terça-feira, 23 de novembro de 2010

MÁRIO DE ANDRADE


SP. 1893-1945

“CONTOS NOVOS”, 1947



“Eu também me gabo de levar de 1927 até 42 para achar o conto e completá-lo em seus elementos.”



I - INTRODUÇÃO:


Mário de Andrade, através de uma viagem fantástica de experiências memorialistas e servindo-se do fantástico, elabora uma análise profunda da sociedade paulista de sua época.


“Contos Novos” escrito num período de crise pessoal teve publicação póstuma e reúne narrativas da maturidade artística do autor, marcadas pela maior depuração compositiva e estilística e elaborados cuidadosamente em linguagem coloquial.
Mário explora, com visão crítica, a característica psicológica das personagens, dando aos contos um profundo mergulho na realidade social e psíquica do homem brasileiro.
São contos de estrutura moderna, que acolhem as principais correntes ficcionistas que marcaram a Literatura Brasileira das décadas de 1930 e 40. Mais do que os fatos exteriores, os relatos procuram registrar o fluxo de pensamentos das personagens, retratando com grande sensibilidade, o cotidiano em dois tipos: - os narrados em primeira pessoa, com elementos autobiográficos apresentando os traumas da infância oriundos de uma educação tradicional e os em terceira pessoa, onde o narrador onisciente é tão vivo a ponto de emaranhar-se indistintamente.
O autor equilibra realismo crítico com lirismo emocional buscando no passado um saudosismo hipócrita, porém sem arrependimentos, vistos com amadurecimento pelo autor.


II – TEMPO E ESPAÇO:


“Contos Novos” é resultado de um meticuloso mosaico de elaboração literária coexistindo espaço e tempo que vão de quatro até dezoito anos de preparação. Este é o caso de “Frederico Paciência”, cuja gestação criativa foi de 1924 até 1942.
A relação personagem-espaço também recebe tratamento novo. Os tipos humanos agora focalizados crescem em densidade, e donos de uma consciência dividida e até contraditória, exprimem com mais nitidez sua relação problemática com o mundo. Já o espaço, perde muito da cor local, mas em compensação entre em uma relação mais dinâmica com o conflito das personagens. Assim, nos contos em primeira pessoa, vários espaços são sugeridos ou alguns de seus detalhes são descritos de modo a ajudar na caracterização das personagens.
Por se tratar de contos de introspecção, há, também, predominância do caráter memorialista; portanto, tempo psicológico. A quebra da rotina, o alcance do clímax e a volta ao seu estado anterior são exemplos disso.
O tempo que transcorre é de semanas ou de anos, numa organização linear, interrompida apenas por conjecturas do narrador. A relação entre as personagens ou deles consigo mesmos é mais importante que o uso que fazem do espaço.
Em “O Poço”, quarta narrativa do livro, o frio cortante do inverno paulista concorre para exasperar o tratamento desumano recebido pelos trabalhadores da fazenda. Ou ainda, o sarilho do poço, máquina de trabalho, aos poucos e transforma num prolongamento dos operários através da personificação: “José e o companheiro viraram o cambito. Albino desapareceu no poço. O sarilho gemeu, e à medida que a corda desenrolava o gemido foi aumentando, até que se tornou num uivo lancinante.”
Nos “Contos Novos”, a tônica é a dimensão psíquica e afetiva da relação indivíduo/mundo. As nove narrativas do livro, apesar da diversidade de registros e técnicas empregadas, são atravessadas pelo mesmo gosto da análise introspectiva. Mesmo em um conto de claro contorno sócio-histórico como “O Poço”, a sondagem psicológica é determinante no desenrolar da ação.
Fato semelhante ocorre em “Primeiro de Maio”, narrativa de ritmo cômico e documental de ambientação sócio-histórica, sobre uma personagem sem identificação humana, sendo massificada por um número 35, pobre carregador da Estação da Luz, e o relato da festividade controlada pelas forças do governo, devido á comemoração do grande feriado dos trabalhadores durante o Estado Novo (1937-45).
Em “Contos Novos” encontra-se grande afinidade com o projeto estético nacionalista formulado pelo autor nos anos 20, porém, há uma diversificação bem variada de registros temáticos: o memorialismo dos contos evocadores da infância e da adolescência (“Vestido de Preto” e “Tempo da Camisolinha”); a (de) cifração metafórica dos anseios sexuais de uma professora (“Atrás da Catedral de Ruão”); a narração objetiva, direta das relações antagônicas entre um fazendeiro e seus peões (“O Poço”); o relato quase “behavorista” de um homem sem nome (“Nelson”) entre outros.


III – FOCO NARRATIVO:

Dividem-se em dois tipos:
- Primeira pessoa - caráter memorialista
- Terceira pessoa - narrador onisciente
Nos dois casos prevalece a aproximação do narrador-personagem, desencadeando o discurso indireto livre, onde se confundem a voz do narrador com a voz dos personagens.



IV- PERSONAGENS:


Os contos em primeira pessoa (“Vestida de Preto”, “Frederico Paciência” e “O Peru de Natal”), o narrador é o mesmo, em tempo adulto que revive as emoções às vezes trágicas de seu passado.
Nos contos restantes, em terceira pessoa, as personagens são marcadas por problemas íntimos, reprimidas, solitárias, onde o narrador explora a análise psicológica de suas personagens, trazendo a problemática do comportamento humano de sua época.


V – LINGUAGEM:

-Metalinguagem;
-Paródia;
-Linguagem "brasileira" (aproximação do coloquialismo à linguagem literária);
-Neologismos;
-Derivação imprópria;
-Reprodução do falar da personagem;
-Anglicismo.



VI – CONTOS:

“Vestida de Preto”



"Tanto andam agora preocupados em definir o conto que não sei bem se o que vou contar é conto ou não, sei que é verdade."

Dessa forma, inicia-se o conto, "Vestida de Preto", em primeira pessoa pelo narrador-personagem Juca, que se confunde com fatos autobiográficos do autor, para que de maneira fluente, relate acontecimentos marcantes que ocorreram em sua infância/juventude e adolescência.
A descoberta da sensualidade nos tempos de criança faz com que a personagem sinta-se um solitário e através de flash do passado reviva momentos de grande significação afetiva em sua vida madura.
Juca relata a partir de suas lembranças as suas experiências amorosas e afirma, no final do conto, que foram quatro os amores da sua vida e que fazem dela “uma grave condensação interior”
Maria, uma prima que freqüentava a sua casa, foi seu primeiro amor, não se pode dizer que fosse um namoro de verdade, tinham cinco anos, mas, quando juntos e sozinhos sentiam-se bem.
O primeiro e único beijo só veio a acontecer lá pelos nove ou dez anos. A criançada se reunia na casa da Tia Velha e por falta de espaço para correrem, brincavam "de família". Dividiam-se em casais; os menores ficavam brincando de fazer comidinhas, amamentar bonecas e os maiores, corriam depressa para os quartos para brincarem de marido e mulher.
Juca e Maria sempre formavam um casal. Na verdade, Maria, o amor de Juca escolheu-o e foi escolhida. Como os demais quartos já estavam ocupados por outras crianças, naquele dia, Juca e Maria se ajeitaram num cômodo que servia de despensa de guloseimas de um chá que seria oferecido naquele dia, mais tarde.
Nessa ocasião, Maria fitou um travesseiro, procurou uma toalha de banho que serviria de lençol e disse que já era tarde e convida Juca para dormir.
Juca ficou “estarrecido, olhando com uns fabulosos olhos de imploração para o travesseiro quentinho, mas quem disse travesseiro ter piedade dele”.
Juca teve a sensação de estar cometendo um pecado. O travesseiro era pequeno demais, tendo em vista a cabeleira farta de Maria.

“Mas eu é que nunca havia de pôr a cabeça naquele restico de travesseiro que ela deixou para mim, me dando as costas. (...) Mas imaginem numa cabeleira explodindo, os famosos cabelos de Maria, citação obrigatória e orgulho da família. Tia Velha, muito ciumenta por causa duma neta preferida que ela imaginava deusa, era a única a pôr defeito nos cabelos de Maria”.

Primeiramente disfarçou dizendo estar conferindo a conta do armazém, depois, deitou-se, tomando extremo cuidado para sequer tocar no vestido de Maria. Porém, o cabelo de Maria tocava em seu nariz e Juca se vê desesperado em cair no ridículo e espirrar, afinal, "marido não espirra".
Tomado de uma sensação inexplicável na época, Juca não resistiu e foi enterrando a sua "vida" naqueles cabeços, até que seus lábios tocam no pescoço de Maria e ele a beija. Maria não se retraiu. Como se ela também estivesse se entregando.



“O beijo me deixara completamente puro, sem minhas curiosidades nem desejos de mais nada, adeus pecado e adeus escuridão.”

Tia Velha os surpreende e por mais que Juca tente disfarçar uma inocência, ele percebe o olhar reprovador da tia.
A partir deste dia o encantamento que Juca julgava que Maria também sentia foi quebrado que passa tratá-lo com indiferença.
Os anos passaram. Juca não se saía muito bem de notas, principalmente em Matemática. Sentia-se um caso perdido; porém, seu amor por Maria crescia.
Um dia, chegando da aula particular, enquanto os demais já estavam em férias e passando pela varanda onde se encontravam Maria e outros, Juca escuta um comentário dirigido à Maria - "seu namorado acabara de passar". Ela, automaticamente, o esnobou na frente de outros primos, dizendo em alto e bom tom que não casava “com bombeado". Para Juca era o fim do seu relacionamento e a partir desse dia, decidiu não amar mais Maria.
A família de Maria era abastada e já tinha impedido o casamento de outra filha com um rapaz diz que embora ótimo, era pobre.

“Com certeza era o fim! Ele pobre o bombeado. O que poderia esperar?”

Com passar dos anos, Juca, sem abandonar seu jeito "perdido" principiara gostar de estudar, devorava bibliotecas, até chegava a fazer conferências...
Maria por sua vez, namorava “com Deus e todo mundo”, noivava, "desnoivava".
Aos vinte anos, após desenlace de um noivado casa-se com um diplomata e viaja para uma embaixada européia.
Enquanto isso, Juca namorava a Violeta durante o dia e à noite tinha a Rose, adquirindo o apelido de “Jardineiro”.
Cinco anos depois, às vésperas do retorno de Maria para o Brasil, sua mãe queixosa deixa escapar que Maria sempre gostou dele e que ele nunca a quis. Dele era a culpa por Maria estar distante da família.
Juca certificou-se naquele momento que esteve fugindo o tempo todo, que “Maria é que amara sempre, como louco” e tentava enganar-se com Rose, Violeta e com os estudos.

“Maria transformando-se no sofrimento. Amaram-se e trocaram-se por um engano de amor. Maria transformando-se no Juca imperfeitíssimo que fora na época de escola. Agora era Maria fazendo extravagâncias e aventuras, passando de mão em mão.“

Decide recepcionar Maria. Enquanto esperava em uma saletinha, sente que havia mais alguém na sala. Vira-se e depara-se com Maria, toda vestida de preto.
Ante a visão de Maria vestida de preto desnortea-se, seu corpo tornou a soluçar todinho igual quando eram crianças. Sentiu que Maria era toda sua, que ela se entregava naquele olhar. Ficou tão pasmo que não conseguia pronunciar palavra nenhuma.
Chegou a imaginá-la num quarto de hotel. Mas, era impossível, para Juca, Maria era a perfeição e apesar de todo o seu desvario interior, dá boa noite e vai embora.
Hoje, sentindo-se solitário, conclui que quatro amores o acompanham: o primeiro, aos cinco anos quando despertou o seu amor por Maria; o segundo, aos dez anos, na brincadeira de “fingir” de família com Maria; o terceiro, aos quinze anos quando decidiu esquecê-la; e, o quarto; quando revê Maria vestida de preto.
Nunca mais viu Maria, que continua passando de mão a mão. Mas, dentro de Juca, Maria...Maria, sempre existirá.



“O Ladrão”



Conto escrito em terceira pessoa.
No meio da noite, um bairro suburbano de operários é despertado por gritos de: “- Pega!”
E seguida, os moradores assustados e sobressaltados acompanham a perseguição de um suposto ladrão, interrompendo sua rotina.
Janelas se abriam, o povo saía e a tranquilidade da noite, foi interrompida de um êxtase, onde todos unidos deixaram seu mundo interior e partiram para um problema único: - o ladrão.
Um menino perdido no meio do corre-corre; comentários paralelos; pijamas tímidos; olhares medrosos e a ânsia de sentirem úteis misturavam-se ressabiados naquele bairro, promovendo um encontro extraordinário entre os moradores.
O rapaz que gritara uma vez torna a gritar e pergunta ao guarda de plantão, se vira o ladrão.
O guarda, estatelado, sem saber o que dizer, nem bem balbuciou uma letra e o rapaz saiu em carreira desabalada “porque lhe parecera ter divisado um vulto correndo na esquina de lá”. Como outras pessoas acorressem da mesma direção do rapaz, o guarda se viu coagido a incentivar a busca.
Em poucos minutos, todo o bairro estava agitado. Alguns, após ouvirem os acontecimentos, retornavam aos seus lares; outros aderiram o grupo dos perseguidores.
O rapaz, que anunciara o fato, ficou de tocaia numa esquina e nomeou uma preta ficar de vigia e gritar caso visse o ladrão “e se atirou na disparada, desprezando escutar o Eu não! Deus te livre! da preta”, que retirou-se da janela, pois não queria envolver-se.”
O grupo já era composto por oito perseguidores, exceto “o velho que já não podia nem respirar da corridinha”.
O grupo parou “em frente de uma das casas, quase no meio do quarteirão. Eram dois sobradinhos gêmeos, paredes-meias, na frente e nos lados opostos os canteiros de burguesia difícil.”
Alguém vira o ladrão pular num jardinzinho, mas já não importava quem fora. Três curiosos, na calçada defronte, mostravam amedrontados e desculpavam-se por suas covardias.
Todos estavam às janelas, “botando um ar de festa inédito na rua”.
Surge, então, a possibilidade do ladrão estar escondido em uma das casas. Todos ficam aterrorizados. E em seguida, a solidariedade. Invadiam residências. A operária com suas três crianças, uma com apenas de oito anos gritava “como se a tivessem matando”, fora transferida para a casa da italiana.
A italiana “agarrou a menina nos braços, escudando-a com os ombros contra tiros possíveis, fugira pra casa”.
Outro vizinho ajuda-a acompanhando a mulher com o filho de colo em direção à casa da italiana.
Uma moça grita ter visto o ladrão e um dos três covardes confirmou. Então, saem em direção do ladrão.
A preocupação da mãe com seu filho asmático correndo desvairado pelas ruas frias, tentando convencê-lo a se agasalhar e voltar para casa emociona todos os presentes.

“Organizou-se uma batida em regra, eram uns vinte. As demais casas vizinhas estavam sendo varejadas também, quem sabe. Alguns foram-se embora que tinha muita gente, não eram necessários mais”.

Sem antes, de comentarem fatos passados e solidarizarem.
Procuraram por toda a parte e nada encontrando, os perseguidores retornam “para as calçadas outra vez. Ninguém desanimara, no entanto. Apenas despertara em todos uma vontade de alívio, todos certos que o ladrão fugira, estava longe, não havia mais perigo para ninguém”.
Tudo era vasculhado e nada, apenas a sensação de alívio. Todos estavam fora de perigo. Sentindo-se seguros, conversam amenidades.
Nisto “veio chegando, era a vergonha do quarteirão, a mulher do português das galinhas” Um clima pesado abateu o grupo, pessoas honestas afastavam-se, facilitando aos homens oportunistas à ocasião. Todos que chegavam à sua porta entravam em casa, lá ficando tempo lá dentro, era o mulato da marmita, o padeirinho da tarde, o jornaleiro, o entregador da noite.
A mulher exalava um “cheiro de cama quente, corpo ardente e perfumado recendendo”.
Surge, então, a possibilidade do ladrão estar escondido em uma das casas. Todos ficam aterrorizados. E em seguida, a solidariedade. Invadiam residências. A operária com suas três crianças fora transferida para a casa da italiana.
A mulher das crianças. Vendo sua casa escancarada, com ajuda do guarda voltou, com as crianças, e o guarda prometera ficar de vigia.
Tudo se resolvia tranquilamente. Seu Nitinho, compadre da senhora das três crianças dormiria ali, para protegê-las, a italiana coava um café e a valsa triste, do moço magro, calava-se em seu violino. Em um instante todos o aplaudiam, finalmente era o seu reconhecimento.
Soaram duas horas. As pessoas se recolhiam. A "vergonha do quarteirão" plantada em sua porta, sentindo-se uma deusa, sendo corretada por sete homens. De repente, tudo se dispersou. A portuguesa solitária entra em sua casa, desejosa de carinhos, foi deitar-se, deitar-se sozinha.
Tudo voltava ao seu normal. Somente o violinista tinha esperança que uma moça linda, um milionário, um fotógrafo, reconhecesse o seu valor e pedisse bis.
Na outra esquina um grupo de três conversavam - mas é que lá passava o bonde.



“Primeiro de Maio”



Um trabalhador resolve não trabalhar no dia primeiro de maio e sai pelas ruas de São Paulo, para comemorar o seu dia - Dia do Trabalhador.
Era o 35, um carregador da Estação da Luz.
Primeiro de maio, seu dia. Quando comunicara aos companheiros de serviço que tiraria folga nesse dia, foi caçoado, afinal o trabalho deles não tinha feriado.
Mas, 35 estava decidido. Era seu dia e ele merecia.
Logo cedo, banhou-se, barbeou-se e saiu.
Não tinha pressa; tinha, sim, medo. Os jornais publicaram a existência de "motins" em Paris, Cuba, Chile, Madri. - mas era tão longe! Para ser sincero, nem sabia onde realmente ficava. Na verdade nem tinha medo. Tinha raiva dos policiais.
Havia “a esperança dum turumbamba macota (grande briga), em que ele desse uns socos formidáveis nas fuças dos policiais.”

“Afinal o 35 saiu, estava lindo. Com a roupa preta de luxo, um nó errado na gravata verde com listinhas brancas e aqueles admiráveis sapatos amarelos que não pudera nem comprar. O verde da gravata, o amarelo do sapato, bandeira brasileira, tempos de grupo escolar...e o 35 comoveu num hausto forte, querendo bem seu imenso Brasil, imenso colosso gigante, foi andando depressa, assobiando”.

Na distração deu-se conta que estava fazendo o caminho do serviço. Parou. Pensou como deveria ser um verdadeiro Primeiro de Maio. Como fazer de seu dia de trabalhador uma verdadeira comemoração. Era sua homenagem!
Lembrou-se da moça do apartamento. Será que ela queria outra vez?
Pensou fazer o retorno, mas decidiu que passaria pelo serviço e daria um bom-dia festivo e, depois, seguiria à cidade.
Tudo estava fechado por causa do feriado. “Pouca gente na rua”.
Com certeza, estavam almoçando para chegarem cedo ao jogo reservado para celebrar o grande dia.
Não encontrou nenhum conhecido, comprou um jornal e decidiu entrar num bar para tomar café. Aliás, foi difícil encontrar um bar aberto.
Em seguida, foi procurar um banco de jardim para ler o jornal. Novamente quando deu por si, encaminhava-se para a Estação da Luz. Ficou contrariado, afinal, havia muitos jardins na cidade. Lembrou-se do vale do Anhangabaú, mas era jardim da Luz que ele mais conhecia.
Novamente encontrou-se com os companheiros do trabalho, causando-lhe um mal-estar – todos trabalhando e ele comemorando.
Ao escolher um banco, notou que dali dava para os companheiros o verem e decidiu procurar um banco escondido para evitar que eles caçoassem.
Havia um artigo sobre os "operários da nação" que o comoveu muito. O 35 amava a pátria. Se pedissem para ele matar - mataria. Em seguida, as notícias ruins: - proibição de comícios na rua, passeatas e motins. Uma notícia o entusiasmou, haveria uma reunião proletária, com o Secretário do Trabalho, no Palácio das Indústrias. Tremeu. O lugar era fechado, será que tinham intenção em bater nos trabalhadores. Decidiu não ir.
Mudou de ideia, iria sim e se tivesse pancadaria, bateria também. Outra notícia. Os deputados trabalhistas chegariam às nove horas. Iria para lá. Mas já era tarde. Deu uma volta, para evitar passar pelos companheiros da estação e seguiu.
Chegou. Eram nove e quinze e não havia nada. Perguntou para uns carregadores que conhecia e eles não tinham reparado em nada, decerto um grupinho que parou na porta da estação para tirar fotografia.
Estava infeliz, decepcionado e com fome. Decidiu ir a pé para casa “fazendo um esforço penoso para achar interesse no dia”. Lembrou-se dos companheiros com suas conversas divertidas, piadas, mulheres de passagem... E a moça do apartamento. Qual desculpa arranjar para ir lá?
Com certeza ela teria ido para Santos, “no piquenique da mobiliadora, doze rans o convite.”
Piquenique, futebol, percebeu que todos estavam ocupados.
Encontrou o 486, “grilo (policial) quase amigo que policiava na Estação da Luz”. Mas o policial “achara jeito de não trabalhar aquele dia porque se pensava anarquista, mas no fundo era covarde”.
Ia dar a volta para evitar passar no Jardim da Luz e chegou a perder a fome.
Não eram treze horas e o 35, desembarcou no Parque D. Pedro II, outra vez.
Estava na frente do Palácio das Indústrias, mas ficou indeciso se devia entrar.
Viu alguns manifestantes, que a polícia mantinha sob controle.
Nas sacadas do Palácio, deputados e moças bonitas, que olhavam para o parque, na direção deles. Nisso apareceram “três homens bem vestidos, via-se que não eram operários, se dirigindo aos grupos vagueantes” dando-lhes ordens para que entrassem no Palácio, pois “a festa é lá dentro” e dizendo que no parque ninguém poderia ficar. Isto fez os grupos se dispersarem, despertando no 35 um ódio, “um desespero tamanho” que o fez tomar um bonde que passava, sem se despedir do 486, “com ódio do 486, com ódio do Primeiro de Maio, quase com ódio de viver”.
Lembrou-se da fome, na realidade necessitava de alguma ocupação, desceu no Largo da Sé e ficou olhando a multidão.
Pelas dezessete horas, agora com fome de verdade, começou tomar consciência da verdadeira realidade.
“Acabara por completo a angústia. Não pensava, não sentia mais nada. Uma vagueza cruciante nem bem sentida, nem bem vivida, inexistência fraudulenta: cínica, enquanto o Primeiro de Maio passava”.
Encaminhou-se para a Estação da Luz, para o seu mundo e seus companheiros.
Entrou num bar, comeu bastante pão com manteiga e café, “comprou uma maçã bem rubra”. Os amigos se ajuntaram ao seu redor, queriam saber sobre as comemorações. O 35 sentiu vontade de mentir, falar que estava feliz, contar como fora a celebração, mas não teve coragem. Havia chegado um trem. Os carregadores puseram-se em atividade. O 22 correu para atender a uma família e certificou-se que as malas não cabiam no carro. O 22 era velhote e ficou com as 4 malas pesadas na beira da calçada. O 35 aproximou-se, escolheu as duas mais pesadas e o ajudou. O 22 pensou que o 35 queria dividir o ganho. Mas, 35, deu-lhe um soco que o fez cambalear para trás e ambos saíram rindo.


“Atrás da Catedral de Ruão”


Conto em terceira pessoa. Retrata a temática da sexualidade reprimida, sublimada, através das fantasias sexuais de uma mulher de quarenta e três anos, virgem, puritana, extremamente solitária, que por um instante mergulha na fantasia e se liberta da solidão.
Mademoiselle era tutora de duas adolescentes, Alba e Lúcia, quinze e dezesseis anos, cujo pai separou-se da família.

“Elas viveram de colégio em colégio, de língua em língua, de esporte em esporte. Seria injusto afirmar que sabiam tudo e mesmo ignoravam coisas primárias, fáceis de saber, mas que nunca se surpreenderam naquele aprendizado da malícia (...). Mas isso elas compensavam por um saber em excesso de coisas imaginosas e irrealizáveis, que ficaríamos bem estomacados de saber, nós, usadores do mundo.”

A mãe das garotas, Dona Lúcia, tinha confiado a Mademoiselle a educação de suas filhas, recém chegadas da Europa. Estas, cheias de insinuações maliciosas aprendidas em suas viagens, fazem, frequentemente, comentários sobre sexualidade, deixando a virgem professora de francês constrangida.

“E Mademoiselle sempre na sua blusa alvíssima de rendinhas crespas, caíra naquele mundo mágico de anseios que era o das duas adolescentes.”

A professora caía naquele mundo mágico de anseios das duas adolescentes, insistindo para que elas contassem detalhes sobre suas viagens. Aproveitando-se das experiências narradas pelas garotas para exercitar suas mentalizações sexuais.
“Mademoiselle estava tomada pelo vendaval do mal do sexo”, sentindo aflorar em seu corpo aquela sensação "afrosa", deixava-se levar em deslize.
As garotas percebendo a situação usam de espírito malicioso, perguntando-lhe:
"- Est-ce que vons avez froid par cette chaleur ?"
Frase que apresenta um sentido ambíguo, pois o termo "chaleur" pode ser traduzido tanto por "calor" quanto por "sensualidade".
Mademoiselle tentava disfarçar empregando reticências. Sentia-se melhor com suas fantasias eróticas e era ela mesma a completar com malícia as frases inventadas pelas alunas...Imaginava a desvirginação escandalosa das ruas...além de propor assuntos mais picantes, “salgados”, como afirma o narrador.
Mademoiselle não compreendia porque acontecia essas "excitações sexuais" , agora aos seus quarenta e três anos. Ela já tinha até amado duas vezes, mas nunca desejado, conservava-se virgem.
Um dia, enquanto liam no jardim, elas observam um casal de operários de mãos dadas, que passa rindo muito, despertando excitação.
Então, Madeimoselle deixou a leitura de lado e sugeriu que dessem as mãos para refletirem sobre a sensação recebida pelo calor humano.
Elas não conseguiram sentir nada e Madeimoselle aproveitou-se para concluir que pessoas ignorantes é que faziam essas porcarias inúteis... Por exemplo, beijar na boca é uma porcaria ... "uma carne viva contra uma carne viva".
Madeimoselle provocava as crianças a elaboraram frases, para que ela concluísse com malícia. Chegou a comentar que um dia viu um homem de barba, atrás da catedral de Roven... e quando percebeu que estava indo longe demais, interrompia o seu falatório com reticências ou com a expressão "quelle sottise" (que bobagem). Aguçando assim mais a curiosidade das crianças que insistiam para que continuasse. E, Madeimoselle as repreendia, enquanto elas respondiam: Cochonnerie! (Imundície).
A professora sentia-se atraída pelas igrejas e fantasia o que pudesse acontecer atrás delas. Então, as garotas aproveitaram-se da ocasião e comentaram sobre um homem que ficava atrás da Catedral de Ruão.

“Mademoiselle fitou indignada a menina. Chegou a estremecer na visão. Pois ela bem não tinha visto o que se passara atrás da catedral de Ruão!”

Um dia a professora resolve fazer uma confidência às meninas. Dizia que há dias sentia como se uma "personagem" a tocava.
Novamente aparece um sentido ambíguo, onde as meninas perguntando se isto era "mal" e, a professora entende como um trocadilho male. (macho)
Em seguida, Madeimoselle se desculpa, afirmando ter trocado as fronteiras. Enquanto as garotas falaram do bem e do mal. Ela tinha pensado que estivessem falando do malefício dos homens.
Desse da infância Mademoiselle trazia uma canção antiga que narrava a história de Lisette buscando a primeira "paquerette" (margarida, malmequer) da primavera e encontra-se com um cavaleiro na "lisiére du bois" (fronteira do bosque) que a carrega na garupa e torna-se seu príncipe encantado.
Mademoiselle presa aquela vida mesquinha de lições, nunca teve oportunidade de colher uma "paquerette" na primavera e isto a incomodava demais. E, agora essa sensação estava cada vez mais constante, levando-a "se tromper de lisiére." (enganar-se de limite).
Outra vez, recordou quando esteve em Paris e encontrou no salão do hotel um homem de cartola, cavanhaque "pointu, pointu" (pontudo, pontudo). Ela teve a sensação que este homem misterioso lá estava para matar alguém, e em menos de cinco minutos depois escutaram os cinco tiros de pistola, no ventre! E, no seu desvario, ela repetia: Poum! poum! poum! Et poum! Esquecendo-se do quinto tiro.
Um dia as meninas comentaram que ouviram uma conversa entre uma mulher e seu marido ... Mademoiselle as repreendia chamando-as de "pitite rabelaisienne" (termo derivado de "rabelais"- malicioso, imoral).
Numa noite Mademoiselle foi á cidade comprar remédios e quando percebeu, estava indo em direção contrária, rumo á catedral.
Tentou retornar, mas não conseguia, como se uma força maior a atirasse até a Catedral. “Apressa o passo, estava quase correndo”.
Muitos homens passam e percebem o medo estampado em Mademoiselle. Sente um medo delicioso como se mil braços a enforcassem, a beijassem, rasgassem sua blusa... Um guarda pergunta-lhe se estava precisando de alguma coisa.
Agora refeita e sem medos, continua a contornar a catedral, imaginando que agora não era mais ela que "bousculava" a multidão, mas, sim, a multidão que a “bousculava”.
O seu mal de sexo estava tão gritante que precisava de experiência maior para alcançar a verdade.
Ela estava transtornada e sem rumo, chega a Avenida Angélica.
A aventura da Catedral não saía de sua mente e não havia igreja que não lhe despertasse desejo de reviver a experiência.
Nessa época a cidade fervia de pretensões políticas, D. Lúcia faz uma reunião com os chefes políticos em sua casa.
Durante a reunião, as meninas e Mademoiselle ficaram num canto observando os homens e "experimentando-os". Estavam se sentindo mais que freudiana...
Mademoiselle comenta que os homens do Partido estavam hospedados perto do Teatro Santa Helena. E, acrescentava que depois do espetáculo, faziam coisas horrorosas... deixando-se levar pela imaginação.
Ficou tarde para Mademoiselle ir embora sozinha. Pensou em pedir que um criado de Dona Lúcia a acompanhasse. Mas, teve medo que ele a agarrasse e decidiu-se ir só.
No bonde imaginava-se defendida pelos passageiros da garra do criado, sangue, lutas...
De repente, salta do bonde e encaminha-se para a Catedral de Ruão.
Era o pecado dominando-a. Ouve passos. Dois homens barbados começam a persegui-la. Tentou fugir, apressava o passo, espirrava imaginando ser uma das armas contra assaltos às virgens...não aguentava mais!
Afinal um dos homens agarra-a pelo pescoço, mas ela se solta. Porém, havia o outro... Quis correr, não podia, porque o outro monstro espedaçou-lhe os seios que sangravam. Finalmente, virou a esquina da sua rua, estava protegida. Nunca mais passaria por trás das igrejas. Os perseguidores continuavam atrás dela. Mas, agora não tinha mais importância - estava salva. Estes param, espantados, ao verem Mademoiselle espirrando e chorando e em sua coragem raivosa de todas as ilusões, deu um níquel a cada um e agradeceu-lhes a boa companhia.

“E Mademoiselle soluçava as sílabas, na coragem raivosa de todas as ilusões ecruladas:
- Mer-ci pour votre bo-nne com-pa-gnie!
E lhes enfiou na mão um níquel pra cada um, pagou! Pagou a “bonne compagnie”. Subiu as escadas correndo, foi chorar.”


“O Poço”


Joaquim Prestes, 75 anos, fazendeiro, rico, proprietário de muitos terrenos em Moji, resolvera fazer um poço em seu sítio. “na barranca do Moji pra pesqueiros de estimação”.
Joaquim Prestes adquiriu as terras de herança e sem ter muito o que fazer, desbravava outros matos. Nascera rico, fora o introdutor do automóvel naquelas paragens e o primeiro criador de abelhas.
“E tudo o que Joaquim Prestes fazia, fazia bem.” Tinha três carros. Inclusive um com banco adaptado para a esposa muito gorda.
Construiu também “uma casa de verdade, de tijolo e telha, embora não imaginasse passar mais que o claro do dia ali, de medo da maleita”. Só não fez o encanamento, pois água encanada ficava muito cara. Por isso decidira-se a contratar trabalhadores da fazenda para lhe construir o poço artesanal.
Joaquim Prestes chega ao seu pesqueiro acompanhado por uma visita e encontra seus empregados sentados em volta a uma fogueira, então, ostentando toda a sua autoridade, pergunta por que eles não tinham ido ir trabalhar.
Fazia muito frio e as chuvas diluviais alagaram toda a região. Os camaradas responderam que era impossível trabalhar na perfuração do poço com aquele tempo.
Joaquim Prestes e a visita foram se aquecer perto da fogueira dos empregados, que em atitude de respeito e submissão se levantaram, “machucando chapéu na mão, bom dia, bom dia”.
O fazendeiro pede informações sobre o andamento do serviço. Os empregados responderam-lhe que com aquele tempo era impossível “permanecer dentro do poço continuando a perfuração”, então, decidiram adiantar o acabamento da casa.
O proprietário se irritou e insistiu em mais explicações. Um empregado “de repente contou que agora ainda ficara mais penoso o trabalho porque enfim já estava minando água”.
Joaquim Prestes queria saber “quanto, por enquanto dá uns dois palmo. O irmão do crioulo, “um rapaz branco, enfezadinho, cor de doente” contra atacou dizendo: Parmo e meio, Zé” e passou a calcular quantos dias faltavam para ele ter água em sua casa.
Não satisfeito, o fazendeiro quis conferir a escavação do poço.
Albino o mais submisso de todos põe-se a disposição para descer até lá, contrariando assim, os outros. Albino era doente do peito e seus remédios eram dados pelo fazendeiro. Somente ele conseguia descer por ser mais leve. O fazendeiro pede para que Albino o acompanhe.
A personalidade de Joaquim Prestes era conhecida por toda a região há anos. Até com as abelhas usufruía seu poder e autoridade, tentando fazer com que as abelhas nacionais deixassem de misturar o mel com a samora.
Albino mostra a construção ao patrão, que com o corpo estirado para frente, deixa cair sua caneta-tinteiro.
Independentemente das condições climáticas, Joaquim Prestes exige sua caneta de volta, alegando que era de estimação e não conseguiria ficar sem a mesma.
Albino troca-se e José, seu irmão, mais outros, seguram o cambito para a descida. Joaquim gritava para ele tomar cuidado para não pisar em sua caneta. Os minutos passavam e Albino não conseguia encontrá-la. Um clima de angústia imperava no local acompanhado por comentários paralelos de desmoramento.
Não aguentando mais, José, sugere a Joaquim Prestes que tinham que secar o poço. Joaquim Prestes concordou e imediatamente trouxeram Albino para cima e começaram a operação para a secura do poço. Enquanto isso, Joaquim Prestes e a visita foram almoçar. Era uma afobação total. Havia muita água e quando o balde voltava vinha cheio apenas pelo terço, quase só lama.
O servil do Albino sugeriu mais uma caçamba. José estourou e decidiram que Albino e um magruço revezariam lá embaixo. O magruço era lento e isto irritou Joaquim Prestes, principiando desavenças.
O magruço, então, voltou-se contra o patrão e se despediu. O procedimento de seu empregado feriu-lhe a índole, mas, mantinha sua posição autoritária afirmando que de qualquer maneira, ele o demitiria.
Albino não aguentava mais, tremia inteiro. Foi quando Albino diz que estava muito escuro lá dentro e Joaquim Prestes sugere que leve uma luz. José entreviu afirmando que Albino não desceria mais.
Era visível a ira nos olhos de Joaquim Prestes, que com muito esforço, balbuciou que não valia mesmo á pena, que eles retomassem no dia seguinte e acrescentou que não era nenhum desalmado.
Dois dias se passaram, entregaram a caneta a Joaquim Prestes. A caneta vinha limpa, mas toda arranhada.
Joaquim Prestes a examinou e constatou que apesar de muito limpa pisaram nela.

“Jogou tudo no lixo tirou da gaveta de baixo uma caixinha que abriu. Havia nela várias lapiseiras e três canetas-tinteiro. Uma era de ouro”.


“O Peru de Natal”



Narrado em primeira pessoa, o protagonista, descreve a primeira ceia de Natal de sua família, após a morte de seu pai ("um desmancha-prazeres").
O protagonista recorda-se dos natais passados em família, no qual o pai, “desprovido de qualquer lirismo, duma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre”. Depois da morte do pai, a família não consegue livrar-se daquele defunto que tinha “meios visguentos, muito hipócritas de vencer”.
Trata-se de uma família de padrão médio de felicidade, sem intrigas, honestos regidos por um pai autoritário que conseguia transformar todo o lirismo em drama podando-os de um clímax familiar.
Juca desde criança era rotulado como "louco" e aproveitando-se dessa sua fama, resolve fazer mais uma proeza.
Pai morto, luto obrigatório e tristezas. E, ele que tinha gostado do pai somente por instinto de filho. Aborrecia-se com o pai vivo e agora também com ele morto. Era tradição na família uma ceia de natal bem pobre, só para não passar despercebida.
Juca decide que neste Natal seria diferente e comeriam peru.
A oposição representada pela tia solteirona e santa advertiu que não poderiam convidar ninguém por causa do luto. Mas não iriam convidar ninguém. Afinal, peru era comida de festa e servia só para a parentada esfomeada dar serviço para as suas três mães (tia/mãe/irmã).
Seria uma ceia para cinco pessoas, regada de cervejas, farofa... Exposto os planos todos aplaudiram, mesmo achando ser loucura. Finalmente, mamãe e titia comeriam peru e não ficariam com os restos que sobravam das ceias anteriores.
Na hora da ceia, a mãe cortava as fatias em pedacinhos, sempre acostumada com as leis da economia doméstica. Juca decidiu que ele serviria, contrariando novamente as regras, onde sempre a mãe que servia. Quando ela viu o prato cheio, alertou-o para não se esquecer de seus irmãos, foi com muita emoção e lágrimas que ela recebeu o prato cheio.
A irmã pôs-se também a chorar - tudo estava estragado!
“Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto do pai”. A figura paterna continuava ali a atormentar a todos. Juca para disfarçar começou a elogiar o peru, mas a imagem do pai também se engrandeceu com isso. Juca não conseguia conter, ficava travando em sua mente uma luta entre o pai e o peru, chegou a odiar o seu pai e não sentir o gosto maravilhoso do peru. Partiu para a dianteira e começou a elogiar o pai, atribuindo-lhe qualidades.
“(...) Mas papai, que queria tanto bem a gente, que morreu de tanto trabalhar prá nós, papai lá no céu há de estar contente...(hesitei, mas resolvi não mencionar mais o peru) contente de ver nós todos reunidos em família”.

Todos se soltaram e principiaram a falar do morto.
O pai virara um santo e o único dominador morto presente, passou a ser “o peru, dominador, completamente vitorioso”.
A felicidade pairava sobre a família. Depois, a sobremesa: uvas e uns doces de nome "bem-casados". Mas, nem este nome veio atrapalhar a paz daquela noite.
Quando se levantaram da mesa “eram quase duas horas”. Todos estavam “alegres, bambeados por duas garrafas de cerveja”.
Todos foram se deitar, menos Juca que tinha um encontro com Rose, sua amante, “pra poder sair” mentiu dizendo que ia a uma festa de amigo, levando uma champanha para dois.
A mãe, porém, com todo o seu zelo, desconfiava que a verdade era bem outra...



“Frederico Paciência”


Conto em primeira pessoa, narrado na adolescência. História de uma amizade ambígua, misto de pureza e impureza, entre o personagem-narrador e Frederico Paciência, companheiro de ginásio.
Juca tinha doze anos e Frederico Paciência catorze quando se conheceram e Juca se encantou com ele:

“Frederico Paciência era aquela solaridade escandalosa. Trazia nos olhos grandes bem pretos, na boca larga, na musculatura quadrada na peitaria, em principal nas mãos enormes, uma franqueza, uma saúde, uma ausência rija de segundas intenções. E aquela cabelaça pesada, quase azul, numa desordem crespa. Filho de português e de carioca. Não era beleza, era vitória. Ficava impossível a gente não querer bem ele, não concordar com o que ele falava”.

Dessa forma, Frederico Paciência constituía em perfeição física e moral que servia de modelo ao protagonista.
O protagonista era seu inverso, fraco e feio, aliás, considerado um caso perdido. A sua amizade com Frederico Paciência foi á salvação. Apesar das diferenças os dois se acamaradaram e existia algo que os unia e os repelia ao mesmo tempo.
Frederico Paciência possuía muitos amigos e isso provocava irritação em Juca que por não ter amigos brigava por exclusividade.
Frederico Paciência desabafava com Juca, contava-lhe tudo sobre sua família e sonhos. Juca, apenas, ouvia envergonhado por seu pai ter sido operário em mocinho.
Depois da aula saíam, caminhavam até o largo da Sé. Até o dia em que o narrador confessa-lhe ser o seu "único" amigo. Ele o olhou assustado e o protagonista sentiu-se envergonhado. Daquele dia em diante, tornaram-se íntimos e um frequentava a casa do outro.
Frederico Paciência queria ser médico, estudar no Rio de Janeiro e propôs a Juca que fizesse o mesmo: estudariam juntos na capital. Essas declarações faziam o narrador sofrer antecipado pela separação e para satisfazer o amigo, mentia, pois sabia que esses planos eram muito distantes da sua realidade.
Um dia, o narrador foi surpreendido pelo amigo lendo "História da Prostituição na Antiguidade, dessas edições clandestinas portuguesas que havia muito naquela época”, passou o livro para ele folhear e notou que algo mudou entre eles.
Frederico Paciência nem o acompanhou naquela tarde, mas pediu-lhe emprestado o livro. A vontade de negar-lhe foi imediata, afinal o livro contava a verdade ... Mas não teve coragem, tinha medo que aquele livro terminasse com a "infância" deles.
No recreio do outro dia, após informar que pusera o livro na mala do amigo, aconselhou-o a “não ler mais essas coisas”.
A devolução do livro e o conselho pra que ele não lesse mais livros assim, fez com que a amizade não acabasse. O livro foi rasgado pelos dois em plena rua.

“Diante de uma amizade assim tão agressiva, não faltaram bocas de serpentes. Frederico Paciência, quando a indireta do gracejo foi tão clara que era impossível não perceber o que pensavam “deles”, abriu os maiores olhos que Juca viu. Frederico Paciência surrou o caluniador com fúria louca. Juca deixou sua vingança para o outro dia. Mas o rapaz não apareceu na aula.”

No dia seguinte, Juca alcançou o rapaz que havia insinuado gracejos com relação à sua "amizade" com Frederico e o surrou.
A vingança fortaleceu a amizade entre eles que juraram amizade eterna.
Outro incidente viera uni-los mais ainda, durante uma discussão sobre Bonaparte, o protagonista beija Frederico Paciência no nariz. Frederico retribui este gesto com um abraço apertado e mais beijos.
Decidiram que tomariam mais cuidados.
O tempo foi passando, a amizade querendo esfriar e o narrador nem mais idolatrava seu ídolo e passou, a vê-lo como uma pessoa comum.
Os interesses de Juca se voltaram para Rose; enquanto, Frederico Paciência continuava com sua castidade.
Com a morte do pai de Frederico Paciência, acontece a reaproximação dos dois amigos. Em uma ocasião, Frederico deitado em seu quarto e o narrador velando sua dor, aconteceu um momento mágico de olhares cruzados, que só não concretizou em respeito ao morto recente.
Finalmente, a separação chegara. A última semana de "noivado". Foi só receio e sofrimento. Frederico Paciência foi estudar medicina no Rio de Janeiro.

“Afinal a despedida chegou mesmo. Curta, arrastada, muito desagradável, com aquele trem custando a partir” e eles já muito indiferentes um pelo outro, numa já recordação sem presença”, que não compreendiam nem lhes interessava.

Depois, cartas... que com o passar do tempo também se espaçavam.
Um telegrama comunicando a morte da mãe de Frederico trouxe novamente a esperança ao narrador de renovar a "sua amizade". Afinal, eles se amavam sobre cadáveres. Só que dessa vez, ele tinha certeza que seria diferente. Sem condições financeiras e com um não de sua família, estava salvo. Não foi. Apenas mandou um telegrama de “sinceros pêsames”. Juca sabia se voltassem a encontrar-se, e esta morte era uma boa desculpa, não conseguiriam segurar seus instintos sexuais. Apesar da carta que Juca lembrou-se de lhe escrever, “foi um fim bruto, de muro” e nunca mais obteve resposta. Era o fim.
Ao final do conto, conta uma anedota ocorrida com os dois num baile, em que ao tentar ser abraçado por uma moça, Frederico Paciência se irritou e o narrador tentou acalmá-lo dizendo:

“- Paciência, Rico
- Paciência me chamo eu! respondeu-lhe. Se Juca deixou para contar esta anedota ao final, apesar de desde o princípio estar com ele na cabeça é porque “essa confusão com a palavra “paciência” sempre lhe doera “malestarentamente”. Me queima feito uma caçoada, uma alegoria, uma assombração insatisfeita.”


“Nelson”



Um homem estranho, solitário entra num bar e a sua presença causa curiosidade aos frequentadores do recinto.

“Tinha um ar esquisito, ar antigo, que talvez viesse da roupa mal talhada”.

Logo surgem comentários e questionamentos sobre a vida e o comportamento daquele misterioso homem.

“ - Você conhece?
- Eu não, mas contaram ao Basílio o caso dele”.

Pediu dois chopes que Diva, a garçonete serviu a Nelson (nome do homem misterioso que, conclui-se pela leitura do conto) e cochichou algo à Diva.
Alfredo contava que o desconhecido era de “Mato Grosso, possuía uma fazenda de criar no sul do mesmo, não tinha parentes nenhum depois que a mãe morreu”.
Em uma das suas viagens à Assunção, buscando diversão, conheceu uma paraguaia que foi a sua perdição. Trouxe a moça para o Brasil. Como ela não podia ter filho para herdar os bens de Nelson, este resolveu transferir todos os seus bens para a moça, pois “mesmo casada no juiz, se não tivesse filho e ele morresse, ela não herdava um isto”.
Por mais que o homem fizesse tudo para agradar a moça, a cada dia que passava mais e mais descontente ela ficava. Não havia jóias, roupas, revistas e todo o conforto que lhe tirasse aquela tristeza dos seus olhos - nada a completava.
Viajaram; porém, na volta á tristeza recomeçava.
O estranho pede mais um chope e quando Diva se aproxima, ele esconde as mãos que descansavam na mesa. Um dos homens da mesa notou essa atitude e desconfiou que Nelson, tinha algo de errado em sua mão esquerda.
Nesse momento, Dalva ia passando pela mesa deles. Resolvem interrogá-la.
Diva se esquivou, dizendo irritada que não sabia de nada e pede para deixarem o homem em paz, pois os olhares indiscretos deles estavam deixando-o constrangido.
O falatório na mesa continua e os rapazes conjecturam de que faltava-lhe um polegar.
“(...) Parece que nem é só o polegar que falta, mas quase toda a carne do braço, é tudo repuxado, sem pele...foi piranha que comeu”. Quem havia dito isto, foi o quarto rapaz, aquele “que se conservava calado”. Afirma que assim como o Alfredo, ele também não sabia “tudo no detalhe, sequer tinha certeza” se ele estava com o exército ou com os revolucionários. “Devia ser com estes porque ele era rapaz”, não tinha mais de trinta anos.
Então o quarto rapaz conta que Nelson fazia parte em Mato Grosso, de “grupinho perseguido pelos contrários, desgarrados, pra uns nove homens quando muito”. Após terem se “arranchado” na casa de um caboclo, o inimigo descobriu-os e “foi aquele tiroteio feroz”.
A munição estava acabando, então, resolveram furar o cerco, mas foram surpreendidos em uma tocaia. Na briga, Nelson e um contrário, acabaram por cair ambos no rio. Por falta de ar, voltaram à tona, “sempre grudados um no outro, lutando, o diabo é que tinham vindo parar bem debaixo de um cais flutuante”.
Na luta mata o adversário, mas se vê impedido de sair do esconderijo, pois em cima do cais a luta continuava feroz. Não podia largar o corpo. Se assim o fizesse, assim que o corpo aparecesse à vista dos outros, seria descoberto.
Por fim percebeu que os seus tinham sido rendidos pelos inimigos. O líder começa a dar ordens em busca do Faustino, aquele que Nelson matara.
Nelson começa a sentir uns estremeções esquisitos na cara do morto, e quando se dá conta, as piranhas estavam comendo sua mão e o braço esquerdo. Desfalece. Quando volta a si está no terreiro daqueles que houvera lhes dado guarida na noite anterior.
O quarto homem conta que ele sarou, porém “diz que ficou meio amalucado...Se não ficou, parece”.
Os outros rapazes se apercebem da disparidade entre as duas histórias contadas. Alfredo se defende que não, que a história é a mesma, porém não sabia de nada da versão das piranhas e que o homem ficou tantã quando a paraguaia não quis mais saber dele. Trancou-se em seu quarto, rasgou todos os vestidos de seda, arrebentou as jóias e deixou um livro que falava da Guerra do Paraguai no meio da cama, deixando escrito com letras enormes: infames, referindo-se aos brasileiros e em seguida, partiu para Assunção e nunca mais foi vista. Chegaram comentários que ela havia se suicidado, porque continuava apaixonado por um brasileiro. Dizem que o estranho odiava tanto o Brasil que até dava razão para Selano Lopes (quem declarou a Guerra do Paraguai contra o Brasil) e que pregava na parede tudo quanto era notícia ofensiva ao Brasil.
O homem misterioso paga a conta e incomodado pelos olhares dos rapazes, retira-se do bar, e anda furtivamente pela cidade. Quando teve certeza que ninguém o via, retirava aquela mão repugnante que até chegava parecer um gancho, chegava até sorrir, mas, conteve-se e teve medo de que alguém o descobrisse sorrindo.
Lá na esquina, deparou-se com alguns rapazes conversando, desviou o caminho para não ser visto. Afinal, parou escondido atrás de um tronco de árvore e ficou espiando os operários conversando sem ser visto.
Até que chegou o guarda e dispersou os operários. Então, o homem, se viu só, acalmou-se e seguiu para a sua casa, fechando-se com a porta atrás de si e dando três voltas à chave.


“Tempo da Camisolinha”


Trauma sofrido pelo personagem-narrador, Carlos, em sua infância, quando o mesmo teve seus cabelos cacheados cortados por imposição de seu pai.
Carlos adorava seus cabelos longos, como também os elogios que ele recebia.
Mas, numa tarde, ouviu aquelas malditas palavras de seu pai:

“- É preciso cortar os cabelos desse menino".

Foi como se parte dele, também seria cortada. Procurou apoio na mãe e ela abaixou os seus olhos de submissão ao seu chefe. Chorou muito, emburrou-se e sofreu a primeira revolta íntima de uma criança, que vê seus desejos serem tolhidos pela decisão “brutal, impiedosa, castigo sem culpa”, de seu pai.
O pior foi os comentários:

“- Você ficou um homem assim!"

Nesta época o narrador tinha apenas três anos e ficou com medo da responsabilidade que lhe impunham.
E depois do fato consumado, somente lágrimas, sofrimento pela perda daqueles cachos lindos. Não havia presentes, beijos e elogios que o conformasse. De repente, mesmo não querendo, ele virara homem e homem-revoltado. Tornara-se tão rebelde que nem rezar para a Nossa Senhora do Carmo ele queria.
Guardava uma fotografia que lhe traz as lembranças à tona, “porque se ela não me perdoa do que tenho sido, ao menos, me explica”. Era “uma monstruosidade insubordinada”, muito diferente das feições de seu irmão Totó.
Nesta foto, seu irmão ostenta uma roupinha de marinheiro e, ele uma “camisolinha de veludo, muito besta”, que a sua mãe “por economia teimava utilizar até o fim”.
E, foi com uma dessas camisolinhas que teve que enfrentar outro problema.
Sua mãe adoecera de um parto desastroso e a conselhos do médico tiraram umas férias na praia.

“Aproveitar as férias do Totó sempre fraquinho, um junho”.

Lembra que estas férias ocorreram “pelos últimos anos do século passado e a praia de José Menino era quase um deserto longe”. O pai alugara uma casa que dava para uma reforma de um dos canais, onde operários trabalhavam diariamente.
O narrador tinha medo do mar e se recusava de entrar na água, preferia “mais ir até a borda barrenta do canal, onde os operários” trabalhavam ou ficar conversando com as formigas.
Aliás, Carlos vivia sempre com as barras de suas camisolinhas enlameadas, mas a mãe nem brigava. Faltava-lhe até tempo para lavar as calcinhas, pois “sentia um esporte de inverno levantar a camisolinha na frente pra o friozinho entrar”.
Continuava a odiar a madrinha do Carmo que a mãe por não se separar dela, carregou-a até Santos.
Um dia se vingou. Vendo que estava sozinho, levantou a sua camisolinha para a santa, que por sua vez ficou imóvel: “se rindo, a boba, não zangando nada” com ele.
Havia alguns pescadores que ficavam conversando nas esquinas, e um deles, pescara três estrelas do mar. Vendo o entusiasmo do menino, deu-lhe as estrelas-do-mar dizendo que elas darão sorte, se expostas no sol para secar.
O menino não sabia o que era sorte e um deles explicou que era dinheiro, saúde...
Ele secou-as no muro de seu quintal e o guardou o segredo só para si.
Não comia mais, não precisava, ele tinha a sorte em cima do muro.
Das três, uma era menor, mas em compensação uma das grandonas tinha as pernas tortas, mesmo assim, era mais bonita, que a pequena que, faltava uma perna.
Infelizmente, aconteceu a desgraça.
Um dia, chegando ao cais, percebe que um dos trabalhadores, um portuga magruço, estava retirado do grupo e com ar de tristeza. Justo aquele que nunca lhe dera importância. Aquilo o inquietou. Foi chegando “com ar de quem não quer” e perguntou o que ele tinha. O operário respondeu que era má sorte. Ao ouvir a resposta, o narrador fica indignado. Impelido pelas palavras do homem, Carlos põe-se, em desespero, a pensar naquele homem com filhos, mulher paralítica que tinha má sorte. Aquilo era injusto!
Mesmo a contragosto, pensa em presentear o operário com uma das estrelinhas. Com a menor, que possui um defeito na ponta. O melhor era dar-lhe a estrela-menor, não faria falta. Mas, certo, seria ele dar a maior. Afinal, o homem precisava de muita sorte.
No calor do meio dia, desvalorizando em pensamento seu tesouro, corre para casa, pega a estrela maior com desejos de lhe quebrar uma das pontas “mas as mãos adorantes desmentiam” seus desígnios entre lágrimas e soluços entrega ela ao homem, afirmando que lhe dará muito boa sorte.
O operário ficou chocado sem compreender. Depois entendeu tudo. Pegou a estrela e fez um carinho nos cabelos cortados do narrador.
O protagonista corre de volta para casa e foi chorar “abafando os soluços no travesseiro sozinho”. Não compreendia o que havia nele, “era uma luz” uma Nossa Senhora, um gosto maltratado, cheio de desilusões claríssimas, em que “sofria arrependido, ao ver inutilizar-se no infinito dos sofrimentos humanos a sua estrela-do mar.”

Nenhum comentário: