segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

AQUELE MUNDO DE VASABARROS

“É claro que “Sombras”, “Os pecados”, “Vasabarros” foram contaminados pelo clima político contemporâneo deles, e a coincidência entre o clima interno destes livros e o clima externo, facilitou a leitura política. Mas meu projeto de escrevê-los não era ficar na mera denúncia de um regime de opressão: se fosse, os livros ficariam datados quando o regime se exaurisse, como se exauriu (aliás, durou mais do que eu calculava). O meu projeto era mostrar situações mais profundas do que aquelas impostas por um governinho de uns generaizinhos cujos nomes a nação depressa esquecerá”.

I - AUTOR:
JOSÉ J. VEIGA nasceu no dia 02 de fevereiro de 1915, em Corumbá de Goiás.

O humilde autor foi o único, entre os goianos, a ser agraciado com traduções rotineiras de sua obra. Seus livros, em 17 outros idiomas, foram vendidos em mais de 40 países. E o curioso é que ele nunca se expôs à mídia como qualquer outro vaidoso. Aliás, a sua vaidade era a de produzir mais e sempre melhor.
Estreou tardiamente na literatura, em 1959, com a obra “Cavalinhos de Platiplantos”. Antes o autor formou-se em direito, foi jornalista e locutor na rádio BBC, em Londres, e editor das “Seleções” do Reader’s Digest. Aposentou-se como funcionário da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro.
Mas foi na literatura, especialmente em “A Hora dos Ruminantes”, “A Sombra de Reis Barbudos” e “Aquele Mundo de Vasabarros”, que José J. Veiga mostrou, que os cenários dos montes em Corumbá e Pirenópolis, cidades de sua infância, e Goiás Velho, palco de sua adolescência, ficaram gravados profundamente em sua memória.

II – ESTILO LITERÁRIO:  

Os textos em prosa pós modernistas levam ainda mais adiante a liberdade criadora conquistada pelos modernistas. As experimentações são tantas que chegam a comprometer a existência do enredo e impedir a narração continuada.

Uma vertente nova que surgiu na prosa contemporânea foi o realismo fantástico, que tematiza a tensão dos limites entre o possível e o impossível, entre o real e o sobrenatural.
O realismo fantástico tornou-se a marca registrada da literatura latino-americana a partir dos anos 1960, com destaque para autores como Gabriel Garcia Marques, Jorge Luís Borges e Julio Cortázar. Eles levaram adiante essa perspectiva crítica de tratamento da realidade, na qual o surgimento do inusitado em meio ao real funciona como a denúncia de um estado de coisas inaceitável nos planos social, político e econômico.
Além de provocar o estranhamento imediato do leitor, o elemento fantástico acaba por iluminar alguns aspectos da realidade e fazer com que sejam objeto de uma reflexão mais cuidadosa.
No Brasil, a vertente fantástica foi trabalhada com maestria por Murilo Rubião e por José J. Veiga.
Antonio Candido define a nova narrativa brasileira da década de 60 e revela nela uma tendência caracterizada pela “ruptura, agora generalizada, do pacto realista (que dominou a ficção por mais de 200 anos), graças à injeção de um insólito que de recessivo passou a predominante e, teve nos contos do absurdo de Murilo Rubião o seu precursor. Com certeza foi a voga da ficção hispano-americana que levou para este rumo o gosto dos autores e do público. Os seus adeptos são legião, mas bem antes de a moda se instalar, José J. Veiga tinha publicado “Os cavalinhos de Platiplanto” (1959) – contos marcados por uma espécie de tranquilidade catastrófica. (CANDIDO, 1987)
Os contistas da atualidade valem-se não só do realismo fantástico, mas também da fragmentação ou “ruptura do pacto realista” dos elementos da narrativa para tematizar os problemas psicológicos, religiosos, filosóficos e morais, exacerbados pelo drama de se viver.
Segundo Silviano Santiago, a instauração do regime militar em 64 é responsável pelo nascimento de duas francas tendências da ficção brasileira durante os anos 60 e 70; por um lado, o (re) ajustamento a princípios do romance de 30 através do romance-reportagem e, por outro, a aproximação da ficção hispano-americana e o distanciamento do naturalismo, nascendo assim uma “escrita metafórica ou fantástica até então praticamente inédita entre nós”. (SANTIAGO, 1988)
O fantástico, ao contrário do romance-reportagem, afastar-se-ia da representação factual da realidade para tornar-se transfiguração do real, de modo a criar uma realidade ficcional alegórica, supostamente distante da realidade, não mimética.
Importante é diferenciar os termos, “fantástico” e “realismo maravilhoso”.
O fantástico (nascido na Europa do século XVIII) são manifestações literárias diversas; enquanto, “o realismo maravilhoso”, também chamado de “realismo mágico” (da literatura americana do século XX) possui como ponto de aproximação o fato de criarem realidades não miméticas, irreais, sobrenaturais.
Para Luiz Costa Lima: “a dificuldade do fantástico consiste na infinita pluralidade a que ele abre. Esta liberdade, contudo se converte em bolha de sabão se não permitir o retorno ao mundo a que deu as costas. O fantástico tanto permite o jogo gratuito quanto à forma pregnante e esta só se cumpre quando o aludido retorno permite a produção de significações antes ignoradas (...) Isto nos leva a dizer que a solução do fantástico se encontra no alegórico. Mas o alegórico contém uma dificuldade específica: se ele permitir a pura transcriação tipo “isso significa aquilo”, o isso, ou seja, a narrativa, se torna inútil, casca de fruta que se joga fora. Para assumir significação, o fantástico necessita criar uma curva que o reconecte com o mundo. (LIMA, 1983)
Wilson Martins, estudioso de Veiga, “encontra em seus romances marcados referências à realidade social da época, o que seria a grande deficiência de seus textos longos”.
“Veiga passou sem perceber do plano da literatura para o plano da ideologia e descaracterizou, por isso mesmo, a natureza mágica da narrativa (...) Ele cometeu o engano de confundir a verdade da literatura com a verdade da vida.” (MARTINS, 1994)
Mesmo em estudos mais aprofundados e panoramas de época, “o romance da sátira política surrealista” é chave das obras de J.J. Veiga, mas limitá-lo ao contexto político pós-64 é um erro de interpretação.

III – TEMPO/ESPAÇO E NARRADOR:

“Vasabarros é um lugar situado fora dos caminhos e das cogitações do mundo. Saber que aquilo ainda estava de pé já era o suficiente para tranqüilizar quem passasse ao longe. As pessoas olhavam a massa enorme, espraiada, sempre escura, se lembravam das lendas ouvidas em criança, e desviavam o olhar, às vezes com arrepios”, descrito por um narrador que o observa de fora e baseado em documentos “verídicos” – “pelo que sabia cá fora...” (VEIGA, 1987. p.1)

Portanto, Vasabarros é como um castelo ou fazenda fechada de contos de fadas às avessas, onde as personagens beiram o ridículo, localizado em algum ponto isolado de nosso mundo, incomunicável com o mundo exterior.
Em Vasabarros, os limites dentro do reino são específicos para cada classe social, fazendo de um passeio inocente, um risco de vida.
Arrepiava quem ali passava, quando se lembravam das lendas ouvidas quando criança.
“Não havia registros de sua origem ou de sua construção, para todos os efeitos a mancha feíssima estava ali desde o começo do mundo.”
Em toda a obra de Veiga, o conflito narrativo obedece a uma única contingência, a tentativa de compreensão, por parte do sujeito, do mundo do qual faz parte. Deste modo, podemos identificar em todas suas narrativas a reincidência de valores inerentes ao homem e perdidos frente às organizações sociais de poder.
“Essa atitude narrativa pode caracterizar o narrador crítico. Todos os acontecimentos são julgados e discriminados, quando não, condenados pela voz narrativa. Se não é explícita, essa atitude frente ao mundo é conduzida por uma empatia, de que o leitor se torna cúmplice.” (SOUZA, 1990)
A condição de leitores-cúmplices leva-nos a apreender o universo narrado sob a perspectiva daquele que sofre a ação do poder, e não a exerce.

IV – LINGUAGEM:

A linguagem é clara, direta e calçada na sabedoria popular, daí a variada gama de ditados presentes no texto.

V – PERSONAGENS:

O autor cria um vocábulo inusitado para substantivar os seres (tipos) e suas funções sociais: o “Simpatia”, a “Simpateca”, os “merdecas”, os “mijocas” o que garante a estes universos, uma aparente autonomia e distanciamento do mundo do leitor.

A alegoria política, porém, torna-se bastante óbvia na descrição destes sistemas de governo. A comunidade vive sob o jugo de ditadores. Os interditos sociais são normas constantes, os cidadãos vivem em um clima de permanente vigilância. Não se sabem quem pode ou não ser um espião do governo instituído.

VI – RESUMO DO ENREDO:

“Vasabarros agora era um lugar situado fora dos caminhos e das cogitações do mundo.”

Arrepiava quem ali passava e lembrava-se das lendas ouvidas quando criança.
“Não havia registros de sua origem ou de sua construção, para todos os efeitos a mancha feíssima estava ali desde o começo do mundo.”
Antes, fora Vale-a-Barba ou Vai-Alabarda.
Ninguém conhecia a origem daquele castelo ou fazenda fechada. Sabia-se que era propriedade de descendentes da mesma família de origem ignorada.
Alguns acontecimentos de Vasabarros foram relatados por viajantes que lá estiveram em épocas diferentes, como exemplo, o Enxoto das Aranhas, cerimônia que era realizada no dia 1º de abril em todas as dependências do campongue (conjunto dos prédios de Vasabarros).

“Desde cedo nesse dia, todos os funcionários e empregados de qualquer categoria ou função tinham de se apresentar em seus postos com o uniforme de cerimônia, com a vassoura de cabo comprido, com a vara com o chumaço na ponta e o balde de azeite.” Esses eram rigorosamente fiscalizados e caso ocorresse alguma falha, essa era corrigida imediatamente, mas o nome do irresponsável era anotado para fim disciplinar.
Às 7 horas da manhã, o Simpatia (autoridade máxima) já no palanque, dava ordens para soar o toque da corneta e iniciar a cerimônia.
Todos, imediatamente, punham-se engatilhados e na maior algazarra.
Em seguida, saíam à caça das aranhas que viviam escondidas nos cantos do lugar. Aquelas que ficavam em lugares inacessíveis às vassouras eram enxotadas com as tochas causando o maior alvoroço. O chão respingado de azeite ficava escorregadio e, os rostos e os uniformes dos participantes lambuzados.
No meio da confusão, um garoto (ajudante de despensa) escorregou e na queda raspou a vassoura na cara de um rapaz das cavalariças, um rapagão forte, cara larga, cabelo avelado, costeletas compridas e largas.
O rapaz enfurecido sacou da sua tocha acesa e foi em direção ao garoto com intenção de queimá-lo.
Um senhor magro de barbicha presenciando o acontecimento, defende o garoto, segurando o braço do rapaz.
Mesmo perante as desculpas do garoto, o rapaz sai em sua captura.
O senhor da barbicha pede ajuda aos enxotadores, mas todos temiam segurar o rapaz que ameaçava a todos com a tocha acesa.
O garoto corria, escorregava, escondia-se atrás dos outros. Até que um enxotador colocou um cabo de vassoura entre as canelas do rapaz, derrubando-o. Ao cair, a tocha escapou-lhe e já no chão e desarmado, finalmente foi vencido.
Durante a perseguição, ninguém havia notado a presença do Vedor-Mor, que observava a confusão, calado em um canto.
Quando o cavalariço encontrava-se preso, o Vedro-Mor se aproximou, colocou os dentes de ferro, mordeu uma das orelhas do rapaz e, em seguida, ordenou que um dos seus homens tomasse as outras providências.
O Enxoto deu continuidade, porém sem a euforia anterior.
Mais tarde, os tiburneiros chegaram com a barrica e o cavalariço metido nela. Os enxotadores ficaram chocados com a desgraça do rapaz e o grupo ficou dividido entre defensores e acusadores; enquanto isso, o garoto sentia-se culpado por tudo aquilo.
Ao final do Enxoto, dava-se o início ao banquete. Ninguém estava motivado a comer, mas como fazia parte da cerimônia, tinham que seguir o ritual.
“O Banquete era presidido pelo Simpatia e assistido por toda a família – a Simpateca, o filho Andreu, a filha Mognólia e mais os senescas, os conselheiros, os ajudantes, todos vestidos com seus uniformes vistosos e usando penduricalhos diversos.”
A mesa tinha o formato de um “U” sendo a parte curva, mais elevada que o resto e era ocupada pelo Simpatia e sua família.
Todos eram obrigados a participarem, desde o mais humilde faxineiro até o próprio Simpatia.
O Simpatia fiscalizava a todos com uma luneta e se visse alguma falha, o infrator era retirado do recinto.
Caso o Simpatia notasse que num setor o pessoal não mastigava com o entusiasmo ordenado, mandava tocar uma música saltitante, para que eles mastigassem ao ritmo frenético da música.
De repente, sem qualquer aviso, o Simpatia jogava o prato para trás, dava um grande zurro e levantava-se, retirando-se do salão. Uma porta no fundo do salão se abria e uma matilha esfomeada invadia o local, disputando comida com os enxotadores, que se defendiam como podiam.
Dando sequência à cerimônia, passavam para o Salão da Premiação, onde haveria a homenagem àqueles que se destacaram durante a cerimônia do Enxoto.
Mas, naquele ano, essa arte da cerimônia atrasou devido ao fato de que o cachorro da Mognólia desaparecera e, embora tivessem procurado por todo o campongue, não o encontraram.
A menina chorava temendo que o cachorro tivesse sido massacrado durante o Banquete, ou devorado pelos cachorrões famintos e, que os empregados tinham escondidos seus restos mortais para que ela não ficasse sabendo.
Mognólia era uma menina suave, emotiva, carente e esquecida pelos pais.
Simpatia e Simpateca preocupavam-se mais com Andreu, seu filho mais novo, garoto robusto e extrovertido.
Andreu era um irmão dedicado. Não gostava dessa preferência dos seus pais e tentava compensar Mognólia cobrindo-lhe de cuidados e carinhos, protegendo-a contra o rigor do regulamento e da vigilância dos senescas, dos mijocas, dos merdecas, dos coringas e das grumas.
Dentre os temíveis senescas, havia um que era ponderado e muito amigo dos irmãos – o Zinibaldo.
A sessão da Premiação foi logo suspensa devido o estado emocional abalado que Mognólia se encontrava. Esse fato contrariou o Simpatia e a Simpateca que considerava esse comportamento da filha, puros caprichos e futilidades.
O Simpatia fechou-se em seu gabinete, despachou ordens para o chefe do cerimonial e Simpateca foi deitar-se.
Andreu consolava a irmã garantindo-lhe que encontrariam o Ringo e eram vigiados por um merdeca ou por um mijoca querendo “mostrar serviço” para ser promovido.
Zinibaldo aparece e tranquiliza-os, afirmando que estavam todos á procura de Ringo e que não haviam encontrado restos mortais do cachorro. O amigo acrescenta que já havia providenciado tudo para que Mognólia não sofresse represálias por seu comportamento na cerimônia.
O rapaz da despensa após o acidente que se envolvera involuntariamente temia vinganças dos rapazes das cavalariças. Ele “que ajudava todo mundo, não respondia mal a ninguém, nem quando sofria brincadeiras pesadas”, agora estava encrencado. Pensava no homem de barbicha que o ajudou, não o conhecia e tinha dúvidas até quanto podia contar com a sua defesa.
O garoto encaminhando-se ao seu cubículo virou uma curva do corredor subterrâneo mal iluminado pelos rolos de cera, ouviu um ruído vindo das lajes atrás dele e assustou-se.
Desesperado, ficou imóvel. Sentiu uma coisa fria tocando-o de leve no calcanhar quando se virou viu um cachorrinho que com certeza estava perdido.
O menino não conhecia aquele cachorrinho, pegou-o no colo e levou-o para seu cubículo.
Então, sentiu-se seguro. Mas, quando o cachorro começou a latir, o desespero voltou à tona, sabia que os cães possuem uma audição aguçada, poderia ser alguém se aproximando.

O garoto tentou acalmar o cachorrinho, mas ele mostrou-lhe os dentes e mijou em sua cama.
Dormiram juntos – o cachorro no peito dele.
Após o embarricamento havia muita agitação nas cavalariças. Porém, não pelo motivo que causava temor ao garoto; mas, porque seriam divididos os bens do rapaz e embora não fosse muita coisa (par de botas, óculos, boné, canivete, dois ou três lâminas de cortar, saca-rolhas, ferro para abrir garrafa de Chapinha, sabonete, cinto, um retrato de uma moça de óculos que ele nunca disse quem era etc), tinha muita gente disputando.
Tentavam fazer um acordo na distribuição do espólio para evitarem o sorteio, mas a maioria queria as mesmas coisas e não conseguiam concluir a discussão.
Um dizia que: “ – O que é do homem, lobo não come”; outro que, “ – Quem almeja o que não tem direito, fica velho antes do tempo. O negócio é ir manso, pegando um dia o miolo, outro dia a casca, e dando graças. Quem muito esquenta, cedo se fumenta.”
Ao soar as cornetas, todos os rolos se apagavam, exceto a cozinha, caso algum senesca ou coringa precisasse fazer uma refeição fora da hora.
Antes do atual Simpatia, havia ainda alegria e motivação em Vasabarros...
Enquanto isso, no gabinete do Simpatia, o Cerimônia esperava suas ordens, quando um morcego invade local. O Simpatia teimava que era uma coruja, e quando finalmente o morcego pousou em um lugar que podia ser visto nitidamente pelos dois, o Simpatia disse:
“ – Ah, este sim, é um morcego. Deve estar fugindo da coruja. Coruja caça morcegos, sabia?”
Ambos avaliaram sobre a quebra do Protocolo ocorrida no Enxoto. O Simpatia queria saber a opinião da Jurisprudência sobre o assunto. O Cerimônia respondia que no caso específico, a Jurisprudência estava omissa, pois nunca alguém havia chorado por um cachorro numa solenidade.
Depois de muitos estudos sobre o Regulamento, podiam encaixar o caso no Artigo 27: “Perturbação causada por aparecimento repentino de elemento estranho”.
O Simpatia não concordava e após o Cerimônia ter apresentado outras soluções, nenhuma se encaixava no caso.
Então o Cerimônia sugere deixar o assunto em suspenso, em estudo “assim não se criam novos problemas e também não se afronta o Regulamento”.
O Simpatia concordou, mas acreditando que eles haviam concluído a causa muito rapidamente, solicita ao Cerimônia que “enrolassem” por algum tempo antes de saírem de lá e anunciarem a decisão. E ficam jogando palitos.
“Alguma coisa saiu muito errada no embarricamento do Benjó. Quem era condenado à barrica nunca mais via a luz do sai”, mas alguém entrou na cripta, soltou o cavalariço e colocou em seu lugar um boneco de trapos com as feições do Simpatia.
Quando foi descoberta a fraude, o senesca Gregóvio, Chefe da Segurança, fez diversas reuniões no Quartel-General para planejarem a captura do fugitivo, que parecia ter “virado fumaça”.
“Era a primeira vez na história de Vasabarros que alguém escapava da barrica, e as autoridades não sabiam como encarar o caso”, então, ofereciam recompensas para quem trouxesse o homem vivo ou morto.
O relacionamento entre o Simpatia e a Simpateca estava deteriorado e as discussões se agravavam.
Um dia uma gruma comentou que ouviu uma história que um menino havia encontrado um cachorro e não sabia o que fazer com ele.
A esperança de Mognólia renasceu, mandou chamar o Zinibaldo e pôs-se a dançar abraçada com a manta do Ringo.
Simpateca a surpreende dançando e pergunta se “o bostinha apareceu”. Mognólia fica irritada com a frieza de sua mãe e diz a ela para ir cuidar dos seus caramujinhos e suas árias. A mãe, então, conta-lhe que o Simpatia havia escondido os seus caramujos, mas que ela já arquitetava um vingança contra ele: “ – Vou esconder os soldadinhos de barro dele.”
Simpateca diz que está aborrecida por ser tão indiferente com a filha, pede desculpas e diz que vai mudar. Mãe e filha se abraçam.
Desde os tempos de Costadura, o comedor de jaca (assim que se referiam em Vasabarros aos costumes antigos), todos tinham atividades para preencher as horas, nem que fosse executar movimentos ou cumprir rituais.
Mas, as noites de Vasabarros eram perigosas. No meio da escuridão, as pessoas podiam cruzar com um vulto amigo ou com um inimigo.
Benjó era quem circulava pelos porões à noite. Depois que ele foi solto da barrica, foi levado para um cubículo desocupado perto da cripta, cuidado e alimentado por seus salvadores. A sua vida estava perdida. Benjó lembrava-se dos seus pertences sendo divididos; da foto da Mariazinha, que ele havia achado e guardado...e ele nem tencionara queimar o garoto. Foi tudo um mal-entendido. Ele queria dar um susto no garoto, mas quando o Barbicha se intrometeu, ele se irritou, “agora ele na barrica e o barbicha lá em cima, com certeza elogiado como herói.”
Os homens que salvaram o Benjó estavam preocupados com a sua apatia, pois tinham planos para com ele e “ele era um corpo inerte, não regia nem colaborava.”
Zinibaldo é informado que um garoto encontrou o cachorro, mas não se anima muito, pois em Vasabarros existiam 400 a 500 meninos e levaria muito tempo para investigá-los.
Além do mais, como era proibido ter animais no campongue, o menino que estivesse com Ringo, iria negar. Melhor seria, vigiá-los e não, interrogá-los.
Mognólia e Andreu questionam Zinibaldo porque existiam essas leis e defendem a tese que, elas deveriam ser abolidas. Zinibaldo explica que “lei não cai. Está ai para ser aplicada.”

O garoto não sabia mais o que fazer com o cachorrinho. Toda vez que voltava ao seu cubículo, encontrava a sua cama mijada, cocô por todo o chão e ainda, por cima, tinha dificuldades para alimentá-lo, devido a pouca ração que recebia ou que roubava da despensa. Outro agravante era o cheiro forte que ficava no cubículo e que podia atrair a atenção de qualquer merdeca.
Já fazia um mês que o garoto havia adotado o Morcego (Ringo) e não podia negar que tinha se apegado a ele.
O garoto decide levar o Morcego para fazer um passeio noturno no porão. Durante o passeio, o cachorro farejou algo e pôs-se a correr. Seguindo o cachorro, o garoto deparou-se com três sombras que imediatamente esconderam-se, então não podia ser os merdecas.
Enquanto isso, o Morceguinho fugiu. Tentando recuperá-lo, encontrou-o farejando uma porta, uivando e ganindo. A porta se abre e o garoto depara-se com uma garota que corre para cobrir de carinhos o cachorrinho.
O garoto ao ouvir passos, ficou desesperado, “empurrou a menina para dentro, entrou e fechou a porta.”
Mognólia acostumada com o temor existente em Vasabarros percebeu a expressão de desespero do menino e não se assustou com a invasão.
Perguntou o nome do garoto e pediu explicações sobre o seu envolvimento com o Ringo.
Genísio contou todos os detalhes, inclusive a falta de comida. Andreu chega nesse momento, quando “o campongue entrou em reboliço por volta da meia-noite, quando um merdeca deu aviso de movimentação estranha no porão.”
Do outro lado, Simpateca inicia outra discussão com o Simpatia, acusando-o de não ter preocupações com seus filhos, de estar constantemente mijado e não ter ordenado uma busca meticulosa atrás do Ringo, fato que deixou Mogui magoada.
Simpateca se dirige ao quarto de Mogui, encontra Andreu que fazia muito tempo que não se falavam, toma conhecimento sobre Genísio e sobre toda a sua história.
Então, Simpateca promete cuidar e protegê-lo e pede que ele a acompanhe.
No terceiro andar, na parte central do campongue, vivia o senesca Gregóvio e sua esposa, a senesquina Odelzíria, a mulher mais bem informada da ala central.
Em uma das reuniões sobre os movimentos estranhos no porão, dirigidas por Gregóvio, um homem diz que trazia uma revelação que mudaria o rumo das investigações.
Em Vasabarros, havia uma parte do porão esquecida e transformada em depósito de refugos, onde viviam os excluídos.
“Esse quilombo de rejeitados e recusantes tinha uma organização rudimentar, preocupada quase que exclusivamente com a sobrevivência”. Um dos moradores desse quilombo era o Benjó.
Quando fora levado para o Quilombo por Orontes, Juruá e Mamede, ele acreditava que tinham um plano para poder livrá-lo do campongue, mas até agora, só cochichavam e recomendavam cautela e paciência.
Benjó aguentava e até obedecia, afinal, tinham salvado sua vida.
Benjó não sabia o que significava “sistema” que tanto comentavam. Até que um dos rapazes, explicou-lhe que “sistema era justamente aquilo que o levara à barrica e o condenava a viver no Quilombo.”
“Então podia haver outro “sistema”? Um sistema que acabasse com o embarricamento, o arame quente, o tico-tico, o funil e os outros castigos?”
A partir dessa informação, Benjó passou a prestar mais atenção àqueles rapazes e até defendê-los de críticas de outros quilombolas. Diziam que quando Vasabarros caísse, as pessoas assariam a viver como gente. Um quilombo acrescentou que lá, nem o Simpatia era gente, vivendo “enfurnado lá em seu canto, brincando com soldadinhos de barro para disfarçar a sua impotência, não fala com ninguém, não tem alegria. É prisioneiro como qualquer de vocês.”
Além do mais, “ele não é limpo nada. Fede a mijo. A Simpateca não aguenta ficar perto. Outros ficam porque não têm remédio. E ele come muito mal, sofre do fígado, do estômago, da bexiga, do coração, o escambau. Tudo faz mal.”
“O Simpatia não é mais do que um dois-de-paus.” Ele não larga tudo isso, porque não teria o que fazer.
Por insistência de Mogui, Andreu foi visitar a sua mãe, na tentativa de uma aproximação.
A Simpateca era uma mulher estranha, “sempre esvoaçando aqueles muitos panos e cantando umas coisas sem pés nem cabeça.”
O Simpatia quando acordava já estava indisposto, “parecia um brinquedo sem corda”. Salvanor, o seu Valete, também ia arrastando a sua vida.
A Simpateca reclamava de tudo e propunha fazer uma grande reforma em Vasabarros. Começaria com a contratação de uma orquestra e de um conjunto operístico no qual ela pudesse cantar. A música expulsaria a tristeza do local.
Zinibaldo explicava a Dona Antília que música era proibida em Vasabarros, pois em uma noite de festa com música, tentaram matar o Simpatia Anfilófio II, deixando-o paralítico. Desde então, a música foi proibida.
Simpateca questiona Zinibaldo se ele era contra a esta postura existente em Vasabarros e ele responde que: “ – Se ela é proibida, tenho que ser contra” e aconselha-a não falar mais sobre assunto, pois se caísse aos ouvidos do Porco Pelado, ela teria problemas.
Na verdade, a Simpateca havia chamado Zinibaldo, pois estava preocupada com a educação dos seus filhos e tinha intenção de realizar uma festa íntima com os jovens de campongue e regida com muita música, pois seus filhos precisavam namorar.
Zinibaldo aconselha-a a desistir do seu plano: “ – Seria preciso requerer licença ao Conselho, os Conselheiros vão deduzir que haveria tocata e cantata, arquivam o pedido.” Seria mais fácil promover um bingo de caridade, uma marcha ou uma parada patriótica. A Simpateca diz que então, daria a sua própria festa e que não ia comunicar a Dom Estevão, mas também não ia esconder.
Quando Genísio entra vestido com uma antiga roupa de Andreu carregando o Ringo no colo, a Simpateca determina que o garoto deixe o cachorro no chão, pois “esse negócio de homem carregar cachorro no colo é mariquice”, então, ela comunica oficialmente aos meninos que dará uma grande festa a eles, no Salão das Araras.
Genísio também foi convidado. Ele que vivia em constante tensão, sentia-se “gente” pela primeira vez, mas ao mesmo tempo sentia-se um prisioneiro da situação, pois não sabia até quando isso ia durar.
O Salão das Araras era uma espécie de sótão abandonado, desde o último Simpatia que, depois do zelador ter ido à barrica, as araras ficaram ao léu, acumulando poeira e teias de aranha.
No Quilombo do calabouço, Orontes, Juruá e Mamede articulavam um plano: “organização de movimento de alforria, canalizar o entusiasmo da massa para o bem comum.”
Benjó era o mais entusiasta sobre “questões práticas e até promovia comícios, o resultado era sempre chocho, quando não cômico”
Notando o espírito de liderança de Benjó, decidiram promovê-lo a um cargo à sua altura e inicialmente, pensaram em encarregá-lo para organizar o pessoal das estrebarias, mas seria complicado, principalmente àqueles que o julgavam morto.
Gregóvio gostava de esnobar a sua força física e esperteza perante os outros cavalariços e “Zinibaldo achava essas exibições um vexame para a classe dos senescas, e só comparecia às cavalariças quando não podia evitar.”
O temível Gregóvio, chamado por Porco Pelado, sabia da impotência administrativa do Simpatia e do desinteresse por assuntos oficiais de Andreu então, investia em sua imagem, tornado-se uma pessoa de destaque em Vasabarros, pleiteando o cargo de próximo Simpatia. Essa possibilidade assustava a família de Dom Estevão.
Uma proposta para evitar tal desgraça era apelar para uma ação de interdição. Para tanto, algum senesca ou pessoa da família deveria encaminhar uma proposta ao Conselho, que seria analisada e votada por seus membros. Caso a proposta fosse aprovada, Andreu assumiria o comando.
No inverno Vasabarros “era uma caverna fumacenta e insalubre”. As pessoas ficavam mais irritadiças e desumanas, “porque a topografia de Vasabarros não permitia amplas perspectivas, por qualquer lado que se olhasse só se via montanhas envoltas em neblinas, como se aquele lugar fechado tivesse um pacto com o mundo exterior para anular qualquer esperança de comparação que resultasse desfavorável ao sistema interno.”
Na segunda metade do inverno, as pessoas ficavam introvertidas.
“Se voltavam para dentro de si mesmas e iam aos poucos esquecendo a irritabilidade e a bruteza”, inclusive Gregóvio que “também se abrandava um pouco nessa fase”, “trabalhando” suas tabuinhas e espalhando-as “por vários pontos da casa, onde Gregóvio estivesse havia sempre pelo menos uma ao alcance para ser acariciada”, conversava com elas e com as “fitas de madeira que saíam em caracóis da boca de cepilho”, fazia chá, que era tomado principalmente à noite “com lascas de queijo muito finas, que Dona Odelzíria tinha de cortar do mesmo tamanho e da mesma espessura.”
No Quilombo, o inverno não era tão ruim como em outras partes do campongue. “No inverno comia-se melhor no Quilombo, e isso elevava os espíritos.”
Benjó se irritava com a demora dos acontecimentos, Orontes o acalmava e dizia que: “ – se tudo correr bem, você pode visitar seus amigos cavalariços esta noite”. Essa informação animava Benjó, pensava na cara de susto que iria causar, na possibilidade de reaver os seus bens e rever seus amigos.
“Verdade que nem todos lá eram amigos, havia uns que o olhavam atravessado, mas até esses ele estava disposto a abraçar, quem já olhou a morte na cara e a escoraçou aprende a não guardar ressentimento, é como nascer de novo com o coração limpo; lê abraçaria até o molecote que o lambuzara de azeite no dia do Enxoto.”
Os preparativos para a festa de Simpateca ocorreram sem problemas. Gregóvio ficou sabendo “onde seria a festa e quem iria, mas não atrapalhou.”
“A guerra que ele estava preparando era outra.”
Porém, a festa não saiu como a Simpateca idealizou. O objetivo era arrumar uma namorada para Andreu, mas as moças que foram convidadas “comportaram-se com exagerado decoro, nisso seguindo repetidas recomendações dos pais.”
A ideia de provavelmente ser a próxima Simpateca assustava estas garotas e faziam que agissem com artificialidade.
Os rapazes, em menor número, olhavam para Mogui de longe e quando eram aproximados, calavam-se. “Mogui para eles era intocável”.
O ritmo da festa lembrava uma reunião de comadres. Andreu resolveu jogar dardos com os rapazes para tentar se divertirem, mas logo enjoou do jogo; depois, sugeriu “uma procissão de rolos pelos porões”, e foi apoiado por Simpateca, acrescentando que “é uma procissão de espantar fantasmas, a gente vai cantando e dançando e eles fogem com medo”.
Durante o trajeto da procissão, muitos foram se dispersando; alguns por medo, outros por acharem sem graça o intento.
A notícia da “excursão” chegou ao calabouço e surpreendeu a todos que não sabiam o verdadeiro motivo daquilo. Só tranquilizaram quando ouviram a voz da Simpateca e supondo ser mais uma de suas maluquices “com os rolos acesos, não tiveram dificuldade em se intrometer na procissão sem serem notados, e com alguma esperteza captar o espírito da brincadeira” e logo concluíram que seria uma excelente oportunidade de Benjó fazer contato com seus antigos companheiros e o introduziram na procissão.
Mogui seguia atrás agarrada com Genísio. Num momento, quis conhecer o local onde ele morava quando cuidava de Ringo.
A garota ficou impressionada com a pobreza e com a falta de higiene do lugar e perguntava como ele conseguia viver num lugar tão terrível. Genísio responde:
“ – Eu não escolhi este lugar. Fui jogado aqui, e pronto. O que era que eu podia fazer”, “(...) você não aguentava passar nem uma noite aqui. Mas se você fosse igual a todo mundo, aguentava e achava bom, como eu achei.”
Genísio conta-lhe que havia lugares piores que aquele, como A Caverna dos Trapos, lugar onde recolhem os doentes, os aleijados, aqueles que ficam loucos.
Mogui quis conhecer esse lugar e pensava que “era possível que o Simpatia não soubesse de muitas coisas” que aconteciam lá.
De repente, Genísio ouviu um barulho. Eram dois merdecas que zombavam da Simpateca e comentavam que denunciariam ao Gregóvio por suas cantorias.
Decidem fazer uma reunião extraordinária quando são interrompidos por Zinibaldo comunicando que o Simpatia passava mal e que o Dr. Bolda dizia que era coisa séria.
O Simpatia não podia morrer agora, principalmente, após ouvirem os planos de Gregóvio e saberem que ele enviara alguns homens para se misturarem na procissão com o intuito de colherem informações.
Zinibaldo dirigiu-se para a Sala dos Alfarrábios para encontrar-se com Mamede e seus homens de confiança.
Mamede informa-o que o Gregóvio estava cercado e seus homens preparados para o ataque.
“A proposta é esta: temos completo controle da situação; por que não atacamos logo, em vez de esperar que eles tomem a iniciativa?”. Caso o “Simpatia se recuperar mais uma vez, a gente desmobiliza e o perigo continua. Daqui a um mês, dois, ele torna a ter um troço, e ai os ventos podem estar contra nós.”
Outro rapaz sugere outro plano: “ – Mesmo o Simpatia se recuperando, ele vai continuar inválido. Por que não renuncia, ou não é declarado incapaz? Aí o filho assume num esquema novo.”
Zinibaldo explica que eles já haviam pensado nessa possibilidade, porém dependiam do Conselho para essa aprovação e, lá eles eram a maioria. No caso de morte, o Conselho teria que aprovar de qualquer maneira, mas por incapacidade, teria que haver votação.
Na verdade, a morte do Simpatia era desejava por todos e era melhor saída.
Gregóvio também estava preparado: “destacou o maior número de merdecas para postos longe do seu quartel-general, que certamente seria cercado por forças de Zinibaldo. A estratégia da palha incendiada fora descoberta por seus espiões, mas o plano de molhar a palha não foi executado logo para não alertar os legalistas; que eles pensassem que estavam bem preparados. (...) Eles pensavam que se ocupassem todos os espaços primeiro, ficavam com a vitória garantida. Como eram ingênuos! Briga, luta, guerra é pra quem tem vocação e nem é preciso ser inteligente. Basta ter vocação e não ter preguiça. Uma descoberta que Gregóvio tinha feito era que toda pessoa inteligente é preguiçosa. As pessoas inteligentes vêem as coisas com clareza mas não tiram vantagem disso – por preguiça.”
“(...) Então, pensando bem, se numa briga ou numa guerra um burro derrota um inteligente, para que serve a inteligência? Para fazer discursos, escrever arrazoados, falar bonito. Ainda bem que Zinibaldo e sua gente eram inteligentes.”
Gregóvio sabia que prender o “Benjó seria uma glória para ele, mas se ele o tivesse prendido, logo que descobriu o seu esconderijo, não teria levantado o plano todo, os conspiradores do quilombo e a articulação deles com a facção de Zinibaldo.”
Nesse momento, Gregóvio foi chamado para uma reunião urgente: cavalaria não podia sair porque cortaram as barrigueiras das selas.
Enquanto isso, mesmo com todo o esforço do Dr. Bolda, o Simpatia piorava.
Simpatia tinha sonhos, espécie de delírio pré-morte que o transportava à sua infância, quando possuía um chifre na cabeça e foi curado por uma benzedeira chamada Faustina.
“Daí por diante não viu mais nada, nem estava interessado.”
“A notícia se espalhou por vias misteriosas” e a população se dividiu, “uns apoiando a sucessão normal e tranquila; outros, querendo uma ruptura com a tradição, e sabia-se que a corrente tradicionalista, ou legalista, era chefiada pelo senesca Zinibaldo, e que a outra, seguia o senesca Gregóvio.”
Zinibaldo saiu disfarçado de Coringa para se encontrar com o seu Estado-Maior no lugar combinado, enquanto Gregóvio ordena soltar a cavalaria.
Alguém chega comunicando-o que não ficou um cavalo em pé, que “os corredores estavam coalhados de bolinhas de barro” e que estavam prendendo todo mundo do grupo.
O senesca armou-se com uma garrucha de dois canos e berrou:
“ – Ninguém vai se mandar. Seus covardes. Pensam que é assim? Se alistam comigo, dizem que é para o que der e vier, comem do bom e do melhor, colocam os parentes em bons empregos, andam pelo campongue arrotando prestígio, estapeando todo mundo, se aproveitando das mocinhas porque são gente de Gregóvio, e no primeiro pega-pra-capar querem se mandar? Aqui, ó. Vamos à luta.”
Após a primeira vitória do grupo de Zinibaldo, eles se preparam para outro contra-ataque. Ouviram a notícia que chamaram o Nenzão e que todos que gostavam de montar a cavalo, não precisariam mais se preocupar com os seus bagos.
O ataque dos cachorros foi desfechado e os homens de Zinibaldo os enfrentaram ateando fogo nas palhas molhadas para detê-los.
Gregóvio vendo-se perdido pendurou o facão jacaré, pegou a garrincha e uma bordura e saiu.
O cadáver de Dom Estevão já estava preparado para o velório e devidamente guardado por Salvanor, a Simpateca e os filhos, que foram instalados numa plataforma na cabeceira da mesa e portavam-se impacientes e indiferentes com a situação. Genísio também estava presente e ficava atento para ouvir as notícias que vinham de lá fora.
De madrugada, uma multidão invade o local e Zinibaldo comunica que estavam livres do Porco Pelado. Depois, observando o cadáver, percebeu uma coisa saliente do tamanho de uma laranja por debaixo do gorro do Simpatia. Indagou com Salvador sobre aquilo e ele respondeu que, a coisa começara a surgir à uma hora atrás, de início, era pequena e não parou de crescer.
As pessoas presentes perceberam e aproximavam-se para observar mais de perto, ocasionando tumultos e algazarras.
“Ao raiar do dia, o corpo foi posto na fôrma e levado para a olaria, onde receberia o barro; depois iria ao forno; e finalmente, quando resfriado, tomaria seu lugar definitivo na Avenida dos Blocos, na mata do alto do morro.”
“A ascensão de Andreu foi pacífica, mas precedida de muita relutância.”
Após a cerimônia de Entilojamento, Andreu desapareceu.
Genísio encontrou-o sentado em cima de uma jaqueira.
Ele estava profundamente assustado, não estava preparado para o cargo, não tinha vocação e gostaria que Zinibaldo assumisse o cargo em seu lugar.
Enquanto conversavam, Andreu comenta que o lugar ao seu redor estava imundo. Genísio diz que estava assim, por que ninguém mandava limpá-lo e agora, ele como dono, as coisas poderiam mudar.
Andreu convida Genísio para fugirem juntos dali, “pra outras terras”. “O resto do mundo não pode ser triste como isso aqui.”
Genísio responde:
“ – Sei não. Não conheço o resto do mundo. Mas se for melhor, não será porque os que vivem lá fizeram ele melhor?”
Andreu comovido com a resposta do amigo, o faz prometer que irá apoiá-lo e ajudá-lo a transformar Vasabarros.
Os dias seguintes foram tomados pelos preparativos da Investidura, dirigidos por Zinibaldo. Simpateca era contrária aos protocolos e insistia em uma cerimônia diferente, menos formal com palco, árvores, cascata, passarinhos, nuvens e música. Reclamava por mudanças urgentes como derrubar os paredões e deixar o ar sadio de fora entrar.
Zinibaldo também era propício a modernização de Vasabarros, mas a época não era ideal, tinham que ter cautelas; pois, embora Gregóvio estivesse preso, ele podia contar com o apoio dos seus aliados que estavam livres. O melhor para o momento era Dom Andreu assumir o poder dentro das normas para não dar pretextos a movimentos de contestações.
Dona Odelzíria visita seu esposo e leva pamonhas para ele, as quais foram confiscadas pelos carcereiros, pois podiam estar envenenadas e queriam o prisioneiro vivo para o seu julgamento.
Passado um tempo, Gregóvio adaptou-se à vida de presidiário, porém ficou enfurecido quando soube que Benjó fora nomeado Chefe da Carceragem.
Enviou imediatamente o seu pedido de protesto ao Conselho. Zinibaldo ao tomar conhecimento dessa nomeação, achou-a inoportuna, decisão que foi aceita pelos membros do Conselho.
“A sentença contra Gregóvio saiu no dia 22 de setembro do ano 717 de Vasabarros: embarricamento com araponga.”
Andreu e Mognólia ficaram chocados com a pena, esperavam por uma pena mais branda. Foram recriminados e todos os seus argumentos foram derrubados “por falta de base legal.”
Andreu pensou em abdicar, mas isso era transferir o problema para sua irmã.
Zinibaldo e a Simpateca mostrava-lhe a importância do poder, porém a preocupação de Andreu era arranjar uma maneira de cair fora ou pelo menos não ter que embarricar Gregóvio.
Sentia-se tão prisioneiro quanto Gregóvio e descobriu “que o poder tem sua dinâmica e suas leis, que não podem ser quebradas.”
Enfim, chegou o dia do Embarricamento do Gregóvio. O prisioneiro se debatia e implorava por perdão a Andreu.
Quando finalmente ele seria embarricado, Andreu levanta-se e diz:
“ – Em nome de Java e da clava, da tranca e da panca, do cacho e do penacho, perdôo este homem. É no toco, é no choco, é no oco, é no broco, é no pau da goiaba – e sentou-se depressa, como mandava a lei do perdão.”
Zinibaldo ficou completamente assustado com o comportamento de Andreu. A Simpateca-mãe, “que desconhecia os meandros da lei, olhava intrigada para o filho, para os senescas, para o condenado, esperando de alguém uma explicação” e recriminava-o afirmando que foi um gesto impensado, que poderia trazer muitos problemas futuros para eles.
O Oficial de Justiça dá ordens para desamarrar o homem. Gregóvio estava livre da barricada, mas não da prisão.
“E as pessoas que se deixaram ficar para vê-lo sair, notaram um fato estranho: ele não mostrava a euforia que seria de esperar de um homem que acabava de ganhar a vida de volta; quem caminhava diante dos guardas era um homem cabisbaixo, derreado, como se agora é que estivesse indo para o castigo.”
A mãe queria saber por que ele tinha agido dessa forma, e ele responde: “ – Eu queria saber se aquelas palavras tinham força mesmo. Pensava que era brincadeira de criança, coisa assim como abracadabra, que eu e Mogui experimentamos para abrir portas, e não abria nada.”
A mãe não acreditava que seu filho havia salvado um homem perigoso por pura brincadeira.
Andreu respondeu:
“ – Mãe, aprenda uma coisa: o inimigo de hoje pode ser o amigo de amanhã. Eu não desgosto de Gregóvio.”
Zinibaldo procura Andreu para saber quais seriam as providências que deveria tomar com relação ao Gregóvio. O senesca sugere exilá-lo ou transferi-lo a uma função subalterna, em qualquer lugar, exceto na cavalariça, pois seria constrangedor, inclusive pela presença de Benjó.
Andreu pede a Zinibaldo que consulte a opinião de Gregóvio e que também, investigue qual era a sua verdadeira intenção em derrubá-los.
A partir daí, Andreu passou a se interessar por cavalos e começou a frequentar constantemente a cavalariça, acabando conhecendo Benjó e constituindo uma grande amizade.
Zinibaldo preocupa-se com a falta de decisões de Andreu e sua insistência causou certa aversão de Andreu com o senesca, evitando-o, inclusive, de recebê-lo, acreditando que ele queria manobrá-lo.
Zinibaldo sente-se pressionado e só tem a Dona Geruza, sua esposa, para desabafar seu descontentamento. Um dia cansado das irresponsabilidades de Andreu que primeiro, salvou um inimigo e, agora, defendia um malfeitor, decide partir de Vasabarros.
Nessa época, Mogui andava de namoricos com o Genísio e isso era também, configurava um problema, pois Benjó não havia perdoado o garoto e agora se sentia fortalecido pela amizade com Andreu.
O relaxamento era total em Vasabarros, antes a rotina era devidamente fiscalizada, agora, tudo corria em total desmazelo.

“As únicas atividades levadas a sério eram o jogo e a barganha.”
Andreu não liderava; só vivia divertindo-se ou farreando com Benjó.
Zinibaldo foi adiando a sua partida e tornou-se um homem azedo.
Somente “(...) Mogui e Genísio estavam vivendo em um mundo à parte, um mundo bonito, limpo, que o clima geral ainda não conseguira contaminar. Apesar da pouca instrução, eles tinham aquela delicadeza refinada que o amor transfunde nas pessoas. Estavam descobrindo um viver novo, cada hora que passavam juntos correspondia a uma aventura emocionante, cada um adivinhando o outro e procurando satisfazê-lo, numa aprendizagem mútua que não se orientava por normas preestabelecidas porque cada momento é um momento novo e só vale quando é vivido a dois.(...) A primeira vez que teve Mogui inteira na frente dele, no salão onde a Simpateca havia montado a famosa festa dos namorados, e que voltara a se encher de poeira e teias de aranha, ele se lembrou das noções religiosas aprendidas da mãe, e ficou olhando fascinado para aquele corpo luminosos de santinha da infância, temeroso de tocá-lo.(...) Até que ele ouviu, talvez com os ouvidos da mente ancestral, ela pedindo que ele a tocasse, a beijasse toda, e ele atendeu...Quando pararam para tomar fôlego, (...) ele ouviu a vozinha interior dela pedindo que ele mordesse aquele dedinho e o chupasse como criança...E assim, passo a passo, chegaram à suprema descoberta.”
“À noitinha Genísio saiu para um passeio com o Ringo, que andava muito rejeitado ultimamente. Ia leve, ainda pisando em nuvens, o Ringo farejando serelepe alguns passos à frente. Quando Genísio virava uma curva escura, mãos e braços fortes o agarraram, vários vultos o cercaram, alguém por trás abriu-lhe os queixos à força, uma mão enfiou-lhe uma pelota de estopa ou trapos na boca, um capuz escuro caiu-lhe sobre a cabeça, e ele foi conduzido entre risos, piadas, cachações e pontapés ao longo de corredores e degraus numa longa caminhada que terminou numa espécie de loca acanhada, de paredes de pedra, chão de pedra, teto de pedra, tudo muito escuro.
Quando ficou sozinho e apalpou em volta, embaixo, em cima, com os ombros, com os joelhos, com a cabeça, não conseguiu deduzir onde estaria. (...) ouviu ruídos de assentamentos de pedras na entrada, notou que pedras rolavam para dentro e reduziam ainda mais o pequeno espaço onde o deixaram. De repente, o estalo: estava sendo emparedado.
Nunca mais ninguém ia ver Genísio nem o Ringo no campongue.”

Mogui teve que aprender a duras penas que as pessoas não eram exatamente o que aparentavam ser, “os compromissos assumidos pela pessoa aparente não eram honrados pela que ficava na sombra.” Ela tinha a impressão que a única pessoa em Vasabarros não contaminada pela doença da falsidade e da hipocrisia, era a sua mãe, que vivia exilada num mundo de fantasia e loucuras.
“O modelo mais exemplar de mutante era Andreu. Onde estava o menino sensível, o irmão compreensivo e amigo? Por que processo maléfico teria ocorrido á mudança?”
Até a fisionomia tranquila e franca de Andreu havia se transformada numa caricatura cruel.
Mogui tinha consciência que estava sozinha no mundo e reconhecia que “o jovem desconhecido que assumira o posto de Simpatia nada ia fazer para descobrir o paradeiro de Genísio”; aliás, outro pensamento lhe vinha à tona: “Andreu era o culpado”.
“Se ela tivesse alguém com quem dividir o peso da descoberta, talvez conseguisse suportá-lo. A mãe há muito tempo se recusava a conhecer as realidades de Vasabarros, Zinibaldo também se exilara para um mundo de frustrações e amarguras, e quando saía dele era protegido por uma capa de cinismo difícil de ser perfurada. E amigos ela não tinha. E quando soube que Gregóvio ia ser reconduzido ao posto de senesca, compreendeu que Vasabarros era um fruto podre, e logo estaria seco.”
No dia que Mogui completou dezoito anos, levantou-se cedo, separou algumas coisas e tinha uma idéia fixa - iria partir.
A Simpateca-mãe entra no quarto de Mogui e pergunta se ela tinha intenção de sumir.
“Como ninguém viajava em Vasabarros, e as pouquíssimas pessoas que haviam deixado o lugar o deixaram de vez, sumir era a palavra empregada para esses casos. Mogui virou-se e encarou a mãe, não em desafio, mas como quem procura compreensão e apoio.”
A mãe disse-lhe que a entendia, pois já havia passado por essa situação e pergunta-lhe o que ela pretendia fazer com o seu filho. Mogui fica sem ação e a mãe continua.
“ – Que filho? Então você passa aquelas tardes com Genísio naquele salão e me pergunta que filho? Quando um rapaz e uma moça se deitam juntos...não, não precisa dizer nada, eu sei; quando isso acontece, nasce filho. Não sabia não?”
E acrescentava:

“ – Não sei para onde você pretende ir, Mogui, mas preciso dizer uma coisa. O melhor lugar para essa criança nascer é aqui. Ela é um Costaduro, e o lugar dos Costaduros é Vasabarros. Foi por isso que eu não sumi há vinte anos.
- E que adiantou?
- Nada. Mas umas frutas bichadas não inutilizam a fruteira.”
Mãe e filha abraçaram-se e Mogui perguntou:
“ – Se eu ficar, será que daqui a outros vintes anos estarei como estamos agora?”
A mãe responde-lhe que ela deve tentar, pois se ela também tivesse sumido, teria ficado sempre na dúvida. “- Aprenda uma coisa, Mogui. Este lugar tem uma maldição, e quem nos diz que não a levamos se sumirmos?”
A mãe desabafa com Mogui, confessa-lhe que o seu papel de maluca foi sua salvação, mas que poderia contar com o seu apoio.
Mogui pergunta a mãe sobre Andreu, e ela responde que ele não tem mais solução, pois “ele comeu o biscoito maldito, e gostou. Nós o perdemos.”
Mogui preocupa-se com o futuro, pois, um dia Andreu se casaria e seu filho seria o Simpatia.
A mãe a tranqüiliza dizendo que isso não irá acontecer, pois o Dr. Bolda já havia informado que Andreu não podia ter filhos e por isso ela desculpava o seu comportamento, afinal era uma forma de vingança.
E, quando chegasse á hora exata, ela devia juntar os cacos e prosseguir. Mogui têm dúvidas que ainda existiram cacos para juntar e a Simpateca-mãe responde:
“ – Sempre haverá, Mogui. Haverá sempre um chão, uma esperança.”

VII – CONCLUSÃO:
 
O fantástico da obra surge como a representação do absurdo de uma situação opressiva, em que todo cidadão tem o que esconder e todos são vigiados continuamente, em que os canais de comunicação da população foram cortados, sendo-lhes negados, assim, os instrumentos para o exercício de sua plena liberdade.

Veiga enquadra-se na categoria “o romance da sátira política surrealista”. Vale notar que “surrealista”, nesta acepção, não é muito diverso da acepção de “fantástico”, utilizada pelo restante da crítica, embora englobe títulos não ligados diretamente ao fantástico.
O próprio Veiga assume a importância do momento político e social do país em sua produção, embora se defenda de reducionismos em sua obra.
Em entrevista concedida em 1997, Veiga, ao responder o que achava sobre ser considerado um escritor fantástico, afirmou que se propunha apenas a escrever “uma literatura indagativa, que se perguntasse sobre o mundo, as pessoas, as crises, discutisse o sentido da vida e do mundo e, sobretudo dessa parte dele que nos coube habitar. Seria uma viagem a uma terra ignota. Afirma ainda que não se considera fantástico o estilo europeu, mas que provavelmente o é segundo o ponto de vista da Europa. O lado que nos coube habitar, visto da perspectiva européia, parece mesmo fantástico (...) E para eles esse nosso lado do mundo é uma surpresa porque eles já se esqueceram o que se passou por lá em outras épocas. Aqui temos leprosos e leprosários, lá eles só existem nas histórias de passado (...) Por isso eles nos olham e pensam que vivemos em um mundo fantástico.”
Interessante é notar que quando Veiga se refere ao “outro lado”, trata-se do lado europeu, civilizado, fantástico e ao referir-se o “aqui”, é a nossa dura realidade, o que revela um compromisso do escritor com o seu mundo e época, construindo uma realidade alegórica.
A realidade narrativa do autor é construída na contraposição entre dois universos, o cotidiano e o insólito; opostos entre si, entre os quais suas personagens podem ou não circular, mas cuja existência e questionamento são á base do conflito narrativo. Esse choque em grande parte é representado na ocorrência do fantástico na realidade cotidiana.
Em Vasabarros há um bom trecho da narrativa que se passa fora do reino. E mesmo dentro destes universos fantasiosos o antagonismo se mantém, principalmente entre a realidade instaurada e a realidade possível – amor marginal dos adolescentes em Vasabarros ou o sonho de fuga.
O jovem Genísio, ao sair da classe baixa e viver entre a realeza de Vasabarros ao lado de Mogui, com que teria sua iniciação amorosa, consuma uma pequena experiência que para ele é insólida, compensadora, cuja descrição o aproxima das narrativas infantis, embora desta vez o final trágico já seja antecipado na fugacidade com que a experiência é descrita.
Este fatalismo faz-se notar por toda a narrativa. O próprio reino de Vasabarros revela-se uma metáfora do sistema social, estratificado em castas, repleto de labirintos abandonados com as leis ancestrais sem função, confusos como os liames burocráticos.
O insólito (o desejo, o sonho, a ascensão social, as situações absurdas por que passam suas personagens) em Vasabarros é representado de diversas formas, tanto no comportamento de seus líderes quando nos sonhos e esperanças pessoais
A obra retrata que o totalitarismo gera indícios da perda da humanização aos habitantes, privados de seus direitos humanos: a vigilância constante, que leva a uma desconfiança e uma insegurança mútua; a falta de comunicação; a impossibilidade de locomoção; a perda da memória coletiva; a paralisação do tempo etc, desde modo, não estamos apenas frente à denúncia de um sistema de governo opressor específico, mas a uma indagação sobre os limites da percepção do homem frente aos fenômenos que o cerca.















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