contato com uma cultura desligada dos conceitos medievais. A nova realidade econômica vivida pela Europa com a decadência do feudalismo e o fortalecimento da burguesia exige uma nova cultura, mais liberal, antropocêntrica, identificada com o mercantilismo.

O século XVI é considerado um período áureo da arte e particularmente da literatura portuguesa: ao lado dos maravilhosos monumentos arquitetônicos do período manuelino (governo de D. Manuel), temos a produção do humanista Gil Vicente, e o Renascimento português encontra sua máxima expressão em Luís de Camões. Também é no século XVI que a língua portuguesa assume contornos definitivos, iniciando o período do português moderno.
Entretanto, é no final desse mesmo século XVI que Portugal conhece uma grande derrocada econômica e política. Em 1580, temos a unificação da Península Ibérica sob domínio espanhol. Esse fato marca o fim do Classicismo quinhentista e, sob a influência espanhola, inicia-se o Barroco.

III – DADOS CRONOLÓGICOS:

O Classicismo se inicia em Portugal no ano de 1527. O marco cronológico desse período é a volta de Francisco Sá de Miranda a Portugal, após passar seis anos na Itália, onde conhecera intelectuais impregnados das novas ideias, introduzindo, assim, novos conceitos de arte e um novo ideal de poesia, conhecido como “dolce stil nuovo” (doce estilo novo).
O Classicismo se estenderá em Portugal até a morte de Camões e o início da União Ibérica, em 1580.

IV – “DOLCE STIL NUOVO”:

É importante ressaltar que Sá de Miranda não trouxe para Portugal apenas uma maneira nova de se escrever, mas um gosto poético mais refinado e uma nova conceituação artística.
A poesia adota certas formas poéticas fixas, sujeitas a determinadas regras. Com isso, surge um novo conceito de poesia, uma vez que os poetas se sentem mais preparados intelectualmente se comparados aos poetas medievais; os temas poéticos são vários, atingindo a reflexão moral, a filosofia, a política, além do lirismo amoroso.
  • Quanto à métrica em oposição ao ideal quatrocentista de poesia, escrito na forma das redondilhas, nome genérico dado aos poemas feitos em redondilho maior, isto é, com verso de sete sílabas, ou em redondilho menor, de cinco sílabas, que passou a ser denominada de medida velha; os versos de dez sílabas poéticas, contadas até a última sílaba tônica de cada verso, os DECASSÍLABOS, passam a ser adotados como MEDIDA NOVA, já cultivada por Dante Alighieri e Francesco Petrarca. Dependendo de sua acentuação, o decassílabo divide-se em heróico (acentos na 6º e 10º sílabas poéticas) e sáfico (acentos na 4º, 8º e 10º sílabas poéticas). É preciso lembrar que a substituição do verso redondilho, característico da Idade Média, pelo decassílabo não se deu de forma imediata, pois ambas as medidas conviveram por grande parte do século XVI;
  • Novas formas fixas poéticas de inspiração clássica passam a ser compostas pelos artistas: SONETO (composição de 14 versos divididos em dois quartetos e dois tercetos), com metrificação em decassílabos e rimas em esquemas rigorosas. Data o seu aparecimento dos começos do século XII, mas, em Portugal, surge com Sá de Miranda e apura-se com Camões, Bocage, Antero e os Parnasianos. Admite variedade de temas;
  • Além do soneto, introduzido em Portugal por Sá de Miranda, o Classicismo cultiva a EPOPÉIA, texto em que se agrupam os mitos fundamentais ou fundantes de um povo, de uma nação, segundo os modelos de Homero (Ilíada e Odisséia) e de Virgílio (Eneida).
  • A ODE, poesia de exaltação tem os seus antepassados em Anacreonte, Píndaro, Alceu e Safo. É, em geral, poesia panegirista ao Amor, à Virtude, às grandes figuras. Píndaro foi o autor das odes que glorificavam os vencedores dos jogos olímpicos. Estas odes eram cantadas e tinham forma tripartida em estrofe, antístrofe e apodo. Anacreonte foi o poeta do amor, a poetisa Safo versa, principalmente, temas morais;
  • A ELEGIA, composição de tom lamentoso, saudosista, triste, embora na Grécia tivesse mais amplitude de temas;
  • A ÉCLOGA, composição amorosa pastoril, tem precedentes na Península, na “pastorela” da poética trovadoresca, mas é em Teócrito, que tem as suas raízes;
  • A EPÍSTOLA, composição poética à maneira de uma carta em versos.

 V – SÁ DE MIRANDA:


Francisco Sá de Miranda (1481-1558) nasceu em Coimbra; doutorou-se em Direito na Universidade de Lisboa; frequentou os serões da corte; escreveu cantigas, esparsas e vilancete inseridos no “Cancioneiro Geral”, de Garcia de Resende.

Em 1521, desejoso de entrar em contato com as novas inovações artísticas, viajou para Itália renascentista (Milão, Veneza e Roma), lá permanecendo até 1526.
De mentalidade medieval e conservadora, Sá de Miranda conviveu com a visão humanista dos mais importantes artistas da época, principalmente a partir da leitura da obra de Petrarca, que iriam influenciá-lo e refletiram em sua carreira literária.
Sua viagem é de suma importância para o contexto cultural português.
Em 1527, já estabelecido novamente em Portugal e na tentativa de divulgar a nova concepção de arte renascentista, introduziu o “dolce stil nuovo”, novas técnicas versificatórias, inovando a cena artística portuguesa.
Sá de Miranda chocou-se a constatar o atraso cultural de seu país, sobretudo o teatro popular do dramaturgo Gil Vicente, distanciado dos conceitos do teatro clássico predominante nos países renascentistas. Desafiando Gil Vicente, escreveu duas comédias: “Estrangeiros” e “Vilhalpandos”, ambas em prosa, cujas representações resultaram em frustração. A mentalidade portuguesa ainda não estava preparada para uma nova visão de mundo, preferindo a simplicidade e as sátiras de Gil Vicente.

Além de composições poéticas várias, escreveu a tragédia “Cleópatra” e algumas “Cartas” em verso, sendo uma delas dirigida ao rei D. João III, de quem era amigo.
Nesta “Carta a D. João III”, o autor começa se desculpar pelo tempo que vai tomar ao soberano. Sá de Miranda assume uma atitude conselheira, exteriorizando as suas ideias quanto à necessidade do rei deter o poder absoluto. Critica os aduladores, chamando-lhes "salteadores", e desmistifica o clero que, sem vergonha, ostenta uma riqueza excessiva. Esboça ainda uma crítica a Espanha e realça o valor da justiça e da imparcialidade. A carta termina com um humilde pedido de desculpas ao rei pelo atrevimento das suas palavras.
Sá de Miranda compôs seus poemas tanto em medida nova, voltada para as novidades clássicas como em medida velha, para a preservação das formas tradicionais da península. Dessa forma, o poeta revela uma face voltada para o presente - a preservação da liberdade individual, característica renascentista e outra voltada para o passado conservador e moralista – a crítica aos costumes, a ambição e a corrupção.



Sá de Miranda é um dos pioneiros ao apresentar o tema do homem dividido entre a razão versus a emoção na literatura portuguesa e, que, terá muita repercussão durante o Classicismo.


Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.



Com dor da gente fugia,
Antes que esta assi crecesse:
Agora já fugiria
De mim , se de mim pudesse.
Que meo espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?


Tema: desconcerto de amor.
Assunto: o sujeito poético não consegue fugir aos seus sentimentos, há uma luta entre a razão e o coração.
Estado de espírito do sujeito poético: sente-se perdido, descontrolado, dividido.
Conceito de amor presente: fonte de sofrimento, de contradições, de insegurança.
Recursos estilísticos: antíteses.
Estrutura formal: Cantiga - composta por um mote de quatro versos que expõe o assunto do poema; a glosa - oito versos (oitava) - desenvolve-o; assunto quase exclusivamente amoroso.


Dezarrezoado amor, dentro em meu peito
tem guerra com a razão. Amor, que jaz
i já de muitos dias, manda e faz
tudo o que quer, a torto e a direito.

Não espera razões, tudo é despeito,
tudo soberba e força, faz, desfaz,
sem respeito nenhum, e quando em paz
cuidais que sois, então tudo é desfeito.



Doutra parte a razão tempos espia,
espia ocasiões de tarde em tarde,
que ajunta o tempo: em fim vem o seu dia.

Então não tem lugar certo onde aguarde
amor; trata treições, que não confia
nem dos seus. Que farei quando tudo arde?


Assunto: conflito entre o Amor e Razão.
Tema: a incapacidade do eu-lírico perante um amor abrasador.

O “Cancioneiro Geral” encerra a poesia palaciana de Sá de Miranda e no verso tradicional que ele realiza o melhor da sua obra, as “Cartas”. Num esforço digno de elogio, este poeta, que filosofou com as musas e poetou com os filósofos, tentou as várias espécies e gêneros que o Renascimento criara, ou restaurara do Classicismo.

São marcas dessa consolidação: a estruturação de usos da língua portuguesa; o surgimento ou a reafirmação de autores de produção regular (como João de Barros, Damião de Góis, Fernão Mendes Pinto nos estudos históricos; Sá de Miranda, Antônio Ferreira e Luís de Camões no terreno da literatura); o incremento na literatura de autores estrangeiros consagrados (como Francisco Petrarca, Dante Alighieri e Giovanni Boccaccio).

4 comentários:

Rafael Cappello disse...

Coloquei um comentário na postagem sobre pixação...ainda to muito entusiasmado de achar esse blog assim por acaso...abração professora...

Nayara Cristina disse...

Olá
Ótimo site...achei quase tudo q precisava...me ajudou bastante.
Estou adorando estudar sobre o Classicismo...é um assusto muito interessante, porém muito extenso...mas vale a pena aprofundar.

Beijos
Obrigada!

durcilene gonçalves disse...

adorei, esse blog muito bom: foi muito importante para os meus estudos. parabéns

Anônimo disse...

kkk muito legal