sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

AMOR DE PERDIÇÃO, CAMILO CASTELO BRANCO


I – AUTOR:


Camilo Castelo Branco teve uma vida atribulada, passional e impulsiva. Uma vida tipicamente romântica.

Foi órfão de mãe quando tinha um ano de idade e órfão de pai quando tinha dez anos. O que lhe criou um caráter de eterno insatisfeito com a vida. Estando órfão foi recebido por uma tia de Vila Real, e depois sendo recebido por uma irmã mais velha em Vilarinho de Samardã, em 1839. Recebendo uma educação irregular através de dois padres de província.
Aos dezesseis anos contrai matrimônio com Joaquina Pereira que cedo abandona. O seu caráter instável e irrequieto leva-o a amores tumultuosos (Patrícia Emília, a freira Isabel Cândida).
Camilo tenta cursar medicina no Porto. A partir de 1848 faz uma vida de boêmia, repartindo o seu tempo entre os cafés e os salões burgueses, dedicando-se, no entanto, ao jornalismo.
Apaixona-se por Ana Plácido, e quando esta se casa, tem uma crise de misticismo e chega cursar o seminário. Ana Plácido é esposa de um negociante chamado Pinheiro Alves, um brasileiro. Ele seduz e rapta Ana Plácido e, depois de algum tempo, são capturados pelas autoridades e julgados. Este caso emocionou a opinião pública pelo seu conteúdo tipicamente romântico do amor contrariado que se ergue à revelia das convenções sociais. Ficam presos na cadeia da relação do Porto. Depois de absolvidos do crime de adultério, Camilo e Ana Plácido passam a viver juntos.
Entretanto Ana Plácido tem um filho, de origem incerta, teoricamente de seu antigo marido Pinheiro Alves, ao que se somam mais dois de Camilo. Com uma família para sustentar Camilo vai escrever a um ritmo alucinante.
Ao lado de Ana Plácido decorre o final da sua vida. No entanto não encontra a estabilidade emocional acrescida dos problemas que a sua prole lhe dão. O filho Nuno é um vadio (de alguma maneira sai ao pai) o seu filho Jorge é deficiente mental. A progressiva cegueira deste autor leva-o ao desespero que culmina em tragédia com o seu suicídio por arma de fogo em 1890.

II – FOCO NARRATIVO:

Escrita em terceira pessoa, esta obra caracteriza-se por um narrador onisciente, isto é, um narrador que desvenda o universo interior das personagens. O tipo de onisciência deste narrador pode ser classificado como onisciência intrusa, na medida em que ele não só revela, mas também comenta os sentimentos e comportamentos das personagens, deixando claro o seu ponto de vista a favor dos que amam e contra os que impedem a realização do amor.

III – TEMPO:

O tempo é cronológico, ocorrendo a ação narrativa nos primeiros anos do século XIX e culminando no ano de 1807, quando Simão é degredado para a Índia e morre alguns dias depois.
O tempo da narração, entretanto, é posterior ou da ação, uma vez que o narrador conta a história depois de ter lido o auto de degredo do protagonista, anos depois.

IV – ESPAÇO:

A primeira parte da obra focaliza Viseu (início do namoro até a morte de Baltasar Coutinho); a segunda no Porto (da morte de Baltasar até o desenlace com a morte de João da Cruz, Teresa, Simão e Mariana).

V – ESTRUTURA:

A obra é composta por vinte capítulos, uma introdução e uma conclusão.
Na introdução o pseudo-autor relata aos leitores que, ao folhear os antigos assentamentos no cartório das cadeias da Relação do Porto, se deparou com a história de Simão Botelho e de seu degredo.
Na conclusão, revela-se que é filho de Manuel Botelho, portanto sobrinho de Simão Botelho.

VI – PERSONAGENS:

Simão Botelho - Inicialmente é apresentado como um jovem de temperamento sanguinário e violento. Perturbador da ordem para defender a plebe com quem convive e agitador na faculdade, onde luta de forma brutal pelas ideias jacobinistas, o seu caráter se transforma, e repentinamente, a partir do capítulo 2. É que conhecera e amara, durante os três meses em que esteve em Viseu, a vizinha Teresa. Ele com 17 anos, ela com 15, passam a viver desde então o amor romântico: um amor que redime os erros, que modifica as personalidades, que tem na pureza de intenções e na honestidade de princípios as suas principais virtudes. Aliás, são as virtudes que caracterizam os sentimentos de Simão, desde que experimenta este amor. Torna-se recatado, estudioso e até religioso, o que não o impede de sentir uma sede incontrolável de vingança, que resulta no assassinato do rival Baltasar Coutinho. Esse ato exemplifica a proximidade entre “o sentimento moral do crime” ou “o sentimento religioso do pecado” e a tentativa de consumação do amor. O modo como assume este crime, recusando-se a aceitar todas as tentativas de escamoteá-lo, feitas pelos amigos de seu pai, acaba de configurar o caráter passional do comportamento de Simão. Nem a possibilidade da forca e do degredo, nem as misérias sofridas no cárcere conseguem abater a firmeza, a dignidade, a obstinação que transformam Simão Botelho em símbolo heróico da resistência do individuo perante as vilezas da sociedade. Trata-se de um típico herói ultra-romântico, em outras palavras.

Teresa de Albuquerque - Protagonista, menina de 15 anos que se apaixona por Simão, também sai adquirindo densidade heróica ao longo da obra: firme e resoluta em seu amor, ela mantém-se inflexível perante os pedidos, as ameaças -e finalmente as atrocidades e violências cometidas pelo pai severa e autoritário, seja pata casá-la com o primo, seja para transformá-la em freira. Neste sentido, a obstinação que a caracteriza é a mesma presente em Simão, com a diferença de que nela o heroísmo consiste não em agir, mas em reagir. Isto por pertencer ao sexo feminino, símbolo da fragilidade e da passividade perante o caráter viril, másculo, quase selvagem do homem romântico. Na medida em que não faz o jogo do pai, dando a vida pelo sentimento que a possui, Teresa constitui uma heroína romântica típica, um exemplo da imagem da mulher-¬anjo que vigorou no Romantismo.

Mariana - Moça pobre e do campo, de olhos tristes e belos, tem sido considerada, algumas vezes, como a personagem mais romântica da história, porque o sentir a satisfaz, sem necessidade ao menos de esperança de concretizar-se a seu amar par Simão. Independente do amor entre Simão e Teresa, Mariana o ama e todo faz por ele: cuida de suas feridas, arruma-lhe dinheiro, é cúmplice da paixão proibida, abandona o pai para fazer-lhe companhia e prestar-lhe serviços na prisão e, finalmente, suicida-se após a morte de Simão. Estas atitudes - abnegadas, resignadas e totalmente desvinculadas de reciprocidade, fazem de Mariana uma personificação do espírito de sacrifício, o que torta a sua dimensão humana abstrata, pouco palpável.

Domingos Botelho e Tadeu de Albuquerque - Pai de Simão e o pai de Teresa são tão passionais, tão radicais em seu comportamento, quanto Simão e Teresa. Entretanto, ambos podem ser considerados simetricamente o oposto dos heróis, na medida em que representam a hipocrisia social, o apego egoísta e tirano à honra do sobrenome, aos brasões cuja fidalguia é ironicamente ridicularizada, desmoralizada pelo narrador.

Baltasar Coutinho - O primo de Teresa assassinado por Simão acrescenta à vilania do tio, de quem se faz cúmplice, a dissimulação, o moralismo hipócrita e oportunista de um libertino de 30 anos, que covardemente encomenda a criados a morte de Simão. Em suma, nele se concentra toda perversidade, toda a prepotência dos fidalgos. Tal personagem constitui, o vilão da história.

João da Cruz - O pai de Mariana, destaca-se como personagem mais sensato, mais equilibrado, o único personagem que possui traços realistas, de Amor de Perdição. Ferreiro e transformado em assassino numa briga, João da Cruz consegue de Domingos Botelho, pai de Simão, a liberdade. Em nome dessa dívida de gratidão, torna-se protetor do herói com palavras sempre oportunas, lúcidas, estratégicas, e com atos corajosos e violentos, quando necessário. A sua linguagem é cheia de provérbios e ditados populares, a simplicidade de sua vida, somadas ao amor que dedica á filha, por quem vive, desfazem aos olhos do leitor os crimes que comete e os substituem por uma honradez, uma bondade inata.

VII - ENREDO:



INTRODUÇÃO


O narrador relata que folheou os antigos livros de assentamentos do cartório das cadeias da Relação do Porto, desde l803 a l805, e, encontrou nos apontamentos de entradas e saídas dos presos, na folha 232, o seguinte:

“Simão Antônio Botelho, que assim disse chamar-se, ser solteiro, e estudante na Universidade de Coimbra, natural da cidade de Lisboa, e, assistente na ocasião de sua prisão na cidade de Viseu, idade de dezoito anos, filho de Domingos José Correia Botelho e de D. Rita Preciosa Caldeirão Castelo Branco; estatura ordinária, cara redonda. olhos castanhos, cabelos e barba pretos, vestido com jaqueta de baetão azul, colete de fustão pintado e calça pedrês. E fiz este assento, que assinei - Filipe Moreira Dias.”

À margem esquerda deste assento está escrito:

“Foi para a Índia em l7 de março de l807”.

Em seguida o narrador reflete sobre o sofrimento de um jovem de dezoito anos ser desterrado da sua pátria, do amor e da família.

Nunca mais o céu de Portugal, nem liberdade, nem irmãos, nem mãe, nem reabilitação, nem dignidade, nem um amigo!... É triste!
O leitor decerto se compungiria; e a leitora, se lhe dissessem em menos de uma linha a história daqueles dezoito anos, choraria!
- Amou, perdeu-se e morreu amando.”

CAPÍTULO I

Domingos José Botelho, fidalgo da Vila Real de Trás-os-Montes, era, em l779, Juiz de Fora de Cascais. Estivera por dez anos apaixonado e mal sucedido por D. Maria I (D. Maria, a Piedosa - rainha de Portugal, mãe de D. João VI, que demitiu o Marquês de Pombal, durante o seu reinado. Nessa época (l777/l8l6), Portugal decaiu rapidamente e D. Maria perdeu a razão, tornando-se conhecida no Brasil por D. Maria, a louca).
Domingos Botelho era extremamente feio, não afortunado e seus dotes espirituais também não o recomendavam, rendendo-lhe o apelido de “Brocas” (broa). Os amigos da Universidade acreditavam que a sua rudeza procedia de muito pão de milho que ele digeria na sua terra. Mas, era um excelente flautista e foi graças a essa vocação que lhe assegurou o seu sustento dois anos em Coimbra, os quais seu pai não tinha condições de mantê-lo, porque os rendimentos da casa não bastavam, tinham que livrar outro filho de um crime de morte.
Marcos Botelho, irmão de Domingos, em uma festa em S. Francisco, flagrou sua namorada olhando para um alferes de infantaria, desafiou o rival. Porém, amigos apaziguaram, quando chega Luis Botelho e atira no alferes.
As artes como flautista aproximou-o de D. Maria I e D. Pedro III. Vários comentários maldosos diziam que a sua flauta fazia a rainha rir muito, desembolsar uma farta pensão e também, conseguir o cargo de Juiz de Fora de Cascais.
Como ele não era nenhum Camões ou Bernardim Ribeiro não conseguiu amores do paço. No ano de 1779, casou-se com D. Rita Teresa Margarida Preciosa da Veiga Caldeirão Castelo Branco, mulher formosa da época, filha e neta de um capitão de cavalos.
Tiveram cinco filhos: Manuel, Simão, Maria, Ana e Rita. De Cascais, Domingos foi transferido para a Vila Real.
Em sua chegada foram recepcionados pela nobreza da vila que os esperavam com suas liteiras estampando o brasão da casa, causando assim, ironia por parte de D. Rita, achando-os ultrapassados. Quando o sogro a acompanhou até a sua liteira, ela pergunta-lhe se era segura, tendo como resposta que nem tinham cem anos e os machos não excediam a trinta. Outra observação de D. Rita vem a calhar: que os carvoeiros de Lisboa eram mais limpos que os fidalgos da Vila Real.
Após alguns dias, D. Rita reclamava de tudo: do lugar, dos ratos, do palácio. Para acalmá-la, Domingos resolve construir outro palácio.
Depois, desabrochou os ciúmes. D. Rita com o passar do tempo, tornava-se mais bela e o marido ao contrário, mais disforme. Além do mais, havia os primos que viviam cortejando D. Rita. Foi, então, que se lembrou do episódio mitológico que envolveu a traição de Vênus, a primeira deusa da beleza para os latinos e Afrodite para os gregos. A deusa casou-se com Vulcano, deus do fogo e do metal, feio e coxo, traindo-o com Marte, deus da guerra.
O temor de Domingos durou seis anos, até que finalmente, consegue uma transferência para Lamego, como provedor.
Deixaram saudades na Vila Real. Ela, pela sua formosura; ele, por suas piadas, duas delas ficaram marcas para sempre na Vila Real. Tratava-se de um presente de um lavrador. Ele havia mandado uma vitela e também a vaca, dizia que era para não desgarrar a filha; a outra, contava que recebeu pastéis numa bandeja de prata, comeu os pastéis e guardou a bandeja, dizia que os pastéis eram enfeites para a bandeja. Até hoje, quando alguém fica com o conteúdo e com o continente na Vila Real, comentam-se:

“- Aquele é como o Doutor Brocas!”

Em Lamego, D. Rita aborrecia-se tanto que ameaçava deixar o marido e partir para Lisboa com os filhos.
Em l80l, Domingos já era o corregedor em Viseu.
Manuel contava com 22 anos e Simão, l5, estudavam em Coimbra e as três filhas viviam com os pais em Viseu.
Um dia, Domingos recebe uma carta do filho Manuel reclamando das atitudes do irmão, Simão. Dizia que todo o dinheiro que o pai enviava para livros eram gastos em pistolas, que ele andava com os mais famosos perturbadores da Universidade e vivia fazendo algazarras nas ruas à noite.
O pai orgulhou-se com a notícia.
Manuel, inconformado, segue à Viseu pedir resolução do problema ou ao menos, que lhes dessem outro destino. D. Rita queria que o filho se tornasse cadete de cavalaria e assim foi feito. Manuel parte de Viseu para Bragança.
Simão, por sua vez, passa as férias em Viseu.
Embora, tendo l5 anos, aparentava mais. Era belo, tinha apoio da irmã mais nova, Rita e procurava na plebe seus amigos e companheiros.
Um dia, um dos criados de Domingos levara os cavalos a beber no chafariz e deixou cair algumas vasilhas que estavam no parapeito, quebrando-as. Os donos das vasilhas começaram a espancá-lo. Simão passando pelo local e presenciando a briga, armou-se de um pedaço de pau e, espancou os criados, ferindo alguns e quebrando todas as vasilhas.
Os feridos reclamaram justiça. O pai irritado bramia para o meirinho tomar as devidas providências prendendo o filho. A mãe arrumou dinheiro para Simão fugir de Viseu para Coimbra e esperasse lá o perdão do pai.
O corregedor quando soube do expediente da mulher, fingiu-se zangado e prometeu capturá-lo lá.

CAPÍTULO II

Simão em Coimbra deliciava-se com as lembranças de sua valentia em Viseu. Nessa época, a mocidade estudiosa, simpatizava com as teorias da liberdade. Simão defendia que Portugal devia regenerar-se num batismo de sangue (Revolução Francesa).
Um dia, quando Simão fazia um discurso na praça, foi preso, donde saiu seis meses depois, graças ás grandes instâncias dos amigos de seu pai e dos parentes de D. Rita.
Perdido o ano letivo, Simão volta a Viseu. Seu pai repeliu-o de sua presença, mas D. Rita intercedeu pelo filho e convenceu o marido a aceitá-lo.
Em três meses houve total mudança em Simão. Saía raras vezes, ou só ou na companhia de Rita. Desprezou a ralé e buscou no campo, nas árvores e na solidão o seu recreio. Vivia trancado em seu quarto e de lá saía, somente quando lhe chamavam para as refeições.
Perante tantas mudanças, o pai consentiu que lhe dirigisse a palavra.
Acontece que Simão aos seus l6 anos, amava. Amava a vizinha, menina de l5 anos, rica e linda.
Da janela de seu quarto, é que ele a vira pela primeira vez, para amá-la para sempre, sentimento este, recíproco.


Os poetas cansam-nos a paciência a falarem de amor da mulher aos l5 anos, como paixão perigosa, única e inflexível. Alguns prosadores de romances dizem o mesmo. Enganam-se ambos. O amor aos l5 anos é uma brincadeira; é a última manifestação do amor às bonecas: é a tentativa da avezinha que ensaia o vôo fora do ninho, sempre com os olhos fitos na ave-mãe, que a está da fronde próxima chamando; tanto sabe a primeira o que é amar muito, como a segunda o que é voar para longe.”


Teresa de Albuquerque devia ser uma exceção no seu amor.
O pai de Simão era contra a família de Teresa, por motivos de litígios, onde Domingos deu causa contra Tadeu de Albuquerque e também por dois criados seus terem sido feridos no dia da pancadaria, por Simão.
Amavam-se á três meses escondidos das famílias e da vizinhança.
Os planos de Simão eram de formar-se para poder sustentá-la, se não tivessem outros recursos; e, de Teresa, era que o pai falecesse para que ela herdasse tudo e unir-se a Simão.
Na véspera de sua despedida (retorno à Coimbra), quando os apaixonados faziam promessas de amor, Teresa foi arrancada da janela.
Simão ao despedir da família, metendo o pé no estribo, viu ao seu lado uma velha mendiga, estendendo-lhe a mão como lhe pedisse uma esmola, e, na palma da mão, um pequeno papel.
Poucos passos distantes de sua casa, Simão leu o bilhete. Era de Teresa. Dizia-lhe que o pai descobrira o romance entre eles e ameaçava-a colocar num convento.
Rogava-lhe que não se esquecesse dela, pois ela seria sempre dele, no convento ou no céu e que, aguardasse notícias suas, em Coimbra.
Simão em Coimbra tornou-se outro. Não confiou o seu segredo a ninguém, dedicou-se aos estudos e respondia as longas cartas que Teresa mandava, acalmando-a sobre a ameaça do convento, alegando que seu pai não poderia viver sem ela.
Manuel Botelho sabendo da mudança comportamental do irmão, volta à Coimbra; porém, foi por pouco tempo. Apaixonou-se, em seguida, por uma açoriana casada, que abandonou o marido e fugiu com ele para Lisboa e depois para a Espanha.
No mês de fevereiro de l803, Teresa envia uma carta a Simão que lhe causou grande choque.

CAPÍTULO III

Na carta, Teresa explicava que o ódio entre as duas famílias aumentara.
Rita um dia estava na janela do quarto de Simão e vê Teresa em seu quarto. Teresa faz-lhe um aceno. No dia seguinte, como numa hora marcada, as duas estavam novamente a se olharem. Teresa sabendo ser Rita a irmã predileta de Simão, perguntou-lhe se podiam ser amigas. Esses encontros se repetiram, até que Teresa confiou-lhe o seu segredo.
Um dia, Rita se empolgou na conversação com Teresa falando mais alto que o usual e acabou sendo ouvida por uma irmã que a denunciou ao pai.
Domingos, enfurecido, forçou a filha a contar-lhe tudo que ouvira e ainda teve tempo de surpreender Teresa estática na janela e ofende-la.
Gritava-lhe que estava proibida de olhar para seu filho e que se quisesse casar-se, procura-se um sapateiro que seria digno para o genro de seu pai.
Sr. Tadeu ouviu os berros do vizinho, interrogou sua filha e a perdoou.
Esta atitude estranha do Sr. Tadeu tinha uma explicação, pretendia casá-la com um primo seu, o Baltasar Coutinho, de Castro-Daire. Pensava que tratando calmamente a filha, ela não se rebelaria contra ele. Chamou, então, Baltasar e o preveniu do acontecido, ao mesmo tempo em que, acreditou que com a ausência de Simão, seria fácil, Teresa se apaixonar por ele.
Isto só ocorreu com Baltasar e não com Teresa. Baltasar passava como um amigo para Teresa, até o dia em que ele revelou sua intenção. Disse-lhe que seus corações estavam unidos, bastava agora unirem suas casas.
Teresa empalideceu e Baltasar prosseguiu perguntando-lhe se havia dito alguma coisa desagradável. Teresa respondeu-lhe que ele havia dito o impossível, que ela o estimava muito como amiga e que não poderia ser esposa de um amigo a quem não podia amar. Baltasar insiste e pergunta-lhe quem disputava o coração da prima. Teresa afirma que ama outro homem deixando Baltasar furioso, acusando-a de desobedecer ao seu pai.
Teresa responde-lhe que não o desobedece; o coração é mais forte que a submissa vontade de uma filha. Desobedeceria se casasse contra a vontade de seu pai; mas ela não disse que casaria; disse-lhe que amava. Baltasar espanta-se com as respostas da prima e insiste em saber que é o outro, confirmando ser seu amigo. Teresa disse que a partir daquele momento, ele seria seu inimigo, em virtude da sinceridade que ela teve.
Ele ironicamente responde que provará ser seu amigo, salvando-a de cair nas garras de um ébrio ou jogador de paus, valentão de aguadeiros, distinto cavalheiro que passa os anos letivos encarcerado nas cadeias de Coimbra. Afirma ainda, saber que ela passava horas na janela conversando com o filho do corregedor, que não havia se preocupado, pois pensava tratar-se de brincadeira própria da idade dela. Conta-lhe que quando esteve em Coimbra conheceu Simão bêbado de vinho, fazendo discursos contra aos nobres e aos reis e também a religião de seus pais. Teresa defende Simão, dizendo que ele mudara. Baltasar irritado, disse que não cederá e irá “protegê-la” enquanto a sua razão precisar de auxílio.
Em seguida, Baltasar procurou o Sr. Tadeu e contou-lhe o essencial do diálogo. O pai teve intenção de espancá-la na hora, mas fora retido por Baltasar, pois a violência poderia fazer com que Teresa fugisse de casa.
Horas depois, chamou a filha e disse-lhe que a sua vontade era vê-la casada com Baltasar, mas ele já tinha ciência que era contra a vontade dela. Acrescentou que não a violentaria, mas também não consentiria que ela se casasse com o filho de seu maior inimigo. Disse-lhe que perdera o amor por ela e considerava-a morta.
Teresa chorando, implora que a coloque num convento, mas não a prive de seus afetos, promete-lhe julgar-se morta para todos os homens, menos para seu pai.

CAPÍTULO IV

“Na verdade o coração de Teresa estava mentindo. Vão lá pedir sinceridade ao coração!”

O diálogo que manteve com seu pai, retratou a sua força de caráter, seu orgulho fortalecido pelo amor, qualidades, estas, raras na idade de Teresa, mas a mulher do romance quase nunca é trivial, e esta era distintíssima.
Da carta que escreveu a Simão, só omitiu as ameaças do primo Baltasar contra Simão.
Mas, ainda não foi esta carta que causou tanta agonia a Simão, nem as outras, onde Teresa contava que seu pai não falara mais de convento e nem de casamento, que o primo voltara ao seu solar de Castro-Daire e que tudo corria tranquilo.
Num domingo de junho de l803, Teresa foi chamada para acompanhar seu pai a primeira missa da igreja paroquial. Lá chegando, foi informada que naquele dia, casaria com o primo.
O Sr. Tadeu dizia que estava dando um passo difícil, mas só se preocupava com a felicidade da filha, e que às vezes a felicidade precisava ser imposta pela violência, porém, a violência de um pai é sempre amor. Violento seria se ele a tivesse colocado num convento, mas não, ele a esperou refletir e que o tempo aclarasse o seu juízo. Teresa chorando pede que a mate, mas não a force casar com seu primo. Então, o pai muda de atitude ameaçando-a; ou ela se casava ou seria amaldiçoada para sempre e morreria num convento. Tadeu tranca-a em seu quarto, afirmando que ela só sairia de lá para ser levada para outro lugar, onde ela não veria um raio de sol. Depois, procurou o primo e disse-lhe que não poderia dar sua filha a ele, pois ele não tinha mais filha. Baltasar novamente persuadiu Tadeu a não enviá-la ao convento, aconselhando-o que deixasse estar em casa e esperasse que o filho do corregedor retornasse de Coimbra.
Teresa suspeitava de um novo plano de seu pai. Simão desesperado, pensa em ir a Castro-Daire e matar Baltasar. Saiu, alugou cavalo, mas graças ao atraso do cavalo, pode refletir. Por que tudo tinha que se acabar assim? Matá-lo, depois fugir como assassino, ter o pai como o primeiro inimigo, nunca mais ver Teresa e talvez, ainda, ela poderia se horrorizar com a sua vingança?
Quando o arreeiro bateu à porta, Simão não pensava mais em ir à Castro-Daire, mas resolvera ir a Viseu e ver Teresa. Nas estalagens seria logo descoberto, perguntou ao arreeiro se conhecia alguma casa em Viseu que ele pudesse estar escondido por uma ou duas noites, sem receio de ser denunciado. O arreeiro tinha um primo ferrador a um quarto de légua de Viseu.
No dia seguinte, Simão chegou à casa do ferrador. Simão, já hospedado, solicita ao arreeiro que leve uma carta á uma mendiga que morava num beco. Pouco depois, voltou ela com a resposta, e o arreeiro partiu a galope.
Teresa não refletiu. Respondeu-lhe que era o dia de seu aniversário e sugeri que viesse encontrá-la às onze horas em ponto no quintal de sua casa.
Simão estranhou tal festa, mas, pontualmente, estava no local e à distância o arreeiro com o cavalo à rédea.

CAPÍTULO V

Baltasar estava presente na festa e disfarçava indiferença à Teresa. Amigos e parentes tentavam convencê-la a reconciliar-se com o primo, dando desta forma alegria a Sr. Tadeu.
Teresa desde ás dez horas estava ansiosa. Às dez horas e três quartos, corre até a porta do fundo do quintal a como não vira ninguém, volta para a sala. Baltasar vigiava-o o tempo todo, percebeu sua atitude. Decorridos alguns minutos, novamente Teresa sai, e, dessa vez, o primo vai atrás. De novo na sala, o pai pergunta-lhe que estava acontecendo, Teresa responde que sentia uma dor que a obrigava a tomar ar. O pai acreditou e espalhou a notícia, só não dando a mesma ao primo, pois não o encontrou.
Teresa que também dera pela ausência do primo, finge que vai procurá-lo, resolução que o velho gostou muito. Correu até a porta do seu encontro com Simão e disse para ele partir, para vir amanhã às mesmas horas. Simão ouviu o recado de Teresa, mas estava atento a um vulto que se encontrava armado e vinha em sua direção.
Baltazar discute com Simão e ele parte.
Teresa escreve uma carta a Simão pedindo-lhe perdão pelo ocorrido, e ele, responde que não tinha medo, era um amante corajoso.
O ferrador tinha uma filha, Mariana, 24 anos, bonita e triste. Um dia Simão pergunta-lhe qual a causa daquele olhar melancólico.
Mariana responde-lhe que alguma desgraça estava para acontecer; conta-lhe que seu pai já o conhecia e que ela também sabia dos amores dele por uma fidalga de Viseu, que tinha um primo em Castro-Daire. Com a chegada de seu pai, Mariana se retira.
João da Cruz confirma que conhece Simão. Conta-lhe que tinha uma égua e um almocreve deu-lhe um chute, João de posse de um martelo, bateu-lhe na cabeça, o macho atirou em João que lhe pegou no braço esquerdo. Então, João entrou em sua casa, armou-se e atirou no almocreve, matando-o. João foi preso e levado para a cadeia em Viseu, já estava há três anos, quando o Sr. Domingos foi transferido para lá. Um companheiro de cela, contou-lhe que o novo corregedor era devoto das Sete Dores de Nossa Senhora.
Uma vez o corregedor e sua família passando pelo corredor da cadeia, João suplicou-lhe que o ouvisse por Sete Dores de Nossa Senhora.
João contou-lhe acidente com o almocreve, mostrou-lhe as marcas no braço e foi absolvido, enquanto todos diziam que seria enforcado, portanto, ele era eternamente grato ao pai de Simão. Continuando a sua história, João conta que antes de ser ferrador, foi criado na casa do fidalgo de Castro-Daire e que o fidalgo havia lhe emprestado dez moedas de ouro para poder ser estabelecer. Em seguida, revela que há uns seis meses, o fidalgo mandou chamá-lo à Viseu e lhe propôs pagar trinta moedas para ele matar um homem, e este homem era Simão.
João não aceitou a proposta e foi até a casa do Sr. Domingos e contou-lhe o ocorrido. Foi, então, que o Sr. Domingos disse-lhe que tudo isso era porque o seu filho Simão, era um desajuizado, interessando pela prima do fidalgo. João se coloca a disposição para ajudá-lo em tudo, inclusive matar o pai e o primo de Teresa.

CAPÍTULO VI

Às dez e meia da noite, três vultos convergiram para o quintal da casa do Sr. Tadeu, discutiam as posições e um dos três avisava a imprudência de matá-lo no quintal, onde as suspeitas poderiam cair sobre ele ou o tio. Baltasar rodeou a igreja procurando uma posição melhor, nisto ele vê João da Cruz, quase não acreditou que o seu homem estaria ali contra ele.
Neste momento, chegam Simão e o arreeiro e ao verem João da Cruz ficam mais tranquilos.
João aconselha-o partir, informa que havia visto dois homens de Baltasar atrás da igreja.
Simão insiste ficar.
O ferrador, então, pede que Simão encaminhe-se à porta do quintal de Teresa, que ele e o arreeiro ficariam a dez passos de vigia.
João suspeitava de alguma emboscada e foi o que ocorreu. João derrubou um dos capangas de Baltasar e, Simão ficou ferido no braço esquerdo. Colocaram fogo no mato e outro homem saiu ajoelhado pedindo perdão. Novamente Simão vai contra matá-lo e seguem. João, no entanto, inventa que esqueceu sua arma, volta e mata o capanga.

CAPÍTULO VII

O ferimento de Simão não parava de sangrar e o rapaz tornou-se febril. À tarde Simão recebe uma carta de Teresa. Dizia estar preocupada com ele, queria saber notícias e agradecia aquela boa gente que o havia acolhido. Afirmava que o pai vivia trancado com o primo e que tinham tirado o seu tinteiro, mas, graças a Deus ela tinha outro escondido. Falava que Nossa Senhora quis que a mendiga viesse pedir esmolas em sua janela e, só assim, pode enviar esta carta. Teresa insistia a Simão que partisse imediatamente.
Sr Tadeu, perante todos os acontecimentos, decide colocar Teresa no convento do Porto, em Monchique. Todavia, receando algum incidente neste intervalo de tempo, coloca-a no convento de Viseu, provisoriamente.
No convento é recebida pela madre prioresa de maneira ríspida. Em seu discurso diz que: quem vem á casa do Senhor, vem para mortificar o espírito e deixar lá fora as paixões mundanas. Depois, encaminhou-a a presença da organista e da mestra de noviças.
Teresa, no convento, conheceu um mundo de intrigas, corrupções e má fé. No final da noite pode escrever a Simão relatando todo o acontecido, desabafava que todos estes trabalhos pareciam leves, se os comparassem aos que ele tem padecido, implorava por seu amor, pois era uma desgraçada, e os desgraçados eram os que mais precisavam de amor e de conforto.

CAPÍTULO VIII

Mariana torna-se a enfermeira de Simão em troca dos favores, anteriormente, prestados pelo Sr. Botelho.
João da Cruz comenta que Mariana possui vários pretendentes, mas nunca se interessou por nenhum e que não a forçava, pois também era só e precisava da companhia dela.
Mariana tinha treze anos quando o pai foi preso, estava resolvida se atirar num poço caso ele fosse enforcado, ou ir para o exílio com ele, caso, exilado. Conta a Simão que chegou a beijar os pés de sua mãe e de suas irmãs e que, estava na fonte quando Simão deu pancadas nos criados.
Neste momento, chega á carta de Teresa informando que estava no convento.
Simão transtornado pede-lhe explicações de como raptá-la e aconselhava-a lutar, jamais ser submissa. Simão pede a sua carteira para pagar a entregadora, e, João ao entregá-la percebe que o hóspede estava sem dinheiro, pois a carteira estava leve. Então, chamou a filha à cozinha e começaram a refletir como fazer para oferecer dinheiro a Simão.
Mariana teve uma ideia: pegou seu dinheiro guardado, pediu ao seu pai que entregasse a Simão, afirmando que fora sua mãe que o enviara.

CAPÍTULO IX

Na verdade, era o dinheiro dos bezerros que Mariana pediu para o pai vender. Disse que a mãe lhe tinha enviado, pedindo para ele só escrever quando estivesse em Coimbra para o pai não desconfiar de nada. João chegou a pensar que Mariana tinha feito isso por interesses financeiros. Simão paga o que deve a João e começa a recuperar-se. As cartas de Teresa eram reguladas, ora resignadas ora confortadoras. Em uma ela pedia para ele partir para Coimbra, pois o Sr. Tadeu sabia que ele estava próximo e seria difícil ela conseguir liberdade, dizia que em toda parte se pode orar, menos no convento. Em outra, pedia para ele não se afastar, sabia que seu pai pleiteava uma vaga no convento do Porto.
A transferência de Teresa é regulamentada e agendada para a madrugada no dia seguinte.
Teresa se desespera, principalmente, por já ter escrito naquele dia a Simão.
Algumas irmãs tinham notado a presença de uma mendiga no pátio, mas pensavam se tratar de uma devoção. Quando Teresa lança o bilhete avisando Simão de sua transferência, o hortelão percebeu, perseguiu a mendiga, espancou-a e a levou até o Sr. Tadeu. Mesmo machucada, a mendiga conseguiu ir até Simão e contar-lhe o acontecido.
Mariana dispõe-se ajudar. Levaria a carta de Simão até Teresa através de Brito, sua amiga.
Quando Simão entrega-lhe a carta e um dinheiro para ela comprar um anel, Mariana teve que desviar os olhos, para Simão não perceber que ela chorava.

CAPÍTULO X



Apeou Mariana defronte do mosteiro, e enquanto esperava por Joaquina Brito, um padre a corteja. Enquanto isso, Mariana fica a observar as janelas do mosteiro na esperança de ver Teresa. Quando avista uma moça sem o hábito, imagina ser Teresa e chega a invejá-la.

A voz de Mariana tremia quando Teresa perguntou-lhe quem ela era. Teresa pede que avise Simão que será transferida de madrugada para o convento de Monchique, do Porto. Que ele não se aflija, porque ela será sempre a mesma e que não apareça, pois seria muito perigoso, afinal, Baltasar, suas primas e seu pai estarão presentes. Teresa oferece um anel de ouro à Mariana pelo favor que ela estava lhe prestando. Mariana se nega a receber afirmando que não tinha feito nenhum favor a ela e sim, a quem a enviou até lá.
Simão ao ouvir o recado e o nome do primo Baltasar fica irado:

“Sempre este primo Baltasar cavando a sua sepultura e a minha!”

João da Cruz o interrompe, dizendo que enquanto ele for vivo, Simão há de viver. Aconselha-o a deixar Teresa partir, Simão deveria ir para Coimbra, e quando chegar a hora certa, Teresa pertenceria a ele.
Simão decide fazer o que a honra e o coração o aconselharem.
Ao anoitecer, Simão escreve uma carta a Teresa:

“Considero-te perdida, Teresa. O sol de amanhã pode ser que eu o não veja. Tudo, em volta de mim, tem uma cor de morte. Parece que o frio da minha sepultura me está passando o sangue e os ossos.
Não posso ser o que tu querias que eu fosse. A minha paixão não se conforma com a desgraça. Era a minha vida: tinha certeza de que as contrariedades me não privavam de ti. Só o receio de perder-te me mata. O que me resta do passado é a coragem de ir buscar uma morte digna de mim e de ti. Se tens força para uma agonia lenta, eu não posso com ela.
Poderia viver com a paixão infeliz; mas este rancor sem vingança é um inferno. Não hei de dar barata a vida, não. Ficarás sem mim, Teresa; mas não haverá aí um infame que te persiga depois da minha morte. Tenho ciúmes de todas as tuas horas. Hás de pensar com muita saudade no teu esposo do Céu (...)
Tu verás esta carta quando eu já estiver num outro mundo, esperando as orações das tuas lágrimas...”

As lágrimas não o deixaram continuar.
Quando Mariana veio colocar a mesa diz a Simão que era a última vez que ela punha à mesa a ele em sua casa. Simão pergunta-lhe por que ela diz aquilo, ela responde que é o coração que estava sentindo, e pede para que Simão não saia de casa aquela noite. Simão diz que tem que sair, porque se mataria, se não saísse.
João da Cruz quer acompanhá-lo e Simão agradeceu e rejeitou a sua decisão. Às onze horas da noite, Simão parte e deixa um bilhete a João da Cruz e coloca junto à carta de Teresa. Quando partia sorrateiramente, vê Mariana à porta da varanda dizendo:

“ - Então adeus, senhor Simão. Eu fico pedindo a Nossa Senhora que vá na sua companhia.”

Em uma hora Simão estava defronte do convento a procura de alguma luz de alguma janela.
Ás quatro horas e meia, ouviu Simão o tinido de liteiras, mudou de local, tomando por uma rua estreita, fronteira do convento. Chegaram três senhoras que deviam ser as irmãs de Baltasar, acompanhadas de duas mochilas, depois chegou Tadeu de Albuquerquer encostado ao braço de Baltasar Coutinho. Baltasar consolava o tio dizendo que antes isso que vê-la casada, que no prazo de um ano, ele a encontraria curada. Afinal, um ano de convento é um ótimo vomitório do coração.
Abriram-se os portões, e saíram três senhoras, e após elas, Teresa.
Tadeu ao ver a filha começa a chorar e diz-lhe que ainda era tempo. Teresa pergunta-lhe:

“ - Tempo de quê?
- Tempo de seres boa filha.
- Não me acusa a consciência de o não ser.
- Queres ir para tua casa e esquecer o maldito que nos traz a todos desgraçados?
- Não, meu pai. O meu destino é o convento. Esquecê-lo nem por morte. Serei filha desobediente, mas mentirosa é que nunca."

Teresa ao ver Baltasar se irrita e ele insiste em acompanhá-la.
Nesse momento, Teresa vê Simão e grita o seu nome. Baltasar não se contenta e chama-o de infame e assassino. A discussão procedeu e quando Simão chamou-o de covarde, Baltasar avançou sobre Simão e chegou a apertar-lhe a garganta, mas, logo em seguida seus dedos ficaram frouxos e quando as damas chegaram para interpor-se entre os dois, Baltasar tinha o alto do crânio aberto por uma bala que lhe entrara na fronte e cai aos pés de Teresa.
Tadeu gritava, os liteireiros e criados rodearam Simão, e aparece um homem com um lenço pela cara e coloca-se à beira de Simão estacando os homens. Era João da Cruz gritando para ele fugir, Simão responde que não fugiria e pede ao amigo para ir embora, por sua filha.
Tadeu ordena que levem Teresa ao Porto.

CAPÍTULO XI


De manhã, a família Botelho toma conhecimento do crime e da prisão de Simão.

O Sr. Botelho determina que o meirinho peça ao juiz de fora que cumpra as leis, exigindo que seja rigoroso.

“ – Faça de conta que o preso Simão não tem aqui parente algum.
- Mas, senhor doutor corregedor – disse o juiz de fora com tristeza e compunção – vossa senhoria é pai.
- Sou um magistrado”.

Simão não se importa com seu destino e tem consciência do seu ato. Sua mãe envia-lhe o almoço e uma carta. Pela carta, Simão descobre que o dinheiro recebido não veio de sua mãe e sim de João da Cruz. Simão chora e recusa o almoço.
Mariana vai visitá-lo e abraça-o com o rosto banhado de lágrimas. Ela justifica que não lhe trouxe nada antes de verificar o que a família mandara. Simão diz que não tem família e pede a Mariana que comprasse uma banca, uma cadeira, um tinteiro e papel. Oferece-lhe dinheiro, mas a bondosa e apaixonada moça recusa. Não obstante, Simão só vê no mundo uma mulher – Teresa. E Teresa, a definhar no convento, não pensa em outra coisa que não seja o amor de Simão.

CAPÍTULO XII

Quase três anos se passaram com os dois amorosos detrás das grades: a filha de Tadeu Albuquerque, por nada a prender ao mundo, e o filho do corregedor, aguardando sentença definitiva.
Domingos Botelho, por sua vez, pede transferência e sai de Viseu com a família para não acompanhar o processo judicial do filho.
O narrador fala de uma carta recebida de uma senhora da família do preso.
Simão é julgado e condenado à forca.
Mariana descontrola-se e é carregada amarrada aos prantos do tribunal, enquanto que Simão fica tranquilo, pois está “contente de sua sorte”.
Simão dirige-se a João da Cruz e pede que cuide da filha.
No entanto, Simão sofre por Teresa e Mariana:

“Uma morrendo amada; outra, agonizando, sem ter ouvido a palavra “amor” dos lábios que escassamente balbuciavam frias palavras de gratidão”.

CAPÍTULO XIII

Teresa no convento de Monchique vive em “clausura rigorosa e absoluta privação de meios de escrever a quem quer que fosse”.
A jovem ao saber da condenação do seu amado decide que nada mais lhe resta, a não ser a morte.
Uma freira comovida com o fatalismo dos dois amantes resolve ajudá-los e compromete-se levar uma carta de despedida a Simão.
Antes da última palavra, a moça tem uma convulsão, cai doente e parece chegar ao fim.
A abadessa do convento escreve a Tadeu para que venha despedir-se do anjo.
Teresa recebe, nessa época, uma carta de Simão, que pede que ela não morra ainda, pois tem esperança de absolvição no Porto, ou de comutação da sentença.

CAPÍTULO XIV

Tadeu vai buscar a filha, mas é impedido pela abadessa, por causa do estado de saúde da moça. A preocupação do pai de Teresa é a proximidade de Simão, que fora transferido para a cadeia da relação, no Porto.
Ante a recusa da saída da filha pela superiora, Tadeu enfurece e busca todos os recursos legais para retirá-la do convento, mas não obtém êxito. Chega a apelar para velhos conhecidos, que lhe recusam o pedido. Um antigo amigo desembargador chega mesmo, depois de sentir-se ofendido, a dizer que Simão não irá à forca.

CAPÍTULO XV

João da Cruz visita Simão e conta-lhe que Mariana estava recuperada e encontrava-se no Porto. Simão preocupava-se com sua “irmãzinha” e pede ao ferreiro que não a deixe ficar sozinha no Porto.
João da Cruz desfaz as preocupações do rapaz, alegando que a moça sabe proteger-se bem.
Simão, também, não quer que João da Cruz fique só. João da Cruz o tranquila e diz que consegue resolver seus problemas através da cunhada velha.
Então, Simão desabafa:

“ – Pudesse eu ser o marido de sua filha, meu nobre amigo!
- Qual marido!... – disse o ferrador com os olhos vidrados das primeiras lágrimas que Simão lhe vira.
- Eu nunca me lembrei disso, nem ela!...Eu sei que sou um ferrador, e ela sabe que pode ser sua criada, e mais nada, senhor Simão...!"

CAPÍTULO XVI

Manuel Botelho, irmão de Simão, retorna a Portugal com a mulher com quem fugira. Ele é obrigado a apresentar a mulher como uma de suas irmãs para o desembargador Mourão e para o corregedor do crime.
Domingos Botelho descobre a mentira e manda trazer à sua presença a açoriana casada e fugitiva com quem o filho vive. Força a moça abandonar seu filho e voltar para a casa da mãe nos Açores.

CAPÍTULO XVII

João da Cruz retorna a Viseu e deixa sua filha cuidando de Simão. Passado algum tempo é assassinado por vingança pelo filho do homem que matara. A notícia de seu falecimento foi informada através de uma carta de Josefa.
Simão é incumbido de transmitir a notícia a Mariana. A moça desespera-se e sente-se responsável pelo acontecimento. Simão a conforta e diz-lhe que ela é o seu amparo.

CAPÍTULO XVIII

Mariana retorna imediatamente a Viseu para tratar assuntos da herança paterna. Lá, vende a propriedade, recolhe o dinheiro guardado na laje e deixa a casa para a tia. Sua intenção desvincular-se de Viseu e de estar livre para acompanhar Simão no seu degredo.
De volta ao Porto, entrega todo o dinheiro a Simão, alegando que não tem segurança deixá-lo guardado na casinha em que está morando.
Simão desconfia desse comportamento da moça e tenta persuadi-la a regressar a Viseu e cuidar dos interesses que foram de seu pai. Mas, Mariana está irredutível.
Simão, então, pergunta o que ela faria se ele fosse exilado. Mariana, prontamente, responde-lhe que o acompanhará, se ele permitir sua companhia.
Domingos Botelho intercede pelo filho contra a ira de Tadeu de Albuquerque, que chega a oferecer a casa para que mantivessem a sentença de morte para Simão.
O Príncipe Regente concede em última decisão judicial que Simão cumpra sua pena, na prisão de Vila Real. Mas, este recusa a aceitar tal benefício e afirma que protestará perante os poderes judiciários contra um favor que não implorara e que considera mais atroz que a morte.
Domingos Botelho, informado da rejeição do filho, deixa-o à sua vontade.
Simão tem seu nome inscrito no catálogo dos degredados para a Índia.

CAPÍTULO XIX


Simão não suportaria trocar a forca pelos ferros da prisão. Prefere, dessa forma, a liberdade de poder ver o céu e sentir o vento em país estrangeiro do se manter em uma cela.

Teresa ainda tenta mudar-lhe a decisão e insiste para que ele aceite os dez anos de cadeia, mas nada muda a decisão de Simão.
Simão escreve a Teresa pedindo-lhe que ela o esqueça e que se salve.


Teresa responde que morrerá:


“Morrerei, Simão, morrerei. Perdoa tu ao meu destino...Perdi-te...Bem sabes que sorte eu queria dar-te...e morro, porque não posso, nem poderei jamais resgatar-te. Se podes, vive; não te peço que morras’, Simão; quero que vivas para me chorares. Consolar-te-á o meu espírito...Estou tranquila...Vejo a aurora da paz...Adeus até o Céu, Simão”.

Passam-se ainda alguns meses até que em 17 de março de 1807, Simão da Botelho embarca para a Índia. Mariana, sem maiores dificuldades, consegue convencer o magistrado de acompanhá-lo como criada, com passagem paga pelo próprio amo.
Simão reflete...

“E Teresa – bradava ele, surgindo subitamente do seu espasmo.
- E aquela infeliz menina que eu matei! Não hei de vê-la mais, nunca mais! Ninguém me levará ao degredo a notícia da sua morte! E, quando eu a chamar para que me veja morrer digno dela, quem te dirá que eu morri, ó mártir?!”

CAPÍTULO XX



Simão é finalmente degredado para a Índia. Mariana e Simão embarcam no cais da Ribeira.
Simão não vai amarrado como os outros presos por recomendação ao comandante, por não se tratar de um prisioneiro violento.
D. Rita envia-lhe uma grande soma de dinheiro que é distribuído, por ordem de Simão, entre os degredados presentes.
No convento, Teresa tem sua doença agravada.
À noite daquele dia, pede os sacramentos e comunga. Depois, relê uma a uma as cartas de Simão, as enlaça e entrega para Constança com o pedido de que sejam entregues a Simão.
Às nove da manhã pede a Constança para acompanhá-la ao mirante, de onde é possível assistir à partida dos navios.
Simão pede a Mariana que lhe mostre o convento. Do alto do mirante, vê um vulto acenando um lenço branco aos condenados embarcados. É Teresa que se despede.
Simão não retira os olhos dela, mas, repentinamente, pára e, Teresa é carregada.
Lá mesmo no mirante, Teresa morre. O capitão do navio, que veio mais tarde a terra, narra a Simão detalhes da morte de Teresa e promete a esse que, caso algo lhe aconteça, reconduzira Mariana a Portugal.

CONCLUSÃO

Nesta noite, Simão lê a derradeira carta de Teresa, que lhe chegou junto ao maço de correspondências. Depois, relê as cartas que escreveram, revivendo sua história de amor e junta-as num grande maço.
Simão sofre e não resiste de tanta dor. Adoece de febre maligna e tem Mariana ao seu lado, sua eterna companheira. Pede a sua “irmãzinha” que jogue as cartas no mar, se morrer. Mariana responde que caso isso ocorra, também morrerá.
Depois de sofrer durante nove dias de febres e delírio, na manhã de 28 de março, Simão morre em alto-mar, perto de Gilbratar.
Decidem lançar o cadáver ao mar, envolto num sudário.
Mariana, como uma estátua de sofrimento, assiste a preparação, junto á amurada. No mesmo instante em que os marujos arremessam o corpo de Simão ao mar, Mariana atira-se nas águas, sem que a pudessem impedir.


“Foi o cadáver envolto num lençol, e transportado ao convés.

Mariana seguiu-o”.
(...)
“Viram-na, um momento, bracejar, não para resistir à morte, mas para abraçar-se ao cadáver de Simão, que uma onda lhe atirou aos braços”.

Um avental ficou a boiar e junto dele um maço de papéis: eram as cartas de Teresa e Simão.

VIII - CONSIDERAÇÕES FINAIS:


A problemática principal dessa obra parece estar ligada ao conflito entre a idealização amorosa e a realidade social, que impede a realização plena dos sentimentos dos protagonistas. Esse conflito resulta do choque entre o eu (individualismo) e a sociedade, o coração e a razão.

Do ponto de vista do foco narrativo, ou da postura do narrador perante a história, os elementos realistas de "Amor de Perdição" estão na critica ás instituições religiosas, os conventos, e no comportamento não-passional de alguns personagens secundários, como João da Cruz. É possível perceber estes elementos nas passagens da obra em que o narrador denuncia a corrupção do convento de Viveu e enfatiza a lealdade, o senso prático, a sensatez de João da Cruz, relativizando assim a passionalidade predominante no romance.

Principais temas:

- A idealização amorosa;
- O amor impossível;
- O conflito amoroso;
- A presença do triângulo amoroso;
- A intransigência paterna;
- A presença do amor platônico;
- A fidelidade do amigo;
- O amor fatal;
- Crime passional.

Nenhum comentário: