domingo, 19 de dezembro de 2010

A CULTURA DE MASSAS NO SÉCULO XX

I – INTRODUÇÃO:

As primeiras décadas do século XX testemunharam uma série extraordinariamente rápida de movimentos revolucionários na arte e na arquitetura, correndo paralelos a uma dramática evolução na literatura e na música, na ciência e tecnologia, na estrutura política e social do mundo inteiro.
Foi como se os grandes artistas do século XIX tivessem aberto as comportas de um vasto e variado oceano de criatividade e inventiva artísticas.
Os pintores do século XIX tinham discutido a função de representação da pintura, assim como as convenções que governam as perspectivas espaciais, o modelar de figuras dispostas nesse espaço e até a necessidade de aproximação da aparência normal das coisas. Agora, os pintores afirmavam a maior liberdade possível, não só afastando-se muito mais ainda das aparências normais de forma e cor, mas rejeitando também a longa tradição segundo a qual os quadros, ao que se supunha, deveriam basear-se em facetas do mundo visível. Por vezes, abandonaram até os materiais usuais de pintura, apagando a clássica demarcação entre pintura e escultura.
Os escultores do final do século XIX tinham debilitado a posição do Classicismo e do Realismo; agora, seus sucessores preparavam-se para desafiar todo o conceito de escultura como arte do tangível e do sólido, relacionada com o mundo de objetos em que vivemos, e investigavam a interação de planos e linhas dentro do espaço em que eles se situam. Passam a inventar formas que embora admitam alguma referência ao mundo visível, são primordialmente independentes dele e auto-suficientes.
Cada novo movimento trazia consigo um exército de imitadores e satélites; cada revolução produzia seu próprio academismo. Os grandes mestres são sempre grandes demais para ficarem contidos nos movimentos a que estão associados, enquanto, para outros, os conceitos rebeldes que iniciam o movimento se convertem, gradualmente, em pesadas convenções.
A história da arte do século XX é toda feita de magníficos e grandiosos saltos para frente e extraordinárias regressões, de notável e límpida visão por parte de um punhado de protagonistas e de incompreensão e, portanto, de desvalorização, por parte de muitos, de brilhantes realizações e gestos vazios, de profunda originalidade e superabundante demagogia. Mas, embora caótica, é uma história de perpétua e infatigável vitalidade.

II - CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL:
Os anos que antecederam a I Guerra Mundial chamados de “anos loucos”, encontraram em Paris o centro cultural da Europa. Tendências artísticas diversificadas de vários países desembocavam na bela capital e irradiavam para o mundo ocidental.
Essas tendências ficaram conhecidas como correntes de vanguardas e entre o período anterior a I Guerra Mundial, durante e até o fim da II Guerra, espalharam-se a idéia de uma renovação artística.
O termo vanguarda vem do francês avant-garde, termo militar que é usado para caracterizar o grupo de soldados que durante as batalhas, vão à frente das tropas.
A partir do século XX esse termo passou a ser utilizado para designar um grupo de indivíduos que devido aos seus conhecimentos ou por uma tendência natural exercia o papel de precursor em um determinado movimento cultural, artístico, científico etc. No campo das artes, esse termo está sempre associado à ruptura, uma vez que, invariavelmente, se opõe ao estilo vigente em uma época.
No final do Século XIX, a História da Arte passava por profundas inovações. A herança Renascentista italiana passa a ser questionada e artistas assistindo as transformações sociais, econômicas, políticas e filosóficas do mundo, além do desenvolvimento dos meios de comunicação, buscam novas expressões artísticas.
A máquina; a eletricidade; o automóvel; a música (o gospel, o jazz, o soul, o fox-trot e o samba que desceu dos morros brasileiros e chegou nos bailes da burguesia); a emancipação feminina; o cinema de Hollywood; o humor de Charles Chaplin; as saias curtas; as maquiagens faciais; o wisky; o tênis; o “crack” da Bolsa de Valores; a Ku-Klux-Kan; a guerra; Hiroshima e Nagasaki....
Esse avanço tecnológico aliado com as crises políticas e com o dualismo do homem dessa época (a euforia versus o medo) gerou uma postura inovadora de se fazer arte: os ismos.
Essa revolução cultural que aparentemente apontava uma ordem pacífica traduzia um espírito revolucionário e inovador do conceito de arte.
“Por trás dessa vertigem coletiva da ação e da velocidade, engendrando-a e estimulando-a, sem permitir a reflexão sobre suas conseqüências nas mentes e na cultura, as inovações tecnológicas invadiam o cotidiano num surto inédito, multiplicando-se mais rapidamente do que as pessoas pudessem se adaptar a elas e corroendo os últimos resquícios de um mundo estável e um curso de vida que as novas gerações pudessem modelar pelas antigas.
As novas formas de energia ampliavam o tempo sem parar, na proporção inversa em que encurtavam os espaços. A matéria passava a obedecer cegamente a essas fontes invisíveis de energia e tudo parecia instável, a se mover, até as estruturas de aço maciço da Torre Eiffel subindo os céus, ou as seculares muralhas de Viena desaparecendo da noite para o dia, para dar lugar a novas avenidas cheias de veículos velozes e palácios modernos erguidos num piscar de olhos.”
É muito sugestivo, nesse sentido, o depoimento de Raymond Loewy:
“Aos quatorze anos, em Paris, onde eu havia nascido, eu já tinha visto o nascimento do telefone, do aeroplano, do automóvel, da eletricidade doméstica, do fonógrafo, do cinema, do rádio, dos elevadores, dos refrigeradores, dos raios X, da radioatividade e, não menos importante, da moderna anestesia”.
Pode parecer impressionante, mas o fato é que Loewy foi muito discreto na sua avaliação. Ele, por exemplo, deixou de mencionar as linhas de montagem, os transatlânticos, as motocicletas, as instalações de gás doméstico, os modernos fogões e sistemas de aquecimento, a máquina de costura, o aspirador de pó, as máquinas de lavar, as instalações sanitárias e válvulas hídricas modernas, o concreto armado, os alimentos enlatados, os refrigerantes gaseificados, os sorvetes industrializados, a aspirina, as lâmpadas elétricas, as máquinas de escrever e de calcular, o ditafone, a caixa registradora, o parque de diversões eletrificadas, a roda-gigante e a montanha-russa.
A lista é ainda muito modesta, mas pode servir como referência. Num intervalo menor que o de uma geração, o mundo se transformara completamente. A voracidade dos mercados de consumo dos grandes complexos industriais os forçava a orientarem a sua produção para as grandes massas urbanas, o que também era inédito.
O automóvel, aparecido como extravagância no final do século XIX, tornou-se produto de luxo no começo do século e recebeu suas primeiras versões populares no contexto da Guerra, tornando-se imediatamente uma necessidade. O problema geral das imaginações era menos o de conceber o novo mundo do que livrar-se do antigo. A Guerra se encarregaria disso em grande parte. Seu rescaldo, porém, seria o culto da ação coletiva e da violência, que ela decantara em estado puro em suas várias manifestações.
“As modernas formas de comunicação de massas, a fotografia, o cinema e os cartazes reiteravam essa ênfase tecnológica sobre a ação e a velocidade, ressaltando ademais o papel privilegiado concedido nessa nova ordem cultural à imagem, à luz e à visualidade.”

SEVCENKO, Nicolau. Orfeu extático na metrópole – São Paulo, sociedade e cultura nos frementes anos 20, São Paulo, Companhia das Letras, 1992. p. 162-3

“A beleza tem que ser convulsiva para deixar de sê-lo”, disse o porta-voz do Surrealismo, André Breton. No Século XX, a arte era agressivamente convulsiva, e um estilo se sobrepunha ao outro com a mesma rapidez que as bainhas subiam e desciam no mundo da moda.
Atravessando essa atordoante procissão, um tema permanecia constante: a arte se concentrava menos na realidade visual externa e mais na visão interna. Como disse Picasso, “não o que você vê, mas o que você sabe que está lá”.
Em toda a evolução da arte ocidental, o século XX produziu a ruptura mais radical com o passado, levando ao extremo o que Courbet e Manet iniciaram no século XIX – retratos da vida contemporânea e não de eventos históricos.
A arte do século XX não apenas decretou que qualquer tema era adequado, mas também libertou a forma (como no Cubismo) das regras tradicionais e livrou as cores (no Fovismo) da obrigação de representar com exatidão os objetos.
Os artistas modernos desafiavam violentamente as convenções, seguindo o conselho de Gaugin, para “quebrar todas as janelas velhas, ainda que cortemos os dedos nos vidros”.
No coração dessa filosofia de rejeição ao passado, chamada Modernismo, havia a busca incessante de uma liberdade radical de expressão. Liberados da necessidade de agradar a um mecenas, os artistas elegiam a imaginação, as preocupações e as experiências individuais como única fonte de arte. A arte se afastava gradualmente de qualquer pretensão de retratar a natureza, seguindo na direção da pura abstração, em que dominam a forma, as linhas e as cores.
Na primeira metade do século XX, reinou a Escola de Paris. Não importava se os artistas de uma determinada tendência morassem ou não em Paris: a maioria dos movimentos emanava da França.
Até a Segunda Guerra Mundial, a Cidade Luz brilhou com toda a intensidade da arte moderna. O Fovismo, o Cubismo e o Surrealismo nasceram lá.
Nos anos de 1950, a New York School of Abstract Expressionism destronou a Escola de Paris. Pela primeira vez a vanguarda se mudava para os Estados Unidos, onde o pintor de ação Jackson Pollock, segundo disse seu amigo Willem de Kooning, “mandou nossa ideia de pintura para o inferno”.
“(...) De um modo geral, todos esses movimentos estavam sob o signo da desorganização do universo artístico de sua época. A diferença é que alguns como o futurismo e o dadaísmo, queriam a destruição do passado e a negação total dos valores estéticos presentes: e outros, como o expressionismo e o cubismo, viam na destruição a possibilidade de construção de uma nova ordem superior. No fundo eram, portanto, tendências organizadoras de uma nova estrutura estética e social. É possível ordenar esses movimentos em duas frentes opostas e, ao mesmo tempo, unidas por um princípio comum – o da renovação literária. Se o futurismo e dadaísmo representam a destruição, a fase microscópica da poesia, o expressionismo e o cubismo (...) representam a construção, o lado mágico das coisas, a beleza interior e só percebida na recomposição simbólica a que se reduzem os elementos culturais da humanidade. E é precisamente nessa redução que se opera a grande contribuição poética das vanguardas européias, portanto destruição e construção se apresentam, afinal, como as duas faces de uma mesma realidade: a expressão ordenada ou caótica do universo, seja ele o mundo exterior ou a dimensão psicológica da vida interior. Daí o papel essencial desempenhado pela linguagem. É sobre ela que atuam as primeiras forças destruidoras do futurismo e as tentativas de pulverização do dadaísmo cujos ecos atingem a poesia brasileira (...); é sobre ela ainda que atuam as forças mágicas da significação metafórica do expressionismo, a geometrização dos cubistas e, num plano realmente superior, o movimento que, através da ciência ou da magia, pôde mais rigorosamente sondar a sub- ou a super-realidade da alma humana: o surrealismo.
TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro. Petrópolis, Vozes, 1992.

III – PANORAMA HISTÓRICO:

SÉCULO XX E ATUALIDADES:
1959 – A fotografia de rua entra em moda
1960 – Kennedy eleito presidente; Stella expõe “Hard Edge” (“margem dura”; esses artistas limparam a arte, eliminando o ato dos pintores de ação: usam formas simples e contornos rígidos, como se feitos à máquina; propensão a ver a obra-de-arte como um objeto independente e não como uma visão da realidade ou do psiquismo do pintor. A superfície pintada nada mais é que uma área coberta de pigmento que termina na quadratura da tela); Yves Klein usa mulheres nuas como “pincéis”
1961 – Primeiro homem na órbita da Terra; construção do Muro de Berlim; pílula anticoncepcional
1962 – Primeira exposição de “Pop-Arte”
1963 – Assassinato de John F. Kennedy
1964 – Começo da “Arte Op” (ou Arte Ótica, esse estilo combina cor e motivos abstratos para produzir ilusões óticas de movimento pulsantes)
1965 – Minimalismo é reconhecido
1966 – Começa a Revolução Cultural na China; Venturi publica a teoria da arquitetura moderna pós-moderna
1967 – Demonstração de estudantes contra a Guerra do Vietnã; desenvolvimento da “Arte Conceitual”
1968 – Assassinato de Robert Kennedy e Martin Luther King Jr., manifestação de estudantes em Paris; arte da terra documentada, exposição de “Arte Processo”
1969 – Armstrong anda na Lua; festival de Woodstock; Judy Chicago funda programa de “Arte feminista”
1972 – Exposição de “Fotorrealismo” (Também conhecido como hiper-realismo, vicejou nos Estados Unidos. Influenciado pela arte Pop, esse estilo reproduz a fotografia em pintura com tanta fidelidade que um crítico o chamou de “Leica-ismo”. Para obter essa semelhança quase absoluta, o artista projeta um slide na tela e usa instrumentos de arte comercial, como o “airbrush”)
1973 – Leilões aumentam preços de arte
1974 – Nixon renuncia
1975 – Exposição de “Arte Graffiti”
1976 – Exposição de “Arte Performática”
1977 – Beaubourg é aberto em Paris, turnê do tesouro de Tutancâmon
1981 – Inauguração da MTV; Exposição de “Neo-Expressionismo”
1982 – AIDS identificada; arquitetura Pós-Moderna reconhecida
1985 – Gorbachev começa reforma
1986 – Challenger explode; usina nuclear de Chernobil em chamas; “Instalações” é a tendência
1989 – Democracia esmagada na China; cai o muro de Berlim; jorra petróleo em Exon Valdez; senador Jesse Helms ataca Arte “obscena”
1991 – Tempestade no deserto vence Iraque

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