terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O ATENEU, RAUL D' ÁVILA POMPÉIA

Angra dos Reis-RJ, 1863 – RJ, 1895


“Não é o internato que faz a sociedade; o internato a reflete”.



I – AUTOR:

Filho de uma família abastada, RAUL POMPÉIA nasceu em Angra dos Reis-RJ, e pouco se sabe sobre a primeira fase de sua vida.
Na infância, RAUL teve contato direto com os escravos, na propriedade de seu avô, fato que muito influenciou sua formação militante abolicionista. Sua família era muito severa e vivia reclusa a amigos e parentes.
RAUL com dez anos de idade muda-se com a família para o Rio de Janeiro e é matriculado como interno, no Colégio do Abílio, de propriedade do Dr. Abílio César Borges, o Barão de Macaúbas, tido como o melhor colégio no 2º Reinado.
Aos dezesseis anos de idade é transferido para o Colégio D. Pedro II, agora em regime de externato. Continua a desenvolver a sua veia jornalística que já despontara no Colégio do Abílio e empenha-se nas atividades do Grêmio Literário Amor ao Saber.
Em 1881, já em São Paulo, cursa a Faculdade de Direito do Largo São Francisco, defendendo as causas abolicionistas e republicanas. Não se exclui a hipótese de que Raul tenha participado das emboscadas que visavam a libertar escravos.
Nessa época, RAUL dedica-se ao desenho, as charges e cartuns contra a sociedade escravocratas paulistas. Em virtude de sua militância política é transferido para a Faculdade de Direito de Recife, onde concluí o seu bacharelado.
A adesão de RAUL ao florianismo resultará no afastamento de seus amigos e nos círculos literários. A situação se agravará com a polêmica briga entre RAUL e Olavo Bilac. Ofendido num artigo de Olavo Bilac (1892), sob o pseudônimo de Pierrot, acusando-o de homossexual. RAUL desafiou-o para um duelo à espada que não chegou a haver. Posteriormente foi atacado por Luís Murat num artigo com insinuações que maculavam a sua honra, acusando-o de covarde, referindo-se, inclusive sobre o duelo frustrado com Bilac.
De temperamento instável, sensível, reprimido, tímido, suicida-se aos trinta e dois anos, na noite de Natal, sem antes deixar um bilhete ao jornal onde se sentira desprestigiado e discriminado: “A Notícia e ao Brasil declaro que sou um homem de honra.”

II – ESTILO LITERÁRIO:

Raul Pompéia é um autor reconhecido no mundo literário graças à publicação de uma obra singular: “O Ateneu”.
A obra, cronologicamente, está inserida na escola literária Realista e contém características essenciais dessa estética: análise psicológica, crítica social, intimismo e detalhismo. No entanto, a obra incorpora em sua narrativa, características naturalistas, expressionistas, parnasianas, simbolistas e aproximação com o impressionismo. Dessa forma, com sua genialidade, Raul Pompéia antecipa o Modernismo, podendo ser visto como um dos precursores do movimento que eclodiu em 1922, com a famosa Semana da Arte Moderna.
Para Afrânio Coutinho, Raul Pompéia, após ter passado pelo Realismo-Naturalismo, “só encontrou plena e satisfatória expressão dentro dos cânones do Impressionismo”, tendo tido a nossa “primeira grande repercussão” nesse estilo de época, que se destaca mais na pintura.
Para Mário de Andrade, “O Ateneu representa um dos aspectos mais altos do Naturalismo brasileiro”.
Sem dúvida, o estilo naturalista se manifesta no livro através das descrições de Ângela e, na abordagem do homossexualismo que se pode entrever nas relações de Sérgio com Sanches, Bento Alves e Egbert. Muitas vezes, as personagens são descritas nos seus aspectos bestiais e animalescos, priorizando-se o seu lado instintivo, como é comum no Naturalismo.
Além desses aspectos visivelmente naturalistas, sobressaem na obra outros que filiam ao estilo realista. Como se pode perceber pela leitura de “O Ateneu”, Raul Pompéia tende para a crítica ferina e caricatural de pessoas e instituições sociais; revela um pessimismo cético na visão da sociedade; manifesta maior preocupação com a análise em detrimento do enredo, razão por que a narrativa é arrastada, anda devagar; em suma, priorizando a análise dessecante e profunda, o autor revela forte carga psicológica na descrição das personagens.
Esses aspectos citados, como se sabe, configuram o Realismo e estão bem presentes em “O Ateneu”.
Como exemplo, veja-se a visão de escola que o autor apresenta, com base no “Ateneu”, onde tudo é visto negativamente. A escola apresentada por Pompéia é um verdadeiro antro de perdição, onde campeia a bajulação, a vaidade, a discriminação, as injustiças, a corrupção, as amizades perigosas...
Como diz o autor, “não é o internato que faz a sociedade; o internato a reflete”.
Segundo o mesmo Afrânio Coutinho, “o mais importante no Impressionismo é o instantâneo e único, tal como aparece ao olho do observador. Não é o objeto, mas as sensações e emoções que ele desperta, num dado instante,, no espírito do observador, que é por ele reproduzido caprichosa e vagamente”. No Impressionismo, pois, o que importa são as impressões, as sensações que ficam, não os fatos acontecidos: “no las cosas, sino la sensación de las cosas”.
Em “O Ateneu”, é aspecto preponderante a sensação visual, olfativa e auditiva, como observa o conhecido Prof. Luís Carlos Maciel:

Em vez da relação causal exterior entre indivíduos e acontecimentos, o que importa é a relação interna evocada na mente do artista (...) É a vida interior em todos os seus mais requintados matizes que lhe interessa retratar através de uma linguagem expressiva, colorida, sonora, rica de imagens, onde sentimentos e sensações suplantam os aspectos intelectuais”.

Como se vê, o Impressionismo aproxima-se do Simbolismo e pode bem ser entendido como uma versão em prosa da estética simbolista.

III – OBRAS:

Romance: Uma tragédia no Amazonas
               As jóias da Coroa
               O Ateneu
              Agonia (inacabado)

Conto: Microscópicos

Poema em prosa: Canções sem metro

IV – LINGUAGEM:

A tendência estilística da obra “O Ateneu” apresenta feição acadêmica como rebuscamento da linguagem, subordinação exagerada e inversões desnecessárias, marcada pela correção acadêmica, adjetivação excessiva, abuso de figuras de linguagem, citações e referências clássicas aproximando-se do tom retórico do Parnasianismo. No entanto, Raul Pompéia manifesta uma postura crítica e irônica nas descrições caricaturais das personagens que é comum na estética moderna.

Dentre as suíças, como um gorjeio do bosque, saía um belo nariz alexandrino de dois
hemistíquios, artisticamente longo, disfarçando o cavalete da cesura, tal qual os da última moda do Parnaso. À raiz do poético apêndice brilhavam dois olhos vivíssimos, redondos, de coruja, como os de Minerva. Tão vivos ao fundo das órbitas cavas, que bem se percebia ali como deve brilhar o fundo na fisionomia da estrofe”. (descrição da personagem Dr. Ícaro do Nascimento).

V – FOCO NARRATIVO:

O romance se diferencia das narrativas da época por apresentar um foco narrativo em primeira pessoa e por assumir um tom reflexivo e pessimista, narrando os episódios emocionalmente mais marcantes vividos no colégio interno, afastando-se da objetividade e impessoalidade dos autores do Realismo-Naturalismo.
Porém, o autor preserva a tese defendida pelos naturalistas de que o meio influencia o comportamento das pessoas.
A obra relata a história da formação do menino Sérgio num internato chamado Ateneu e se assemelha muito a um romance de memória.

VI – TEMPO:

O tempo é psicológico, Raul Pompéia opta captar o flash de um momento, de uma sensação ou de uma impressão transportando o passado no presente como memória viva. O narrador, já adulto, recorda-se de sua infância e sua estada no colégio “Ateneu”. Trata-se, portanto, do passado do menino Sérgio, que reflete no futuro do narrador.

“ (...) Mas um movimento animou-me, primeiro estímulo sério de vaidade: distanciava-me da comunhão da família, como um homem! Ia por minha conta empenhar a luta dos merecimentos; e a confiança nas próprias forças sobrava. Quando me disseram que estava a escolha feita da casa de educação que me devia receber, a notícia veio achar-me em armas para a conquista audaciosa do desconhecido. Um dia, meu pai tomou-me pela mão, minha mãe beijou-me a testa, molhando-me de lágrimas os cabelos e eu parti.”

VII – ESPAÇO:

O romance mostra um poder de crítica bastante eficaz e tudo de forma criativa, pois se faz por meio de um jogo entre o microcosmo (escola) e o macrocosmo (sociedade). Ou seja, a escola é um reflexo da sociedade, bastando para o autor, portanto, para criticar esta, apenas descrever as relações que se estabelecem naquela.

VIII – PERSONAGENS:

SÉRGIO pode ser visto de dois ângulos: como protagonista, é um adolescente inexperiente e tímido que é conduzido pelas mãos do pai para fazer a sua iniciação na escola da vida. À medida que vai “crescendo dentro do mundo sombrio do internato (e da vida), vai-se tornando amargo, céptico e sarcástico e, agora é o adulto Raul Pompéia quem certamente fala pelo protagonista-narrador.
Sérgio alegoriza o adolescente às voltas com o doloroso aprendizado da vida; é a criança perdendo a sua pureza virginal, fazendo a sua iniciação no mundo podre e carcomido de hipocrisia dos adultos.
Essas duas faces da obra: a de desenvolvimento do interior do narrador-personagem e a de denúncia de todo um sistema educativo, são exemplos traumatizantes, vividos no Ateneu, um internato para meninos, ao longo dos dois anos em que foi aluno do Ateneu, constituindo um registro amargo dessa época escolar.
Além disso, não se deve esquecer que Sérgio é o alter-ego, ou seja, um outro “eu” de Raul Pompéia. Em outras palavras, o narrador recebe a personalidade e também as memórias do autor, já que este também estudou num internato, o Colégio Abílio, do Rio de Janeiro. Mais uma vez, carrega-se nas tintas do pessoalismo.

ARISTARCO: Etimologicamente, o seu nome significa “governante de melhores” e através do colégio Ateneu, retrata o mundo social com seus valores, bajulações, discriminações e convenções. Afinal, o internato era um espelho da sociedade.
Aristarco revela-se, ao longo do livro, prepotente, autoritário, arrogante e vaidoso. Representa o educador tradicional com seus métodos rígidos de disciplinas e com sua empáfia:

Acima de Aristarco, Deus. Deus tão-somente; abaixo de Deus, Aristarco”.

O ataque mais chamativo se estabelece em relação ao sistema educacional, representado na figura do Dr. Aristarco, diretor e dono do colégio. Além de ele se mostrar alguém bastante vaidoso, egocêntrico e autoritário, dotado de uma linguagem altissonante e retórica (já que a moralidade e a firmeza de caráter que anuncia em sua escola de fato não se realizam), chama a atenção a confusão que estabelece entre escola e empresa.
Magistral é o primeiro capítulo na realização dessa crítica. Vê-se um narrador que, abusando da ironia, apresenta Aristarco preocupado em pintar o colégio como um negociante preocupado com as aparências de sua venda ou mercearia. Não é à toa que o vocabulário usado nesses trechos é típico de estabelecimentos comerciais. Ademais, o tratamento dado aos alunos é diferenciado muitas vezes pelo poder econômico.
Além disso, avassaladora é a descrição do diretor dedicando parte do dia ao livro de contabilidade da escola. Pode-se ainda observar os métodos antiquados de pedagogia (apesar da propaganda em contrário), baseados na humilhação pública.

EMA pode ser analisada sob dois ângulos: anagrama de mãe, na qual o protagonista projeta a figura de sua genitora com o seu carinho, sua compreensão e a sua ternura; e mulher, evocada pela protagonista de Madame Bovary, de Flaubert, cujo nome é também Ema. Ao contrário da revelação marcada pelo ódio com Aristarco, “Sérgio e Ema constituem a história de amor do romance”.
O relacionamento de Sérgio com ela é ambíguo, indo do maternal ao erótico, como declara:

Não! Eu não amara nunca assim minha mãe”.

Representando bem a decadência moral que se quer mostrar, destacam-se Venâncio, subserviente e bajulador de Aristarco; Ângela, a canarina sensual, que costumava assistir ao banho dos rapazes; e os colegas de Sérgio com os quais o protagonista mantém um relacionamento bastante estreito e íntimo: Sanches, Bento Alves e Egbert e ainda Franco, mau aluno, perseguido, vítima de discriminações, e América, o incendiário.

IX – ENREDO:


“O Ateneu” classifica-se como um “romance de formação”, isto é, um romance que narra à passagem da mente infantil para a adulta, e tem como mola propulsora a memória de Sérgio, o narrador-personagem.

O autor não se prende em um fio narrativo. São doze capítulos que se assemelham a uma sucessão de quadros, não subordinados necessariamente entre si.
A temática da homossexualidade, das perversões sexuais, da psicanálise, do conflito íntimo, da visão da sociedade versus escola, da solidão, do desajuste do indivíduo faz de Raul Pompéia ser considerado um autor único na literatura.
Sua narrativa envolve elementos descritivos caricaturais revelando um olhar cruel das personagens e minúcias do espaço físico.
“O Ateneu” tem o subtítulo de “Crônica de saudades”, porém o saudosismo referido não se trata de sentimentos bons e marcantes do passado, mas, sim, de lembranças terríveis passadas num internato, onde corrupção, vaidades, hipocrisias, hostilidades povoavam seus corredores, desmascarando a pseudo-aparência de equilíbrio.

Eufemismo, os tempos felizes, eufemismo..."

Estas são as palavras de Sérgio, personagem-narrador, de “O Ateneu”, quando recorda os anos de sua infância, o que ressalta logo é a infelicidade, que lhe serviu de base e que permaneceu ao longo de sua existência.
Numerados por algarismos romanos, inicia-se com o pai conduzindo Sérgio, aos onze anos de idade, às portas do Colégio Ateneu, no Rio de Janeiro, onde estudavam “a fina flor da mocidade brasileira”.
Vais encontrar o mundo. Coragem para a luta” - palavras ditas pelo pai ao deixá-lo como interno nas mãos do austero diretor Dr. Aristarco Argolo de Ramos.
Sérgio, criança “educada exoticamente na estufa de carinho que é o regime doméstico”, vê-se despreparado para enfrentar a sua nova fase de vida.
Sérgio já havia visitado o Ateneu duas vezes. A primeira, por ocasião da festa de encerramento dos trabalhos letivos anuais e ficou impressionado com o discurso do professor Venâncio:

O mestre (...) é o prolongamento do amor paterno, é o complemento da ternura das mães, o guia zeloso dos primeiros passos, na senda escabrosa que vai às conquistas do saber e da moralidade. (...) Acima de Aristarco – Deus! Deus tão-somente; abaixo de Deus – Aristarco”.

A sua segunda visita foi no dia da festa da ginástica apresentada com muito luxo, monitorada pelo professor de educação física, o Bataillard, nome derivado do mesmo radical de “batalha”, “batalhador” e que contou com a presença da princesa Isabel, que na época exercia a regência do trono.
Jorge, filho de Aristarco, no momento da entrega das medalhas recusou-se beijar a mão da princesa Isabel, pois era republicano convicto aos quinze anos, causando um grande desconforto a Aristarco. Em seguida, houve a execução do hino da monarquia marcando a memória de Sérgio:

Guardei, na imaginação infantil, a gravura dessa apoteose com o atordoamento ofuscado, mais ou menos de um sujeito, partindo à meia-noite de qualquer teatro (...)”

Sérgio e seu pai são recebidos com honra na residência de Aristarco e sua esposa, D. Ema:

“(...) – Pois, meu caro senhor Sérgio, o amigo há de ter a bondade de ir ao cabeleireiro deitar fora estes cachinhos.
Eu tinha ainda os cabelos compridos, por um capricho amoroso de minha mãe. O conselho era visivelmente salgado de censura (...).
- Peço licença para defender os meninos bonitos... – objetou alguém entrando.
Surpreendendo-nos com esta frase, suntuosamente escoada por um sorriso, chegou a senhora do diretor, Dona Ema. Bela mulher em plena prosperidade dos trinta anos de Balzac. (...) Que boa mãe para os meninos, pensava eu.”

Passados alguns dias, Sérgio começa a desvendar que o verdadeiro interesse de Aristarco com seu belo discurso era exclusivamente impressionar e lucrar com o colégio.

Soldavam-se nele o educador e o empresário com uma perfeição rigorosa de acordo, dois lados da mesma medalha: opostos, mas justapostos.”

Aristarco sempre que visita às dependências do internato e discursa sobre questões moralistas, principalmente, sobre a moral sexual.

“(...) Moderar, animar, corrigir esta massa de caracteres, onde começa a ferver o fermento das inclinações; encontrar e encaminhar a natureza na época dos violentos ímpetos, amordaçar excessivos ardores; retemperar o ânimo dos que se dão por vencidos precocemente; espreitar, adivinhar os temperamentos; prevenir a corrupção; desiludir as aparências sedutoras do mal; aproveitar os alvoroços do sangue para os nobres ensinamentos...”

E, acrescentava aos pais:

“(...) Velo pela candura das crianças, como se fossem, não digo meus filhos; minhas próprias filhas! O Ateneu é um colégio moralizado!”

Sérgio é encaminhado pelo bedel João Numa e apresentado ao Rebelo, um veterano da turma.
Rebelo alerta-o que ele não deveria aceitar a proteção de ninguém; esclarece que o internato era dividido entre os ativos, meninos fortes que protegiam, e que representavam a masculinidade, e, os passivos, meninos indefesos, símbolos de feminilidade.

“...faça-se forte aqui, faça-se homem. Os fracos perdem-se. (...) Os gênios fazem aqui dois sexos, como se fosse uma escola mista. Os rapazes tímidos, ingênuos, sem sangue, são brandamente impelidos para o sexo da fraqueza; são dominados, festejados, pervertidos como meninas ao desamparo. (...) Faça-se homem, meu amigo! Comece por não admitir protetores.”

Na sequência o narrador-personagem descreve uma galeria de personagens em traços caricaturais, apoiando-se em símiles animalescos.
Sérgio não dá ouvidos às palavras de Rebelo e se entrega aos estudos, conquistando as melhores notas e acaba conhecendo Sanches, primeiro aluno da classe e com quem se antipatiza à primeira vista.
Era seu primeiro dia de aula e quando chamado à lousa pelo professor Mânlio, uma mistura de nervosismo e timidez tomam-lhe conta.
Em seguida, encontra um folheto com versos e desenhos obscenos, apresentando padres em atitudes libidinosas. Neste mesmo dia, Rebelo, assinala alguns alunos do internato: Malheiro, forte, bruto e respeitado por todos; Cândido, afeminado; Ribas, feio e estudioso e Franco, líder negativo.
Sérgio preocupado com as gozações dos maiores aproxima-se do inspetor Silvino.
À noite, porém, provocado pelo Barbalho, parte para agressão.
Durante o verão os internos tinham acesso à natação e, embora, separados conforme a idade, Sérgio foi afogado por um veterano e salvo por Sanches, tornando-se amigos.
Sanches é descrito como um amigo prestativo, baboso e fedido, porém oculta outras intenções. Ele ajuda Sérgio na recuperação de seu desempenho escolar, esmerando-se em aulas particulares, exagera nas demonstrações afetivas, assedia-o, chegando até pedir que o protagonista sentasse em seu joelho.
Os alunos do colégio eram divididos em dez turmas e supervisionados por um “vigia”, espécie de espião de Aristarco. Dentre eles, Sanches, Malheiro, Ribas, Mata, Saulo e o Rômulo.
O protagonista defendeu-se “dos meninos maiores” por um tempo, dedicando-se aos estudos. Porém, não resistiu e acabou buscando “proteção” de um companheiro.

“(...) Premia-me a força das coisas; senti-me acovardado. Perdeu-se a lição viril de Rebelo: prescindir de protetores. Eu desejei um protetor, alguém que me valesse, naquele meio hostil e desconhecido, e um valimento direto mais forte do que palavras.”

Sanches aproveita dessa “fragilidade” de Sérgio e insinua-se:

“(...) Estimulado pelo abandono, que lhe parecia assentimento tácito, Sanches precipitou um desenlace. Por uma tarde de aguaceiro errávamos pelo saguão das bacias, escuro, úmido, recendendo ao cheiro das toalhas mofadas e dos ingredientes dentifrícios, solidão favorável, multiplicada pelos obstáculos à vista que ofereciam enormes pilares quadrados em ordem a sustentar o edifício – quando, sem transição, o companheiro chegou-me a boca ao rosto e falou baixinho.”

Depois desse primeiro contato “(...) concertaram-se os meus instintos sopitados de revolta e Sanches passou a ser um desconhecido. Sacrificava-se de golpe o amigo, o explicador e o vigilante: um rasgo de heroicidade. Ao primeiro encontro depois do rompimento, o homem viu que estava tudo acabado. Andou a rondar-me, temperando o olhar com um brilho de facadas.”

É importante ressaltar que Sanches era um “vigilante”, aluno que tinha a função de zelar pelo comportamento dos outros. Além de ser um dos mais veementes defensores da “moral e dos bons costumes”. Dessa forma, fica claro nessa passagem, á critica a hipocrisia. E, quando Sanches percebe que não conseguiria perverter Sérgio, passa a persegui-lo. Em seguida, cita a grade curricular do colégio e faz críticas severas ao sistema educacional.

“ (...) uma escola familiar do Caminho Novo, onde algumas senhoras inglesas, sob a direção do pai, distribuíam educação à infância como melhor lhes parecia. Entrava às nove horas, timidamente, ignorando as lições com a maior regularidade, e bocejava regularmente até às duas, torcendo-me de insipidez sobre os carcomidos bancos que o colégio comprava...”

Sobre as provas de Português, afirma:

As provas escritas do exame de português (...) consistirão na análise escrita de uma estância de Camões tirada à sorte. Na urna entrarão tantos números quantas são as estâncias do poema, mesmo as que devem ser excluídas por livres demais ou eróticas.”

Aristarco mantinha um “Livro das Notas”, espécie de diário de advertências ocorridas no dia anterior pelos alunos. O diretor fazia questão de lê-lo diariamente na presença de todos.
Depois da briga com Barbalho e das perseguições de Sanches, o nome de Sérgio foi incluído por duas vezes no “Livro das Notas”.
Sérgio entre numa fase de depressão e apega-se a religiosidade. O narrador relembra a morta de sua prima Rosália e a transforma num ícone de santidade.
Franco é denunciado e castigado por Aristarco. É colocado de joelhos durante o recreio, ofendido e agredido pelos alunos.
Sérgio e um colega planejam uma vingança: espalham cacos de vidros na piscina. Felizmente, um servente descobriu os cacos e interditou a natação. Arrependido, conta toda a sua trajetória no internato ao seu pai. À indiferença deste e a sua falta de credibilidade faz com que Sérgio, torne-se uma pessoa “adulta”, independente e responsável pelos seus atos.
Os acontecimentos recentes no colégio transtornam Sérgio e colocam seu caráter em choque:

“ (...) Ao dia imediato sai da cama como de uma metamorfose. Imaginei, generalizando errado, que a contemplação era um mal, que o misticismo andava traidoramente a degradar-me: a convivência fácil com o Franco era a prova.”

Sérgio conhecera com Sanches a perversidade; com Barreto o temor do inferno; com Ângela, a camareira de D. Ema que, exibia-se em seus banhos aos alunos e aos funcionários, a luxúria.
No sexto capítulo, Sérgio recria o clima intelectual do Colégio D. Pedro II através da personagem Nearco, um ginasta, que vem acrescentar o grupo de amigos no internato e se revelará como um líder estudantil, formando o “Grêmio Literário Amor ao Saber”.
O Grêmio reunia-se quinzenalmente, sob a presidência do professor Cláudio, para a discussão de temas históricos e literários. Além dos debates, o Grêmio editava um jornalzinho, patrocinado por Aristarco, que publicava, além da propaganda com internato; quadrinhas místicas do Ribas; sonetos eróticos do Sanches; meditações religiosas do Barreto e artigos historiográficos.
Sérgio passa a se interessar pelo Grêmio e assume o cargo de assistente e para o seu melhor desempenho nas pautas do Grêmio, passa a frequentar a biblioteca. É lá que conhece Bento Alves, o bibliotecário.
Entre Sérgio e Bento Alves nasceu uma amizade “sincera”; depois, Bento Alves, tenta seduzi-lo.

A amizade de Bento Alves por mim, e a que nutri por ele, me faz pensar que, mesmo sem o caráter de abatimento que tanto indignava ao Rebelo, certa efeminação pode existir como um período de constituição moral. Estimei-o femininamente, porque era grande, forte, bravo; porque me podia valer; porque me respeitava.” (Cap VI)

O narrador disserta sobre as três conferências proferidas pelo professor ou doutor Cláudio, no Grêmio Amor ao Saber. Ainda, no Cap. VI, Bento Alves, Barbalho e Malheiro brigam, após Barbalho ter insinuado ao Bento Alves que toda vez que o Malheiro encontrava-se com Sérgio, perguntava-lhe quando seria o seu casamento com o bibliotecário.
A rotina do internato reduzia em aulas; peteca; jogo de amarelinha; chicote queimado; cigarro; bebida, carteado; jogo de dardos; os “bilhetinhos” que foram substituídos pelo telégrafo-martelinho, que durou pouco depois de ser descoberto pelo bedel e as fofocas.
A principal fofoca girava sobre o caso amoroso entre D. Ema e o Crisóstomo, professor de grego, além dos assuntos que envolviam a anatomia feminina.
Havia, também, um Orfeão e uma banda no colégio, a “menina dos olhos” de Aristarco que recebia muitos “privilégios disciplinares”. Em uma das apresentações, Sérgio vaiou Rômulo, futuro genro do diretor e tocador do bumbo, e, o fato resultou em pancadaria.
O ano letivo foi encerrado com glórias e uma exposição de desenhos, especialmente os retratos do diretor.
No ano seguinte, foram acrescentados passeios ao Corcovado, ao Jardim Botânico e bebedeiras.
Uma noite, os alunos são surpreendidos por uma convocação geral e imediata por Aristarco, no salão geral. O diretor, totalmente, descontrolado comunica uma ocorrência de homossexualidade.

“(...) Uma carta cômica e um encontro marcado no Jardim. “Ah! Mas nada me escapa...tenho cem olhos. Se são capazes, iludam-me! Está em meu poder um papel, monstruoso corpo de delito! Assinado por um nome de mulher! Há mulheres no Ateneu, meus senhores!”

Trata-se de uma carta do Cândido, assinada por Cândida ao Tourinho. São denunciados por práticas homossexuais doze alunos, além do casal citado. Dr. Aristarco humilha-os perante todos, causando mal estar em Sérgio.
Franco provoca o inspetor Silvino e os alunos em forma de apoio ao amigo armam uma rebelião no internato. Só não houve expulsão, pois se tratava de pais em dia com as mensalidades e Aristarco tinha grande apreço com sua contabilidade. Interessante notar a presença feminina de D. Ema, a esposa de Aristarco circulando nos alojamentos dos meninos.
Após, seguiu a revolução da goiabada, protesto contra a refeição do colégio. Esses dois acidentes já apresentam indícios da destruição total de “O Ateneu”. Sérgio é transferido para a ala dos meninos maiores. Em seguida, Sérgio narra a sua “verdadeira amizade” com Egbert.

A convivência do Sanches fora apenas como o afeiçoamento aglutinante de um sinapismo, intolerável e colado, espécie de escravidão preguiçosa da inexperiência e do temor; a amizade de Bento Alves fora verdadeira, mas do meu lado havia apenas gratidão, preito à força, comodidade da sujeição voluntária, vaidade feminina de dominar pela fraqueza, todos os elementos de uma forma passiva de afeto, em que o dispêndio de energia é nulo, e o sentimento vive de descanso e de sono. Do Egbert, fui amigo. Sem mais razões, que a simpatia não se argumenta. Fazíamos os temas de colaboração; permutávamos significados, ninguém ficava a dever. Entretanto, eu experimentava a necessidade deleitosa da dedicação. Achava-me forte para querer bem e mostrar. Queimava-me o ardor inexplicável do desinteresse. Egbert merecia-me ternuras de irmão mais velho. [...] Eu por mim positivamente adorava-o e o julgava perfeito. Era elegante, destro, trabalhador, generoso. Eu admirava-o, desde o coração, até a cor da pele e à correção das formas.”

O relacionamento com Egbert fez com que Sérgio torna-se romântico, levando-o buscar nos versos e no estudo de línguas estrangeiras seus aliados. Em um jantar de premiação na residência de Aristarco, a presença de D. Ema desperta em Sérgio interesses de orientação sexual masculina.

Estava a meu lado, pertinho, deslumbrante, o vestuário neve. Serviam-me alguns pratos, muitas carícias; eu devorava as carícias. [...] De volta ao Ateneu, senti-me grande. Crescia-me o peito indefinivelmente, como se me estivesse a fazer homem por dilatação.”

Franco adoece e Sérgio visita-o.

Encontrei-o mal. Com a cabeça afundada no travesseiro, sumido sob a porção de cobertores que os vizinhos haviam cedido, afetava o descuido infantil, na fisionomia, a indiferença horripilante, suprema dos que não vão longe. Fiquei surpreendido e aterrado.
[...] No dia seguinte, um domingo alegre, Franco estava morto.”

A morte de Franco passou despercebida em virtude das festividades bienais do colégio. O evento estava marcado para o dia 13 de novembro e contava com a premiação de um busto a Aristarco. Após alguns dias, ocorreu a tradicional apresentação dos ginastas do professor Bataillard e o sarampo que afetou Sérgio.
Na época, os pais de Sérgio encontravam-se na Europa e ele foi confiado aos cuidados de D. Ema.

Junto da cama, um velador modesto e uma cadeira. Ema sentava-me. Pousava os cotovelos à beira do colchão, o olhar nos meus olhos – aquele olhar inolvidável, negro, profundo como um abismo, bordado pelas seduções todas da vertigem.”

Até que um grito veio despertar a realidade e findar a infância de Sérgio.

Um grito súbito fez-me estremecer no leito: fogo! fogo! Abri violentamente a janela. O Ateneu ardia. (...) Entre os reclusos das férias, contava-se um rapaz, matriculado de pouco, o Américo. Vinha da roça. Mostrou-se contrariado desde o primeiro dia. Aristarco tentou abrandá-lo; impossível: cada vez mais enfezado. Não falava a ninguém.
(...) Ardia efetivamente o Ateneu. Transpus a correr a porta de comunicação entre a casa de Aristarco e o colégio. Não havia ainda começado o serviço sério de extinção. A maior parte dos criados eram licenciados por ocasião das férias; os poucos restantes andavam como doidos, incertos, gritando: fogo!”

Depois de algumas horas, o fogo fora controlado e Américo culpado. O aluno rompera o encanamento do gás no saguão das bacias e desaparecera depois do atentado.
D. Ema, também, durante o acontecimento partira, deixando Aristarco enlouquecido e abandonado e, “O Ateneu” em cinzas.

X – CONSIDERAÇÕES FINAIS:

• A maioria dos nomes das personagens de “O Ateneu” reveste-se de significados alusivos a características ou atributos físicos, morais ou profissionais.
• Aristarco significa “governante dos melhores” (arist é o superlativo de bom; arc significa governar)
• A caracterização de Dona Ema é a fusão de sensualidade e de instinto maternal, o binômio mulher/mãe. O nome Ema sugere o anagrama Mãe.

“(...) chegou a senhora do diretor, Dona Ema. Bela mulher em plena prosperidade dos trinta anos de Balzac, formas alongadas por graciosa magreza, erigindo, porém, o tronco sobre quadris amplos, fortes como a maternidade; olhos negros, pupilas retintas, de uma cor só, que pareciam encher o talho folgado das pálpebras; de um moreno rosa que algumas formosuras possuem, e que seria também a cor de jambo, se jambo fosse rigorosamente o fruto proibido. Adiantava-se por movimentos oscilados, cadência de minueto harmonioso e mole que o corpo alternava. Vestia cetim preto justo sobre as formas, reluzente como pano molhado; e o cetim vivia com ousada transparência a vida oculta da carne. Esta aparição maravilhou-me.

Passado um tempo, Sérgio substituirá o “Dona” por “D.”, numa clara referência à transformação que a figura feminina sofrerá na imaginação, nas fantasias dos protagonistas.
• Podemos fazer uma correspondência entre a vida de Raul e da personagem do “Ateneu”, Sérgio: ambos estudaram como internos, o primeiro, no Colégio Abílio; o segundo, no Ateneu, levando-nos a afirmar que o Ateneu trata-se de uma obra de memória, acrescida de fatos da imaginação artística do autor.
• A narrativa de “O Ateneu” é dominada por traços satíricos e caricaturescos. É com essa visão amarga e caricatural que o narrador vê o mundo retratado: a escola, os colegas, os professores, as instituições sociais. O retrato maior, entretanto, é o de Aristarco, o diretor, fulminado, no final do livro, pelo incêndio devorador, que destrói a sua arrogância, a sua vaidade e a sua empáfia.
A análise empreendida pelo autor é profunda e dissecante – vem de dentro, das entranhas.
“O Ateneu”, o microcosmo apresentado, é bem um retrato da sociedade. Como se viu, é um mundo que se revela podre por dentro, carcomido nas suas entranhas pelo cancro da hipocrisia e do apego às aparências. O livro de Raul Pompéia é uma crítica às instituições humanas, destruídas de valor e mascaradas por superficialidades.
• A escola, em “O Ateneu”, é vista como um reflexo da sociedade, conforme já ficou observado neste trabalho (“Não é o internato que faz a sociedade; o internato a reflete”). Nela sobressaem os casos de corrupção, deslealdade, amizades perigosas, homossexualismo e outras degenerescências sociais.
Esse antro de perdição, contudo, vem mascarado por aparências e exterioridades que camuflam a verdade. Desviada da sua verdadeira função – formar e instruir – a escola acaba-se tornando um meio de se exteriorizar a vaidade e a empáfia daqueles que detêm o poder.
• “O Ateneu” mostra o doloroso e pungente aprendizado da vida pela criança.
A cena inicial, em que o pai deixa o filho à porta do Ateneu, é também um símbolo do ingresso da criança no mundo adulto: “Vais encontrar, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta”.
Assim, arrebatada da “estufa de carinho que é o regime do amor doméstico”, a criança se vê frágil e indefesa diante das hostilidades do mundo, à mercê de “educadores” que lhe impõem a camisa-de-força das convenções sócias, marcadas pela mentira e superficialidade. Violentada, desses embates quase sempre restam lágrimas, dor e sofrimento.
O sentimento de vingança acaba-se instalando, sub-repticiamente, nas cabeças em formação. A necessidade de libertação desse mundo de opressão, que rouba a liberdade de ação e a espontaneidade dos gestos, é uma conseqüência natural e lógica: a catarse é uma válvula que descomprime, liberta e alivia.
E é assim que termina "O Ateneu" – com vingança do ser violentado contra o mundo que o oprime: o incêndio, ao final, é bem um protesto contra a violência a hipocrisia e esse mundo de aparências construído pelos homens da Terra.






4 comentários:

- Miiwako disse...

Muito bom! A leitura do livro é complicada, e essa análise fez com que ela se clareasse.

Gabriela Andrade disse...

O livro é ótimo. Porem sua escrita é muito bem trabalhada. Essa analise me ajudou a entender pontos importantes que tinha passado despercebido.
Obrigada *-*

Jonas disse...

Excelente análise. Foi ótimo ter ressaltado que o livro engloba não só características naturalistas, como parnasianas, por exemplo. Muito bom trabalho, obrigado.

Jonas disse...

Excelente análise. Foi muito bom ter ressaltado que esse livro engloba não só características naturalistas como parnasianas, por exemplo. Muito bom trabalho, obrigado.