quarta-feira, 24 de novembro de 2010

VINÍCIUS DE MORAES


OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO, 1956



I – TEMA:

“Operários” (1933) – Tarsila do Amaral

O tema do poema é descrever o trabalho como ação transformadora do homem sobre o mundo e a si mesmo. O trabalho é sua condição de transcendência e, portanto, sua expressão da liberdade. Mas, para atingir esse nível superior de condição de liberdade, não depende apenas da vontade e, sim, da conscientização do trabalhador. Inserido num contexto social que muitas vezes é condição de alienação e de desumanização, sobretudo nos sistemas onde as divisões sociais privilegiam alguns e submetem a maioria a um trabalho imposto, o trabalho, em vez de contribuir para a realização do homem, destrói sua liberdade.
“Portanto, a sociedade é a condição da alienação e da liberdade, é a condição para o homem se perder, mas também de se encontrar.”
Partindo desse pressuposto, o autor traça a travessia de um operário principiando pelo estágio de completa alienação, passando pelo despertar da consciência de sua realidade até atingir a plenitude de sua conscientização.
Dessa maneira, consciência e conscientização formam o binômio que serve de fio condutor para esta poesia social de Vinícius de Moraes.
No poema (abaixo na íntegra), é possível perceber a tomada de consciência de si, de do poder que tem e da sua capacidade de transformar a natureza.
Vinícius de Moraes marcou sua passagem com um olhar verdadeiro e uma ampla consciência da condição humana e deixou os versos do seu trajeto para os que querem viver mais do que as alienadas aparências possam trilhar em busca de uma vida mais significativa.


E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo: — Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu. E Jesus, respondendo, disse-lhe: — Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.

(Lucas, cap. IV, versículos 5-8).

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as asas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
É importante notar que o poeta não individualiza o operário, apresentando-o como um entre tantos operários despersonalizados, uma personagem-tipo, universalizando-o. Dessa forma, o poema atinge a dimensão ageográfica e atemporal.
O protagonista, nesses versos, aparece como sinédoque (a parte pelo todo) do trabalhador alienado e explorado, o “dominado”.
Quanto ao ponto de vista alegórico, o operário representa o próprio trabalhador que, em busca de uma condição existencial verdadeiramente humana, oscila entre os pólos da submissão e da conscientização.


De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.


Nesse momento, o autor apresenta o operário como um trabalhador que desconhece a importância de sua missão e, por isso mesmo, é um escravo de seu próprio trabalho.
Essa situação desperta certa comiseração pelo operário, pois fica clara a alienação verificada na multidão que empilha os tijolos com suor e cimento.
Esse operário, vítima da exploração capitalista, é um retrato deste Brasil não poético que as elites desejam ocultar.


“Mural Paubrasil”, Portinari
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Note-se que a figura estilística da enumeração utilizada pelo autor, gamela, banco, enxerga, caldeirão, vidro, parede, janela, casa, cidade, nação pertencem a três “campos semânticos conceituais”: instrumentos usados por pedreiros, partes que compõe uma casa e o espaço físico.
Através da gradação e da forma crescente desenvolvida nesse momento, o ritmo do poema acelera através do encadeamento de substantivos concretos e apresenta uma sequência de ideias de objetos e movimentos: construção + partes da construção + construção pronta + conjunto de construções + conjunto maior formado pelo conjunto anterior. Essa enumeração acompanha paralelamente a travessia do operário em construção ao operário construído.
Então, o humilde operário, constata que era responsável pelos objetos que estavam em sua mesa e, “tomado de uma súbita emoção”, percebe que era ele quem construía tudo o que existia: “casa, cidade, nação!”. Compreende a força das rudes mãos e a grandeza de ser um operário em construção.


Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.
A beleza que o operário vê em suas mãos está além das aparências; ele percebe que em suas mãos está seu poder de modificar o mundo, de transformar a natureza. Isso talvez se dê pelo fato de ele agora conseguir perceber a beleza que existe em sua construção e reconhecer a si mesmo nos produtos que cria.


“O lavrador de cafés”, Portinari.
Foi dentro dessa compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção,
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.
Quando o operário toma consciência de si entra em outra dimensão: “a dimensão da poesia”, do encantamento, do lirismo, dos sentimentos e da revelação. Isto é, sabe o que se passa com ele e com o mundo que o cerca. Conclui que é o verdadeiro dono de tudo que existe, uma vez que tudo é construído por ele.


“Operário”, Portinari.
E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.
O operário descobre que a sua pobreza era o resultado da riqueza do patrão e num momento de iluminação consegue superar a alienação e, enxergar a totalidade do mundo em forma de “poesia”. A percepção da própria importância na sociedade que ele construía; a compreensão do significado do exercício de sua profissão e a consciência de sua determinação, transporta-o ao mundo inteligível, o mundo na percepção das artes e do raciocínio. A consciência adquirida, o conhecimento compartilhado como outros operários e a possibilidade de dizer não contagiam o poema. Sua consciência política e social amadurece e ele se faz forte. E, o operário de construção torna-se um operário em construção.




Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação.
– "Convençam-no" do contrário
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isto sorria.
Dia seguinte o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!
Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.
Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher,
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.
Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!
Aos poucos o operário em construção vai se libertando do jugo do patrão e incentivando outros operários seguirem o seu caminho: tomarem consciência de sua força e de seu poder de construção.
Através da “dimensão da poesia”, o operário, antes dominado e cego, agora, domina a ampla região em volta da construção e, enxerga o que seu patrão jamais conseguirá perceber: a beleza, o lirismo e a arte em tantos objetos, pois está limitado, exclusivamente á visão do lucro.
O patrão, no início, acreditando ser fácil calar o operário solicita aos delatores que o convençam do contrário. Não obtendo resultados, o patrão utiliza de dois “argumentos”: primeiramente, como não poderia deixar de ser,
começam as agressões: cospem em seu rosto, como se fosse um traidor, quebram seu braço e ainda assim, o operário diz não; depois, segue o suborno.
O patrão, verificando que toda a violência sofrida não convenceria o operário, tenta convencê-lo com a proposta de poder, tempo de lazer e de mulheres, com a condição de que o mesmo abandone o motivo que lhe faz dizer não.
É bastante significativo este segundo argumento, pois é custoso ao patrão, por isso não foi o primeiro a ser escolhido. Procedendo assim, o poeta caracteriza psicologicamente a personagem “patrão”, aproximando-a inclusive da personagem chamada de tipo.
Mas nada consegue, pois o operário vê na sua liberdade o maior dos bens.
Com isso a questão da exploração ganha um agravante, pois ambos os argumentos utilizados pelo patrão são eticamente imorais. Dessa maneira, mostrando a desumanidade, a baixeza do patrão, o poeta propõe uma reflexão, comovendo o coração, despertando o lado humano, solidário dos possíveis leitores e ouvintes, através da força persuasiva dessa poesia, além do raciocínio lógico.


– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
Dessa maneira, além da exploração capitalista extremamente visível no poema, o poeta denuncia a questão do roubo, através da ideologia do patrão afirmando que: “Não vês o que te dou eu?”.
Segundo o patrão, o operário estava cometendo um engano, pois tudo o que ele, operário, possuía, devia-o a ele, o patrão. O que seria do operário se não fosse o patrão? Se não fosse o favor do patrão, aquele humilde operário não teria casa, nem comida. Esse é o discurso do capitalista contra o qual o poeta-operário se opõe.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.
O homem, com a amplitude da percepção que adquiriu, sente a enorme solidão dos que compreendem além das aparências a responsabilidade pela vida dos que padeceram e dos que viverão com esperanças. Assim, engajado no mundo e consciente de sua participação na história; vive-se a construção do operário, a sua coragem para negar à ordem, quando esta não representa o seu trabalho, a sua dignidade, encerrando sua grande edificação poética.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:


1. O poema “O Operário em Construção” de Vinícius de Moraes apresenta as seguintes partes:

A. Exórdio: em que o autor nos mostra um operário alienado, que não sabia “de sua grande missão”;

B. Desenvolvimento: que começa quando o operário desperta para a sua missão. É quando o operário, a partir de um momento de epifânia, compreende-se e, como disse Sartre: “compreender é modificar-se”, o operário começa a dizer não até o clímax que é quando o patrão tenta suborná-lo e ele resiste à “tentação”;

C. Peroração: que começa após o operário ter dito não até o final do poema.

2. Vinícius de Moraes explora no poema várias figuras: comparação, catacrese, enumeração, antítese, metáfora e outras, buscando a poética do texto. No entanto, as grandes figuras que dominam todo o texto são as metáforas do silêncio e da angústia e a antítese, simbolizando a oposição entre o operário e o patrão.
O operário, de início, aparece sempre calado e em grande introspecção. Mesmo durante a sua construção, ele é de poucas palavras. Talvez, pela falta de argumentos linguísticos ou por pura incompreensão de seus companheiros. Suas intervenções são curtas e objetivas. Para atingir o leitor, o poeta recorre às injustiças, às desigualdades, ao sofrimento e a comiseração como forma de convencimento.
3. No início do poema, encontra-se uma citação bíblica como força semântica e persuasiva referindo-se a evocação da tentação sofrida por Jesus e a comparação dela com a tentação sofrida pelo operário. Essa tentação era decisiva, em ambos os casos, para provar a honestidade, a idoneidade moral dos envolvidos (Jesus/operário). Há uma quase identificação entre Jesus/operário e o Diabo/patrão.
Essa citação de um texto por outro, ou essa conversação entre textos é o que hoje, define-se por intertextualidade.
Compare a passagem no poema e no Evangelho de Lucas:

De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser
(...)
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
e, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

No Evangelho de Lucas lê-se o seguinte:

“E o demônio o levou a um alto monte, e lhe mostrou de relance todos os reinos da terra, e lhe disse : Dar-te-ei todo este poder e a glória destes reinos, porquanto eles me foram dados, e eu os dou a quem bem me parece. Portanto, se prostrado na minha presença me adorares, todos eles serão teus.” (Lucas, IV, 1-13)

A intertextualidade nesses fragmentos é bastante evidente. O poeta alude ao fato bíblico, justapondo o operário e Jesus.
4. O entimema: é um silogismo feito a partir de premissas prováveis gerais das quais se extrai uma conclusão particular, sendo, portanto, uma forma lógica dedutiva.
O patrão está com o que é meu
Ele não quer me dar o que de direito é meu
Logo eu tenho o direito e dever de lutar pelo que é meu.
5. Tempo:
O tempo é o passado.
“Era ele que erguia casas”.
Ambos os verbos estão no pretérito imperfeito do indicativo.

6. Provas intrínsecas – lógicas:

Dentro do objetivo do autor, que é convencer o leitor de que o sistema capitalista é explorador e desumano, há sem dúvida, muitos silogismos.
O lugar comum mais patente nas argumentações desse poema é causa/consequência (efeito). Por exemplo:

1º argumento: Se tudo o que existe fui eu quem fiz
Logo, tudo isso me pertence

2º argumento: Tudo me pertence
Logo, não podes dar-me o que é meu

3º argumento: Se tudo me pertence
Logo, devo desfrutar dos benefícios que deles decorrem

4º argumento: Não desfruto do que me pertence
Logo, devo lutar para que me seja dado o que é meu

A conclusão a que se chega é extremamente coerente e que não nos deixa uma segunda alternativa. A argumentação é cerrada e bastante lógica. O capitalismo explora e brutaliza o operário. Esse operário deve acordar e lutar pelo que é dele. Deve ser um operário construído, aquele que não tão somente pede por justiça, mas também a exige.


7. Provas intrínsecas – psicológicas:

O desprezo que sentimos pelo patrão desse o primeiro momento dobra e triplica na sequência do poema. Isso porque, num primeiro momento, o patrão usa de violência contra o operário e, num segundo momento, ele tenta suborná-lo. Percebemos aí, claramente, com esse jogo de “paixões”, para usar um vocabulário caro a Aristóteles, o conhecimento profundo da psique humana por parte do poeta.

Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado.
(...)
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.


Dor (desprezo)- prazer representam os dois percursos contrários mas não contraditórios escolhidos pelo patrão.
No entanto o operário diz não e com isso, com essa resistência ao suborno, a admiração para com o operário cresce sobremaneira no leitor.


8. A relação dialética entre o senhor e o servo em Hegel e o patrão e o operário em Vinícius de Moraes:
Por vezes filosofia e poesia se misturam. Espaço e tempo também. Assim é que o hermético filósofo alemão Friedrich Hegel e o poetinha admirador das belezas tropicais Vinícius de Moraes se encontram. O pensador expõe sua complexa dialética no texto O senhor e o escravo, e o carioca através de sua poesia Operário em construção. Ambos os trabalhos trazem a mesma inversão de valores entre dominador e dominado. Os cenários e personagens é que são diferentes: um trata da relação senhor x escravo, e o outro da relação patrão x operário. Mas a dialética, nesses dois casos, é a mesma: o dominado, ao tomar consciência de si, de sua força e de sua importância, sai desse papel e percebe que, na realidade, o dominador é que depende dele e não ao contrário.
Vamos analisar primeiramente partes do texto de Hegel presentes em seu livro Fenomenologia do Espírito e vejamos como se dá essa relação dialética para o filósofo. De início ainda não está definido quem é o escravo e quem é o senhor. Há um combate, e aquele que se torna o senhor é o que prefere morrer a perder a liberdade; o que se torna escravo opta por continuar vivo, mesmo que não seja mais livre:
Buscar a morte do outro implica arriscar a própria vida. Por conseguinte, a luta entre duas consciências de si é determinada do seguinte modo: elas se experimentam a elas próprias e entre si por meio de uma luta de morte. Não podem evitar essa luta, pois são forçadas a elevar ao nível da verdade sua certeza de si, sua certeza de existir para si; cada uma deve experimentar essa certeza em si mesma e na outra. Só arriscando a própria vida é que se conquista a liberdade. (...) O indivíduo que não arriscou sua vida pode certamente ser reconhecido como pessoa, mas não atingiu a verdade desse reconhecimento como consciência de si independente.
No trecho a seguir é mostrado o momento em que o indivíduo torna-se senhor, isto é, quando toma consciência de si. Isso, porém, só ocorre porque tem uma outra consciência (a do escravo) que o reconhece enquanto tal:
O senhor é a consciência que é por si mesma, mas essa consciência, aqui, está além de seu puro conceito: ela é consciência para-si que é mediada consigo mesma por uma outra consciência, notadamente por uma consciência cuja natureza implica o fato de ela estar unida a um ser independente ou às coisas em geral. O senhor está em relação com esses dois momentos: com a coisa enquanto tal, objeto do apetite, e com a consciência cujo caráter essencial é a coisa externa.
O senhor é independente, graças à dependência que o escravo tem dele; sendo assim, não é verdadeiramente livre:
O senhor tem com o escravo uma relação mediata em virtude da existência independente, pois é precisamente a ela que o escravo está preso, ela é sua cadeia e da qual não pode se desprender na luta, o que o levou a mostrar-se dependente, posto que possuía sua independência numa coisa externa.
O senhor domina o escravo, uma vez que na luta contra ele sai vitorioso. O escravo passa, então, a ser propriedade do senhor e a trabalhar para ele.
Quanto ao senhor, ele é a potência que domina esse ser externo, pois provou na luta que o considera como puramente negativo; uma vez que ele domina esse ser e que esse ser domina o escravo, o senhor também o domina. Desse modo, o senhor se relaciona com a coisa por mediação do escravo; este último, enquanto consciência de si, relaciona-se negativamente com a coisa e a ultrapassa; mas ao mesmo tempo a coisa é para ele independente, e o escravo não pode, por meio de sua negação, chegar a suprimi-la; ele só faz trabalhar.
O senhor toma o escravo como sua propriedade e este serve para saciar suas vontades; não consegue enxergar o escravo como um ser que tenha consciência de si. Para ele, o escravo só existe para saciar seus desejos, sendo força de trabalho.
Em compensação, para o senhor, graças a essa mediação, a relação imediata torna-se a pura negação da coisa ou o seu gozo; aquilo que o apetite não conseguiu, ele o consegue; domina a coisa e se satisfaz na fruição. O apetite não chega a isso por causa da independência da coisa; mas o senhor, ao colocar o escravo contra ela e si próprio, só entra em contato com o aspecto dependente da coisa, fruindo-a puramente; deixa o aspecto independente da coisa para o escravo que a trabalha.
Em suma, Hegel está investigando duas consciências (para simplificar, por “consciência” entendamos “pessoas”): uma que ganhou o combate e outra que deu sua liberdade em troca de sua vida. Aquele que preferiu se deixar escravizar a morrer e torna-se escravo (também) da vida; aquele que não se deixou aprisionar, arriscando sua própria vida, mostra-se superior a ela. O sujeito escravizado pelo vencedor não é morto por este, torna-se servo (servus = conservado) do senhor que, por sua vez, toma-o como uma espécie de troféu, de retrato de sua superioridade, de sua vitória.
O senhor, porém, não é senhor “em-si”, ele apenas tem essa posição em relação ao escravo. O escravo não trabalha para si; trabalha para o senhor, ele se apropria dos objetos existentes na natureza e os modifica para dá-los ao senhor. Tais objetos são transformados, saem de seu estado bruto e se tornam objetos acabados cuja finalidade é dar prazer ao senhor; este, por outro lado, não tem relação direta com as coisas, pois sua relação é mediada por seu servo.
A relação do escravo com a natureza é imediata: ele cuida do jardim, cozinha os alimentos, acende o fogo... Tudo para proporcionar conforto, prazer e saciedade ao senhor, que, de sua parte, não sabe fazer nada disso; encontra-se cada vez mais distante da natureza. A liberdade do senhor existe devido à dependência total, à submissão total do escravo em relação a ele.
Em um dado momento, tal situação inverte-se: o senhor tem seu contato com a natureza mediado pelo escravo; não tem nenhum domínio sobre ela; torna-se por isso cada vez mais dependente do escravo e, nesse sentido, é um escravo de seu escravo. Não sabe fazer nada com suas próprias mãos. O escravo, apesar de ser socialmente submisso ao senhor, tem o poder, sabe como transformar a natureza; por isso, ele é, nesse sentido, livre, dono de si, não depende de ninguém. Ele domina a natureza, ele é o senhor dela. Assim, pode-se dizer que, na relação escravo x senhor, o escravo passa a ser o senhor do senhor, pois ele tem o domínio da natureza e o senhor, não.
Mas para que ambos cheguem a uma síntese, a uma conciliação, o senhor deve aprender com o escravo como chegar ao domínio de si mesmo.
No poema, é possível perceber o momento da tomada de consciência do operário (servo), quando ele se dá conta do poder que tem, da sua capacidade de transformar a natureza. Vê que tudo que existe (“garrafa, prato, facão”) foi feito por ele.
O trecho em que o operário olha sua mão e percebe que não há no mundo coisa mais bela pode, de início, parecer uma contradição, já que de modo geral a mão de um operário tende a ser grossa, rude, cheia de calos; como poderia então ser bela? A beleza que ele vê está além das aparências; ele percebe que em suas mãos está seu poder de modificar o mundo, de transformar a natureza, assim como o servo de Hegel. Quando o operário toma consciência de si entra em outra dimensão (“a dimensão da poesia”). Isso talvez se dê pelo fato de ele agora conseguir perceber a beleza que
existe em sua construção e reconhecer a si mesmo nos produtos que cria. Ele vai aos poucos se libertando do jugo do patrão e incentivando os outros operários a fazerem o mesmo, a tomar consciência de sua força, de seu poder de construção; vê que é o verdadeiro dono de tudo que existe, uma vez que tudo é construído por ele.
O patrão, ao se dar conta de tal reviravolta, tenta por todos os meios enfraquecer o operário: através da violência, do suborno... Mas nada consegue, pois o operário vê na sua liberdade o maior dos bens.
Da mesma forma que acontece com o servo hegeliano, o operário passa a ter consciência de que, na realidade, o patrão é seu dependente. Hegel, porém, vai além de Vinícius, ele pretende resolver essa inversão de papéis através do equilíbrio dessas duas forças. Tal teoria vem a ser fonte de inspiração para Marx. Mas aí já é papo para outro artigo...

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