segunda-feira, 28 de março de 2011

CLASSICISMO CULTURAL E CIENTÍFICO


O Renascimento não repetiu pura e simplesmente a cultura clássica. Ao contrário, reinterpretou-a a luz de uma nova época.


 I – DEFINIÇÃO:
“Um renascentista”

 “Nicolau era de boas famílias; era um dos quatro filhos dum rico mercador...Por vontade de seu pai, entrou no comércio ainda jovem...Depois da morte do pai (largou os negócios) para fazer o que lhe agradava. Senhor duma bela fortuna, estudou as letras latinas, em que se tornou rapidamente instruído...trabalhou muito o latim e o grego...Era um belo homem...sorridente e de agradável convívio. Nunca se casou para não ser perturbado nos seus estudos...Era muito exigente com a alimentação, como em tudo o mais, fazia servirem-lhe as refeições em belas travessas antigas. Tinha a mesa carregada de vasos de porcelana e bebia por uma taça de cristal ou talhada numa bela pedra...Nicolau era conhecido no mundo inteiro, e aqueles que queriam dar-lhe prazer enviavam-lhe estátuas de mármore, vasos antigos, esculturas, inscrições em mármore, quadros pintados por mestres célebres e mosaicos. Tinha um belo mapa do mundo com todas as indicações de lugares e numerosas ilustrações da Itália e da Espanha...Tinha um grande conhecimento de todas as partes do mundo...A sua casa estava sempre cheia de homens distintos e de jovens notáveis da cidade. Quanto aos estrangeiros que vinham nessa época a Florença, todos pensavam que se não visitassem Nicolau ficariam sem conhecer Florença....Tinha uma bela biblioteca e procurava todos os livros raros, sem olhar ao seu preço...Vendeu várias das suas propriedades e gastou o dinheiro com a sua biblioteca...Além das suas notáveis qualidades, tinha uma opinião esclarecida não somente sobre as letras mas também sobre a pintura e a escultura. Possuía em sua casa grande número de medalhas de bronze, de prata e de ouro, assim como figurinhas antigas de cobre e bustos de mármores.
Nicolau encorajava sempre os estudantes bem dotados a prosseguir na carreira literária e ajudava generosamente todos aqueles que mostravam qualidades, fornecendo-lhes professores e livros, pois nessa época não eram tão numerosos como hoje. Pode dizer-se que ele fez reviver as letras gregas e latinas em Florença, onde estavam há muito tempo esquecidas e, se bem que Petrarca, Dante e Boccaccio tivessem tentado reabilitá-las, não tinham ainda atingido a importância que obtiveram graças aos trabalhos de Nicolau; com efeito, ele levava muitos dos seus contemporâneos a estudar as letras e, persuadidos por ele, numerosos eruditos vieram a Florença estudar e ensinar...
Nicolau protegia os pintores, os escultores, os arquitetos, bem como os homens de letras, e tinha um profundo conhecimento das suas técnicas. Favoreceu particularmente Filippo Brunelleschi, Donatello, Lucca della Robbia, Lorenzo di Bartuloccio e conhecia-os intimamente.”

Vespasiano da Bistici, “Vida dos homens ilustres”. In: Gustavo de Freitas (org.) 900 textos e documentos de História, p. 144 e 145.

 O termo Classicismo ou Renascimento, no âmbito da arte ou da literatura, é uma referência imediata às produções artísticas da Grécia e Roma Antigas.
O termo “Renascimento” foi empregado pela primeira vez em 1855, pelo historiador francês Jules Michelet, para referir-se ao “descobrimento do Mundo e do Homem” no século XVI. O historiador suíço Jakob Burckhardt ampliou este conceito em sua obra “A civilização do renascimento italiano” (1860), definindo essa época como o renascimento da humanidade e da consciência moderna, após um longo período de decadência.
Suas raízes remontam às lentas alterações que se desenvolviam na cultura medieval desde o século XI e do amadurecimento dos mesmos fatores que estimularam uma renovação intelectual e artística a partir do século XIV.
Como os fatores econômicos, políticos, sociais e culturais entrelaçam-se, condicionam-se e influenciam-se reciprocamente, o Renascimento não foi um fenômeno isolado, mas um dos elos da vasta cadeia que assinala a passagem da Idade Média para a Idade Moderna, rompendo lentamente o monopólio cultural até então exercido pela Igreja.

 II - FATORES GERADORES DO RENASCIMENTO:


1. PLANO ECONÔMICO:
O renascimento comercial reativou o intercâmbio cultural entre Ocidente e Oriente, configurando-se como principal fator do renascimento cultural, que culminou na expansão ultramarina dos séculos XV e XVI.

2. PLANO SOCIAL:
No plano social, muitos camponeses abandonaram o campo e rumaram para os burgos em busca de novas ocupações. A urbanização gerava as condições de uma nova cultura, sendo as cidades o pólo de irradiação do Renascimento.
Uma nova classe social foi se formando, constituída prioritariamente pelos pequenos comerciantes, as cidades tornavam-se expressivas, e a burguesia, classe ligada à nascente economia comercial, adquiria importância.

3. PLANO POLÍTICO:
No plano político se configura a transição do Feudalismo para o Capitalismo ocorrendo á centralização do poder, que resultou na formação do Estado moderno.

4. PLANO INTELECTUAL:
A releitura dos estudos das obras clássicas greco-romanas foi de grande importância. Isso foi possível graças aos mosteiros medievais que preservaram em suas bibliotecas muitas dessas obras, protegendo-as da destruição no período das invasões.
A ideia renascentista pressupunha a ruptura com a tradição medieval, principalmente com o teocentrismo e instituía o estudo da humanidade; a valorização do homem e das disciplinas relacionadas à vida humana, como Matemática, Línguas, História e Filosofia laica.
Na Europa, durante a Idade Média, os livros eram copiados à mão. O trabalho dos copistas era lento e a qualidade não era boa. Em 1450, o alemão Johannes Gutemberg criou a impressão mecânica, utilizando tipos móveis de metal. A nova técnica revolucionou a difusão dos conhecimentos e disseminou as teorias e notícias.

 
A imprensa foi uma inovação de capital importância para a humanidade, porém seus efeitos só se fizeram sentir no último século desse movimento o que permitiu o contato do europeu com outras civilizações.

Os burgueses que haviam conquistado suas riquezas com a exploração do comércio e das atividades bancárias, os nobres que ainda conservavam fortunas ou os reis praticavam o mecenato. Tratava-se da ajuda financeira a artistas e intelectuais para que esses pudessem desenvolver seus trabalhos sem a necessidade de realizar outra tarefa que garantisse sua subsistência.
O mecenas era, em geral, um adepto da nova forma de pensar e um apreciador das artes ou apenas, queriam ganhar prestígio social. Entre os mecenas que patrocinaram os estudos humanísticos da época, encontram-se os Médici, em Florença; os Este, em Ferrara; os Sforza, em Milão; os duques de Urbino e os Dogos, em Veneza e o Papado, em Roma.
O político e banqueiro italiano Lourenço de Medici (1449-1492) foi um influente mecenas das humanidades durante o Renascimento. A família Medici governou Florença, desde meados do século XV até 1737, dominando a vida política, social e cultural da cidade. O próprio Lourenço foi poeta, construiu bibliotecas em Florença e patrocinou artistas e literatos, tais como o pintor Michelangelo e o poeta e humanista Angelo Poliziano.

III - RENASCIMENTO CIENTÍFICO:


A principal contribuição do Renascimento ao conhecimento científico foi o desenvolvimento da observação e da experimentação. Foi a partir dessas práticas que os renascentistas avançaram no conhecimento.

Entre os avanços realizados destacam-se Leonardo da Vinci e a inovadora astronomia de Nicolau Copérnico.
Da Vinci inventou inúmeros mecanismos e instrumentos bélicos. Projetou máquinas novas e aperfeiçoou outras, já conhecidas. Dedicou-se ao estudo da anatomia humana, da Física, da Botânica, entre outros campos de pesquisa.
O cônego polonês Nicolau Copérnico em 1530, já se dedicando inteiramente a Matemática, Mecânica e essencialmente, a Astronomia, termina sua grande obra, “De revolutionibus orbium coelestium” (“As revoluções das esferas celestes”), defendendo que a Terra gira em torno de seu próprio eixo uma vez por dia e viaja ao redor do Sol uma vez por ano.
Nascia assim o sistema heliocêntrico, uma ideia fantástica para a época. No tempo de Copérnico, papas, imperadores e o povo em geral tinham como certo que a Terra estava absolutamente parada no centro do Universo, e ao seu redor desfilavam todos os corpos celestes. Também não eram poucos os que acreditavam que a Terra era chata. E desafiar tais crenças poderia ser considerado heresia.
“De revolutionibus orbium coelestium” foi publicada somente 30 anos após ser escrita, no ano da morte do próprio Copérnico, que nunca tomou conhecimento da grande controvérsia que havia ajudado a criar. Afirmam que Copérnico faleceu uma hora depois de por as mãos no primeiro exemplar de seu livro, em 24 de maio de 1543.
A obra de Copérnico foi o alicerce no qual se apoiaram outros grandes pensadores da humanidade, como Galileu, Kepler, Newton e mais recentemente Albert Einstein.
O orgulho humano sofreu um duro golpe com o sistema de Copérnico, e mesmo anos após sua morte, durante o processo de condenação a Galileu em 1616, a Igreja colocou a obra de Copérnico na lista dos escritos proibidos, condição a qual permaneceu até o ano de 1835, ainda que já tivesse sido reconhecida como verdadeira.
Galileu imediatamente adota o copernicanismo. No entanto, demover as pessoas e mesmo os elementos da Igreja Católica acerca do movimento da Terra não era tarefa fácil. Galileu, então, passa a traçar estratégias que se tornariam bastantes eficazes no instante de provar o movimento da Terra. Para isso, teria que desenvolver recursos empíricos pertinentes no sentido de dar apoio às teses defendidas por Copérnico.
O florentino Galileu Galilei inventou o telescópio e, assim, expôs seu sistema astronômico que confirmava as teorias de Copérnico.
Em 1632, Galileu publicou suas observações no livro denominado “Diálogo”. No ano seguinte foi julgado pela Inquisição e, sob ameaça de tortura e morte foi obrigado a negar pública e formalmente a tese de que a Terra girava em torno do Sol.
O texto abaixo é a declaração lida por Galileu no tribunal em 22 de junho de 1633.

“A refeição das cinzas”

 “Eu Galileu Galilei, filho do falecido Vicenzo Galilei, de Florença, com 70 anos de idade, tendo sido trazido pessoalmente ao julgamento e ajoelhando-me diante de vós, Eminentíssimos e Reverendíssimos Cardeais Inquisidores Gerais da Comunidade Cristã Universal contra a depravação herética, tendo diante dos meus olhos os Santos Evangelhos, que toco com minhas próprias mãos; juro que sempre acreditei e com o auxílio de Deus acreditarei de futuro em cada artigo que a sagrada Igreja Católica Apostólica de Roma sustenta, ensina e prega. Mas porque este Santo Ofício me ordenou que abandonasse completamente a falsa opinião, a qual sustenta que o Sol é o centro do mundo e imóvel, e proíbe abraçar, defender ou ensinar de qualquer modo a dita falsa doutrina… Eu desejo remover da mente de Vossas Eminências e das de cada cristão católico esta suspeita corretamente concebida contra mim; portanto, com sinceridade de coração e verdadeira fé, abjuro, maldigo e detesto os ditos erros e heresias, e em geral todos os outros erros e seitas contrárias à dita Santa Igreja; e eu juro que nunca mais no futuro direi ou afirmarei nada, verbalmente ou por escrito, que possa levantar semelhante suspeita contra mim; mas se eu vier a conhecer qualquer herege ou qualquer suspeito de heresia, eu o denunciarei a este Santo Ofício ou ao Inquisidor Ordinário do lugar onde estiver. Juro, além disso, e prometo que cumprirei e observarei inteiramente todas as penitências que me foram ou sejam impostas por este Santo Ofício. Mas se por acaso vier a violar qualquer uma das minhas ditas promessas, juramentos e protestos (o que Deus não permita), sujeitar-me-ei a todas as penas e punições que foram decretadas e promulgadas pelos sagrados cânones e outras constituições gerais e particulares contra delinquentes assim descritos. Portanto, com a ajuda de Deus e dos seus Santos Evangelhos, que eu toco com minhas mãos, eu, abaixo assinado Galileu Galilei, abjurei, jurei, prometi e obriguei-me moralmente ao que está acima citado; e em fé do que com minha própria mão assinei este manuscrito da minha abjuração, o qual eu recitei palavra por palavra.”

Na MEDICINA e na ANATOMIA, houve progressos, especialmente após a tradução de inúmeros trabalhos de Hipócrates e Galeno nos séculos XV e XVI. André Vesálio e Miguel Servet aprofundaram os estudos de Leonardo da Vinci sobre anatomia humana e circulação sanguinea, enquanto Ambroise Paré criava a técnica de usar ataduras para estancar a hemorragia.


A GEOGRAFIA se transformou graças aos conhecimentos empíricos adquiridos através das explorações e dos descobrimentos de novos continentes e pelas primeiras traduções das obras de Ptolomeu e Estrabão. Pode-se citar Georg Bauer, descobridor de novas formas de aproveitamento dos minérios.


IV - PENSADORES DO RENASCIMENTO:

O estudo da literatura antiga, da história e da filosofia moral tinha por objetivo criar seres humanos livres e civilizados, pessoas de requinte e julgamento, cidadãos, mais que apenas sacerdotes e monges.
No campo do DIREITO, procurou-se substituir o abstrato método dialético dos juristas medievais por uma interpretação filológica e histórica das fontes do direito romano. Os renascentistas afirmaram que a missão central do governante era manter a segurança e a paz.
Maquiavel ganhou notoriedade por ter escrito “O Príncipe”, que traça as diretrizes do poder no Estado moderno.

O italiano Maquiavel sustentava que a Virtú (do latim para o português: Virtude) do governante era a chave para a manutenção da sua posição e o bem-estar dos súditos.

O político com grande Virtú vê justamente na Fortuna a possibilidade da construção de uma estratégia para controlá-la e alcançar determinada finalidade, agindo frente a uma determinada circunstância, percebendo seus limites e explorando as possibilidades perante os mesmos. A Virtú está sempre analisando a Fortuna e, portanto, não existe em abstrato, não existe uma fórmula, ela varia de acordo com a situação.
O homem renascentista redescobriu os “Diálogos de Platão”, os textos históricos de Heródoto e Tucídides, além das obras dos dramaturgos e poetas gregos.
O clero renascentista ajustou seu comportamento à ética e aos costumes de uma sociedade laica. As atividades dos papas, cardeais e bispos somente se diferenciavam das usuais entre os mercadores e políticos da época. Ao mesmo tempo, a cristandade manteve-se como um elemento vital e essencial da cultura renascentista. A aproximação humanista com a teologia e as Escrituras são observadas tanto no poeta italiano Petrarca como no holandês Erasmo de Roterdã (1466-1536), grande vulto do renascimento literário e filosófico dos Países Baixos. Considerado o “Príncipe dos Humanitas”, conciliou o racionalismo renascentista com o cristianismo. Propunha que a Igreja se auto-reformasse, superando os vícios que apresentava naquele século, fato que gerou um poderoso impacto entre os católicos e protestantes. Sua obra mais representativa é “Elogio da loucura”.

 
Também, Thomas Morus, grande pensador de origem inglesa, escreveu uma notável crítica à sociedade de sua época no livro “Utopia”.


 V - RENASCIMENTO ITALIANO NAS LETRAS:

 O Renascimento divide-se em três períodos: o Trecento; o Quattrocento e o Cinquecento.
É importante ressaltar que anteriormente ao Trecento, destacou-se Dante Alighieri, escritor italiano, precursor do Renascimento, com a obra “A divina comédia”.

TRECENTO (1300-1399): os principais autores foram Petrarca (1304-1374) e Boccaccio (1313-1375);
PETRARCA, poeta humanista e estudioso italiano nascido em Arezzo, na Toscana, Itália, cujas obras juntamente com as de outro poeta contemporâneo e seu compatriota, Boccaccio, provocaram o advento da Renascença.
No entanto, em seus poemas “Odes a Laura”, uma paixão platônica que se tornou proverbial por sua constância e pureza, ainda se nota um forte sentido de religiosidade medieval. Já na sua epopéia “De África”, Petrarca inspirou-se nos clássicos gregos.

 
O escritor italiano GIOVANNI BOCCACCIO nasceu em Paris no ano de 1313.

Boccaccio leu os clássicos latinos, a literatura de corte francesa e italiana, e escreve as suas primeiras obras: “Filoloco”, “L'Amorosa Visione”, “Elegia di Madonna Fiammetta”, “Ninfale Fiesolano”, e muitos poemas, obras essas que ainda expressam o romanesco, o fantástico e o bizarro da imaginação medieval.
Em 1351 conclui a sua maior obra, o “Decameron”, uma coletânea de contos, iniciada por volta de 1348. Essa obra expressa a crise de valores da época, diferenciando-se da literatura medieval por suas características anticlericais e pela utilização do elemento erótico e picaresco.


Essa obra, apesar der ter sido escrita há mais de seiscentos anos, ainda pode ser lida como enorme prazer. Por isso, tornou-se um clássico da prosa ocidental e um dos maiores livros eróticos de todos os tempos.


 QUATTROCENTRO (1400-1499): período literário mais fraco do Renascimento da Itália. Nessa época, os escritores italianos deixaram de escrever nos dialetos, passando a redigir em latim e grego, limitando-se a realizar imitações dos autores clássicos. Isso se deve em boa parte à emigração de letrados bizantinos, que escreviam nesses idiomas, para a Itália por ocasião da conquista de Constantinopla pelos turcos.

CINQUECENTO (1500-1550): a capital literária italiana passou a ser Roma. O Renascimento já havia impregnado toda a Europa, mas, mostrava sinais de cansaço, abrindo espaço para outras formas de manifestações estéticas, filosóficas, políticas. Ocorrem as primeiras manifestações maneiristas e a reboque da Contrarreforma aparece o Barroco como estilo oficial da Igreja Católica. Na literatura atuaram Ludovico Ariosto, Torquato Tasso e Nicolau Maquiavel.

VI - RENASCIMENTO ARTÍSTICO:



Nas artes, o Renascimento assinala o declínio do estilo gótico e a volta aos padrões clássicos. O estilo gótico, essencialmente medieval, caracterizava-se pela verticalidade e pelas linhas retas. Nele, a escultura e a pintura eram artes secundárias, sem autonomia, subordinadas à arquitetura.

Na arte renascentista, de inspiração clássica, preponderavam a horizontalidade e as linhas curvas.
A escultura e a pintura tornaram-se artes independentes.
No campo das belas-artes, a ruptura definitiva com a tradição medieval teve lugar em Florença, por volta de 1420, quando a arte renascentista alcançou o conceito científico da perspectiva linear, que possibilitou a representação tridimensional do espaço, de forma convincente, numa superfície plana.

TRECENTO: a principal figura foi Giotto (1276-1336), considerado o precursor da pintura renascentista. A humanização das figuras representadas e o cuidado nas proporções são traços que distinguem sua arte da medieval.
GIOTTO retrata Cristo realmente como filho do homem; descreve nas telas os acontecimentos da história sagrada dando-lhes um aspecto de fatos terrenos; situa seus personagens no cotidiano terrestre, representados em movimentos, libertando-os do imobilismo da pintura medieval.
Giotto foi o introdutor da perspectiva na pintura, retirando suas figuras do plano bidimensional e dotando suas obras de um efeito de profundidade que, embora ainda não totalmente aperfeiçoado, representou um avanço considerável em relação à técnica da pintura medieval.

Giotto, “Retiro de São Joaquim entre os pastores”.
 
QUATTROCENTO: introdução da pintura a óleo, provavelmente importada de Flandres.
O óleo seca mais vagarosamente que a água, permitindo ao pintor demorar-se mais nos detalhes trabalhados e realizar correções quando necessário.
A inovação trouxe consequências do ponto de vista econômico: a pintura, executada sobre telas, converteu-se em mercadoria. Tal fato era inviável anteriormente, pois os artistas realizavam seus trabalhos diretamente sobre muros ou paredes – os afrescos.
Os principais representantes desse período foram:
MASACCIO: produziu obras que representavam emoções simples, comuns ao ser humano.

Masaccio, “A Divina Trindade”.


BOTTICELLI: procurou conciliar o paganismo clássico com os valores cristãos.

Botticelli, “O nascimento de Vênus”.
 
LEONARDO DA VINCI: artista de transição entre o Quattrocento e Cinquecento. Evitando a mera imitação dos clássicos, manifestou um profundo realismo, desenvolvendo estudos científicos da natureza antes de realizar suas obras. Quanto aos seres humanos, procurava penetrar em suas características psicológicas antes de retratá-los.

Leonardo da Vinci, “A última ceia”.


CINQUECENTO: apogeu e início da decadência da arte Renascentista na Itália.
Principais artistas:
RAFAEL: artista mais popular de sua época. Não possuía a preocupação intelectual de Da Vinci, nem as contradições de conteúdo emocional de Michelangelo. Preferia transferir para suas obras equilíbrio, doçura e piedade. Glorificando a forma e a cor em si mesmas, expressava sentimentos religiosos.

Rafael, “A Escola de Atenas”.


MICHELANGELO: o maior pintor e escultor do Cinquecento. Tratou os temas cristãos de forma essencialmente clássica e pagã. As figuras bíblicas são não magras e ascéticas como nas pinturas medievais; ao contrário, possuem extraordinária beleza e opulência, como as antigas esculturas pagãs.

Michelangelo, “O Juízo Final”.

 TICIANO E TINTORETTO: foram os mais representativos pintores entre os artistas de Veneza. Sua obra caracterizou-se pela riqueza e variedade de cores, opulência de formas e efeitos obtidos com jogos de luz e sombra. Não se preocupavam com temas filosóficos ou psicológicos, ao contrário de seus colegas de Florença. Se Ticiano pode ser considerado um discípulo de Rafael, Tintoretto foi sem dúvida um seguidor de Ticiano.

Ticiano, “Vênus de Urbino”.


VI - MOVIMENTO ELITISTA E URBANO:

O Renascimento foi um movimento intelectual e artístico elitista reservado as pessoas que podiam se dedicar integralmente ao estudo do grego e latim ou a aprender técnicas de pintura, pré-requisitos inacessíveis à população pobre e inculta.
O Renascimento italiano foi, sobretudo, um fenômeno urbano, resultado de um período de grande expansão econômica e demográfica dos séculos XII e XIII, produto das cidades que floresceram no centro e no norte da Itália.

VIII - ITÁLIA, O BERÇO DA RENASCENÇA:

 
A nova cultura teve início e atingiu o seu maior brilho na Itália.

O pioneirismo italiano se explica por diversos fatores:
  • A Itália foi o centro do Império Romano e por isso tinha mais presente á memória da cultura clássica;
  • A vida urbana e as atividades comerciais, mesmo durante a Idade Média, sempre foram mais intensas na Itália do que no resto da Europa;
  • Veneza e Gênova foram duas importantes cidades portuárias italianas, ambas com uma pode¬rosa classe de ricos mercadores;
  • As cidades italianas monopolizavam o comércio de especiarias com o Oriente, estimulando um efervescente intercâmbio cultural, mantendo um contato constante com Bizâncio (Constantinopla), o que deu condições para que os italianos tivessem acesso às obras clássicas preservadas por esses povos;
  • Quando Constantinopla foi conquistada pelos turcos, em 1453, vários sábios bizantinos fugiram para Itália levando manuscritos e obras de arte;
  • O grande acúmulo de riquezas obtidas no comércio com o Oriente, formou uma poderosa classe de ricos mercadores, banqueiros e poderosos senhores. Esse grupo representava um mercado para as obras de arte, estimulando a produção intelectual. Muitos pensadores, pintores, escultores e arquitetos se tomaram protegidos dessa poderosa classe.
IX - CARACTERÍSTICAS:


O Renascimento significou uma nova arte, o advento do pensamento científico e uma nova literatura. Nelas estão presentes as seguintes características:

IMITAÇÃO DOS CLÁSSICOS DA ANTIGUIDADE: a mais fundamental característica do Classicismo é o fato de que consistiu numa concepção de arte baseada na imitação dos clássicos gregos e latinos, tomados como modelos de perfeição estética. Por imitação dos clássicos entendia-se não a cópia servil, mas a obediência aos padrões de beleza em arte segundo as fórmulas e as medidas presentes nos mestres do passado.

O próprio termo Renascimento foi cunhado pelos contemporâneos do movimento, que pretendiam estar fazendo renascer aquela cultura, desaparecida durante a “Idade das Trevas” (Média).

Por isso a arte clássica segue regras rígidas de composição, aceitas como garantia do resultado estético antes mesmo da elaboração da obra. Tais regras constituíam a arte, ou a técnica, que era necessário dominar com a força do gênio, ou do engenho, entendido como o talento pessoal na realização daquelas regras.

Da imitação dos clássicos decorre o hábito das alusões à mitologia antiga.

ANTROPOCENTRISMO, “O homem no centro”: valorização do homem como ser racional. Para os renascentistas o homem era visto como a mais bela e perfeita obra da natureza; possuidor de capacidade criadora e detentor de sabedoria.

 Não se tratava de opor o homem a Deus e medir suas forças. Tratava-se na verdade de valorizar as pessoas em si, encontrar nelas as qualidades e as virtudes negadas pelo pensamento religioso medieval.

RACIONALISMO: “Haja a Razão lugar, seja entendida”, como afirma Antônio Ferreira (Carta X, a D. Simão da Silveira). Se a ira de Deus não é mais a explicação para os fenômenos observados, é preciso analisá-los racionalmente, a partir de características concretas.

O homem, assim, investe na razão como parâmetro de observação e pela experiência as leis que governam o mundo. Assim, a arte clássica não elimina os aspectos irracionais do comportamento humano, mas prega sua vigilância pela razão, para que não comprometam, com sua tendência ao descontrole e ao desequilíbrio.

O que se pretende é uma espécie de equilíbrio entre a razão e imaginação, com o objetivo de chegar a uma arte que seja modelo de universalidade e impessoalidade.

A razão humana é á base do conhecimento. Isto se contrapunha ao conhecimento baseado na autoridade, na tradição e na inspiração de origem divina que marcou a cultura medieval.

IMPESSOALIDADE: Os ideais de universalidade e a impessoalidade implicavam a existência de um modelo de beleza superior e eterno, isto é, válido em todos os tempos, o ideal de beleza greco-latino. Os clássicos renascentistas, assim, procuraram a Beleza, o Bem e a Verdade, entendidos como ideias absolutos, tais como se definiam nos monumentos do pensamento e da arte antigas.

HEDONISMO: Valorização dos prazeres sensoriais. Esta visão se opunha à ideia medieval de associar o pecado aos bens e prazeres materiais.

OTIMISMO: Os renascentistas acreditavam no progresso e na capacidade do homem de resolver problemas. Por essa razão apreciavam a beleza do mundo e tentavam captá-la em suas obras de arte.

FORMALISMO; HARMONIA; EQUILÍBRIO: Os clássicos se atentam em formas preconcebidas que são as formas observadas nos mestres do passado, nas quais identificam as qualidades da harmonia e do equilíbrio entre as partes constitutivas do todo da obra da arte, ainda que tenham o escrúpulo de adaptarem-nas às especificidades culturais próprias.

X - RENASCENTISMO EM OUTROS PAÍSES DA EUROPA:


A expansão cultural do Renascimento coincidiu com a consolidação de grande parte dos Estados modernos. A par de seus aspectos universais, a cultura renascentista adaptou-se às condições específicas de cada país. Não tingiu, porém, em outro país da Europa, o grau de desenvolvimento alcançado na Itália.


XI - DECADÊNCIA DO RENASCIMENTO:

A decadência do Renascimento italiano pode ser explicada por diversos fatores:

  • Com as Grandes Navegações, o centro econômico europeu foi transferido para o Atlântico, depois que a Espanha e Portugal passaram a liderar, quebrando o monopólio italiano no comércio de produtos orientais;
  • As lutas políticas internas entre as diversas cidades-Estado e a intervenção das potências políticas da época (França, Espanha e Sacro Império Germânico), consumiram as riquezas da Itália;
  • A Igreja afastou-se do mecenato, pois a Contra-Reforma condenou as manifestações culturais renascentistas. Some-se a esse quadro o fato de a cultura renascentista ser elitista, não havendo conquistado as camadas populares. Estas, distantes desse processo artístico, não opuseram obstáculos pela Igreja católica.




2 comentários:

Anônimo disse...

GOSTEI DO TEXTO,MUITO INTERESSANTE.

Sávio Morais Cristofoletti Desenhista disse...

Mana Valéria, vim lhe dar os parabéns por seu trabalho e convidá-la a acessar minha página de divulgação, eis o endereço → http://www.facebook.com/SavioChristiDesenhistaDivulgacao.

Bom, abraços e até mais então!