quarta-feira, 2 de março de 2011

ÁPORO, A ROSA DO POVO - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


"A Rosa do Povo" reúne poemas escritos entre 1943 e 1945 e representa o auge do lirismo engajado de Carlos Drummond de Andrade. A obra é composta por 55 poemas e entre suas diversas vertentes, encontra-se o poeta de ação, a lírica social e o metalirismo, alternando a solidariedade da palavra poética para com o homem do povo, seu fechamento e a consciência da "crise da poesia".

Os temas de “A Rosa do Povo” se entrelaçam, porém nunca se distanciam do realismo social participante.
A atitude lúdica explorada intensamente em suas obras iniciais; o fechamento do discurso, levando em conta certas afinidades formais; o poema geralmente curto, anti-retórico e a experimentação linguística estão projetados no instigante poema "Áporo".


ÁPORO


Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.



Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?



Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:



em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se


A primeira leitura do poema “Áporo” tem-se à sensação de estranhamento, que se prolonga por sua linguagem sintética e pela ruptura da linearidade discursiva. Esse processo ocorre pelo fato da imagem do “áporo” tratar-se de algo comum, porém em forma metafórica, trazendo à tona essa sensação de estranhamento.
“Áporo” é uma intersecção de três temáticas essências de “A rosa do povo”: a crítica social, o existencialismo e a metalinguagem.

Considerando-se as acepções de “áporo”, num renomado dicionário, depara-se:

Problema de difícil resolução. Bot. Planta da família das orquidáceas. Zool. Inseto himenóptero.”

Conclui-se, assim, que “áporo” é um signo que admite vários significados desde sem saída (da sua origem grega), e sua variação problema difícil de se resolver, até uma espécie de inseto, passando também por um tipo de orquídea.


Cada estrofe do poema transcrito constrói-se com três isotopias temáticas relacionáveis pela pluralidade de significados e linearidade de sua estrutura:

- a primeira corresponde ao inseto, que cava sem alarme perfurando a terra;
- a segunda estrofe fala da aporia, que corresponde a um problema quase sem solução, implicando o labirinto;
- a última trata da orquídea, o desfecho e a surpresa.

Outra leitura metafórica possível trata-se de:


- o inseto correspondendo ao poeta (o ser humano) que, oprimido busca sua libertação;

- através do seu fazer poético cava sem alarme perfurando o poema que, encontra-se “bloqueado” em sua interioridade (nas páginas vazias de sua obra) como um construtor de conscientização;
- até transformar o seu poema em forma de uma flor (orquídea), efetivando sua escrita.

A escolha das palavras, nesse poema, prevalece e o eixo de combinação segue em segundo plano; a relação se faz por analogia das imagens que sugerem a luta do “inseto-homem-poeta” para sair do labirinto faz com que a adversidade, o obstáculo, se transforme em esperança e, como por mistério, do impossível surge á transformação: o inseto se faz “orquídea antieuclidiana”, destruidora da geometria convencional, fenômeno que quebra a lógica e automaticamente, abertura para o novo.


Pode-se analisar o poema como sendo um exemplo de dialética, o qual inicia-se com uma tese (ou fato) seguida por uma antítese (ou negação dessa tese) e por fim apresenta uma síntese, que é a convivência paradoxal dessas duas ideias. Assim, cada estrofe representa também um dos passos descritos. O inseto que cava insistente, porém pacíficamente, sem achar saída da terra é a tese. É seguida por uma antítese, que nega a pacificidade do bichinho, tornando sombrio e sem saída seu ambiente e futuro. Por fim, nasce uma orquídea antieuclideana (contra o criador da geometria, Euclides de Alexandria, o que indica que nasce contra todas as leis da geometria, ou do que se esperava), que é apresentada como a salvação, a solução, em meio ao escuro, à noite.


Percebe-se ainda no poema uma referência ao contexto histórico e político do Brasil na época. A obra foi escrita em plena ditadura de Getúlio Vargas, a qual o escritor era contra.

Neste poema a interpretação política possível, relaciona-se aos trechos que se referem a Luís Carlos Prestes (“presto se desata”) que acabara de ser libertado pelo regime ditatorial e “em país bloqueado” reforçado pelas metáfora noite, raiz e minério, sugerindo escuridão, entrelaçado, prisão, dureza e improbabilidade de escape. A figura histórica pode ser vista, portanto, como um áporo buscando caminho na pátria sem saída que se tornou o Brasil na Era Vargas e a orquídea, uma imagem de esperança pelas transformações que já se anunciavam.

Ainda assim, existe quem interpreta “Áporo” como um mero exercício lúdico, em que as palavras são contempladas, manipuladas, transformadas, enquanto outros buscam seu significado nos campos da filosofia e da matemática para uma situação, um problema sem solução.

O que importa não é o que dito, mas de que forma é dito; o conteúdo entrelaça-se à expressão. Por essa via, entende-se que um áporo não teria o mesmo valor como aparece no poema de Drummond; a forma o torna o “Áporo”, ou seja, a literariedade o singulariza.
Nesse sentido, o poema tem um corpus autônomo, o qual se deve analisar, imanentemente, tendo em vista sempre os seus aspectos intrínsecos. Entende-se, assim, que não interessa recorrer diretamente aos pontos da razão para compreender o fenômeno literário. Drummond valeu-se da imagem por sua capacidade de transmitir uma idéia que não aparece no texto literário apenas de forma pictórica, integra-se, fundamentalmente, ao sentido; contribui para uma nova percepção da realidade ao ponto em que se distancia dela.

Note que a essência do áporo, do inseto, vai se movimentando em todo o poema, transformando-se, até o ápice do último verso da terceira estrofe. É o momento da transformação e da iniciação, já anunciadas na segunda estrofe na aliteração do /s/ e do /t/ e da assonância do /e/ que acabam criando a forma verbal “encete” (ENlaCE de noiTE), que significa principiar, mas que possui também uma forte aproximação sonora com “inseto”. A mutação final virá no último verso: o áporo inseto se transforma em áporo orquídea. Tanto que a raiz SE está prestes a se libertar, pois virou a forma pronominal “se” (e, portanto, com relativa vida própria) que encerra o poema. Além disso, a essência etimológica do signo “inseto” são as letras: “s” e “e”, diluídas na corporação do poema.

Um inSEto cava
cava SEm alarme
perfurando a terra
SEm achar EScape.

Que faZEr, ExauSto,
Em paíS bloqueado,
enlaCE de noite
raiZ E minério?

EiS que o labirinto
(oh razão, miStÉrio)
prESto SE dESata:

em verdE, Sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-SE.



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