terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

SENHORA, JOSÉ DE ALENCAR


I – INTRODUÇÃO:


“Senhora”, último romance publicado em vida por José de Alencar, representa uma das suas obras-primas e umas das preciosidades da literatura brasileira. Trata-se de um romance urbano passado na primeira metade do século XIX e retrata os valores da aristocracia escravista do Segundo Reinado, na sociedade fluminense.
A obra é uma crônica de costumes, um retrato da Corte e pode ser considerada precursora do Realismo ou Pré-realista, uma vez que, trata do tema do casamento burguês, ou seja, baseado no interesse financeiro.

II – ESTRUTURA:

O romance “Senhora” em sua estrutura é composta por quatro partes e não obedece á uma ordem cronológica:

I. Parte: “O PREÇO”
Narra os episódios em tempo presente, quando a personagem Aurélia pede ao tio que ofereça ao jovem Fernando Seixas a sua mão em casamento.

II. Parte: “QUITAÇÃO”
Faz um retrocesso e narra o passado da personagem Aurélia o que explica ao leitor o seu procedimento cruel em relação a Fernando.

III. Parte: “POSSE”
Retorna ao tempo atual e relata o desmascaramento de Fernando e o início da fase de hipocrisia conjugal.

IV. Parte: “RESGATE”
Desenrolar da trama. Intensificam-se os caprichos e as contradições do comportamento de Aurélia, ora ferina, mordaz, insaciável na sua sede de vingança, ora ciumenta, doce, apaixonada. Intensifica-se também a transformação de Fernando, que não usufrui da riqueza de Aurélia, tornando-se modesto nos trajes, assíduo na repartição onde trabalhava, e assim adquirindo, sem perder a elegância, uma dignidade de caráter que nunca tivera.
No final, Fernando, quase um ano após o casamento, negocia com Aurélia o seu resgate. Devolve-lhe os vinte contos de réis, que correspondiam ao adiantamento do montante total do dote com o qual possibilitava o casamento da irmã, e mais o cheque que Aurélia lhe dera, de oitenta contos de réis, na noite de núpcias.
Separam-se, então, a esposa traída e o marido comprado, para se reencontrarem os amantes, a última recusa de Seixas sendo debelada quando Aurélia lhe mostra o testamento que fizera, quando casaram, revelando-lhe o seu amor e destinando-lhe toda a sua fortuna.
Esses títulos distanciam do perfil de uma história de amor, aproximando-se mais de livro de contabilidade. Esse recurso explicita a temática da obra: o dinheiro como elemento corruptor do homem e a “negociação” efetuada por Aurélia.

III – FOCO NARRATIVO:

O foco narrativo é de terceira pessoa por um narrador onisciente, ou seja, que tudo sabe sobre as personagens, penetrando em seus pensamentos e em sua alma para transmitir suas confidências mais intimas. Esse narrador é também intruso, já que interfere em vários momentos, apresentando-se ao leitor. A técnica narrativa empregada por Alencar em “Senhora” é sem dúvida bem moderna, se tomarmos como base suas obras anteriores, já que o autor utiliza digressões.

IV – ESPAÇO E TEMPO:

A ação se passa no Rio de Janeiro na época do Segundo Império, com alusões à Guerra do Paraguai, reconstituições do vestuário e mobiliário da época, apresentando traços de psicologismo e crítica social.
O tempo cronológico, onde o mesmo não há linearidade, pois é contada a partir do flash-back, narrando o casamento de Aurélia e Fernando até a noite de núpcias, então promove um corte e passa a narrar fatos bem anteriores ao casamento, para finalmente, retomar fatos acontecidos depois dele.
Há um contraponto entre o passado que se associa com a “cor local', na medida em que nele predomina a pobreza de Aurélia e com ela o provincianismo, o acanhamento, a “brutalidade” singela, simples, e o presente apresentando o lado cosmopolita, refinado e europeu do romance.

V – LINGUAGEM:

Alencar contribuiu com a formação da literatura brasileira, dando inovações estilísticas e que serviu de base para outros se espelharem para construção de romances históricos, sociais, urbanos e rurais e que com estas inovações deram o titulo de precursor do séc. XIX. Em “Senhora” há grande relação de fonologia-grafologia para expressar a emoção das personagens. O autor recorreu aos sinais de pontuação: exclamações e reticências, grifos, acento e entonação dando ao leitor a ilusão de fala em cena.
O uso de sufixos diminutivos com valor afetivo constitui-se uma marca no estilo de José de Alencar, além de figuras de linguagem, principalmente a metáfora e a comparação.

VI – PERSONAGENS PRINCIPAIS:

As personagens são bem construídas e já apresentam certa profundidade psicológica. Ao contrário de várias personagens românticas, não constituem meros tipos sociais, já que são capazes de atitudes inesperadas.

1. Fernando Seixas: Jovem estudante de Direito, bem vestido e apreciador da vida em sociedade. A falta de dinheiro o conduz a acreditar que a única maneira de evitar a ruína final é casando-se com um bom dote. Envolvido pelo amor de Aurélia, chega a pensar em abandonar os hábitos caros, mas acaba percebendo que não consegue viver longe da sociedade. Depois do casamento por interesse, é humilhado, arrepende-se e consegue resgatar o dinheiro que recebeu a Aurélia.

2. Aurélia Camargo: Moça pobre. Aurélia é decente e apaixonada por Fernando Seixas. A decepção amorosa transforma-a numa mulher vingativa e fria, mas que não consegue disfarçar seu verdadeiro sentimento por Seixas. Seu comportamento é típico de uma esquizofrênica, já que se vê dividida entre sentimentos contraditórios até o final do romance. O amor parece ser sua salvação, redimindo-a de perder o homem que ama por causa de seu orgulho.

3. Dona Emília: Viúva, mãe de Aurélia. Mulher honesta e séria, que amargou imenso sofrimento por causa de seu amor por Pedro Camargo.

4. Pedro Camargo: Pai de Aurélia, filho natural de um rico fazendeiro do interior de São Paulo, de quem nutria grande medo. Morre à mingua por não conseguir confessar seu casamento contra a vontade do pai.

5. Lourenço Camargo: Avô de Aurélia. Pai de Pedro. Homem duro e rústico, mas que procura ser justo depois que descobre a existência do casamento do filho.

6. D. Firmina: Parente distante de Aurélia e que lhe serve de companhia quando fica rica.

7. Lemos: Tio de Aurélia. “Velho de pequena estatura, não muito gordo, mas rolho e bojudo como um vaso chinês. Apesar de seu corpo rechonchudo tinha certa vivacidade buliçosa e saltitante que lhe dava petulância de rapaz, e casava perfeitamente com seus olhinhos de azougue.” Foi escolhido por Aurélia como tutor porque a moça podia dominá-lo facilmente.

8. Adelaide: Rival de Aurélia, quando pobre, na disputa de Seixas. Acaba se casando com o Dr. Torquato Ribeiro que Aurélia habilmente lhe arranja para conseguir se casar com Fernando.

9. Torquato Ribeiro: Moço bom e humilde que procurou ajudar Aurélia nos vários momentos difíceis, quando pobre.

10. Eduardo Abreu: Pretendente de Aurélia. Moço bom que custeou as despesas do enterro de sua mãe.

VII – RESUMO DO ENREDO:

PRIMEIRA PARTE: O PREÇO

CAPÍTULO I


O capítulo I inicia-se com a apresentação da protagonista Aurélia Camargo.


Há anos raiou no céu fluminense uma nova estrela.
Desde o momento de sua ascensão ninguém lhe disputou o cetro; foi proclamada a rainha dos salões.
Tornou-se a deusa dos bailes; a musa dos poetas e o ídolo dos noivos em disponibilidade.
Era rica e formosa.
Duas opulências, que se realçam como a flor em vaso de alabastro; dois esplendores que se refletem, como o raio de sol no prisma do diamante.
Quem não e recorda da Aurélia Camargo, que atravessou o firmamento da corte como brilhante meteoro, e apagou-se de repente no meio do deslumbramento que produzia o seu fulgor?
Tinha ela dezoito anos quando apareceu a primeira vez na sociedade. Não a conheciam; e logo buscaram todos com avidez informações acerca da grande novidade do dia.
Dizia-se muita coisa que não repetirei agora, pois a seu tempo saberemos a verdade, sem os comentos malévolos de que usam vesti-la os noveleiros.
Aurélia era órfã; e tinha em sua companhia uma velha parenta, viúva, D. Firmina Mascarenhas, que sempre a acompanhava na sociedade.
Mas essa parenta não passava de mãe de encomenda, para condescender com os escrúpulos da sociedade brasileira, que naquele tempo não tinha admitido ainda certa emancipação feminina.
Guardando com a viúva as deferências devidas à idade, a moça não declinava um instante do firme propósito de governar sua casa e dirigir suas ações como entendesse.
Constava também que Aurélia tinha um tutor; mas essa entidade desconhecida, a julgar pelo caráter da pupila, não devia exercer maior influência em sua vontade, do que a velha parenta.
A convicção geral era que o futuro da moça dependia exclusivamente de suas inclinações ou de seu capricho; e por isso todas as adorações se iam prostrar aos próprios pés do ídolo.
Assaltada por uma turba de pretendentes que a disputavam como o prêmio da vitória, Aurélia, com sagacidade admirável em sua idade, avaliou da situação difícil em que se achava, e dos perigos que a ameaçavam.
Daí provinha talvez a expressão cheia de desdém e um certo ar provocador, que eriçavam a sua beleza aliás tão correta e cinzelada para a meiga e serena expansão d’alma.
Se o lindo semblante não se impregnasse constantemente, ainda nos momentos de cisma e distração, dessa tinta de sarcasmo, ninguém veria nela a verdadeira fisionomia de Aurélia, e sim a máscara de alguma profunda decepção.
Como acreditar que a natureza houvesse traçado as linhas tão puras e límpidas daquele perfil para quebrar-lhes a harmonia com o riso de uma pungente ironia?
Os olhos grandes e rasgados, Deus não os aveludaria com a mais inefável ternura, se os destinasse para vibrar chispas de escárnio.
Para que a perfeição estatuária do talhe de sílfide, se em vez de arfar ao suave influxo do amor, ele devia ser agitado pelos assomos do desprezo?
Na sala, cercada de adoradores, no meio das esplêndidas reverberações de sua beleza, Aurélia bem longe de inebriar-se da adoração produzida por sua formosura, e do culto que lhe rendiam; ao contrário parecia unicamente possuída de indignação por essa turba vil e abjeta.
Não era um triunfo que ela julgasse digno de si, a torpe humilhação dessa gente ante sua riqueza. Era um desafio, que lançava ao mundo; orgulhosa de esmagá-lo sob a planta, como a um réptil venenoso.
E o mundo é assim feito; que foi o fulgor satânico da beleza dessa mulher, a sua maior sedução. Na acerba veemência da alma revolta, pressentiam-se abismos de paixão; e entrevia-se que procelas de volúpia havia de ter o amor da virgem bacante.
Se o sinistro vislumbre se apagasse de súbito, deixando a formosa estátua na penumbra suave da candura e inocência, o anjo casto e puro que havia naquela, como há em todas as moças, talvez passasse despercebido pelo turbilhão.
As revoltas mais impetuosas de Aurélia eram justamente contra a riqueza que lhe servia de trono, e sem a qual nunca por certo, apesar de suas prendas, receberia como rainha desdenhosa, a vassalagem que lhe rendiam.
Por isso mesmo considerava ela o ouro, um vil metal que rebaixava os homens; e no íntimo sentia-se profundamente humilhada pensando que para toda essa gente que a cercava, ela, a sua pessoa, não merecia uma só das bajulações que tributavam a cada um de seus mil contos de réis.
Nunca da pena de algum Chatterton desconhecido saíram mais cruciantes apóstrofes contra o dinheiro, do que vibrava muitas vezes o lábio perfumado dessa feiticeira menina, no seio de sua opulência.
Um traço basta para desenhá-la sob esta face.
Convencida de que todos os seus inúmeros apaixonados, sem exceção de um, a pretendiam unicamente pela riqueza, Aurélia reagia contra essa afronta, aplicando a esses indivíduos o mesmo estalão.
Assim costumava ela indicar o merecimento de cada um dos pretendentes, dando-lhes certo valor monetário. Em linguagem financeira, Aurélia cotava os seus adoradores pelo preço que razoavelmente poderiam obter no mercado matrimonial.
Uma noite, no Cassino, a Lísia Soares, que fazia-se íntima com ela, e desejava ardentemente vê-la casada, dirigiu-lhe um gracejo acerca do Alfredo Moreira, rapaz elegante que chegara recentemente da Europa:
- É um moço muito distinto, respondeu Aurélia sorrindo; vale bem como noivo cem contos de réis; mas eu tenho dinheiro para pagar um marido de maior preço, Lísia; não me contento com esse.
Riam-se todos destes ditos de Aurélia, e os lançavam à conta de gracinhas de moça espirituosa; porém a maior parte das senhoras, sobretudo aquelas que tinham filhas moças, não cansavam de criticar desses modos desenvoltos, impróprios de meninas bem-educadas.
Os adoradores de Aurélia sabiam, pois ela não fazia mistério, do preço de sua cotação no rol da moça; e longe de se agastarem com a franqueza, divertiam-se com o jogo que muitas vezes resultava do ágio de suas ações naquela empresa nupcial.
Dava-se isto quando qualquer dos apaixonados tinha a felicidade de fazer alguma cousa a contento da moça e satisfazer-lhe as fantasias; porque nesse caso ela elevava-lhe a cotação, assim como abaixava a daquele que a contrariava ou incorria em seu desagrado.
Muito devia a cobiça embrutecer esses homens, ou cegá-los a paixão, para não verem o frio escárnio com que Aurélia os ludibriava nestes brincos ridículos, que eles tomavam por garridices de menina, e não eram senão ímpetos de uma irritação íntima e talvez mórbida.
A verdade é que todos porfiavam, às vezes colhidos por desânimo passageiro, mas logo restaurados por uma esperança obstinada, nenhum se resolvia a abandonar o campo; e muito menos o Alfredo Moreira que parecia figurar a cabeça do rol.
Não acompanharei Aurélia em sua efêmera passagem pelos salões da Corte, onde viu, jungido a seu carro de triunfo, tudo que a nossa sociedade tinha de mais elevado e brilhante.
Proponho-me unicamente a referir o drama íntimo e estranho que decidiu do destino dessa mulher singular.”

CAPÍTULO II


Aurélia, no dia seguinte, esta reclinada na conversadeira com os olhos a vagar pelo crepúsculo do aposento, em profunda meditação.

Sombreia o formoso semblante uma tinta de melancolia que não lhe é habitual desde certo tempo, e que não obstante se diria o matiz mais próprio das feições delicadas. Há mulheres assim, a quem um perfume de tristeza idealiza. As mais violentas paixões são inspiradas por esses anjos de exílio.”
Aurélia decide que chegou o momento de enfrentar o problema de sua existência; mesmo que isso signifique sacrificar o seu futuro.
D. Firmina Mascarenhas interrompe seus pensamentos e comentam sobre o baile da noite anterior.
Aurélia pergunta a D. Firmina se ela é mais bonita que Amaralzinha, uma moça que apareceu pela primeira vez na sociedade.
D. Firmina responde-lhe que “há de ser difícil que se encontre em todo o Rio de Janeiro outra moça que tenha sua educação. Lá mesmo, por Paris, de que tanto se fala, duvido que haja. (...) Você toca piano como o Arnaud, canta como uma prima-dona, e conversa na sala com os deputados e os diplomatas, que eles ficam todos enfeitiçados. E como não há de ser assim? Quando você quer, Aurélia, fala que parece uma novela.
- Já vejo que a senhora não é nada lisonjeira. Está desmerecendo os meus dotes, acudiu a menina sublinhando a última palavra com um fino sorriso de ironia. Então não sabe, D. Firmina, que eu tenho um estilo de ouro, o mais sublime de todos os estilos, a cuja eloquência arrebatadora não se resiste? As que falam como uma novela, em vil prosa, são essas moças românticas e pálidas que se andam evaporando em suspiros; eu falo como um poema: sou a poesia que brilha e deslumbra!
- Entendo o que você quer dizer; o dinheiro faz do feio bonito, e dá tudo, até saúde.”

CAPÍTULO III

Na hora do almoço, Aurélia “que não gostava de especiarias, e só de longe em longe bebia algumas gotas de licor, quis experimentar quanto molho e condimento picante havia em casa; e para remate bebeu um cálice de Xerez.”
Esse acontecimento, na opinião da viúva, não podia ser outro senão que, Aurélia havia se decidido por algum pretendente. D. Firmina pergunta-lhe em que a moça estava pensando e para sua surpresa escuta: “- Resolvi ser freira!”
Depois acrescenta:
“- Mas o meu convento há de ser este mesmo mundo em que vivemos, que nenhum outro teria mais penitências e mortificações para mim.”
Aurélia, em seguida, escreve uma carta endereçada ao Sr. Lemos pedindo-lhe sua presença.
O Sr. Lemos era um velho de pequena estatura, não muito gordo, mas rolho e bojudo como um vaso chinês. Apesar de seu corpo rechonchudo tinha certa vivacidade buliçosa e saltitante que lhe dava petulância de rapaz, e casava perfeitamente com os olhinhos de azougue.
Logo à primeira apresentação reconhecia-se o tipo desses folgazões que trazem sempre um provimento de boas risadas com que se festejam a si mesmos.
Quando o Lemos na qualidade de tio fora pelo juiz de órfãos encarregado da tutela de Aurélia, deu-se um incidente que desde logo determinou a natureza das relações entre o tutor e sua pupila.
Pretendia o velho levar a menina para a companhia de sua família.
Opôs-se formalmente Aurélia, e declarou que era sua intenção viver em casa própria, na companhia de D. Firmina Mascarenhas.
À vista desse tom positivo, o Lemos refletiu, e julgou mais prudente não contrariar a vontade da menina. Aquela idéia do pedido ao juiz para remoção da tutela não lhe agradara. Pensava ele que às mulheres ricas e bonitas não faltam protetores de influência.”

CAPÍTULO IV



O semblante de Aurélia denunciava a gravidade daquela reunião. E, sem preâmbulos informa ao tio que decidiu casar-se. Sr. Lemos atônito pergunta-lhe se ela precisa de ajuda para escolher um marido a sua altura. Mas, Aurélia extremamente decisiva responde-lhe que já o encontrou.

Sr. Lemos lembra-a que como tutor ele tem que dar sua aprovação.
Mas, a moça revide afirmando que já havia completado “dezenove anos; posso requerer um suplemento de idade mostrando que tenho capacidade para reger minha pessoa e bens; com maioria de razão obterei do juiz de órfãos, apesar de sua oposição, um alvará de licença para casar-me com quem eu quiser. Se estes argumentos jurídicos não lhe satisfazem, apresentar-lhe-ei um que me é pessoal.”
“- Esquece que desses dezenove anos, dezoito os vivi na extrema pobreza e um no seio da riqueza para onde fui transportada de repente. Tenho as duas grandes lições do mundo: a da miséria e a da opulência. Conheci outrora o dinheiro como um tirano; hoje o conheço como um cativo submisso. Por conseguinte devo ser mais velha do que o senhor que nunca foi nem tão pobre, como eu fui, nem tão rico, como eu sou.”
O tutor, perante as ameaças da moça, se dispõe a atendê-la.
Aurélia pergunta se o velho conhece Manuel Tavares do Amaral, empregado da alfândega; que apesar de não ser rico; “ajustou o casamento da filha Adelaide com um moço que esteve ausente do Rio de Janeiro, e a quem ele ofereceu de dote trinta contos de réis.”
E acrescenta:
“- É preciso quanto antes desmanchar este casamento. A Adelaide deve casar com o Dr. Torquato Ribeiro de quem ela gosta. Ele é pobre; e por isso o pai o tem rejeitado, mas se o senhor assegurasse ao Amaral que esse moço tem de seu uns cinquenta contos de réis, acha que ele recusaria?
- Suponha que eu assegurasse isso. Donde sairia esse dinheiro?
- Eu o darei com o maior prazer.
- Mas, minha menina, para que nos vamos nós intrometer nos negócios alheios?
- O senhor é bastante perspicaz para perceber aquilo que debalde lhe procuraria ocultar. Prefiro confiar-me sem reservas à sua lealdade.
A moça fez um esforço.
- Esse moço, que está justo com a Adelaide Amaral, é o homem a quem eu escolhi para meu marido. Já se vê que, não podendo pertencer a duas, é necessário que eu o dispute.”
Em seguida, pede-lhe que negocie o seu casamento com esse homem; mantenha seu nome incógnito, dando-lhe somente autorização para afirmar que a noiva não é velha nem feia e detalhando os termos da proposta.
“- Os termos da proposta devem ser estes; atenda bem. A família da tal moça misteriosa deseja casá-la com separação de bens, dando ao noivo a quantia de cem contos de réis de dote. Se não bastarem cem e ele exigir mais, será o dote de duzentos...
- Hão de bastar. Não tenha dúvida.
- Em todo o caso quero que o senhor compreenda bem o meu pensamento. Desejo, como é natural, obter o que pretendo, o mais barato possível; mas o essencial é obter; e portanto até metade do que possuo, não faço questão de preço. É a minha felicidade que vou comprar.”
(...)
“- Oh! exclamou Aurélia, eu daria por ela toda a minha riqueza. Outras a têm de graça, que lhes vem diretamente do céu. Mas não me posso queixar, pois negando-me esse bem, Deus compadeceu-se de mim, e enviou-me quando menos esperava tamanha herança para que eu possa realizar a aspiração de minha vida. Não dizem que o dinheiro traz todas as venturas?”
Depois de tudo acertado, o Sr. Lemos completou que só faltava o nome do noivo.
Aurélia tirou da carteirinha o bilhete de visita, apresentou-o ao tutor e impediu que repetisse em alta voz o nome, ordenando-o que o escrevesse.
Quando chegou a casa, ainda o Lemos não estava de todo restabelecido do atordoamento que sofrera.

CAPÍTULO V

O narrador descreve uma casa na Rua do Hospício, próximo ao campo, e ressalva o aspecto de pobreza da habitação. Contrastando, porém, com a humildade dos dois aposentos encontram-se vestuários elegantes e caros e objetos pessoais finos.
Sobre um dos aparadores tinham posto uma caixa de charutos de Havana, da marca mais estimada que então havia no mercado. Eram regalias como talvez só saboreavam nesse tempo os dez mais puros fumistas do império.
No velho sofá de palha escura, havia uma almofada de cetim azul bordada a froco e ouro. A mais suntuosa das salas do Rio de Janeiro não se arreava por certo com uma obra de tapeçaria, nem mais delicada, nem mais mimosa do que essa, trabalhada por mãos aristocráticas.
Passando à alcova, na mesquinha banca de escrever, coberta com um pano desbotado e atravancada de rumas de livros, a maior parte romances, apareciam sem ordem tinteiros de bronze dourado sem serventia; porta-charutos de vários gostos, cinzeiros de feitios esquisitos e outros objetos de fantasia.
A tábua da cômoda era verdadeiro balcão de perfumista. Aí achavam-se arranjados toda a casta de pentes e escovas, e outros utensílios no toucador de um rapaz à moda, assim como as mais finas essências francesas e inglesas, que o respectivo rótulo indicava terem saído das casas do Bernardo e do Louis.
A um canto do aposento notava-se um sortimento de guarda-chuvas e bengalas, algumas de muito preço. Parte destas naturalmente provinha de mimos, como outras curiosidades artísticas, em bronze e jaspe, atiradas para baixo da mesa, e cujo valor excedia de certo ao custo de toda a mobília da casa.
Um observador reconheceria nesse disparate a prova material de completa divergência entre a vida exterior e a vida doméstica da pessoa que ocupava esta parte da casa.”
Fernando Seixas é “um moço que ainda não chegou aos trinta anos. Tem uma fisionomia tão nobre, quanto sedutora; belos traços, tez finíssima, cuja alvura realça a macia barba castanha. Os olhos rasgados e luminosos, às vezes coalham-se em um enlevo de ternura, mas natural e estreme de afetação, que há de torná-los irresistíveis quando o amor os acende. A boca vestida por um bigode elegante, mostra o seu molde gracioso, sem contudo perder a expressão grave e sóbria, que deve ter o órgão da palavra viril.
Sua posição negligente não esconde de todo o garbo do talhe, que se deixa ver nessa mesma retração do corpo. É esbelto sem magreza, e de elevada estatura.
O pé pousado agora em uma chinela não é pequeno; mas tem a palma estreita e o firme arqueado da forma aristocrática.
Vestido com um chambre de fustão que briga com as mimosas chinelas de chamalote bordadas a matiz, vê-se que ele está ainda no desalinho matutino de quem acaba de erguer-se da cama. Ainda o pente não alisou os cabelos, que deixados a si tomam entretanto sua elegante ondulação.”
Fernando acabara de se levantar, enquanto sua irmã Mariquinhas traz-lhe o café, conversam sobre o baile da noite passada. Ele comenta á irmã que Aurélia foi à rainha do baile. Mariquinhas lembra-o quanto ele foi apaixonado por essa moça.
“- Foi a maior paixão da minha vida, Mariquinhas!
- Mas você esqueceu-a pela Amaralzinha; observou a irmã com um sorriso.
Seixas moveu a cabeça com um meneio lento e melancólico; depois de uma pausa, em que a irmã contemplou, compassiva e arrependida de ter evocado aquela saudade, ele continuou em tom vivo e animado:
- Ontem no Cassino, estava deslumbrante, Mariquinhas! Nem tu podes imaginar!... Vocês mulheres têm isso de comum com as flores, que umas são flores da sombra e abrem com a noite, e outras são filhas da luz e carecem de sol. Aurélia é como estas; nasceu para a riqueza. Eu bem o pressenti! Quando admirava a sua formosura naquela salinha térrea de Santa Teresa, parecia-me que ela vivia ali exilada. Faltava o diadema, o trono, as galas, a multidão submissa, mas a rainha ali estava em todo o seu esplendor. Deus a destinara à opulência.
- Está rica então?
- Apareceu-lhe de repente uma herança.... Creio que dum avô. Não me souberam bem explicar; o certo é que possui hoje, segundo me disseram, cerca de mil contos.”
Entra outra irmã, Nicota e as irmãs brigam enciumadas uma da outra pelo carinho de Seixas.

CAPÍTULO VI

Filho de um empregado público e órfão aos dezoito anos, Seixas foi obrigado a abandonar seus estudos na Faculdade de São Paulo pela impossibilidade em que se achou sua mãe de continuar-lhe a mesada. Já estava no terceiro ano, e se a natureza que o ornara de excelentes qualidades lhe desse alguma energia a força de vontade, conseguiria ele vencendo pequenas dificuldades, concluir o curso; tanto mais quanto um colega e amigo, o Torquato Ribeiro lhe oferecia hospitalidade até que a viúva pudesse liquidar o espólio.”
O pai de Seixas deixara seu escasso patrimônio complicado com uma hipoteca, além de várias dívidas miúdas. Depois de uma difícil e morosa liquidação, com que a viúva achou-se embaraçada, pôde-se apurar a soma de doze contos de réis, afora uns quatro escravos. Partilhados estes bens, D. Camila, a mãe de Seixas, por conselho de amigos, pôs o dinheiro a render na Caixa Econômica e ia sobrevivendo dos juros semestrais e também de algumas costuras dela e das duas filhas.
Fernando quis concorrer com seu ordenado para a despesa mensal, mas tanto a mãe, como as irmãs, recusaram. A família entendia que deviam preservá-lo, mimando-o, vestindo-o com elegância e proporcionando-o diversões. Assim, enquanto ele brilha nos bailes, elas ficam em casa, trabalhando solitárias, ou com alguma rara visita e envelhecendo solteironas.
Foi assim que Seixas insensivelmente afez-se à dupla existência, que de dia em dia mais se destacava. Homem de família no interior da casa, partilhando com a mãe e as irmãs a pobreza herdada, tinha na sociedade, onde aparecia sobre si, a representação de um moço rico.”
Uma noite, Seixas sofreu uma decepção amorosa ao entrar no baile, e retirou-se despeitado. Não tendo onde consumir as horas, e aborrecido da sociedade, recolheu-se a casa. A desventura pungiu-lhe a musa, que era de índole melancólica. Lembrou-se do seu Byron e das imitações que havia feito de algumas das mais acerbas exprobrações do bardo inglês. Ao regressar á sua casa, ouviu uma visita comentando com sua mãe e suas irmãs sobre uma ópera que estava no Teatro Lírico e aconselhando-as a não perder tal espetáculo.
Seixas refletiu sobre o assunto e decide levá-las ao teatro.
Foi uma festa para as três senhoras; D. Camila, apesar de sua lhaneza e modéstia, sentiu ao atravessar a multidão pelo braço do filho um aroma de orgulho, mas desse orgulho repassado de susto, que é antes a consciência da própria humildade, do que desvanecimento de egoísmo. As filhas partilhavam este sentimento; e acreditavam que todas as outras moças lhes invejavam aquele irmão.”
No entanto, arrependeu-se. No teatro encontrou-se com um conhecido que lhe perguntou de “onde foste desencovar aquele terno de roceiras? Aposto que andas com tenções sinistras. Uma delas não é nenhuma asneira!... Que temível!”
Seixas sentiu vergonha do vestuário das três senhoras e chegou, durante alguns dias, trancou-se em casa e fugia dos divertimentos. Passada a crise, passa sonhar com uma vida materialmente realizada, onde pudesse dar todo o conforto a sua família.
Uma vez rico e ilustre, montaria sua casa com um estado correspondente à sua posição.
Então sua família participaria não só dos gozos materiais desse viver opulento, como do brilho e prestígio de seu nome. O trato da sociedade lhes imprimiria o cunho de distinção de que precisavam para bem se apresentarem. Casaria as duas irmãs vantajosamente; e faria assim a felicidade de todos esses entes queridos confiados a seu desvelo.”

CAPÍTULO VII

Fernando acabara de chegar de viagem e conversava com as irmãs, quando Sr. Lemos chega à sua casa.
O tutor entrega uma carta e explica-lhe:
“- Trata-se de uma moça, sofrivelmente rica, bonitota, a quem a família deseja casar quanto antes. Desconfiando desses peralvilhos que por aí andam a farejar dotes, e receando que a menina possa de repente enfeitiçar-se por algum dos tais bonifrates, assentou de procurar um moço sisudo, de boa posição, embora seja pobre; porque são justamente os pobres que sabem melhor o valor do dinheiro, e compreendem a necessidade de poupá-lo, em vez de atirá-lo pela janela fora como fazem os filhos dos ricaços.
Lemos fitou os olhinhos de azougue no semblante de Seixas.
- Fui encarregado por essa família que me honra com sua amizade de procurar a pessoa que se deseja, e minha presença aqui, neste momento, significa que tive a fortuna de encontrá-la.”
Seixas lisonjeado, responde:
“- Antes de tudo cumpre-me declarar-lhe que estou de algum modo comprometido, e embora não haja um ajuste formal, todavia não poderia dispor livremente de mim.
- Os compromissos rompem-se dum momento para outro.”
Sr. Lemos parte e deixa o endereço para Fernando procurá-lo se mudasse de ideia.
Meia hora depois, Seixas descia a Rua do Ouvidor e no caminho encontra os amigos e conhecidos que o festejam, pedindo-lhe novas da viagem e dando-lhe as mais frescas da Corte. Entre estas figurava a aparição de Aurélia Camargo, que datava de meses, mas era ainda o grande sucesso do mundo fluminense.
Mais tarde, no teatro encontra-se com Alfredo Moreira e quando Aurélia passa por Fernando, age como se não o conhecesse.

CAPÍTULO VIII

Sr. Lemos sai satisfeito da casa de Seixas com o resultado da sua exploração, dirige-se
a casa do Amaral, onde entabulou uma negociação que devia assegurar o êxito da primeira.
Desenganado o moço da Adelaide e dos trinta contos, não tinha remédio senão aceitar a consolação dos cem; consolação que levaria o pico de uma vingançazinha.”
Quando Seixas o procura, Sr. Lemos não se surpreendeu.
Desde que entrara, Seixas mostrara em sua fisionomia, como em suas maneiras, um constrangimento que não era natural ao seu caráter. Parecia lutar contra uma força interior que o demovia da resolução tomada; mas se não podia subtrair-se a esses rebates, dominava-se bastante para subjugá-los à necessidade.”
Seixas dirigiu ao velho uma série de interrogações sobre sua noiva: idade, educação, nascimento e outras circunstâncias que lhe interessavam e exigiu um adiantamento de vinte contos.
“- Está visto! Escute, não prometo nada; mas espere-me amanhã em sua casa, que eu lá estarei por volta das nove. Lemos aviou uns negocinhos; muniu-se de uma folha de papel selado de vinte mil-réis; e depois de jantar deu um pulo às Laranjeiras.”
Sr. Lemos vai até Aurélia e expõe a proposta de Seixas. Ela aprova o adiantamento e questiona qual o motivo que levaria o noivo precisar dessa importância. O tio levanta a hipótese de que ser alguma aventura com essas francesinhas que vieram trabalhar no Alcazar.
No dia seguinte, Sr. Lemos entrega a Fernando a quantia solicitada e pede que assine um recibo.

CAPÍTULO IX

Seixas era homem honesto; mas ao atrito da secretaria e ao calor das salas, sua honestidade havia tomado essa têmpera flexível de cera que se molda às fantasias da vaidade e aos reclamos da ambição.
Era incapaz de apropriar-se do alheio, ou de praticar um abuso de confiança; mas professava a moral fácil e cômoda, tão cultivada atualmente em nossa sociedade.
Segundo essa doutrina, tudo é permitido em matéria de amor; e o interesse próprio tem plena liberdade, desde que transija com a lei e evite o escândalo”.
No dia seguinte à visita de Lemos, D. Camila conta-lhe sobre um pretendente para Nicota e Fernando concordou com prazer no casamento. Pede que tire o dinheiro guardado na Caixa Econômica para que ela possa preparar o enxoval da filha.
Fernando saiu contrariado. Com a vida que tinha, avultava sua despesa. O dinheiro que recebia mensalmente gastava-o com o hotel, o teatro, a galanteria, o jogo, as gorjetas, e mil outras verbas próprias de rapaz que vive de luxo.
Outro problema veio somar suas preocupações: três cartas, uma do Amaral, comunicando o rompimento de noivado e duas outras cartas de cobrança.
Fernando amassou as três missivas em uma pelota que arremessou ao canto. A ruptura do ajuste de casamento, que em outra circunstância porventura o contentaria com a restituição da liberdade e responderia a um oculto desejo, naquele instante o acabrunhou.”
Para culminar com essa série de desgraças não conseguiu Seixas a sua promoção no emprego conforme esperava e lhe tinha sido prometida.
Na reunião, a que vai, à noite, encontra Adelaide pelo braço de Alfredo Moreira e Aurélia pelo braço de Torquato Ribeiro. Aurélia, na frente de Fernando, propõe a Adelaide á troca de pares.
Adelaide corou observando timidamente:
- Podem ofender-se.
- Não tenha susto.
Aurélia deixou o braço de Torquato e tomou o do Moreira que exultou como se imagina.
- Esta troca é paga da outra que fizemos, ou que fizeram por nós; ouviu, D. Adelaide?
Soltando estas palavras com um riso argentino, Aurélia perpassou pelo semblante de Seixas o olhar sarcástico e imperioso.
Fernando saiu desesperado. Compreendera que Aurélia escarnecia da repulsa que ele sofrera, e triunfava com seu infortúnio. Esta irrisão depois dos transtornos econômicos fez-lhe o efeito de um cautério aplicado ao talho.”
Fernando, embora, não entendeu a ironia de Aurélia, refletiu sobre a proposta que aceitou, e conclui de que seria uma boa vingança contra essa moça arrogante, casar-se com a tal moça, mesmo que fosse roceira.
No outro dia, chegou a esta dolorosa conclusão: que estava arruinado e isso o horrorizava.
Este pânico da pobreza apoderou-se de Seixas, e depois de trabalhá-lo o dia inteiro, levou-o na manhã seguinte à casa do Lemos, onde efetuou-se a transação, que ele próprio havia qualificado, não pensando que tão cedo havia de tornar-se réu dessa indignidade.”
Três dias após receber o adiamento, Fernando é levado à casa da prometida pelo Sr. Lemos, que ainda usava, para disfarçar, o nome de Ramos ao tratar com o Seixas.
“- Escuso preveni-lo, observou Lemos, de que a pequena nada sabe, nem suspeita. Por enquanto não dê a perceber.”

CAPÍTULO X

As visitas foram conduzidas pelo criado ao salão, onde apenas se achava D. Firmina Mascarenhas, e o Torquato Ribeiro, com quem o velho trocou algumas palavras no vão de uma janela, enquanto Seixas sentado junto ao sofá aguardava o terrível momento.
Ouviu-se um frolido de sedas, e Aurélia assomou na porta do salão.”
Aurélia estava linda e radiante, mas Seixas está tão constrangido que não a reconhece inicialmente. Nem mesmo a vê.
Entretanto dissipou-se a grande comoção que percutira profundamente o organismo desse homem, desde o momento da entrada de Aurélia no salão, e lhe havia embotado os sentidos. Uma voz melodiosa penetrou-lhe n’alma, acordando ecos dali adormecidos. Pela primeira vez pôs os olhos no semblante da moça e imagine-se qual seria o seu pasmo reconhecendo Aurélia Camargo.
Por algum tempo julgou-se vítima de uma alucinação. Custava-lhe a convencer-se que tivesse realmente diante de si a mulher de quem se julgava eternamente separado. A comoção foi tão forte que desvaneceu quase de seu espírito a lembrança do motivo que o trouxera àquela casa, e a posição falsa em que se achava. Uma satisfação íntima o absorveu completamente, e não deixou presa às amargas preocupações que pouco antes o dominavam.”
Vencendo as emoções iniciais, Aurélia e Fernando conversam sobre amenidades como a viagem dele e a beleza de Recife.
Chegam outras visitas e Aurélia vai recebê-las. Sr. Lemos aproveita para confessar a Fernando que seu nome verdadeiro é Lemos e não Ramos, acrescentando que ele é o tutor de Aurélia.
Por meio da noite, a moça ao atravessar a sala quando voltava de despedir-se de uma senhora, viu Seixas recostado a uma janela, pela parte de fora. (...) Essa primeira pausa que lhe deixavam os deveres da sociedade depois da entrada de Aurélia na sala, seu pensamento a aproveitou para bem compenetrar-se dos fatos que se acabavam de passar e aos quais buscava uma causa ou uma explicação.”
Aurélia aproxima-se de Seixas e pergunta se ele buscava no céu as estrelas.
Seixas responde que “estava pensando nos caprichos da fortuna que me trouxe esta noite à sua casa. É isto uma graça ou uma ironia da sorte? A senhora é quem poderá dizer-me.”
Aurélia mente que deixou a escolha de seu marido por conta do tutor. Fernando pergunta se “não lhe acode alguma recordação de outros tempos”. Ela responde secamente para não tocarem no passado.

CAPÍTULO XI

Desde, então, Seixas encontrou-se quase todas as noites com Aurélia, ou em casa desta, ou na sociedade.
Fernando espera redimir-se do seu gesto através do amor. Tenta recordar o passado, mas Aurélia interrompe-o, dizendo que ela nasceu há um ano.
Um dia Seixas encontrando-se com Sr. Lemos indagou qual o motivo que o levou dar preferência para marido de Aurélia.
“- Hã! hã!... Então quer saber? Pois lá vai; não faço mistério, não me convinha que a pequena se deixasse iludir pelas lábias de um desses bigodinhos que lhe andam ao faro do dote. Então soube que ela outrora gostara do senhor, e como pelas informações que tinha, me quadrava, fui procurá-lo. Agora o resto é por sua conta, maganão.”
Esta explicação o tranquiliza. E, logo após é anunciado oficialmente o noivado.
“- D. Aurélia, o Sr. Seixas a quem já conhece por suas excelentes qualidades, pessoa digna de toda a estima, pediu-me sua mão. Por minha parte eu não podia fazer melhor escolha, em todos os sentidos; mas tudo isto nada vale, se não tiver a fortuna de merecer o seu agrado.”
A notícia do noivado produz um grande assombro na alta sociedade. Certo dia, Alfredo Moreira, quando a encontrou depois da novidade, não pôde esconder o despeito:
- Então casa-se?
- É verdade.
- Afinal achou; cotação muito alta sem dúvida? replicou o elegante com ironia.
- Não, tornou-lhe a moça no mesmo tom. Ficou-me por uma ninharia.”
Gradativamente, Aurélia vai se afastando das festas da Corte, “limitando-se ao pequeno círculo que frequentava sua casa”. Enquanto, Seixas pensava:
Ela duvida que eu a ame. Suspeita que tenho a mira em sua riqueza. É preciso que a convença da sinceridade de minha afeição. Se ela soubesse! Um desgraçado pode sacrificar sua liberdade; mas a alma não se vende!”
Tratou-se, logo, de marcar o dia do casamento e colocou-se em discussão a questão dos padrinhos. Criou-se um grande embaraço quando Aurélia declarou que um dos seus padrinhos havia de ser o Dr. Torquato Ribeiro.
No dia seguinte assinou-se a escritura nupcial de separação de bens que assegurava a Seixas um dote de cem contos de réis.
Só mais tarde assinou Aurélia, para o que levou-lhe o tabelião o livro à casa. Nenhuma palavra porém trocou-se entre ela e o noivo a tal respeito.”

CAPÍTULO XII

Reunira-se na casa das Laranjeiras, a convite de Aurélia, uma sociedade escolhida e não muito numerosa para assistir ao casamento. Aurélia resolveu casar-se ao costume da terra, à noite, em oratório particular.
D. Camila, mãe de Seixas, que saíra de sua obscuridade para assistir ao casamento do seu Fernando, e sentindo-se deslocada no meio daquela sociedade, retirou-se com as filhas logo depois de concluído o ato.
Após a recepção, Sr. Lemos conduz Seixas aos seus aposentos. Aurélia escolheu perfumes e jóias necessárias a um homem da alta sociedade e na presença de todos, registrou seu testemunho.
Depois, despediu-se de todos e fechou “à chave a porta da saleta”, ficando a sós com Seixas.

CAPÍTULO XIII

Aurélia entrou na câmara nupcial e Seixas questiona o porquê da demora.
A noiva, então, questiona se ele realmente a ama.
“- E amou-me sempre, desde o primeiro dia que nos vimos?
- Não lho disse já?
- Então nunca amou a outra?
- Eu lhe juro, Aurélia. Estes lábios nunca tocaram a face de outra mulher, que não fosse minha mãe. O meu primeiro beijo de amor, guardei-o para minha esposa, para ti...
Soerguendo-se para alcançar-lhe a face, não viu Seixas a súbita mutação que se havia operado na fisionomia de sua noiva.
Aurélia estava lívida, e a sua beleza, radiante há pouco, se marmorizara.
- Ou de outra mais rica!... disse ela retraindo-se para fugir ao beijo do marido, e afastando-o com a ponta dos dedos.
(...)
- Representamos uma comédia, na qual ambos desempenhamos o nosso papel com perícia consumada. Podemos ter este orgulho, que os melhores atores não nos excederiam. Mas é tempo de pôr termo a esta cruel mistificação, com que nos estamos escarnecendo mutuamente, senhor. Entremos na realidade por mais triste que ela seja; e resigne-se cada um ao que é, eu, uma mulher traída; o senhor, um homem vendido.
- Vendido! exclamou Seixas ferido dentro d’alma.
- Vendido, sim: não tem outro nome. Sou rica, muito rica; sou milionária; precisava de um marido, traste indispensável às mulheres honestas. O senhor estava no mercado; comprei-o. Custou-me cem contos de réis, foi barato; não se fez valer. Eu daria o dobro, o triplo, toda a minha riqueza por este momento.
Aurélia proferiu estas palavras desdobrando um papel, no qual Seixas reconheceu a obrigação por ele passada ao Lemos.”

SEGUNDA PARTE

QUITAÇÃO

CAPÍTULO I

Através de flashback, o narrador retorna dois anos antes do casamento, para narrar á história de D. Emília Camargo, mãe de Aurélia.
Quando moça, D. Emília Lemos teve inclinação por um estudante de medicina, que dela se apaixonara. Certo de que seu afeto era retribuído, Pedro de Sousa Camargo, o estudante, animou-se a pedi-la em casamento.”
Emília vivia na companhia do Sr. Manuel José Correia Lemos, seu irmão mais velho e chefe da família. Tratou este de colher informações acerca do moço. Veio ao conhecimento de que era filho natural de um fazendeiro abastado, que o mandara estudar e tratava-o à grande. Lemos visando uma possível herança no caso de ser o rapaz herdeiro, consentia o casamento desde que Pedro apresentasse uma autorização do pai.
“- Por nossa parte, não há dúvida, meu camaradinha. Arranje a licença do papai, ou o reconhecimento por escritura pública; o resto fica por minha conta.
Era uma recusa formal, porquanto Pedro Camargo jamais se animaria a confessar o seu amor ao pai, que lhe inspirava desde a infância, pela rudeza e severidade da índole, um supersticioso terror.”
Emília amava Pedro e aceitava-o mesmo desprovido de rendas.
Casaram-se às ocultas. O casamento fora celebrado na Matriz do Engenho Velho, em segredo, mas com todas as formalidades; pois os noivos eram maiores, e haviam requerido as dispensas necessárias.
Na casa de Lemos, entretanto, ninguém acreditou em semelhante casamento. Para a família, a moça não era senão a amante de Pedro Camargo; e por conseguinte, uma mulher perdida.
O pai de Pedro, o fazendeiro Lourenço de Sousa Camargo foi avisado de que seu filho vivia com uma moça que tirara de casa da família e temendo que o rapaz concretizasse essa união, enviou um de seus camaradas para buscá-lo imediatamente.
Pedro parte, prometendo-lhe voltar breve para não mais separarem-se. “Faltou, porém, ao moço a coragem para afrontar novamente as iras do fazendeiro com a revelação do seu casamento.”
Os dias passavam e Pedro não encontrava forças para confessar ao pai o segredo do casamento. Escrevia à sua “Emília longas cartas cheias de ternuras e protestos, nas quais prometia-lhe partir dentro em poucos dias para levá-la à fazenda” e envia-lhe meios de prover à sua subsistência.
Depois de um ano, o velho fazendeiro, consentiu ele que o filho viesse à Corte de passagem.
Reviram-se os dois esposos depois de tão longa ausência, e amaram-se nesses poucos dias por todo o tempo da separação.”
Pedro Camargo conhece já com dois meses o seu primeiro filho, a que deu o nome de Emílio. Os dias que Pedro Camargo demorava-se na Corte foram de grande entrega e felicidade para o casal. Emília entendia que seu casamento talvez se irritasse o velho fazendeiro, e Pedro Camargo sendo um filho bastardo; seu futuro dependia exclusivamente da vontade do pai, que podia abandoná-lo como a um estranho, deixando-o reduzido à indigência.
A esse tempo já lhe havia nascido também uma filha que chamou-se Aurélia, por ter sido este o nome da mãe de Pedro Camargo, infeliz rapariga, que morrera da vergonha de seu erro.”
Passados doze anos depois do casamento de Pedro Camargo, foi intimado pelo pai a casar-se com uma moça rica da região. Pedro opôs à vontade do pai a resistência passiva. Nunca se animou a dizer não; mas também não se moveu para cumprir as recomendações, ou antes, ordens que lhe dava o fazendeiro. Este esbravejava; ele abaixava a cabeça, e passada a tormenta, caía outra vez na inércia.
O fazendeiro, então, ameaça expulsá-lo de casa, se ele não o obedecesse.
Pedro Camargo não disse palavra. Desceu à estrebaria; selou o animal; pôs a garupa sua maleta; e partiu, mas não para a fazenda vizinha. Foi ter a um rancho, onde contava demorar-se o tempo preciso para dar alguma direção à sua vida. Durante esta provança tinha continuado a escrever à mulher; mas ocultou-lhe o transe por que estava passando, para não afligi-la.”
Pedro Camargo foi acometido de uma febre cerebral, e sucumbiu no rancho aonde procurara um abrigo, longe dos socorros e quase ao desamparo. Apenas teve para acompanhá-lo em seus últimos instantes um tropeiro que vinha para a Corte.
Trazia o infeliz consigo cerca de três contos de réis, que desde certo tempo começara a juntar com intenção de estabelecer-se nalguma modesta rocinha, onde pudesse viver tranqüilo com a família.
A sorte não o consentiu. Confiou ele o dinheiro ao tropeiro pedindo-lhe que o entregasse de sua parte à sua mulher. Recomendou-lhe, porém que não contasse o desamparo em que o vira, para não acabrunhá-la ainda mais.
Emília cobriu-se do luto que não despiu senão para trocá-lo pela mortalha. Mais negro, porém e mais triste do que o vestido era o dó de sua alma, onde jamais brotou um sorriso.

CAPÍTULO II

Emília fechou-se para vida. Sua maior preocupação era com Aurélia que na época contava com dezesseis anos. Não podia contar com ajuda de sua família que foi contra o seu casamento, considerando uma mulher perdida.
Depois do falecimento do marido, Emília escreveu ao Lourenço de Sousa Camargo, revelando-lhe o segredo do casamento, e implorando sua proteção para os filhos de seu filho.
O fazendeiro, da mesma forma que os parentes de Emília, não acreditou na história de um casamento oculto até àquela época, e do qual não tinha documento. Emília persistia afirmando que além da viuvez, a morte do marido deixava-lhe a pobreza e a desonra.
Sr. Lourenço, para evitar mais importunos mandou-lhe um conto de réis com um pedido para não mais amolar.
Emília não podia contar com ajuda de seu filho, pois “apesar de haver frequentado os melhores colégios, achava-se aos dezoito anos tão atrasado como um menino de regular inteligência e aplicação aos doze anos”.
A mãe, então, passa sonhar casar a filha com um bom marido para não ter mais preocupações, mas “os arranjos domésticos, mais escassos na casa do pobre, porém de outro lado mais difíceis, o cuidado da roupa, a conta das compras diárias, as contas do Emílio e outros misteres, tomavam-lhe uma parte do dia; a outra parte ia-se em trabalhos de costura.” Assim, não lhe sobrava tempo para chegar à janela.
Um dia, Emílio, numa tarde de muito calor, tomou um banho frio. A consequência foi uma febre que o levou em poucos dias.
Aurélia ainda coberta do luto pesado que trazia pelo irmão, condescendeu com a vontade da mãe, pondo-se à janela todas as tardes. Foi para a menina um suplício cruel essa exposição de sua beleza com a mira no casamento.”


CAPÍTULO III


Não tardou que a notícia da menina bonita de Santa Teresa se divulgasse entre certa roda de moços que não se contentam com as rosas e margaridas dos salões, e cultivam também com ardor as violetas e cravinas das rótulas.
A menina cumpria estritamente a obrigação que se tinha imposto, mostrava-se para ser cobiçada e atrair um noivo. (...) Depois de uma hora de estação à janela, recolhia-se para começar o serão da costura; e de todos aqueles homens que haviam passado diante dela com a esperança de cativar-lhe a atenção, não lhe ficava na lembrança uma fisionomia, uma palavra, uma circunstância qualquer.”
O Lemos ficou sabendo do fato e dirigiu-se a Santa Teresa, identificou-se e a sobrinha ficou contente por não se sentir mais tão só no mundo. O restabelecimento das relações entre D. Emília e o irmão interessava Aurélia mui intimamente. Assegurando-lhe um arrimo para o futuro, essa conciliação não só restituiria o sossego à mãe, como lhe pouparia a ela essa espera ao casamento, que era para a pobre menina uma humilhação. Uma tarde Lemos visitou Aurélia, fazendo-a rir com suas graças, despediu-se deixando entre as mãos da sobrinha uma carta.
Aurélia, de início, acreditou tratar-se de uma carta de conciliação familiar.


A carta do Lemos era escrita no estilo banal do namoro realista, em que o vocabulário comezinho da paixão tem um sentido figurado, e exprime à maneira de gíria, não os impulsos do sentimento, mas as seduções do interesse.”

Lemos declarava abertamente a Aurélia seus desejos, que não eram mais dignos que os do outros rapazes. No dia seguinte, Lemos encontrou a janela de Aurélia fechada e entendeu que seu pedido fora recusado. Os outros rapazes, animados pelo exemplo, iniciaram todo tipo de investidas.
Certa noite, um dos mais insistentes rapazes, insistia em declarações à janela. Aurélia corajosamente convidou-o a entrar. Em seguida, chamou sua mãe e ficaram os três conversando na sala.
As palavras singelas e modestas da viúva deixaram no conquistador, apesar da película de ceticismo que forra essa casca de bípedes, a convicção da inutilidade de seus esforços. A beleza de Aurélia só era acessível aos simplórios, que ainda usam do meio trivial e anacrônico do casamento. (...) Toda aquela turba de namoradores debandou em roda batida, desde que pressentiu os perigos e escândalos de uma paixão matrimonial.”

CAPÍTULO IV

Seixas ouvira falar da menina de Santa Teresa, mas ocupado nesta ocasião com uns galanteios aristocráticos, não o moveu a curiosidade de conhecer desde logo a nova beldade fluminense.”
Seixas, coincidentemente, foi jantar em casa de um amigo. Terminado o jantar foi levado a ver a falada menina. Apesar de não admitir beleza na classe pobre, Seixas ficou admirado com a beleza de Aurélia. Ela, embora, vira-o apenas um instante, não deixava de pensar nele.
Dois dias depois Seixas tornou a passar pela Rua de Santa Teresa, mas só, desta vez. De longe seus olhos encontraram os de Aurélia, que fugiram para voltar tímidos e submissos. Ao passar, o moço cortejou-a; ela respondeu com uma leve inclinação da cabeça.
Decorreu uma semana, Seixas declarou o seu amor.
As horas que Seixas passava junto de si eram de enlevo para ela que embebia-se d’alma do amigo. Esta provisão de afeto chegava-lhe para encher de sonhos e devaneios o tempo da ausência. Seria difícil conhecer a quem mais vivia, se do homem que a visitava todos os dias ao cair da tarde, se do ideal que sua imaginação copiara daquele modelo.”
Na mesma época, entre os apaixonados de Aurélia, encontrava-se Eduardo Abreu, rapaz de vinte e cinco anos, de excelente família, rico e nomeado entre os mais distintos da Corte. Abreu venceu sua timidez e fez o pedido da mão de Aurélia diretamente a D. Emília. A mãe preocupada mostrou-lhe as vantagens desse casamento. Não obstante, sua resposta foi uma recusa formal. Ela amava Seixas.
Preocupada com o futuro da filha, D. Emília perguntou a Seixas quais eram suas intenções. Seixas sentiu-se mal com a pressão de D. Emília, mas ao saber no dia seguinte que Aurélia recusara “um partido por que suspiravam muitas das mais fidalgas da corte” por sua causa, pediu a mão da moça, que lhe foi concedida.

CAPÍTULO V

Sr. Lemos ao saber do casamento da sobrinha, considerou-se derrotado em seus planos. Como, porém, era homem que não abandonava facilmente uma boa ideia, cogitou no modo de não perder a partida.
Seixas, a caminho da casa da noiva, flertou com Adelaide, noiva de Torquato. Sr. Lemos presenciou o fato e tratou logo de tornar-se amigo do pai da moça, Tavares do Amaral, recomendando-lhe Seixas como bom partido para sua filha.
Amaral não via de boa sombra a intimidade de sua filha Adelaide com o Dr. Torquato Ribeiro, que além de pobre, estava desarranjado. A ideia do Lemos sorriu-lhe. Achou modos de introduzir em casa Seixas, para quem este novo conhecimento veio a ser um tônico poderoso.”
Passado o entusiasmo inicial, Seixas começou a rever com objetividade o seu noivado com Aurélia. Jamais poderia viver longe da sociedade, retirado desse mundo elegante que era sua pátria, e o berço de sua alma.
As naturezas superiores obedecem a uma força recôndita. É a predestinação. Uns a têm para a glória, outros para o dinheiro; a dele era essa, a galanteria.”
Uma noite, porém, Seixas se mostra mais preocupado na despedida. Aurélia percebe e disse-lhe:
“- A sua promessa de casamento o está afligindo, Fernando; eu lha restituo. A mim basta-me o seu amor, já lho disse uma vez, desde que mo deu, não lhe pedi nada mais.
Fernando opôs às palavras de Aurélia frouxa negativa, e formulou uma pergunta cuja intenção a moça não alcançou:
- Julga você, Aurélia, que uma moça pode amar a um homem, a quem não espera unir-se?
- A prova é que o amo, respondeu a moça com candura.
- E o mundo? proferiu Seixas com reticências no olhar.
- O mundo tem o direito de exigir de mim á dignidade da mulher; e esta ninguém melhor do que o senhor sabe como a respeito. Quanto a meu amor não devo contas senão a Deus que me deu uma alma, e ao senhor a quem a entreguei.”
Foi nestas circunstâncias que Seixas recebeu o oferecimento do Amaral, e cedendo às suas instâncias amáveis, começou a frequentar-lhe a casa.
O Torquato Ribeiro amava sinceramente a Adelaide. A volubilidade da moça ofendeu-o, e ele retirou-se da casa deixando o campo livre a seu adversário, que não carecia dessa vantagem. Com a sua retirada, Amaral ofereceu a filha e trinta contos de réis a Seixas, que aceitou.

CAPÍTULO VI

Aurélia passava agora as noites solitárias esperando as raras visitas de Seixas. A moça não pensava em interrogá-lo e “não tinha nenhum direito a ser amada por Seixas; e, pois toda a afeição que lhe tivesse, muita ou pouca, era graça que dele recebia. Quando se lembrava que esse amor a poupara à degradação de um casamento de conveniência, nome com que se decora o mercado matrimonial, tinha impulsos de adorar a Seixas, como seu Deus e redentor.”
Desde que se comprometeu com Amaral, pensou Fernando em cortar de uma vez o fio que ainda o prendia a Aurélia. Por fim, Seixas disse a Aurélia que preferia vê-la livre, para que pudesse receber algum bom partido e livrar-se da pobreza.
No dia seguinte D. Emília recebeu de Seixas uma carta terminando seu compromisso com Aurélia. A boa mãe nutria ainda a esperança de persuadir a filha a aceitar a mão de Abreu.
Por esse tempo, entrou Torquato Ribeiro a frequentar a casa de D. Emília. Soubera ele do procedimento que Seixas tivera com a viúva; e a conformidade de infortúnio o atraiu. Referiu a Aurélia a inconstância de Adelaide, que atribuiu à sua pobreza e falavam da infelicidade de ambos. Por carta anônima, Aurélia viu confirmada a hipótese, até então inaceitável para ela, de que Fernando se vendeu por trinta contos e não pelo amor de Adelaide. Ela não se conformou com isso.
Nunca sentira dor como esta. Sofrera com resignação e indiferença o desdém e o abandono; mas o rebaixamento do homem, a quem amava, era um suplício infindo, de que só podem fazer ideia os que já sentiram apagarem-se os lumes d’alma, ficando-lhes a inanidade.”
Eduardo Abreu logo soube da retirada de Seixas, procurou Aurélia. A moça desculpa-se e responde-lhe:
“- Não me pertenço, Senhor Abreu; se algum dia pudesse arrancar-me a este amor fatal, e recuperar a posse de mim mesma, creia que teria orgulho em partilhar a sua sorte.
Três dias depois partia um vapor para Europa. Abreu tomou passagem, e foi aturdir-se em Paris, onde lhe ficaram as ilusões da mocidade, e algumas dezenas de contos de réis, mas não a lembrança de Aurélia.”
Por essa época, ocorreu a Seixas partir para Pernambuco numa excursão política. Ele já estava consciente que os trinta contos de réis não eram suficientes para a sua ascensão social e essa viagem veio a calhar, esperando com isso esgotar a paciência de Adelaide.

CAPÍTULO VII

Um dia, por manhã, bateram à porta de D. Emília. Quando a viúva e a filha vieram à sala, acharam sentado no sofá um velho alto e robusto, cujo traje denotava provinciano ou homem do interior. Tinha o rosto sanguíneo e os traços duros e salientes.”
O misterioso homem observava as duas mulheres e, repentinamente, abraçou, suspendeu Aurélia e se apresentou.
“- Não me conhece, minha filha? Sou o pai de seu marido!
- O Sr. Lourenço Camargo?
- Ele mesmo. Não consente que abrace minha neta?”
Depois de algumas perguntas acerca do nome e idade de Aurélia; explicou o fazendeiro a razão de ali achar-se naquele momento, reconciliado com sua nora, e pesaroso do modo por que se portara com ela. Explicou que, após a morte do filho, ficara no rancho, durante anos, uma maleta com objetos pessoais. Um viajante levou-a até ele. No fundo da maleta havia um volume envolto em papel e atado com uma fita preta que continha as fotografias de Pedro Camargo, da mulher e dos dois filhos; a certidão de casamento e as de batismo dos dois meninos, e finalmente uma carta sem sobrescrito dirigida ao fazendeiro. Essa carta de data muito anterior ao falecimento indicava que Pedro Camargo tinha a princípio pensado em suicidar-se, e se preparara para levar a efeito esse desígnio, escrevendo ao pai a fim de implorar-lhe o perdão de sua falta.
Depois de fazer a confissão do casamento que havia ocultado só pelo receio de afligir ao pai, suplicava-lhe que protegesse sua viúva e aqueles órfãos inocentes, que eram seus netos, e que o haviam de substituir, a ele Pedro, no amor e na veneração.
Lendo essa carta, Lourenço Camargo afigurou-se receber as últimas palavras do filho; e lembrou-se quanto fora injusto duvidando da realidade desse casamento de que ali tinha a prova irrecusável.
Lourenço deu as mulheres vários presentes e lhes disse que quando precisassem de dinheiro, bastava-lhes comunicar. Ao partir, deixou aos cuidados de Aurélia um maço de papel lacrado.
Na capa do maço estavam escritas em bastardinho estas palavras. "Para minha neta Aurélia guardar, até eu, seu avô, lhe pedir. L. S. Camargo."
Logo após a partida de Camargo, D. Emília adoeceu e todo o dinheiro deixado pelo avô foi gasto com as despesas da doença. Nessa ocasião Aurélia cedeu às instâncias do Dr. Torquato Ribeiro, e recebeu dele emprestados cinquenta mil-réis. Até então rejeitara sempre o seu oferecimento, e esforçava-se por ocultar-lhe a penúria em que se achava.
Aurélia escreveu ao avô, mas não obteve resposta.
A razão só depois a soube.
O Sr. Lourenço, quando voltara à sua casa, encontrara uma grande parentada que se instalara em sua fazenda e pretendiam anular um suposto testamento que o velho teria feito em benefício da “filha de certa mulher perdida, antiga amásia de Pedro Camargo.”
O velho Camargo expulsou os interesseiros, mas foi fulminado pela emoção. Sofreu um ataque que paralisou-o completamente; lutou contra a morte durante dois meses até que afinal extinguiu-se. Em todo esse tempo não deu acordo de si. As cartas de Aurélia ficaram na gaveta, onde as guardara o administrador.
Com diferença de dias, veio a falecer, também, D. Emília, deixando Aurélia em completa orfandade. Nesse transe cruel, o Dr. Torquato Ribeiro não abandonou a moça, e foi a rogos dele que D. Firmina Mascarenhas levou a órfã para sua casa.
À exceção dessa parenta afastada, nenhuma outra pessoa da família apareceu ou mandou à casa de Aurélia, durante a enfermidade da mãe, e depois do passamento. O Lemos e sua gente não deram sinal de si.

CAPÍTULO VIII

Aceitando a companhia de D. Firmina, não era intenção de Aurélia tornar-se pesada à sua parenta.
Um correspondente do falecido Camargo, veio comunicar-lhe o falecimento do fazendeiro e diz a Aurélia para abrir o papel que Lourenço havia deixado com ela.
O papel continha o testamento em que Lourenço de Sousa Camargo reconhecia e legitimava como seu filho a Pedro Camargo, que fora casado com D. Emília Lemos, declarando que à sua neta D. Aurélia Camargo, nascida de um legítimo matrimônio, instituía sua única e universal herdeira.
Ao testamento juntara o velho uma relação detalhada de todo o seu possuído, escrita do próprio punho, com várias explicações relativas a alguns pequenos negócios pendentes, e conselhos acerca da futura direção das fazendas.
Calculava-se o cabedal de Camargo em mil contos ou cerca. Apenas divulgou-se a notícia de ter Aurélia herdado tamanha riqueza, acudiram-lhe à casa todos os parentes, e à frente deles o Lemos com seu rancho.
Aurélia institui Sr. Lemos como seu tutor oficial, pois tendo guardado a infame carta que lhe escrevera o tio, teria pleno controle sobre ele.
A riqueza, que lhe sobreveio inesperada, erguendo-a subitamente da indigência ao fastígio, operou em Aurélia rápida transformação; não foi, porém no caráter, nem nos sentimentos que se deu a revolução; estes eram inalteráveis, tinham a fina têmpera de seu coração. A mudança consumou-se apenas na atitude, se assim nos podemos exprimir, dessa alma perante a sociedade.”
Logo nos primeiros dias que se seguiram à abertura do testamento, Aurélia tratou de pagar as dívidas de sua mãe e recompensar os serviços que lhe haviam prestado durante a enfermidade de D. Emília. Nessa ocupação a ajudava o Dr. Torquato Ribeiro, com quem ela se aconselhava, sobretudo acerca dos negócios da tutela. Ao tentar pagar as despesas com o enterro de sua mãe, ficou sabendo que tudo tinha sido pago por uma pessoa anônima. Descobriu depois que isso era obra de Eduardo Abreu. Por isso, quando ele ficou pobre, ela saldou as suas dívidas.
Foi depois de passados os seis meses de luto, que Aurélia apareceu na sociedade.
Tinha-se ela ensaiado para seu papel. Desde o primeiro momento em que apresentou-se nos salões, firmou neles seu império, e tomou posse dessa turba avassalada, cujo destino é bajular as reputações que se impõem.”

CAPÍTULO IX


Tornemos à câmara nupcial, onde se representa a primeira cena do drama original, de que apenas conhecemos o prólogo.”

Fernando Seixas fita na Aurélia com um olhar estupefato. Aurélia diz que o amou desde o primeiro momento em que o encontrou, que ele não retribuiu seu amor e nem o compreendeu.
Supôs que eu lhe dava apenas a preferência entre outros namorados, e o escolhia para herói dos meus romances, até aparecer algum casamento, que o senhor, moço honesto, estimaria para colher à sombra o fruto de suas flores poéticas. Bem vê que eu o distingo dos outros, que ofereciam brutalmente, mas com franqueza e sem rebuço, a perdição e a vergonha.
Seixas abaixou a cabeça.
- Conheci que não amava-me, como eu desejava e merecia ser amada. Mas não era sua a culpa e só minha que não soube inspirar-lhe a paixão, que eu sentia. Mais tarde, o senhor retirou-me essa mesma afeição com que me consolava e transportou-a para outra, em quem não podia encontrar o que eu lhe dera, um coração virgem e cheio de paixão com que o adorava. Entretanto, ainda tive forças para perdoar-lhe e amá-lo.
A moça agitou então a fronte com uma vibração altiva:
- Mas o senhor não me abandonou pelo amor de Adelaide e sim por seu dote, um mesquinho dote de trinta contos! Eis o que não tinha o direito de fazer, e que jamais lhe podia perdoar! Desprezasse-me embora, mas não descesse da altura em que o havia colocado dentro de minha alma. Eu tinha um ídolo; o senhor abateu-o de seu pedestal, e atirou-o no pó. Essa degradação do homem a quem eu adorava, eis o seu crime; a sociedade não tem leis para puni-lo, mas há um remorso para ele. Não se assassina assim um coração que Deus criou para amar, incutindo-lhe a descrença e o ódio.
Seixas, que tinha curvado a fronte, ergueu-a de novo, e fitou os olhos na moça. Conservava ainda as feições contraídas, e gotas de suor borbulhavam na raiz de seus belos cabelos negros.
- A riqueza que Deus me concedeu chegou tarde; nem ao menos permitiu-me o prazer da ilusão, que têm as mulheres enganadas. Quando a recebi, já conhecia o mundo e suas misérias; já sabia que a moça rica é um arranjo e não uma esposa; pois bem, disse eu, essa riqueza servirá para dar-me a única satisfação que ainda posso ter neste mundo. Mostrar a esse homem que não me soube compreender, que mulher o amava, e que alma perdeu. Entretanto ainda eu afagava uma esperança. Se ele recusa nobremente a proposta aviltante, eu irei lançar-me a seus pés. Suplicar-lhe-ei que aceite a minha riqueza, que a dissipe se quiser; consinta-me que eu o ame. Essa última consolação, o senhor a arrebatou. Que me restava? Outrora atava-se o cadáver ao homicida, para expiação da culpa; o senhor matou-me o coração, era justo que o prendesse ao despojo de sua vítima. Mas não desespere, o suplício não pode ser longo: este constante martírio a que estamos condenados acabará por extinguir-me o último alento; o senhor ficará livre e rico.
Proferidas as últimas palavras com um acento de indefinível irrisão, a moça tirou o papel que trazia passado à cinta, e abriu-o diante dos olhos de Seixas. Era um cheque de oitenta contos sobre o Banco do Brasil.
- É tempo de concluir o mercado. Dos cem contos de réis, em que o senhor avaliou-se já recebeu vinte; aqui tem os oitenta que faltavam. Estamos quites, e posso chamá-lo meu; meu marido, pois é este o nome de convenção.
Aurélia, em seguida, ordena que ele ajoelhe-se aos seus pés e venha dar-lhe seu primeiro beijo de amor.
Seixas diz que ele acabara de esmagar a seus pés o amor que ele sentia por ela.
Aurélia ergueu-se impetuosamente.
- Então enganei-me? exclamou a moça com estranho arrebatamento. O senhor ama-me sinceramente e não se casou comigo por interesse?
Seixas demorou um instante o olhar no semblante da moça, que estava suspensa de seus lábios, para beber-lhe as palavras:
- Não, senhora, não enganou-se, disse afinal com o mesmo tom frio e inflexível. Vendi-me; pertenço-lhe. A senhora teve o mau gosto de comprar um marido aviltado; aqui o tem como o desejou. Podia ter feito de um caráter, talvez gasto pela educação, um homem de bem, que se enobrecesse com sua afeição; preferiu um escravo branco; estava em seu direito, pagava com seu dinheiro, e pagava generosamente. Esse escravo aqui o tem; é seu marido, porém nada mais do que seu marido!
O rubor afogueou as faces de Aurélia, ouvindo essa palavra acentuada pelo sarcasmo de Seixas.
- Ajustei-me por cem contos de réis; continuou Fernando; foi pouco, mas o mercado está concluído. Recebi como sinal da compra vinte contos de réis; falta-me arrecadar o resto do preço, que a senhora acaba de pagar-me.
O moço curvou-se para apanhar o cheque. Leu com atenção o algarismo, e dobrando lentamente o papel, guardou-o no bolso do rico chambre de gorgorão azul.
- Quer que lhe passe um recibo?... Não; confia na minha palavra. Não é seguro. Enfim estou pago. O escravo entra em serviço. (...)
- Minha presença a está incomodando? Porque assim o quer. Não é, senhora? Não tem direito de mandar? Ordene, que eu me retiro.
- Oh! sim, deixe-me! exclamou Aurélia. O senhor me causa horror.
- Devia examinar o objeto que comprava, para não arrepender-se!
Seixas atravessou a câmara nupcial, e desapareceu por essa porta que uma hora antes ele entrara cheio de vida e de felicidade, palpitante de júbilo e emoção, e que repassava levando a morte na alma.”
Quando Aurélia ouviu o som dos seus passos que se afastavam pelo corredor, precipitou-se com um arremesso de terror e deu volta à chave. Depois quis fugir, mas arrastou uns passos trôpegos, e caiu sem sentidos sobre o tapete.

TERCEIRA PARTE

POSSE

CAPÍTULO I

No seu aposento, Seixas abandona-se aos seus mais profundos sentimentos. Chega a desejar a morte, mas, em seguida, decide agir pela razão.
O rapaz passa a contemplar minuciosamente os objetos do aposento “todos esses mimos da arte pareciam-lhe estranhos, e despertavam nele ignotas emoções; tal era o abismo que o separava do recente passado.”
Abriu, em seguida, as gavetas, e guardou nelas cuidadosamente todos os objetos de valor que ali havia. Concluída a tarefa, trancou o móvel e o mesmo fez a todos os outros de que poucas horas antes o Sr. Lemos lhe fizera exibição e colocou em uso os objetos e roupas que trouxera da casa.
Seixas nunca imaginou que Aurélia nutrisse uma paixão capaz de tais ímpetos.
Na manhã seguinte, Seixas desceu ao jardim comprou de um mascate ambulante um pente e uma escova de dentes e, voltou rapidamente ao seu aposento receoso que suspeitassem do que ocorrera.
Já era sol alto quando Seixas ouviu mexer na maçaneta da porta. Era o criado que vinha oferecer-lhe seus préstimos. Fernando lhe diz que nada deverá ser alterado na rotina da casa com sua presença.

CAPÍTULO II


Fernando é conduzido ao seu primeiro almoço. Um verdadeiro banquete pela variedade e delicadeza das iguarias. Achavam-se na sala Aurélia e D. Firmina.

A princípio a moça ocupou-se unicamente em servir, depois trincando nos alvos dentes a polpa vermelha de uma lagosta, animou a conversação com uma palavra viva e cintilante. Seixas se distraíra a ouvi-la.
Seixas tinha comido um bife com uma naca de pão; e bebera meio cálice do vinho que lhe ficava mais próximo, sem olhar o rótulo.
- Não almoçou! tornou a moça.
- A felicidade tira o apetite, observou Fernando a sorrir.
- Nesse caso eu devia jejuar, retorquiu Aurélia gracejando. É que em mim produz o efeito contrário; estava com uma fome devoradora.
- Nem por isso tem comido muito, acudiu D. Firmina.
- Prove desta lagosta. Está deliciosa, insistiu Aurélia.
- Ordena? perguntou Fernando prazenteiro, mas com uma inflexão particular na voz.
Aurélia trinou uma risada.
- Não sabia que as mulheres tinham direito de dar ordens aos maridos. Em todo o caso eu não usaria do meu poder para cousas tão insignificantes.
- Mostra que é generosa.
- As aparências enganam.”
Da sala de jantar Fernando, acabado o almoço, passou à saleta de conversa, onde com pouca demora o acompanhou Aurélia. O criado oferece a Seixas um porta-charutos, Fernando recusa e tira a sua carteira de cigarros do bolso.
Aurélia, em seguida, distrai-se um pouco ao piano, enquanto Fernando lê jornais e examina um álbum de fotografias de celebridades. Aparece o criado e avisa: “o lanche está pronto”.

CAPÍTULO III

A mesa está repleta de frutas da estação: abacaxis, figos e laranjas seletas, rivalizando com as maçãs, peras e uvas de importação, ornavam principalmente a refeição meridiana que os costumes estrangeiros substituíram à nossa brasileira merenda da tarde, usada pelos bons avôs. Além, de empadinhas, camarões e ostras recheadas, queijos de vários países e doces de calda ou cristalizados. Os melhores vinhos de sobremesa desde o Xerez até o Moscatel de Setúbal, desde o Champanhe até o Constança, estavam ali tentando o paladar, uns com seu rótulo eloquente, outros com o topázio que brilhava através das facetas do cristal lapidado.
Depois do lanche, Aurélia convidou o marido para darem uma volta pelo jardim; mas havia senhoras nas janelas da vizinhança, e a moça não quis expor-se aos olhares curiosos. Ela não era a noiva feliz e amada; mas as outras a supunham, e tanto bastava para que seu pudor a recatasse às vistas dos estranhos.
Retornaram à saleta e voltaram a folhear o álbum de fotografias de familiares de Aurélia.
O tempo que transcorre até o jantar parece longo perante a mudez do casal. Antes de recolher-se a seus aposentos, Aurélia, que tem nas mãos dois objetos semelhantes, entrega o envolvido em papel branco a Seixas, guardando para si o outro em papel de cor. Ambos se retiram para seus aposentos.

CAPÍTULO IV



Fernando dirigiu-se a seu aposento com tanta precipitação, que se esqueceu o objeto fechado em sua mão; só deu por ele no toucador, ao derrubá-lo no chão.

Abriu então o papel. Havia dentro uma chave; e presa à argola uma tira de papel com as seguintes palavras escritas por Aurélia: chave de seu quarto de dormir.
Percebe que ocorrera uma mudança em seu aposento. Fora arredado o guarda-roupa, que ocultava uma porta agora patente, e apenas coberta por uma cortina também de seda azul. A chave servia nessa porta que dava para uma alcova elegante, mobiliada com uma cama estreita de érable e outros acessórios. Seixas adivinhou pela onda de fragrância derramada no aposento, que Aurélia ali estivera pouco antes.
Seixas não consegue entender qual o objetivo de sua esposa e até onde chega sua perversidade.
No quinto dia Seixas apresentou-se na repartição, onde foi muito festejado por suas prosperidades. A sua assiduidade e dedicação na repartição surpreendeu a todos.
Dizia: “- Vivi muitos anos à custa do Estado, meu amigo; é justo que também ele viva um tanto à minha custa.”
Para chegar a tempo à repartição, tinha Seixas de almoçar mais cedo, o que lhe poupava, e, também a Aurélia, cerca de meia hora de suplício, que ambos se infligiam um ao outro com sua presença.
Aurélia, um dia, pergunta-lhe se ele precisava do ordenado da repartição; e, em outra vez, por que ele não servia-e do carro.
Seixas responde-lhe:
“- Prefiro o exercício a pé. É mais higiênico; faz-me bem ao corpo e ao espírito.
- É pena que não tivesse feito seus estudos de higiene quando solteiro.”
De volta da repartição, encontrava Aurélia na saleta; se ela estava só, cortejavam-se apenas, trocavam algumas palavras a esmo, depois recolhiam-se cada um a seu aposento e preparavam-se para o jantar.
Se havia alguém com Aurélia, Seixas passava-lhe a mão pela cintura e roçava um beijo hirto por aquela face aveludada que se crispava ao seu hálito frio. Depois do jantar vinha o passeio ao jardim. Era nessa ocasião, quando escondidos pela folhagem, os supunham na troca de ternuras, que Aurélia crivava o marido de epigramas e motejos.
À noite havendo visitas passavam no salão; quando estavam sós, ficavam na saleta.
Tinham perto de um mês de casados; durante esse tempo, vendo-se e falando-se todos os dias, não acontecera uma só vez que pronunciaram o nome um do outro. Tratavam-se na terceira pessoa; respeitavam entre si esse anônimo tácito, sublinhando a palavra com o gesto.
Assim, a sós, trocam ironias cortantes e constantes. Aurélia, nessa época, começa a notar a sisudez e economia do marido que já chega a chamar a atenção e provocar comentários até dos criados.

CAPÍTULO V

No dia seguinte, Aurélia, aproveita-se que o marido estava na repartição, abre a porta de comunicação entre o seu quarto e o de Fernando e, constata que ele não usara nada do que ela lhe dera, trazendo tudo trancado. Foi por isso que ganhou fama de avarento entre a criadagem.
Depois do jantar quando passeavam no jardim; Aurélia comenta com indiferença que esteve no toucador dele.
“- Ah! Fez-me esta honra?
- Uma dona-de-casa, bem sabe, tem obrigação de ver tudo.
- A obrigação e o direito.
- O direito aqui seria da mulher, e não só este como outros mais.
- Eu os reconheço, disse Fernando.
- Ainda bem. Vejo que nos havemos de entender.”
Aurélia, em seguida, pergunta-lhe o que fizera com os objetos que estavam no toucador.
“- Não tenha susto; estão fechados nas gavetas, intactos como os deixou. Pensava talvez que parassem em alguma casa de penhor?”
Pela primeira vez Aurélia volta só do passeio.

CAPÍTULO VI

Um dia, após o jantar, Seixas descrevia a D. Firmina um poema de Byron. O tema da conversa fora trazido por um trecho da ópera que Aurélia tocara antes de vir sentar-se na calçada.
Depois do poema ocupou-se Fernando com o poeta. Ele tinha saudade dessas brilhantes fantasias, que outrora haviam embalado os sonhos mais queridos de sua juventude.
Não falava para D. Firmina, que talvez não o compreendia, nem para Aurélia que certamente não o escutava. Era para si mesmo que expandia as abundâncias do espírito; o ouvinte não passava de um pretexto para esse monólogo.
Às vezes repetia as traduções que havia feito das poesias soltas do bardo inglês; essas jóias literárias, vestidas com esmero, tomavam maior realce na doce língua fluminense, e nos lábios de Seixas que as recitava como um trovador.
Quando Seixas afirma que o mais belo poema de Byron é “O Corsário”, Aurélia pede-lhe para declamá-lo. Seixas declama-o, D. Firmina o elogia e diz que ele deve traduzi-lo. Seixas alega não ter tempo e “nem gosto. Sou empregado público e nada mais.”
Essa afirmação transformou o semblante de Aurélia que voltou para a sala.
Aurélia convida-o para um jogo de baralho, mas ele alega que não dispõe de dinheiro para isso. Quando ela oferece um empréstimo, ele afirma que aprendeu a não dispor mais do dinheiro dos outros.
Aurélia insiste que precisam fazer visitas de cortesia, e, só para contrariar o marido, determina que sejam feitas no horário de trabalho dele, para obrigá-lo a faltar à repartição.

CAPÌTULO VII

Seixas escreveu a seu chefe uma carta justificando sua ausência com um motivo grave, e remetendo-lhe alguns papéis que havia despachado na véspera.”
Aurélia para provocar o marido, diz que o dia estava muito quente que seria melhor adiar as visitas
À uma hora, a moça chegou-se a ele:
- Jantaremos hoje mais cedo e sairemos às cinco horas. Não lhe convém assim?
- Convém-me qualquer hora que escolher; respondeu Seixas.
- Talvez não goste de sair de tarde. Então ficará para amanhã às onze horas.
- Pois seja amanhã.
- Faltará outra vez à repartição?
- Sendo preciso.
- Não; sairemos esta tarde.
- Aurélia chamou o criado e deu suas ordens.”
O vestido de Aurélia encheu a carruagem e submergiu o marido; o que ainda lhe aparecia do semblante e do busto ficava inteiramente ofuscado pela deslumbrante beleza da moça. Ninguém o via; todos os cumprimentos, todos os olhares, eram para a rainha, que surgia depois de seu passageiro retiro.
“Quanto mais se elevava a mulher, a quem não o prendia o amor e somente uma obrigação pecuniária, mais rebaixado sentia-se ele. Exagerava sua posição; chegava a comparar-se a um acessório ou adereço da senhora.
Não tinha dito Aurélia naquela noite cruel, que o marido era um traste indispensável à mulher honesta e que o comprara para esse fim? Ela tinha razão. Ali, naquele carro, ou nas salas onde entravam, parecia-lhe que sua posição e sua importância eram a mesma, senão menor, do que tinha o leque, a peliça, as jóias, o carro, no trajo e luxo de Aurélia.”
Uma das últimas visitas foi à família de Lísia Soares, amiga maliciosa que provoca Aurélia.
“- Lembra-se, Aurélia, quando você fazia a cotação de seus pretendentes? Disse a maligna alteando a voz para ser bem ouvida.
- Se me lembro! Perfeitamente! respondeu Aurélia sorrindo.
- E o que me disse uma noite a respeito do Alfredo Moreira? Que valia quando muito cem contos de réis; mas que você era muito rica para pagar um marido de maior preço.
- E não disse a verdade?
- Então o Sr. Seixas?... interrompeu Lísia com uma reticência impertinente que estancou-lhe a palavra nos lábios, para borrifar a malícia no sorriso e no olhar.
- Pergunte-lhe! disse Aurélia voltando-se para o marido.
(...)
- Da parte de minha mulher não sei, e só ela poderá dizer-lhe, D. Lísia. Quanto a mim asseguro-lhe que me casei unicamente pelo dote de cem contos de réis que recebi. Devo crer que minha mulher mudou da ideia em que estava de pagar um marido de maior preço.”
Aurélia, rindo, como se fosse mera brincadeira, afirma que deu muito mais do que isso: “custou-me o coração”.
Em seu quarto, Fernando não resiste e espiona Aurélia pelo buraco da fechadura.

CAPÍTULO VIII

O narrador retrocede a noite de núpcias, em que Aurélia joga-se no tapete da câmara nupcial e ali, passa a sua primeira noite de casada.
Quando amanheceu, aproximou-se da janela, viu Seixas atravessar o jardim furtivamente e entrar em casa. Julgou-o covarde.
Depois do que se havia passado entre ambos, na noite de seu casamento, pensava Aurélia, que só havia para Seixas dois meios de quebrar o jugo humilhante a que o tinha submetido. Não lhe restava senão matá-la a ela, ou matar-se a si.
Para uma dessas duas soluções se tinha a moça preparada. É certo que às vezes seu coração afagava uma esperança impossível. Se o homem a quem amava, se ajoelhasse a seus pés e lhe suplicasse o perdão, teria ela forças para resistir e salvar a dignidade de seu amor?”
O sentimento que animava Aurélia podia chamar-se orgulho, mas não vingança. Ela ansiava pela exaltação de seu amor e não pela humilhação de Seixas, embora essa fosse indispensável ao efeito desejado. Sempre atacava o marido, mas quando sozinha desafogava em pranto.
No dia seguinte Aurélia deixou-se ficar em seu aposento toda a manhã. Voltando da repartição, Seixas encontrou-a pálida e abatida.
Tinham acabado de jantar, no passeio pelo jardim, Aurélia pergunta-lhe:

“- Este passeio todas as tardes já deve aborrecê-lo. Por que não sai a cavalo? Deve distrair-se.

Aurélia falava brincando com as flores para evitar que seu olhar encontrasse o de Seixas.
- Sua companhia não me pode aborrecer nunca.
- Sempre, torna-se monótona.
- Demais é o meu dever, tornou Seixas frisando a palavra.
(...)
- A senhora deseja ficar só? perguntou Seixas. Ordene, que eu me retiro, agora como em qualquer outra ocasião.
- Não me compreendeu. Há um meio de aliviar-lhe o peso dessa cadeia que nos prende fatalmente e de poupar-lhe as constantes explosões de meu gênio excêntrico. É o divórcio que lhe ofereço.
- O divórcio? exclamou Seixas com vivacidade.
- Pode tratar dele quando quiser, respondeu Aurélia com um tom firme e afastou-se.”

CAPÍTULO IX
Seixas surpreso e agitado pela proposição da moça refletiu um momento e respondeu-lhe que não aceitava a oferta, pois não dispunha de dinheiro para devolver.
“- Então entende que depois de privar-se um homem de sua liberdade, de o rebaixar ante a própria consciência, de o haver transformado em um instrumento, é lícito, a pretexto de alforria, abandonar essa criatura a quem sequestraram da sociedade? Eu penso o contrário.
- Mas que relação tem isso?...
- Toda. A senhora fez-me seu marido; não me resta outra missão neste mundo; desde que impôs-me esse destino sacrificou meu futuro, não tem o direito de negar-me o que paguei tão caro, pois o paguei a preço de minha liberdade.
- Essa liberdade, eu a restituo.
- E pode restituir-me com ela o que perdi alienando-a?
- Receia talvez o escândalo que produzirá o divórcio. Não há necessidade de publicarmos nossa resolução; podemos viver inteiramente estranhos um ao outro na mesma cidade, e até na mesma casa. Se for preciso, temos o pretexto das viagens por moléstia, da mudança de clima, do passeio à Europa.
- A senhora fará o que for de sua vontade. A minha obrigação é obedecer-lhe, como seu servo, contanto que não lhe falte com o marido que a senhora comprou.
Aurélia fitou no semblante de Seixas um olhar soberano:
- Acredita que eu possa mudar de sentimentos para com o senhor?
- Não tenha esse receio. Se eu não estivesse convencido que o amor entre nós é impossível, não estaria aqui neste momento.
Estranho sorriso iluminou a fronte de Aurélia, que vibrou com um gesto de sublime altivez.
- Qual é então o motivo por que não aceita o que lhe ofereço?
- O que a senhora me oferece custou-lhe cem contos de réis, e receber esmolas desse valor é roubar ao pródigo que as deita fora.”
A partir desse instante, ficam arredios, vendo-se muito pouco. Seixas, nessas tardes, as aproveitava para ir ver a mãe, que ainda habitava na mesma casa da Rua do Hospício.
D. Camila não se queixava; mas apesar de seus extremos por aquele filho, e da abnegação de sua ternura, tinha estranhado consigo, que Fernando depois de casado, não pensasse em dar às irmãs uma lembrança qualquer.
Mariquinhas a princípio excitava a mãe para irem à casa de Seixas nas Laranjeiras e até para lá passarem um dia. A mãe desabituada à sociedade receava-se da crítica de Aurélia. Todavia essa razão não a demoveria se Fernando insistisse; porém ele ao contrário fez-se desentendido e desconversou aos primeiros rodeios da irmã.
Aurélia também manifesta seu espanto por isso e Seixas alega que não quer que sua família descubra que ele não é feliz.
Nicota casa-se. Seixas sai de casa só e a pé, a pretexto de fazer uma visita a um ministro, e oculta da mulher essa particularidade. Leva à irmã uma jóia de presente de casamento; mas de valor insignificante para sua riqueza.
Outro casamento efetuou-se por esse tempo! Foi o do Dr. Torquato Ribeiro com Adelaide Amaral.
Aurélia serviu de madrinha a Adelaide, e Seixas foi obrigado a assistir a esse casamento, que desdobrava-lhe por assim dizer diante dos olhos um passado a que ele em vão tentava subtrair-se. Ali estavam juntas, diante do altar, duas mulheres a quem ele traíra sucessivamente, e não arrebatado da paixão, mas seduzido pelo interesse.
Seixas pensa em multiplicar seu capital e procura Sr. Lemos para orientá-lo. E,
no mesmo dia, encontrou Abreu que depois de ter esbanjado a herança, dera em jogador, e vivia segundo era fama, da banca. Pela conversa que tiveram os dois ficou o marido de Aurélia sabendo a rua e número de uma casa onde todas as noites havia reunião plena dos amantes da roleta.
Nessa noite Seixas saiu furtivamente de casa, e chamando um tílburi dirigiu-se para a cidade. Quando, porém transpunha o limiar da porta, por onde se penetrava na Cova do Caco, tomou tal horror, que deitou a fugir pela rua, e não parou senão em casa.

CAPÍTULO X

Seixas encontra na varanda que servia de sala de bilhar, “dois grandes quadros, colocados nos respectivos cavaletes. Na tela viam-se os esboços de dois retratos, o de Aurélia, e o seu, que um pintor notável, êmulo de Vítor Meireles e Pedro Américo, havia delineado à vista de alguma fotografia, para retocá-lo em face dos modelos.”
Seixas pergunta se aquelas pinturas eram necessárias. A esposa responde que é um ornato indispensável à sala.
No dia seguinte, pela manhã, quando o pintor voltou para trabalhar em seu retrato, a moça antes de tomar posição fez-lhe suas observações acerca da expressão fria e seca da fisionomia de Seixas e pede ao pintor interromper seu trabalho por alguns dias.
Nos dias seguintes, Aurélia transforma-se numa criatura meiga que lembrava a formosura da menina de Santa Teresa. A esposa trouxe a conversa para os assuntos que mais podiam seduzir um espírito poético e elegante como o de Seixas.
Falou de música, de versos, de flores e de artes. Quando a ironia não lhe acerava a palavra, ela tinha uma exuberância de afeto e ternura que manava de seus lábios e derramava em torno de si uma atmosfera de amor.”
O pintor reaparece e ela faz com que ele pinte um retrato sorridente do marido, além de pedir que o artista faça uma cópia do retrato do marido trajando o vestuário de quando o conheceu.
Ao voltar da repartição, notou Seixas que sua mulher não conservava a mesma disposição de ânimo em que a deixara na véspera.
Decorreram meses. De repente nova transformação ocorre com Aurélia. Deixa o isolamento costumeiro e passa a frequentar de novo a sociedade, mas com furor e sem repouso.
“Os teatros e os bailes não lhe bastavam; as noites em que não tinha convite, ou não havia espetáculo, improvisava uma partida que em animação e alegria, não invejava as mais lindas funções da Corte. Tinha a arte de reunir em sua casa as formosuras fluminenses. Gostava de rodear-se dessa corte de belezas.”
Justifica-se perante o marido que queria que o mundo acreditasse em sua felicidade.

QUARTA PARTE

RESGATE

CAPÍTULO I
Num baile em São Clemente, Aurélia estava como sempre, deslumbrante de formosura, de espírito e de luxo.
Na volta “tocou no ombro de Seixas e os cachos de cabelos castanhos, agitados pelo movimento do carro, afagaram a face do mancebo desprendendo perfumes de inebriar.”
Aurélia na posição em que se encontrava, esbanjava sedução. A moça falou sobre estrelas, reclamou do cansaço e reclinou-se no braço do marido, deixando-o desconcertado.
Em casa, “o marido levou-a ao divã onde ela deixou-se cair prostrada de fadiga ou de sono. Não tendo soltado logo o braço de Seixas, este reclinou-se para acompanhar-lhe o movimento, e achou-se debruçado para ela.
Aurélia conchegou as roupas fazendo lugar à beira do divã, e acenando com a mão ao marido que se sentasse. Entretanto com a cabeça atirada sobre o recosto de veludo, o colo nu debuxava sobre o fundo azul um primor de estatuária cinzelado no mais fino mármore de Paros.
Seixas desviou os olhos como se visse diante de si um abismo. Sentia a fascinação, e reconhecia que faltavam-lhe as forças para escapar à vertigem.
- Até amanhã? disse ele hesitando.
- Veja se não tenho febre!
Aurélia procurou a mão do marido e encostou-a na testa. Debruçando-se para ela com esse movimento, Seixas roçara com o braço o contorno de um seio palpitante. A moça estremeceu como se a percutisse uma vibração íntima, e apertou com uma crispação nervosa a mão do marido que ela conservara na sua.”
Aurélia pergunta a Fernando se ele a ama. Perante a resposta afirmativa, ela puxa uma cortina e descobre o retrato, a cópia que ela pedira ao pintor. Seixas estava ali como quando era solteiro. Aurélia diz que não pode amar ao marido, pois ainda está apaixonada por aquele homem que está na pintura.
“- O homem que eu amei, e que amo, é este, disse Aurélia apontando para o retrato. O senhor tem suas feições; a mesma elegância, a mesma nobreza de porte. Mas o que não tem é sua alma, que eu guardo aqui em meu seio e que sinto palpitar dentro de mim, e possuir-me, quando ele me olha.”
Seixas retirou-se levando n’alma a mais cruel humilhação que podia infligir-lhe o desprezo dessa mulher.

CAPÍTULO II
Numa noite, conversavam sobre o romance “Diva” de José Alencar.
Aurélia mandou comprar o romance; leu-o e comentou com Seixas que conhecia uma mulher que, assim como a protagonista do romance: "É impossível! Esta mulher nunca existiu. Entretanto eu a conheci.
Mal pensava Aurélia que o autor de Diva teria mais tarde a honra de receber indiretamente suas confidências e escrever também o romance de sua vida, a que ela fazia alusão.”
Entre as novidades do dia que deram tema à palestra, Aurélia soube que Eduardo Abreu tentara suicídio.
Aurélia, então, convida Adelaide Ribeiro e seu marido para irem ao teatro.
Sua intenção era conversar com Torquato sobre o estado de saúde de Eduardo Abreu e tentar ajudá-lo. Pediu a Torquato que o levasse às suas reuniões. Esperava demonstrar-lhe que ainda era considerado e tentar elevar sua auto-estima.
Um gesto de Adelaide provoca ciúmes em Aurélia, que retorna á casa antes de terminar o espetáculo.
Aurélia afirma:
“- Um exemplo. Há pouco, no teatro, quando vi o modo por que a Adelaide Ribeiro lhe dava o braço, tive ciúmes do senhor. Entretanto eu não o amo, bem sabe, e não o posso amar!”

CAPÍTULO III

“As partidas de Aurélia, ou recepções, como as chamava o Alfredo Moreira, à parisiense, eram das mais brilhantes que então se davam na Corte. (...) A Lísia Soares dizia que essa invenção não passava de um disfarce de Aurélia para dançar com o marido, de quem andava cada vez mais namorada; a tal ponto que dava-se a esses desfrutes.
Aparecera nessas partidas Eduardo Abreu, a quem os camaradas desde muito não viam na sociedade. Aurélia acolheu-o com afetuosa distinção, e reservava-lhe sempre uma de suas quadrilhas tão disputadas pelos inúmeros admiradores.”
Nessas reuniões festivas em sua casa, Aurélia instituiu a “valsa dos casados”, momento em que obrigava os maridos dançarem com suas mulheres.
“A Lísia Soares acusou Aurélia da lembrança da tal valsa dos casados.
Esta defendeu-se:
“- A ideia é do general, que está morto por dançar uma valsa com a baronesa. Recordações da mocidade!”

CAPÍTULO IV


“Era a primeira vez, e já tinham mais de seis meses de casados; era a primeira vez que o braço de Seixas enlaçava a cintura de Aurélia. Explica-se pois o estremecimento que ambos sofreram ao mútuo contacto, quando essa cadeia viva os surpreendeu.”

O lindo par arrojou-se, deixando a trotar classicamente os outros que não podiam acompanhar aquela torrente impetuosa. (...) Aurélia cerrara a meio as pálpebras; seus longos cílios franjados,
Neste deleite em que se engolfava, teve Seixas um momento de recobro, e pressentiu o perigo. Quis então parar e pôr termo a essa prova terrível a que a mulher o submetera, certamente no propósito de o render a seu império, como já uma vez o fizera, naquela noite do divã, noite cruel de que ainda conservava a pungente recordação.
Para preparar a parada, conteve a velocidade do passo. Percebeu Aurélia o leve movimento, se não teve a repercussão do pensamento do marido, antes que este o realizasse. Os lábios murmuraram uma palavra súplice:
- Não!
A emoção e a vertigem levam os sentidos de Aurélia.
Os lábios descorados moviam-se brandamente, como se a sua alma, que ali ficara, estivesse conversando com a outra alma que ali passara.
Seixas ergueu a mulher nos braços e levou-a da sala.”

CAPÍTULO V

“No meio do alvoroço causado pelo incidente, enquanto acudiam médicos, vinham os sais e corriam as amigas, umas inquietas, e outras curiosas, choviam os comentos.”
Seixas tinha conduzido a mulher ao toucador e ao transportá-la sentiu o calor de sua epiderme e o pulsar do seu coração.
O médico recomendou além do repouso, o desafogo do vestido para respirar melhor.
Aurélia pediu que todos saíssem e ficou só com Seixas a quem prendeu com a mão.
“- Eu caí na sala?... murmurou Aurélia sem abrir os olhos, e corando de leve.
- Não, respondeu Seixas.
- Quem segurou-me?
- Podia eu confiá-la a outro? disse Fernando.
Os dedos da moça responderam apertando a mão do marido.
- Quando vi que tinha desmaiado, tomei-a nos braços e trouxe-a para aqui.
- Para onde?
- Para seu toucador. Não conhece?
- Não me lembro.”
Nisto bateram discretamente à porta. Seixas fez movimento para atender, mas foi impedido por Aurélia que lançou os dois braços ao colo do marido.
Continuavam a bater.
“- Podem abrir, Aurélia, e surpreender-nos!
Estas palavras do marido, ou antes o receio que as ditava, provocaram em Aurélia um assomo ainda mais impetuoso.
- Que me importa a mim a opinião dessa gente?... Que me importa esse mundo, que separou-nos! Eu o desprezo. Mas não consentirei que me roube meu marido, não? Tu me pertences, Fernando; és meu, meu só, comprei-te, oh! sim, comprei-te muito caro...
Fernando erguera-se como impelido por violenta distensão de uma mola e tão alheio de si que não ouviu o fim da frase:
- Pois foi ao preço de minhas lágrimas e das ilusões de minha vida, concluiu a moça, que ao movimento de Seixas soerguera-se também suspensa pela cadeira com que lhe cingia o pescoço.”
Criada a barreira, tudo voltou a funcionar como antes. Voltaram ao salão, só que agora se comportavam como estranhos.
“Acabada a valsa, Aurélia recebeu risonha as felicitações das amigas e dos convidados; Seixas, censuras e exprobrações por ter consentido em dançar segunda vez com a mulher.
- Podia ser-lhe fatal!
- Era preciso curar-me da vertigem, acudiu Aurélia rindo. Ele tinha obrigação.
- E agora está curada? perguntou o general.
- Oh! para sempre!
O baile continuou cada vez mais animado.”

CAPÍTULO VI

Terminado o baile, Aurélia retirou-se para seus aposentos não dando atenção ao marido que queria desculpar-se. Ao ficar a sós, retira sua máscara de frieza que veste na presença do marido e conversa com o retrato de Fernando:
“- Tu me amas!... exclamou cheia de júbilo. Negues embora, eu o conheço; eu o vejo em ti, e sinto-o em mim! Um homem de fina educação, como és, só insulta a mulher quando a ama e com paixão! Tu me insultaste, porque o meu amor era mais forte que tu, porque aniquilava a tua natureza, e fez do cavalheiro que és, um déspota feroz! Não te desculpes, não! Não foste tu, foi o ciúme, que é um sentimento grosseiro e brutal. Eu bem o conheço!... Tu me amas!... Ainda podemos ser felizes! Oh! então havemos de viver a dobro, para descontar esses dias que desvivemos!”
Aurélia chegou a procurar a chave que impedia a comunicação entre eles, mas, logo em seguida, freou-se, afirmando que ainda era cedo: “É preciso que ele me ame bastante para vencer-me a mim, e não só para se deixar vencer.” Fez uma oração pedindo a Deus que isso acontecesse logo.
Seixas saíra para a repartição. Ao chegar à cidade encontrou-se com Sr. Barbosa, seu antigo conhecido, que lhe dá uma ótima notícia sobre um investimento nos negócios com minas de cobre em São Paulo.
“- Pois o Fróis sempre conseguiu vendê-lo em Londres. Deram uma bagatela; cinquenta contos de réis. Em todo o caso é melhor que nada, porque do tal cobre das minas, meu caro, eu já não esperava nem um tacho. Veio-me a notícia pelo último paquete; fazia tenção de procurá-lo todos os dias, e faltou-me o tempo. Felizmente encontrei-o.”
Seixas tinha de apresentar a cautela para receber o que lhe era de direito.
Perplexo, Seixas seguiu seu caminho imaginando que era a oportunidade que surgia para romper com seu casamento.

CAPÍTULO VII

Seixas volta à sua casa para buscar a cautela e encontra “Aurélia sentada, e conversando de um modo animado e instante com Eduardo Abreu que ocupava a cadeira próxima, e tinha a cabeça baixa.”
Seixas empalidece e Aurélia para contornar o constrangimento pergunta se ele não foi à repartição. O marido diz que veio buscar um papel e dirigiu-se ao seu aposento.
Tão logo encontrou a cautela que procurava, saiu precipitadamente pela escada particular.
Aurélia depois de despedir-se de Abreu, dirigiu-se ao quarto do marido, mas não o encontrou. A primeira cousa que viu foi á gaveta da secretária escancarada, e muitos papéis atirados sobre o pavimento. Entre maços de cartas, encontrou uma fita de marcar folha de livro. “Tinha bordados a fio de ouro, de um lado a palavra amor; do outro lado em semicírculo o nome Rodrigues de Seixas; no centro do qual estava um monograma composto de um F e um A entrelaçados.”
Logo atribuiu ao A o nome de Adelaide e “todo aquele passado doloroso, de que mal começava a desprender-se, surgiu de novo ante ela, como um espetro implacável.”
“(...) Afinal prorrompeu a indignação. A seda rangiu entre as mãozinhas crispadas, que debalde tentaram espedaçá-la. Não conseguindo seu intento, a moça levou à boca a fita; num soberbo ímpeto de cólera, cortou com os dentes os fios que teciam as letras, e dilacerou a prenda de sua rival. Atirou então de si com asco os fragmentos, mas em lugar onde não escapassem à vista do marido, e foi encerrar-se em seu toucador.”
Quando Seixas retornou ao seu quarto, preocupado em pegar um livrinho de notas, não percebeu os fragmentos da fita que estavam em cima da secretária.
Aurélia não podia ocultar sua irritação e Seixas mostrou-se indiferente às provocações.
Acabam discutindo por ciúmes, porém o orgulho gritou mais forte.

CAPÍTULO VIII

Aurélia e Seixas ainda discutiam quando foi anunciada a chegada do Sr. Abreu.
Seixas tenta impedi-la de recebê-lo, mas Aurélia retruca:
“- Era minha intenção. Tinha-o recebido esta manhã pela última vez; mas à vista de sua desconfiança mudei de resolução.”
Aurélia tomou o braço do marido e dirigiu-se à saleta, onde encontraram Eduardo Abreu. O amigo voltara para desculpar-se, pois percebera a suspeita em Seixas e queria esclarecer que Aurélia era sua amiga e estava ajudando-o em suas dificuldades, mas ela não admitiu:
“- Essa confissão o senhor não a fará; seria uma ofensa grave à minha dignidade. Meu marido não carece de seu testemunho para conservar-me na mesma elevada estima, inacessível aos assaltos da maledicência. No dia em que eu precisasse justificar-me, estaria divorciada, pois se teria extinguido a confiança, que é o primeiro vínculo do amor, e a verdadeira graça do casamento. Esteja tranquilo pois; seu segredo não lançou a menor sombra em minha felicidade.”
De seu lado Seixas tinha refletido. Em véspera de uma resolução definitiva que devia operar mudança profunda em seu destino, pareceu-lhe fraqueza esse ridículo desabafo, semelhante aos agastamentos do ciúme banal, que ele acreditava não sentir.
A noite houve festa e Seixas esteve muito alegre, deixando Aurélia preocupada.
No dia seguinte quando Seixas saiu para a repartição, Aurélia para disfarçar sua impaciência, meteu-se no carro com D. Firmina e foi gastar o tempo e dinheiro na Rua do Ouvidor. Ao voltar surpreendeu-se com a notícia de que Seixas “talvez não voltasse hoje, senão muito tarde.”
Seixas volta para o jantar.
A surpresa não deu tempo a Aurélia para dominar o primeiro impulso de sua alegria que logo arrefeceu ante a fisionomia de Seixas.
Terminado o jantar, Seixas disse à mulher:
“- Desejo falar-lhe em particular.”

CAPÍTULO IX


“Eram dez horas da noite.
A moça trazia nessa ocasião um roupão de cetim verde cerrado à cintura por um cordão de fios de ouro. Era o mesmo da noite do casamento, e que desde então ela nunca mais usara. Por uma espécie de superstição lembrara-se de vesti-lo de novo, nessa hora na qual, a crer em seus pressentimentos, iam decidir-se afinal o seu destino e a sua vida.”
Fernando ao penetrar na câmara nupcial comenta:
“- É a segunda vez que a vejo com este roupão. A primeira foi há cerca de onze meses, não justamente neste lugar, mas perto daqui naquele aposento.
- Deseja que conversemos no mesmo lugar? perguntou a moça singelamente.
- Não, senhora. Este lugar é mais próprio para o assunto que vamos tratar.
- Eu supunha haver feito uma cousa muito vulgar que o mundo tem admitido com o nome de casamento de conveniência. A senhora desenganou-me: definiu a minha posição com a maior clareza; mostrou que realizara uma transação mercantil; e exibiu o seu título de compra, que naturalmente ainda conserva.
- É a minha maior riqueza, disse a moça com um tom que não se podia distinguir se era de ironia ou de emoção.
Seixas agradeceu com uma inclinação de cabeça e prosseguiu:
- Se eu tivesse naquele momento os vinte contos de réis, que havia recebido de seu tutor, por adiantamento de dote, a questão resolvia-se de si mesma. Desfazia-se o equívoco; restituía-lhe seu dinheiro; recuperava minha palavra; e separávamo-nos como fazem dois contratantes de boa fé, que reconhecendo seu engano, desobrigam-se mutuamente.
Seixas parou, como se aguardasse uma contradição, que não apareceu. Aurélia, recostada na cadeira de braço com as pálpebras a meio cerradas, ouvia brincando, com um punhal de madrepérola que servia para cortar papel.
- Mas os vinte contos, eu já os não possuía naquela ocasião, nem tinha onde havê-los. Em tais circunstâncias restavam duas alternativas: trair a obrigação estipulada tornar-me um caloteiro; ou respeitar a fé do contrato e cumprir minha palavra. Apesar do conceito que lhe mereço, faça-me a justiça de acreditar que a primeira dessas alternativas, eu não a formulei senão para a repelir. O homem que se vende, pode depreciar-se; mas dispõe do que lhe pertence. Aquele que depois de vendido subtrai-se ao dono, rouba o alheio. Dessa infâmia isentei-me eu, aceitando o fato consumado que já não podia conjurar, e submetendo-me lealmente, com o maior escrúpulo, à vontade que eu reconhecera como lei, e à qual me alienara. Invoco sua consciência; por mais severa que se mostre a meu respeito, estou certo que não me negará uma virtude: a fidelidade à minha palavra.
- Não, senhor; cumpriu-a como um cavalheiro.
- É o que desejei ouvir de sua boca antes de informá-la do motivo desta conferência. A quantia que me faltava há onze meses, na noite de seu casamento, eu a possuo finalmente. Tenho-a comigo; trago-a aqui nesta carteira, e com ela venho negociar o meu resgate.
Estas palavras romperam dos lábios de Seixas com uma impetuosidade, que ele dificilmente pôde conter. Como se elas lhe desoprimissem o peito de um peso grande, respirou vivamente, apertando com movimento sôfrego a carteira que tirara do bolso.
Se não estivesse tão preocupado com a sua própria comoção, notaria de certo a percussão íntima que sofrera Aurélia, cujo talhe reclinado sobre o descanso da cadeira brandiu como a lâmina de uma mola de aço.
No sobressalto que a agitou, levara à boca a folha de madrepérola, na qual os lindos dentes rangeram.
Ao abrir a carteira, Seixas suspendeu o gesto:
- Antes de concluir a negociação, devo revelar-lhe a origem deste dinheiro, para desvanecer qualquer suspeita de o ter eu obtido por seu crédito e como seu marido. Não, senhora, adquiri-o por mim exclusivamente; e para maior tranquilidade de minha consciência provém de data anterior ao nosso casamento. Cerca de seis contos representam o produto de meus ordenados e das jóias e trastes, que apurei logo depois do cativeiro, pensando já na minha redenção. Ainda tinha muito que esperar e talvez me faltaria resignação para ir ao cabo, se Deus não abreviasse este martírio, fazendo um milagre em meu favor. Era sócio de um privilégio concedido há quatro anos, e do qual já nem me lembrava. Anteontem, à mesma- hora em que a senhora me submetia a mais dura de todas as provas, o céu me enviava um socorro imprevisto para quebrar enfim este jugo vergonhoso. Recebi a notícia da venda do privilégio, que me trouxe um lucro de mais de quinze contos. Aqui estão as provas.
Aurélia recebeu da mão de Seixas vários papéis e correu os olhos por eles. Constavam de uma declaração do Barbosa relativa ao privilégio, e contas de vendas de jóias e outros objetos.
- Agora nossa conta, continuou Seixas desdobrando uma folha de papel. A senhora pagou-me cem contos de réis; oitenta em um cheque do Banco do Brasil que lhe restituo intacto; e vinte em dinheiro, recebido há 330 dias. Ao juro de 6% essa quantia lhe rendeu 1:084$710. Tenho pois de entregar-lhe Rs. 21:084$710, além do cheque. Não é isto?
Aurélia examinou a conta corrente; tomou uma pena e fez com facilidade o cálculo dos juros.
- Está exato.
Então Seixas abriu a carteira e tirou com o cheque vinte e um maços de notas, de conto de réis cada um, além dos quebrados que depositou em cima da mesa:
- Tenha a bondade de contar.
A moça com a fleuma de um negociante abriu os maços um após outro e contou as células pausadamente. Quando acabou essa operação, voltou-se para Seixas e perguntou-lhe como se falasse ao procurador incumbido de receber o dividendo de suas apólices.
- Está certo. Quer que eu lhe passe um recibo?
- Não há necessidade. Basta que me restitua o papel de venda.
- É verdade. Não me lembrava.”
Seixas diz a Aurélia sobre suas humilhações e sobre sua vida humilde pelo pouco recursos que o pai lhe deixara.
Aurélia, então, explica-lhe o verdadeiro motivo da presença de Eduardo Abreu em sua casa. Em seguida, reuniu o cheque e os maços de dinheiro que estavam sobre a mesa.
Seixas sugere um pretexto para evitar a curiosidade pública, talvez uma viagem à Europa. A moça responde que não há necessidade de mentiras.
Fernando, então, ergueu-se de pronto e despediu-se.
“Seixas recuou um passo até o meio do aposento, e fez uma profunda cortesia, à qual Aurélia respondeu. Depois atravessou lentamente a câmara nupcial agora iluminada. Quando erguia o reposteiro ouviu a voz da mulher.
- Um instante! disse Aurélia.
- Chamou-me?
- O passado está extinto. Estes onze meses, não fomos nós que os vivemos, mas aqueles que se acabam de separar, e para sempre. Não sou mais sua mulher; o senhor já não é meu marido. Somos dois estranhos. Não é verdade?
Seixas confirmou com a cabeça.
- Pois bem, agora ajoelho-me eu a teus pés, Fernando, e suplico-te que aceites meu amor, este amor que nunca deixou de ser teu, ainda quando mais cruelmente ofendia-te.
A moça travara das mãos de Seixas e o levara arrebatadamente ao mesmo lugar onde cerca de um ano antes ela infligira ao mancebo ajoelhado a seus pés a cruel afronta.
- Aquela que te humilhou, aqui a tens abatida, no mesmo lugar onde ultrajou-te, nas iras de sua paixão. Aqui a tens implorando seu perdão e feliz porque te adora, como o senhor de sua alma.
Seixas ergueu nos braços a formosa mulher, que ajoelhara a seus pés; os lábios de ambos se uniam já em férvido beijo, quando um pensamento funesto perpassou no espírito do marido. Ele afastou de si com gesto grave a linda cabeça de Aurélia, iluminada por uma aurora de amor, e fitou nela o olhar repassado de profunda tristeza.
- Não, Aurélia! Tua riqueza separou-nos para sempre.
A moça desprendeu-se dos braços do marido, correu ao toucador, e trouxe um papel lacrado que entregou a Seixas.
- O que é isto, Aurélia?
- Meu testamento.
Ela despedaçou o lacre e deu a ler a Seixas o papel. Era efetivamente um testamento em que ela confessava o imenso amor que tinha ao marido e o instituía seu universal herdeiro.
- Eu o escrevi logo depois do nosso casamento; pensei que morresse naquela noite, disse Aurélia com um gesto sublime.
Seixas contemplava-a com os olhos rasos de lágrimas.
- Esta riqueza causa-te horror? Pois faz-me viver, meu Fernando. É o meio de a repelires. Se não for bastante, eu a dissiparei.
As cortinas cerraram-se, e as auras da noite, acariciando o seio das flores, cantavam o hino misterioso do santo amor conjugal.”

VIII – CONSIDERAÇÕES FINAIS:

O enredo deste romance mostra claramente a mistura de elementos romanescos e da realidade.
Alencar classifica a obra dentro de seus “perfis de mulher”, já que concentra na mulher o papel mais importante dentro da sociedade de seu tempo. Aurélia é a protagonista do romance: uma jovem mulher dividida entre o amor e o ódio, o desejo e o desprezo pelo homem que ama. Essa personalidade dividida apresenta um desvio psíquico ocasionado a partir do rompimento do noivo, Fernando Seixas, e que causou certo caso de esquizofrenia na personagem.
Aurélia Camargo é idealizada como uma rainha, uma heroína romântica de "régia fronte, coroada de diadema de cabelos castanhos, de formosas espáduas", no entanto, é ao mesmo tempo "fada encantada" e "ninfa das chamas, lasciva salamandra".
Ao estereótipo da "mulher-anjo" romântica, o narrador acrescenta um elemento demoníaco que em vez de explicitar, sugere: "sob as pregas do roupão de cambraia que a luz do sol não ilumina", e também "sob a voz bramida, o gesto sublime, escondendo o frêmito que lembrava silvo de serpente" ou quando "o braço mimoso e torneado faz um movimento hirto para vibrar o supremo desprezo". Tal maneira de caracterizar a personagem pelos elementos exteriores é típica do narrador observador. Tal caracterização, por sua vez, humaniza a personagem, afastando-a do maniqueísmo romântico e acrescentando-lhe traços realistas.
O conflito entre os protagonistas gera momentos de grande emoção e sofrimento. É desse embate entre o desejo de vingança e o desejo de amar em plenitude que nasce a ação psíquica que se transforma em enredo. Se a temática e o psiquismo da obra representam antecipações realistas consolidados pela evidente critica de uma sociedade que valoriza mais a aparência e o dinheiro que os sentimentos humanos, a idealização das personagens reflete o universo romântico presente na obra. O desenlace configura, por si só, a vitória do Romantismo em Alencar sobre a possibilidade realista.
Alencar acreditava sinceramente na vitória do homem na reforma de si mesmo e da sociedade. Não havia nele ainda o traço de pessimismo profundo e de ceticismo que tantas páginas maravilhosas fizeram nascer em Machado de Assis. É dessa crença nos sentimentos humanitários que bruta o Romantismo alencariano, do qual bruta a força vital de suas personagens. Divididos entre o ódio e o perdão, a necessidade financeira e os apelos do coração, vencem sempre os segundos. Assim, o grande vilão, o antagonista, é sempre a sociedade e seus hábitos doentios e seus costumes imorais.
Aurélia Camargo é uma mulher de personalidade forte, carregada de sentimentalismo romântico. Daí sua contradição, sua personalidade marcada por extremos psíquicos: dá maior valor aos sentimentos, mas vale-se do dinheiro para atingir seu objetivo de obter o grande amor de sua vida, Fernando Seixas. Dessa forma, o dinheiro acaba impondo o valor burguês que lhe era atribuído na sociedade do século XIX. A realização amorosa só se cumpre depois de Aurélia vencer a aparente esquizofrenia que parece conduzi-la á dúvida quanto às intenções de Fernando Seixas. O comportamento esquizóide manifesta-se nas atitudes antitéticas de desejar o amor do marido com todas as suas forças, mas lutar contra o mesmo até suas últimas reservas.
Se é essa a pretensão do autor, o seu recado para a sociedade de seu tempo, deve-se classificar Senhora com um romance de costumes.















2 comentários:

Anônimo disse...

Realmente muito bom!!

Anônimo disse...

eu achei bem romantico no final udo q parecia um grande engano terminou num beijo doce ai eu amo essa parte