sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

FICÇÕES, JORGE LUÍS BORGES


“O livro é uma extensão da memória e da imaginação” e que “sentia como uma gravitação amistosa partindo do livro. Penso que o livro é uma das possibilidades de felicidade de que dispomos, nós, os homens...”

(Buenos Aires, Argentina, 1899 – Genebra, 1986)


Jorge Luís Borges nasceu em Buenos Aires, no dia 24 de agosto de 1899. Filho de Jorge Guillermo Borges, advogado, professor de inglês e psicologia, homem de vasta cultura, e de Leonor Acevedo Borges, mulher de personalidade forte, que teve influência marcante na vida do escritor.
Suas primeiras leituras foram no idioma de Shakespeare. Desde cedo à literatura o atraiu. Aos nove anos, traduziu para o espanhol “O príncipe feliz”, de Oscar Wilde, que foi publicado no jornal “El País”, de Buenos Aires.
Em 1914 a família Borges mudou-se para a Suíça, onde permaneceu até 1919. Lá, Borges continuou seus estudos, bacharelando-se em Genebra.
Em 1921, regressou a Buenos Aires e filiou-se ao Movimento Modernista Argentino, fundando as revistas “Proa” e “Prisma”.
Em 1923 publicava seu primeiro livro de poemas, “Fervor de Buenos Aires” e a partir daí seguem-se uma longa série de obras: ensaios, contos, poemas.
Em 1937 Borges começou a trabalhar na Biblioteca Municipal de Buenos Aires, catalogando e classificando seu acervo. Apesar de sua paixão pelos livros, o ambiente de trabalho era dos piores.
No ensaio autobiográfico “Perfis”, publicado pela Editora Globo, complementando o volume de poemas “Elogio da Sombra”, ele declara:

“Suportei a biblioteca por cerca de nove anos. Foram nove anos de ininterrupta infelicidade.”

“A biblioteca de Babel”, conto do livro “Ficções” pretende ser, nas palavras do autor, “uma versão Kafkiana daquela biblioteca”.
No ano seguinte, o pai de Borges morreu. Logo, a seguir, o autor sofreu um acidente que lhe provocou uma septicemia quase fatal. Nessa época os sintomas da doença que herdara do pai, e que o levaria à cegueira, já começavam a manifestar-se claramente. Cada vez mais a mãe tomava conta de sua vida, organizando seus papéis, lendo e escrevendo o que ditava.
Recuperando-se do acidente, escreve o conto “Pierre Menard”, autor de “ Dom Quixote”, que faz parte de “Ficções” e que inaugura a Literatura Fantástica Borgeana, cujo auge foi atingido em “O Aleph”.
Foi professor de inglês, presidente da Sociedade Argentina de Escritores, diretor da Biblioteca Nacional e titular da cadeira de Literatura Inglesa e Americana na Universidade de Buenos Aires.
Mas, a cegueira hereditária que o ameaçava desde a infância tornara-se definitiva.

“...esplêndida ironia de Deus em conceder-me a um só tempo oitocentos mil livros e a escuridão.”

Com a morte de sua mãe, sua sombra protetora, embora deprimido e solitário, Borges não deixou de criar. Sempre ditando, e ajudado por amigos, publicou ainda vários livros.
Casou-se com Maria Kodama, sua ex-aluna, sua secretária e quarenta anos mais nova que ele.
Em 1986, Borges morreu vítima de um câncer no fígado, foi enterrado em Genebra, conforme sua vontade. Também conforme sua vontade, Maria Kodama, transformou-se em sua herdeira única e universal.
Mesmo não tendo sido distinguido com o Nobel, Borges recebeu muitos outros prêmios.

Para Borges “o tempo não existia. Era apenas uma vaga e ilusória convenção humana.”

“FICÇÕES” (1944)

Borges, cego, dono dos segredos da multiplicidade, é o leitor da hipertextualidade do mundo.”

Dentre as representações da literatura da América Latina, optou-se pelas Ficções de Jorge Luís Borges pela relevância desse autor no cenário literário mundial e pelo papel que essa obra ocupa em sua trajetória. Nela, o leitor encontrará reunidos os 18 contos que deram fama internacional ao escritor argentino. Primeiro, a estranha marca de originalidade desses escritos inovadores, que revolucionaram o conto moderno. Depois, o caráter fora do comum de seus temas, abertos para a inesperada dimensão filosófica no tratamento das questões mais cotidianas, sem dizer da qualidade ímpar de sua prosa.” (www.fgvsp.com.br)

Borges através da literatura fantástica, onde o real e o surreal se fundem em perfeita harmonia, desvenda o caos do mundo contemporâneo.
Para o autor, o homem perante as crises existenciais, ou de identidade ou social, desorientou-se e perdeu-se num labirinto intrincado, que lhe dispõe de uma multiplicidade de caminhos, mas não lhe mostra a saída.
O paradoxo é caracteristicamente borgesiano e seus contos profundamente originais. São parábolas de possível crença ou no sentido ou no acaso irracional do mundo.
Borges recria o mundo por meio da multiplicação linguística e sua intertextualidade, leva a uma criação literária mágica e o seu resultado é “uma plenitude de sugestões e associações na alternância do fantástico e do real.
As narrativas de Borges perpassam pelo sonho, pelas bibliotecas, pelo prazer, pelos labirintos e pela surpresa dos espelhos, onde esses temas afirmam a condição humana e desembocam em verdades absolutas.
O autor defende que a escrita é a metáfora do universo; assim, sendo, o homem se imortaliza através da literatura.

“É somente na escrita que podemos lutar contra o caos, que é o nosso mundo”.

Borges utiliza-se de metáforas do tempo, do espelho, do eco, da biblioteca etc como caminhos para a travessia da aprendizagem da vida, apoiando-se na uma constante intertextualidade.
O seu tempo é um eterno retorno, e por isso não se pode afirmar que este mundo é real, mas um simulacro, uma máscara.

Utilizando-se de críticos figurados, “Mme.Bachelier”, nas “Baronesas de Bacourt”, Borges critica a ociosidade dos críticos que, como escritores frustrados ou enfastiados, dedicam-se cada vez mais à afirmação de que não vale a pena escrever porque a própria leitura é uma tarefa de escritura.

No conto “Pierre Menard”, autor do Quixote, um personagem se dispõe a escrever o “Dom Quixote” de Cervantes, não como paráfrase, cópia ou transcriação, mas como se ele, Menard, pudesse ser o próprio Cervantes. Dessa forma, a preocupação da crítica literária centrada somente no autor e no texto, durante muito tempo, passou a ser repensada a partir do século XVII, com o “Dom Quixote”, de Cervantes, inaugurando uma paródia de um leitor crédulo, que enlouquece ao confundir a ficção com a realidade empírica.


A dúvida consistia se existe alguém nos dias de hoje, capaz de ler e interpretar a obra de Cervantes com a mesma interpretação dos leitores do século XVII. Caso a resposta seja negativa, concluí-se que como Menard (alter-ego de Borges), o que se lê hoje de Cervantes, é o que nós construímos e não o texto de Cervantes.

“Compor o Quixote no início do século dezessete era uma empresa razoável, necessária, quam sabe fatal; nos princípios dos vinte, é quase impossível. Não transcorreram em vão trezentos anos, carregados de complexíssimos fatos. Entre eles, para citar um apenas: o próprio Quixote.”

A intenção desses escritores que se utilizam da função conativa ao longo do romance não é presentificar a história narrada sem conduzir o leitor pelos caminhos de um enredo, mas conscientizá-lo sempre, do ato de leitura e da identidade do romance como um artifício, uma “construção” intelectual que se expressa numa forma verbal.

“O método inicial que imaginou era relativamente singelo. Conhecer bem o espanhol, recuperar a fé católica, guerrear contra os mouros ou contra o turco, esquecer a história da Europa entre os anos de 1602 e de 1918, ser Miguel de Cervantes. (...) De acordo, porém a empresa era de antemão impossível e de todos os meios impossíveis para levá-la a cabo, este era o mesmo interessante. Ser no século vinte e um romancista popular do século dezessete parece-lhe uma diminuição. Ser, de alguma maneira, Cervantes e chegar ao Quixote afigurou-se-lhe menos árduo – por conseguinte, menos interessante – que continuar sendo Pierre Menard e chegar ao Quixote através das experiências de Pierre Menard.”


Menard convida-nos a refletir sobre o capítulo XXXVIII da primeira parte de “Dom Quixote”, “que trata do curioso discurso que fez Dom Quixote sobre as armas e as letras”.
Sabe-se que nesse discurso, a personagem “julga o pleito contra as letras e a favor das armas”, criticando “a espantosa fúria dos endemoninhados instrumentos da artilharia moderna (...), que corta e acaba a vida a um militar brioso quando este estava combatendo corajosa e valentemente animado pelos sentimentos que acendem e entusiasmam os peitos generosos”.

Dom Quixote ainda acrescenta em seu discurso que:

“Estou capaz de afirmar que me pesa no íntimo da alma de haver abraçado este exercício de cavaleiro andante em tempos tão detestáveis como estes em que vivemos agora; porque, ainda que eu sou daqueles a quem, não há perigo que meta medo, contudo muitas vezes me sinto receoso de que a pólvora e o chumbo me roubem a ocasião de tornar-me famoso e conhecido pelo valor do meu braço e pelos fios da minha boa espada em todos os ângulos da terra; porém, disponha o céu como lhe aprouver, que tanto mais estimado serei se levo a cabo o que pretendo, quanto me tenho exposto a perigos bem maiores que aqueles a que se expuseram os cavaleiros andantes dos anteriores séculos”.

O interessante é notar que Dom Quixote, na verdade, não pode realizar-se como um verdadeiro cavaleiro andante, numa época em que a cavalaria andante já estava extinta, como também está extinta a figura heróica do “livro”.
Dom Quixote, então, revela-se como uma figura risível e estropiada de um literato que insiste em lutar no mundo com armas que não lhe pertencem; inclusive, a sua “Dulcinéia” que não se trata de uma mulher nem de uma guerra, e, sim da própria literatura de cavalaria, pela qual luta com “sentimentos” perdendo para a “realidade”, restando somente: irrealidade e loucura.

No conto “Exame da obra de Herbert Quain”, o autor propõe-se analisar a ilustre e desconhecida obra de Quain (“Quem”?) e refletir a “extinção dos leitores”.

“(...) Não há europeu (suscitava) que não seja um escritor, em potência ou em ato. Também afirmava que das diversas felicidades que pode ministrar a literatura, a mais alta era a invenção. Já que nem todos são capazes dessa felicidade, muitos terão de contentar-se com simulacros. Para esses “escritores imperfeitos”, cujo nome é legião, Quain redigiu as oitos narrativas do livro Statements.”

Quain propunha uma nova experimentação literária: infinitas histórias e infinitas ramificações.

“(...) Há um indecifrável assassinato nas páginas iniciais, uma lenta discussão nas intermediárias, uma solução nas últimas. Já esclareci o enigma, há um parágrafo longo e retrospectivo que contém esta frase: “Todos acreditaram que o encontro dos jogadores de xadrez fora casual”. Essa frase deixa entender que a solução é errônea. O leitor, inquieto, revisa os capítulos concernentes e descobre outra solução, que é a verdadeira”.

Quain condenava as obras de difícil entendimento e afirmava que “a boa literatura era bastante corriqueira e que se encontrava até no diálogo de rua”. Em seu primeiro livro “The God of the Labyrinth”, explora o gênero policial aproximando-se das obras famosas de Agatha Christie.


Em “O Jardim de Caminhos que se Bifurcam” explora o gênero policial já desenvolvido pelo fictício escritor Quain.
Borges imagina neste conto um livro infinito, escrito por um sábio chinês Ts’ui Pen, que se constitui ao mesmo tempo num labirinto temporal.
A ligação livro/totalidade surge através do jogo com o tempo.
O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam” revela uma imagem incompleta, mas não falsa, do universo como concebia o sábio chinês, Ts’ui Pen contrariamente a Newton e Schopenhauer que defendiam um tempo uniforme, absoluto. O chinês acreditava em infinitas séries de tempos, numa rede crescente e vertiginosa de períodos divergentes, convergentes e paralelos. Essa confusão de tempos que se misturam, se aproximam, se afastam, se cortam ou secularmente se ignoram, abrange todas as possibilidades.
Hsi P’eng, agente alemão e possuidor de um Segredo a ser transmitido para o Chefe, vendo-se perseguido pelo implacável Cap. Richard Madden, irlandês às ordens da Inglaterra, foge para Ashgrove, à casa do Dr. Stephen Albert (irmão de Stephen Dedalus, arquiteto do labirinto de Ulisses ou James Joyce).
Ao desembarcar na pacata estação, alguns meninos informam-lhe o caminho:

“A casa fica longe daqui, mas o senhor não se perderá se tomar esse caminho à esquerda e se em cada encruzilhada do caminho dobrar à esquerda.”

Hsi P’eng era bisneto de Ts’ui Pen, ex-governador de Yunnan, que renunciou ao poder temporal para escrever um romance e para edificar um labirinto em que todos os homens se perdessem.



“Treze anos dedicou a esses heterogêneros trabalhos, porém a mão de um forasteiro o assassinou e seu romance era insensato e ninguém encontrou o labirinto.”


Stephen Albert ao recebê-lo, convida-o a conhecer o “Jardim de Caminhos que se Bifurcam” do seu ilustre antepassado. O anfitrião encaminha-o a uma biblioteca de livros orientais e ocidentais e reflete sobre a vida do sábio chinês:

“Governador de sua província natal, douto em astronomia, em astrologia e na interpretação infatigável dos livros canômicos, enxadrista, famoso poeta e calígrafo; abandonou tudo para compor um livro e um labirinto. Renunciou aos prazeres da opressão, da justiça, do numeroso leito, dos banquetes e ainda da erudição e enclausurou-se durante treze anos no Pavilhão da Límpida Solidão. Ao morrer, os herdeiros só encontraram manuscritos caóticos”.

Hsi P’eng responde que tinha avaliado a escritura deixada pelo bisavô e que considerou um amontoado de apontamentos contraditórios e quanto ao Labirinto...
Albert interrompe o espião dizendo que se tratava de um “Labirinto de Símbolos” e que Ts’ui Pen teria dito uma vez:

Retiro-me para escrever um livro”, e em outra: “Retiro-me para construir um labirinto”.

Na época, todos imaginaram duas obras; ninguém pensou que livro e labirinto, era um só objeto. Então, Albert mostra-lhe um fragmento de uma carta redigida por Ts’ui Pen, onde se lia:

“Deixo aos vários futuros (não a todos) meu jardim de caminhos que se bifurcam” e acrescenta que, “de início pensou que um livro infinito poderia ser um volume cíclico, circular que apresentasse continuidade indefinidamente (“1001 Noites”)”; depois, pensou tratar-se de uma “obra platônica, hereditária, transmitida de pai a filho, na qual cada novo indivíduo aditasse um capítulo ou corrigisse com piedoso cuidado a página dos antepassados”, até chegar no referido bilhete: “o jardim de caminhos que se bifurcam era o romance caótico; a frase vários futuros (não a todos) sugeriu-me a imaginação da bifurcação no tempo, não no espaço. Em todas as ficções, cada vez que um homem se defronta com diversas alternativas, opta por uma e elimina as outras; na do quase inextricável Ts’ui Pen, opta – simultaneamente – por todas. Cria, assim, diversos futuros, diversos tempos, que também proliferam e se bifurcam.”

Na obra de Ts’ui Pen, todos os desfechos ocorrem; cada um é o ponto de partida de outras bifurcações. Às vezes, os caminhos desse labirinto convergem: por exemplo, o senhor chega a esta casa, mas num dos passados possíveis o senhor é meu inimigo, em outro meu amigo (...)”

Albert afirma que Ts’ui Pen jamais brincaria com as variações e nem passaria treze anos para produzir um romance retórico. Ele, na verdade, possuía inclinações metafísicas, místicas e sua preocupação primordial era com o problema do tempo, por isso omitiu a palavra “tempo” das páginas do “Jardim” (“Omitir sempre uma palavra, recorrer a metáforas ineptas e a perífrases evidentes, é quiçá o modo mais enfático de indicá-la”). E, explica que as pessoas não existem na maioria desses tempos, mas em alguns. Por exemplo, em algum tempo encontramos alguém que é nosso amigo; em outro, é inimigo...

“Neste, que um acaso favorável me surpreende, o senhor chegou a minha casa; noutro, o senhor, ao atravessar o jardim, encontrou-me morto; noutro, digo estas mesmas palavras, mas sou um erro, um fantasma.”(...) “Num deles sou seu inimigo.”

Yu Tsun sentiu-se rodeado de infinitas pessoas invisíveis; depois em outras dimensões de tempo junto com Albert, quando vê o Cap. Richard Madden atravessando o jardim. Pede para Albert mostra-lhe novamente a carta e quando ele virou-se de costas, Yu Tsun atirou, matando-o instantaneamente.
Madden, em seguida, prendeu-o e ele foi condenado à forca, entretanto, cumpriu a sua tarefa de comunicar a Berlim o nome secreto da cidade que deviam atacar. Albert, para tanto, teve que matar uma pessoa com esse nome.

“Abominavelmente venci: comuniquei a Berlim o nome secreto da cidade que deviam atacar. Ontem a bombardearam; li a notícia nos mesmos jornais em que apresentaram à Inglaterra o enigma do sábio sinólogo Stephen Albert, que morrera assassinado por um desconhecido, Yu Tsun.”

Em seu famoso conto “A biblioteca de Babel”, apresenta uma biblioteca composta de salas hexagonais tão vastas quanto o universo, povoada por livros dos quais não há dois idênticos (Alberto Manguel observa que esta biblioteca multiplica ao infinito a arquitetura da velha Biblioteca Nacional de Buenos Aires, da qual Borges era o diretor cego).


Nessa biblioteca se encontra todas as formas possíveis de expressão mundial através de todas as combinações possíveis do alfabeto. Lá, estão presentes todos os livros escritos e que poderão ser escritos um dia, já que os livros formam todas as combinações possíveis dos caracteres de uma língua.

A biblioteca de Babel” faz referência à Cabala (interpretação mística e misteriosa da Bíblia, entre os judeus; ciência oculta) e permite pensar em um “livro total” que estaria na “Biblioteca”.


“O universo (que outros chamam a Biblioteca) constituí-se de um número indefinido, e quiçá infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no centro, cercados por varandas baixíssimas. (...) No salão há um espelho, que duplica as aparências fielmente. Os homens costumam inferir desse espelho que a Biblioteca não é infinita (se o fosse realmente, para que essa duplicação ilusória?), prefiro imaginar que as superfícies polidas representam e prometem o infinito...”


“Como todos os homens da Biblioteca, viajei na minha juventude; peregrinei em busca de um livro, talvez o catálogo de catálogos; agora que meus olhos quase não podem decifrar o que escrevo, preparo-me para morrer, a poucas léguas do hexágono em que nasci.”

Os idealistas defendem que as salas hexagonais são necessárias para aproveitamento melhor do espaço; os místicos, “uma câmara circular com um grande livro circular de lombada contínua, que segue toda volta das paredes; mas seu testemunho é suspeito; suas palavras, obscuras. Esse livro cíclico é Deus. Para mim é suficiente, por ora, repetir o ditame clássico: A Biblioteca é uma esfera cujo centro cabal é qualquer hexágono, cuja circunferência é inacessível.”

Borges, assim, cria a expectativa que o livro é infinito, retomando o argumento da circularidade.
"A biblioteca de Babel” pode ser relacionada com uma “outra biblioteca famosa” descrita por Umberto Eco em “O nome da rosa”: labirinto, como microcosmo que conserva o conhecimento acumulado pelos homens (função que de fato era cumprida pelos monastérios na Idade Média) e o livro representando o tesouro maravilhoso, a fonte do poder, a chave para uma mudança interior.


A visão do livro como arcano parece ter sua realização mais perfeita na obra de Borges, pois para o autor, o livro possui um caráter sagrado e guardam a chave para os mistérios do universo.

Partindo da afirmativa que o livro é uma extensão da memória e da imaginação, Borges apresenta-o como objeto-fetiche, não o analisando como suporte de leitura, mas como personagem literário e da vida.

“Continuo imaginando não ser cego; continuo comprando livros; continuo enchendo minha casa de livros. Há poucos dias fui presenteado com uma edição de 1966 da Enciclopédia Brokhaus. Senti sua presença em minha casa – eu a senti como espécie de felicidade (...) Penso que o livro é uma das possibilidades de felicidade de que dispomos, nós, os homens”.

Para o escritor, em cada livro há um indício de um derradeiro final revelador, cuja narrativa contenha uma essencial razão de todas as coisas.
Os livros, simulacros de palavras, contem a totalidade: tudo está escrito. A palavra, representação humana, é ilimitada e periódica. Borges afirma:

“(...) Ninguém pode articular uma sílaba que não esteja cheia de ternuras e de temores”.

O universo humano poderá se extinguir, mas a biblioteca, universo divino, será eterna, pois se encontra na dimensão sagrada. A biblioteca, representada por livros – exemplares únicos – deverá permanecer, mesmo que não existam mais leitores. Ao livro perfeito corresponde o leitor perfeito; este leitor só pode ser um deus.
O livro é o caminho para a sabedoria, para o conhecimento e guardar as experiências humanas.


“Se lemos um livro antigo é como se lêssemos durante todo o tempo que transcorreu entre o dia em que foi escrito e nós. Por isso convém manter o culto ao livro. (...) ele conserva algo sagrado, algo divino, não como um tipo de respeito supersticioso, mas com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria.”


“O homem, o bibliotecário imperfeito, pode ser obra da sorte ou dos demiurgos malévolos; o universo, com sua elegante dotação de prateleiras, de tomos enigmáticos, de escadas infatigáveis para o viajante e de latrinas para o bibliotecário sentado, somente pode ser criação de um deus.”

Sabemos, igualmente, de outra superstição daquele tempo: a do Homem do Livro. Nalguma estante de algum hexágono (raciocinaram os homens) deve existir um livro que seja a cifra e o compêndio perfeito de todos os demais: algum bibliotecário o consultou e é análogo a um deus.”

“Não me parece inverossímil que nalguma divisão do universo haja um livro total; rogo aos deuses ignorados que um homem – um só, ainda que seja, há mil anos! – o tenha examinado e lido. Se a honra e a sabedoria e a felicidade não estão para mim, que sejam para os outros. Que o céu exista, embora meu lugar seja o inferno.”

Uma nova abertura do mundo narrativo de Borges está presente em “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, o retrato da criação de um mundo por meio da linguagem. O mundo de Tlön se afirma como uma imagem inversa de nosso mundo real, imagem em um espelho imaginário, em que as coisas de duplicam.

Em “Funes, o Memorioso”, o autor narra à trajetória da personagem Irineu Funes, filho de uma lavadeira, Maria Clementina Funes, moradores na quinta dos Laureles.
Irineu tinha “algumas excentricidades como a de não dar-se com ninguém e a de saber sempre a hora, como um relógio.”
O protagonista sofrera uma queda e ficara paralítico, “(...) disseram-me que não se movia do catre, os olhos postos na figueira do fundo ou numa teia de aranha. Nos entardeceres, permitia que o levassem à janela. Portava a soberba até o ponto de simular que fora benéfico o golpe que o tinha fulminado...”

Nesta época o narrador tinha iniciado um estudo metódico do latim e trazia consigo algumas obras. Irineu ao ficar sabendo da presença dessas obras no povoado, escreveu uma carta ao narrador e pediu-lhe emprestado alguns dos volumes e de um dicionário “para a clara inteligência do texto original, porque ainda desconhecia o latim.”

“Não soube se atribuir o descaramento, a ignorância ou a estupidez a ideia de que o árduo latim não requeria mais instrumentos que um dicionário, para desenganá-lo completamente mandei-lhe o Gradus ad Parnassum de Quicherat e a obra de Plínio.”


O narrador ao receber um telegrama informando que sua mãe não passava bem, prepara-se para partir e nota a falta dos dois livros. Decide ir à casa de Funes para retomá-los.
Irineu encontrava-se no catre, fumando e em plena escuridão. Ao receber o narrador, cumprimento-o e fez um longo discurso em latim.
Começou a enumerar, em latim e espanhol, “os casos de memória prodigiosa registrados pela Naturalis historia (...) Com evidente boa-fé surpreendeu-se de que tais casos maravilhassem.”
Contou-me que antes da queda que o deixou aleijado, vivia “como quem sonha: olhava sem ver, ouvia sem ouvir, esquecia-se de tudo, de quase tudo. Ao cair, perdeu o conhecimento; quando o recobrou, o presente era quase intolerável de tão rico e tão nítido, e também as lembranças mais antigas e mais triviais.”

O acidente “era um preço mínimo. Agora sua percepção e sua memória eram infalíveis.”

Contou que desenvolvera “um sistema original de numeração (...). Não o tinha escrito, porque o pensado uma só vez já não se lhe podia apagar”.

“Era-lhe muito difícil dormir. Dormir é distrair-se do mundo; Funes, de costas no catre, na sombra, configurava cada fenda e cada moldura das casas certas que o rodeavam. (Repito que a menos importante de suas lembranças era mais minuciosa e mais viva que nossa percepção de um gozo físico ou de um tormento físico). Ao Este, num trecho não demarcado, havia casas novas, desconhecidas. Funes as imaginava pretas, compactas, feitas de treva homogênea; nessa direção voltava o rosto para dormir. Também costumava imaginar-se no fundo do rio, embalado e anulado pela corrente.”

Este encontro estendeu-se até a madrugada e só quando chegou á claridade, o narrador pode ver o rosto daquele rapaz de 19 anos que falara a noite inteira.
Dois anos depois, Funes faleceu (1889) de tanto respirar a memória e o mundo, de uma congestão pulmonar.

Em “A Lotaria da Babilônia”, e “Os espelhos”, ambos os temas definidos por Borges por “um infinito jogo de acasos”, afirmam a condição humana de forma eloquente numa alegoria de verdades evidentes. Conhecer o indivíduo perante si mesmo, o lugar que se ocupa, inconsciente da sua imagem a não ser no espelho (onde é outro, afinal, reproduzido, duplicado), é uma tarefa de aproximação dos mistérios.

CONSIDERAÇÕES GERAIS:


- Na obra do escritor argentino Jorge Luís Borges (1899-1986) há duas premissas fundamentais: “primeiro, o caos que governa o mundo; e segundo, o caráter de irrealidade de toda a literatura” (JOZEF, APUD);

- O autor se compraz numa troca incessante de ficção e realidade, até confundir uma com a outra;
- A sua criação literária passa ser compreendida como processo de transfiguração e seu resultado é “uma plenitude de sugestões e associações na alternância do fantástico e do real”;
- As metáforas do tempo, do espelho e do labirinto ajudam a decifrar aspectos fundamentais em Borges;
- Ele recria o mundo por meio da multiplicação linguística, que produz uma “magia da linguagem”;
- O homem se imortaliza através da arte, da literatura;
- Somente através das escrituras que podemos lutar contra o caos, que é o nosso mundo;
- Borges utiliza-se das figuras do labirinto, do eco, do espelho e da biblioteca como “portas-passagens” que representam a multiplicidade de caminhos humanos, levam o leitor á “re-descobrir” a realidade em que vive, numa constante intertextualidade;
- O “eu e o outro, o outro que sou eu, o que não sou e as combinações de ser”, trata-se de uma geometria do Homem, percebida e construída;
- Borges é um escritor acadêmico, então um escritor da intelectualidade e academicamente, assume o papel de questionar o mundo e projetar as novas visões, que de novo tem, dizendo a verdade;
- A importância cultural de Borges advém do fato dele se constituir como um leitor. Através das suas leituras e subsequentes construções, percebe-se o significado intelectual e orgânico de cada um dos aspectos da vida, ou da vida em todos os seus aspectos. Ele conduz ao entrecruzar de visões numa utilidade que provém do entendimento íntimo de inúmeras relações;
- Se Ítalo Calvino questiona sobre o porquê ler os clássicos e ao mesmo tempo cria as suas “Cidades Invisíveis”, Borges remete-nos para uma realidade transfigurada por dois termos da equação. Por um lado, a herança dos “por obras valerosas/se vão da lei da morte libertando; por outro lado, a nossa capacidade de entreter a razão, sentir com a imaginação, criar, fundar, habitar os espaços invisíveis, de todo reais”;
- A herança de Borges pode ser encontrada nas obras de diversos escritores latino-americanos que desenvolveram seus trabalhos a partir do pressuposto de que a única integridade possível seja “a mágica, na qual, clara e definidamente, cada detalhe serve como presságio e como causa”;
- Cansado do Ultraísmo (Escola experimental de poesia que se desenvolve a partir do Cubismo e Futurismo) que ele mesmo tinha trazido da Espanha, tenta fundar um novo tipo de regionalismo, enraizado em uma perspectiva metafísica de realidade. Logo cansa também deste “Ismo” e começa a especular sobre a narrativa fantástica ou mágica, até o ponto de produzir durante duas décadas (1930/1950) algumas das mais extraordinárias ficções do século XX;
- Desenvolve-se um estudo comparativo entre Jorge Luís Borges e Fernando Pessoa do ponto de vista dos procedimentos empregados na composição dos textos que se caracterizam como ficções no primeiro, estas aparecem sob a forma de contos, e no segundo, de poemas. Para a aproximação de formas dessemelhantes, monta-se um arcabouço teórico, reduzindo-se as duas categorias a um denominador comum que ocorre como pilar mestre da obra de ambos: a descentralização do sujeito, negado por ambos, cujas consequências serão uma criação muito peculiar: os contos de cunho fantástico, em Borges onde se desfazem os limites entre os gêneros e entre a realidade e a fantasia em Pessoa, as consequências refletem-se na heteronímia, ou seja, em discursos vazados em múltiplos estilos que não identificam um autor, mas numerosos autores;
- Criação da estética do sonho (fluxo das sensações, criação de um tempo e espaços infinitos);
- As suas narrativas fantásticas são verdadeiras arquiteturas verbais que, tal como os seus ensaios, “se nutrem da metafísica e da teologia”. Borges move-se com a mesma naturalidade entre a simplicidade imediata e mais inabitual estranheza;
- O tempo, o “eu e o outro”, o sonho, o infinito etc são temas que em Borges se tornam transparências em que se vislumbra desde o mais insólito até ao mais imediato e corrente da realidade. Borges praticou com maestria o pouco frequente dom da ironia, que não é mais que uma das faces do seu cepticismo e lucidez;
- As personagens possuem com frequência a marca indelével da solidão e da monstruosidade: labirintos que se erguem dentro de cada homem, caminhos que se bifurcam;
- Borges desconstruiu as certezas e as verdades absolutas que parecem ser os objetivos de vida dos seres humanos e as espalhou em um labirinto de palavras e pensamentos que beiram os limites da sanidade.

Nenhum comentário: