sexta-feira, 12 de novembro de 2010

ESAÚ E JACÓ, JOAQUIM MARIA MACHADO DE ASSIS



(RJ. 1839 – 1908)

“o moleque do morro do Livramento à Academia...”



Filho de um brasileiro, pintor de paredes com uma portuguesa, lavadeira; nasceu no Morro do Livramento, RJ.
Machado de Assis pouco frequentou a escola, era autodidata.
Aos 16 anos, na revista “Marmota Fluminense”, publica o seu primeiro poema: “Ela”.
Foi aprendiz de tipógrafo, revisor, colaborador com artigos em vários jornais, servidor público, Diretor-Geral do Ministério da Viação e presidente da Academia Brasileira de Letras ou a “Casa de Machado de Assis”.
O autor era um homem humilde: não quis sair de sua terra natal, não possuía escolaridade, mas conhecia teorias da História, da Filosofia, Teologia; poliglota, dominava o inglês, o latim, o francês, o alemão e o grego.
Muito apegado à sua esposa, Carolina Augusta Xavier de Novais, após a morte desta, uma grande tristeza invadiu sua vida.
Epiléptico, gago, com problemas nervosos, Machado de Assis, faleceu em 29 de setembro de 1908, em sua bela casa do Cosme Velho.


Costuma-se dividir a obra machadiana em duas fases:


1. 1ª FASE: ROMÂNTICA

Sua fase inicial de amadurecimento. Nesta fase encontramos romances de costumes. As personagens não são lineares e já trazem traços de aprofundamento psicológico: são interesseiras, ambiciosas e manipuladoras, porém, o amor sempre vence.
Fazem parte desta fase: “Ressurreição”, “A mão e a luva”, “Helena”, “Iaiá Garcia”, “Histórias da meia-noite” e “Contos fluminenses”.


2. 2ª FASE: REALISTA

A sua fase de maturidade e consagração. Tem como marco inicial a obra “Memórias póstumas de Brás Cubas”, em 1881.
Explorando a ironia, a metalinguagem, a intertextualidade, o pessimismo, a ruptura com a narrativa linear, o universalismo, os grandes arquétipos, o psicologismo, o estilo enxuto: o autor apresenta uma nova idéia de mundo: o mundo sem idealizações românticas.
Estão presentes também nesta fase: “Quincas Borba”, “Dom Casmurro, Esaú e Jacó e Memorial de Aires.



I – TÍTULO:


ESAÚ E JACÓ (1904)


Escrito em 1904, o título é uma alegoria bíblica. Segundo Massaud Moisés, “a Bíblia era um dos livros de cabeceira de Machado de Assis” e o autor soube utilizar dos arquétipos, que remontam à tradição clássica e aos textos bíblicos, como também a sua linguagem metafórica.
Através da leitura de Gênesis: Esaú e Jacó são filhos gêmeos de Isaac e Rebeca. Inimigos desde o ventre materno, Rebeca privilegia Jacó gerando uma grande rivalidade entre eles.
Esaú que tinha nascido primeiro vende os seus direitos de primogênito a Jacó, em troca de um prato de lentilhas. Rebeca aconselha Jacó a fugir para as terras do tio Labão depois de ter recebido a bênção paterna destinada a Esaú.
Além do recurso bíblico do título, os nomes Paulo e Pedro (personagens da obra), evocam dois apóstolos e a sua rivalidade assemelha-se a Caim e Abel.
A rivalidade entre eles não apresenta causa explícita daí o autor querer chamá-lo de Romance Ab Ovo (ab, desde e ovo, zigoto).

“ – Esaú e Jacó brigaram no seio materno, isso é verdade. Conhece-se a causa do conflito. Quanto a outros, dado que briguem também, tudo está em saber a causa do conflito, e não a sabendo, porque a Providência a esconde da notícia humana...”

No entanto, na Bíblia, narra-se que Rebeca, ao sentir que os filhos brigam em seu útero, pergunta a Deus qual seria a causa e Este responde:

“Duas nações há no teu ventre.”

Essa é a causa a que alude o conselheiro. Pode ser também a causa alegórica da luta constante de Pedro e Paulo. As duas nações seriam o próprio Brasil, dividido, na época, entre a Monarquia e a República e até hoje entre o liberalismo e o conservadorismo, entre a sofisticação e a miséria. A figura de Flora, indecisa entre os dois irmãos, já foi identificada como uma representação alegórica da própria nação brasileira “inexplicável”. Seu pai, Batista, é o típico político fisiológico que muda de partido como quem troca de camisa, sem ter qualquer convicção política ou ideológica.
No entanto, Machado de Assis nos fornece outra explicação, essa psicológica e não alegórica, para as constantes disputas fraternas.
Crianças, ao travarem seu primeiro combate, recebem doces e beijos e um passeio de carro da mãe ao se reconciliarem. O narrador conclui o episódio com as seguintes constatações:

“De noite, na alcova, cada um deles concluiu para si que devia os obséquios daquela tarde, o doce, os beijos e o carro, à briga que tiveram, e que outra briga podia render tanto ou mais. (...) Isto que devia ser um laço armado à ternura da mãe, trouxe ao coração de ambos uma sensação particular, que não era só consolo e desforra do soco recebido naquele dia, mas também satisfação de um desejo íntimo, profundo, necessário.”

As implicações freudianas são claras: o Complexo de Édipo revelado na adoração da mãe faz com que se lancem um contra o outro. É bom lembrar que Machado de Assis escrevia antes mesmo do termo ser inventado. O mesmo Complexo pode explicar o fato de ambos se apaixonarem pela mesma mulher.


II – FOCO NARRATIVO:


A obra é narrada em terceira pessoa pelo Conselheiro Aires, “um homem de nervos, sangue, cheio de humanidade, de contradição por isso mesmo, dono duma vitalidade incomum à idade e, simultaneamente, duma melancolia e conformista visão da existência”, como afirma Massaud Moisés.

“Quando o conselheiro Aires faleceu, acharam-se-lhe na secretária sete cadernos manuscritos, rijamente encapados em papelão. Cada um dos primeiros seis tinha o seu número de ordem, por algarismos romanos I, II, III, IV, V, VI escritos a tinta encarnada. O sétimo trazia este título: Último.
A razão desta designação não se compreendeu então nem depois. Sim, era o último dos sete cadernos, com a particularidade de ser o mais grosso, diário de lembranças que o conselheiro escrevia desde muitos anos e era a matéria dos seis. (...)” (Advertência, Esaú e Jacó).

No entanto, é como observador que narra o Conselheiro e em muitos momentos deixa transparecer suas opiniões, utilizando-se da primeira pessoa.

“Não me peças a causa de tanto encolhimento no anúncio e na missa, e tanta publicidade na carruagem, lacaio e libré. Há contradições explicáveis. Um bom autor, que inventasse a sua história, ou prezasse a lógica aparente dos acontecimentos, levaria o casal Santos a pé ou em caleça de praça ou de aluguel; mas eu, amigo, eu sei como as coisas se passaram, e refiro-as tais quais. Quando muito, explico-as, com a condição de que tal costume não pegue. Explicações comem tempo e papel, demoram a ação e acabam por enfadar. O melhor é ler com atenção.”

O narrador chega a descrever Aires de uma forma um tanto quanto desdenhosa, ao se referir a suas posições sempre dúbias:

“Aires não pensava nada, mas percebeu que os outros pensavam alguma coisa, e fez um gesto de dois sexos. Como insistissem, não escolheu nenhuma das duas opiniões, achou outra, média, que contentou a ambos os lados, coisa rara em opiniões médias. Sabes que o destino delas é serem desdenhadas. Mas este Aires, — José da Costa Marcondes Aires, — tinha que nas controvérsias uma opinião dúbia ou média pode trazer a oportunidade de uma pílula, e compunha as suas de tal jeito, que o enfermo, se não sarava, não morria, e é o mais que fazem pílulas.”

O conselheiro Aires é retratado como um homem que sempre concorda com todas as opiniões alheias, mesmo que sejam contraditórias.Lembra, assim, outro conselheiro famoso da literatura luso-brasileira, o Acácio, do romance “O Primo Basílio”, de Eça de Queirós. Ambos se comportam de maneira artificial e estudada. Procuram passar a imagem da perfeita correção e querem agradar a todo custo, fazendo com que os seus interlocutores ouçam sempre o que querem e o que pensam.
Se Eça de Queirós descreve seu conselheiro Acácio como uma figura subserviente e empostada, o narrador de “Esaú e Jacó” esforça-se por desculpar a postura excessivamente diplomática de Aires. Logo após mostrar que o conselheiro tinha sempre “nas controvérsias uma opinião dúbia ou média”, o narrador de “Esaú e Jacó”, prevendo o desdém do leitor, pede que esse “não lhe queira mal por isso” e recomenda ainda que “não cuide que não era sincero, era-o”. E complementa: “tinha o coração disposto a aceitar tudo, não por inclinação à harmonia, senão por tédio à controvérsia.”

Em muitos momentos o narrador se identifica plenamente com o hipotético autor do livro:

“Esse Aires que aí aparece conserva ainda agora algumas das virtudes daquele tempo, e quase nenhum vício. Não atribuas tal estado a qualquer propósito. Nem creias que vai nisto um pouco de homenagem à modéstia da pessoa. Não, senhor, é verdade pura e natural efeito.”

Em outras passagens, o narrador comunga do espírito comedido de Aires: “Não exagero; também não quero mal a esta senhora.” Se levarmos em conta que Aires tivera uma “queda” por D. Natividade, a quem a frase se aplica, a correspondência entre narrador e pseudo-autor fica ainda mais evidente.
O crítico Ivan Teixeira, no belo livro Apresentação de Machado de Assis, resume bem a ambiguidade narrativa de Esaú e Jacó:

“A invenção do pseudo-autor Aires (…) acabou gerando uma nova dimensão de foco narrativo: nem primeira nem terceira pessoa. mas uma coisa diferente, em que um autor imaginário trata-se a si mesmo como um ele, uma terceira pessoa, a cuja visão de mundo submete, no entanto, toda a outra matéria narrada no romance.”

Portanto, Machado de Assis considerava-se apenas um editor do romance, cujo verdadeiro autor-narrador seria o Conselheiro Aires. Devemos, porém, nos lembrar que isto nada mais é do que uma estratégia narrativa de Machado de Assis, já que esse diplomata aposentado é obviamente uma criatura ficcional, ou seja, um ser imaginário inventado pelo escritor.
O Conselheiro Aires é também personagem de história, contada em “Esaú e Jacó”, cuja atuação começa a partir do capítulo XI.
A esse respeito é muito importante o capítulo XII, intitulado “Esse Aires”, e que inicia assim:

“Esse Aires que aí aparece [referência ao cap. XI] conserva ainda agora algumas das virtudes daquele tempo, e quase nenhum vício. [...] Não me demoro em descrevê-lo.”

E a seguir o narrador traça um preciso perfil físico e psicomoral do diplomata aposentado. Muitos estudiosos consideram o Conselheiro Aires um alter-ego de Machado de Assis, isto é, um seu dublê, um porta-voz de suas opiniões, senão sempre, ao menos em muitas situações. Nesse caso, o narrador de “Esaú e Jacó” não seria um terceiro elemento, um híbrido, um narrador - síntese que integra Machado de Assis (autor real, implícito) e o Conselheiro Aires (autor fictício e personagem).
Esse procedimento constitui uma novidade para seu tempo e caracteriza-se como um traço de sua modernidade.
A esta altura é importante também observar que: “A narrativa do romance de Esaú e Jacó se submete à visão de mundo do Conselheiro Aires. Os fatos falam através do seu ponto de vista. [...] Aires representa alguém que ironicamente possui a verdade, ou sobre ela reflete. É a sua posição ideológica que fundamenta a narrativa [...]. ele é quem opina sobre a significação da matéria narrada, mesmo que não possa esclarecer todos os enigmas.”


III - TEMPO:

Explorando o tempo cronológico, o enredo inicia-se em 1871 e segue até os primeiros anos da República (1889), época cuja importância é fundamental na evolução da sociedade brasileira. Neste período de nossa história, temos a economia do café, extinção do trabalho escravo e o emprego da mão-de-obra livre. Há grandes transformações urbanas e a população cresce a cada dia. O autor procura registrar a transição Império/República, o que dá ao texto o nível histórico.


IV - ESPAÇO:

Obra é urbana e foi desenvolvida no Rio de Janeiro e parte em, Petrópolis.
Também é importante notar como Machado vai localizando objetivamente a ação num cenário específico da vida urbana. O autor, como de costume, faz menção minuciosa de lugares, hábitos, profissões e convenções. Revela-se, assim, uma fotografia bastante nítida do código social da burguesia brasileira na segunda metade do século XIX, sendo possível, até mesmo, reconstituí-la através do texto machadiano.


V - PERSONAGENS:

Um detalhe interessante a respeito das personagens machadianas é que elas não fazem nada, não têm emprego, não têm ocupações, senão o trabalho de serem personagens de Machado de Assis. Em “Esaú e Jacó”, não é diferente. Todas as personagens são bem postas na vida e não precisa fazer muito esforço para ganhar dinheiro. Aí está o Aires, diplomata aposentado, o Batista, o Santos, e até o “irmão das almas”, que acaba ficando rico, sem mais nem menos, favorecido pela política do “‘encilhamento”.
As personagens são classificadas como personagens planas, fracas e estão muito longe da complexidade humana das grandes personagens machadianas, exceto o conselheiro Aires.
PEDRO e PAULO – são os gêmeos que dão nome ao livro “Esaú e Jacó”. Caracteriza-os uma rivalidade que remonta ao ventre materno, quando já brigavam. Não constituem individualidades autônomas, não passando de símbolos da dualidade do ser humano, na sua natureza complexa e intrincada, que só uma Flora pode ver e “explicar”:
“No valor e no ímpeto podia comparar o coração ao gêmeo Paulo; o espírito, pela arte e sutileza, seria o gêmeo Pedro”. E que são o “coração” e o “espírito” senão dualidades do mesmo ser? Era certamente por isso que Flora não os distinguia, chamando Paulo de Pedro e vice-versa:
“Em vão eles mudavam da esquerda para a direita e da direita para a esquerda. Flora mudava os nomes também, e os três acabavam rindo”, como se vê no Cap. XXXV.


também um meio de Machado pôr a vivo a situação política dos fins do século XIX, em que igualmente está implícita a ambigüidade humana: Pedro era monarquista (conservador), Paulo republicano (liberal): “A razão parece-me ser que o espírito de inquietação está em Paulo, e o de conservação em Pedro”.

JOSÉ DA COSTA MARCONDES AIRES – o conselheiro espiritual de Pedro e Paulo, amigo da família de Santos e ex-pretendente de Natividade; estimado e respeitado por sua conduta ímpar e por sua hombridade, experiência e dignidade.

AGOSTINHO JOSÉ DOS SANTOS – comerciante bem sucedido e banqueiro de grande respeito na praça, como toda personagem machadiana. Daí até o baronato é um pulo: “...no despacho imperial da véspera o Sr. Agostinho José dos Santos fora agraciado com o titulo de Barão de Santos.”

NATIVIDADE – esposa de Santos e mãe de Pedro e Paulo. Mãe dedicada e preocupada com a opinião pública em favor dos filhos, como no caso da consulta à cabocla do Castelo, aonde foi juntamente com a irmã, Perpétua: “tinha fé, mas tinha também vexame da opinião”.


PERPÉTUA – viúva, irmã de Natividade, quem escolheu os nomes dos sobrinhos, durante o “Credo”, na missa. Porém, o fato é estranho, pois no “Credo”, não há referências a Pedro e Paulo, talvez no “Confiteor”.

CLAÚDIA – esposa de Batista, “Afora essas saudades do poder, Dona Cláudia era uma criatura feliz. A viveza das palavras e das maneiras, os olhos que pareciam não ver nada à força de não pararem nunca, e o sorriso benévolo, e a admiração constante, tudo nela era ajustado a curar as melancolias alheias. Mulher forte que subjuga o marido fraco.”
BATISTA – “homem de quarenta e tantos anos, advogado do cível, ex-presidente de província e membro do partido conservador.”
A fraqueza do Batista e a fortaleza da mulher podem ser vistas no Cap. XLVII, onde Machado relaciona a mulher como sinônimo do diabo. O Batista é o tipo do político que quer subir, mas é fraco; D. Cláudia a mulher ambiciosa que quer tudo para o marido, porque serão delas os privilégios e regalias do sucesso e das glórias dele.

FLORA – filha de Cláudia e Batista. É uma personagem que atravessa a sua curta existência sem perturbar ninguém, ofuscando-se no ocaso da vida sem nenhuma manifestação de natureza ruidosa. “Flora toca-nos, comove-nos até, mas desaparece mansamente do romance como desaparece mansamente de nossa memória sem deixar maior rasto impressivo, como deixa Capitu para sempre e sempre”.


Flora não é uma personagem de carne e osso. É antes uma ideia poética, um ideal de juventude do que propriamente uma personagem. “Por pouco é uma heroína romântica, não fosse haver ao todo de sua personalidade um grão de mistério para além dos problemas de ordem amorosa”. Vive de leve, morre de leve, sem perturbar ninguém com sua presença, como se não tivesse direito à vida, ou se sua presença fosse o motivo da discórdia entre os dois irmãos, que ela confunde numa só pessoa.
“Quem a conhecesse por esses dias, poderia compará-la a um vaso quebradiço ou à flor de uma só manhã, e teria matéria para uma doce elegia”. “Aires, que a conheceu por esse tempo, em casa de Natividade, acreditava que a moça viria a ser uma inexplicável”. “(...) acho-lhe um sabor particular naquele contraste de uma pessoa assim, tão humana e tão fora do mundo, tão etérea e tão ambiciosa, ao mesmo tempo, de uma ambição recôndita...”


BÁRBARA – “cabocla do morro do Castelo”, “adivinha”.


JOÃO DE MELO – irmão pobre de Santos.

PLÁCIDO – conselheiro espiritual de Santos, “doutor em matérias escusas e complicadas”, que procura explicar a rivalidade dos gêmeos. Morre desenvolvendo a teoria da “correspondência das letras vogais com os sentidos do homem”.
RITA - viúva, irmã do conselheiro Aires, sentia orgulho de “ter cortado os cabelos por haver perdido o melhor dos maridos

CUSTÓDIO – dono de uma confeitaria na Rua do Catete e vizinho de Aires.
NÓBREGA – antigo “Irmão das almas”, que aparece no início do livro pedindo esmola “para a missa das almas”. Depois fica rico sem fazer muito esforço, beneficiado que foi pela esmola “graúda” de Natividade (como ocorre no início do romance) e pela política do “encilhamento”, famosa na história do Brasil. Foi um dos pretendentes de Flora e representa uma das inúmeras caricaturas machadianas.
GOUVEIA – oficial de secretaria e pretendente de Flora.



VI - TEMÁTICA:

A dualidade humana (Pedro e Paulo) versus a dualidade política (Império e República).



Na verdade, o ceticismo machadiano precisava “demonstrar que no íntimo de Pedro e Paulo haveria para todo o sempre egoísmo e dissensão: irremediavelmente centrados em si próprios, ou como se cada um constituísse o espelho do outro, eram incapazes de amar a quem quer que fosse. Resultantes de um “eu” cindido em duas metades idênticas, repeliam-se precisamente por isso, e sentiam-se impotentes para projetar-se no sentido do “outro” (personificado em Flora).
Gêmeos, iguais na vaidade e no amor-próprio, eis a explicação sugerida pelas páginas derradeiras de “Esaú e Jacó”.

A problemática de Pedro e Paulo consiste em serem duas e não uma única pessoa.

“Aos sete anos eram duas obras-primas, ou antes, um só em dois volumes, como quiseres”; “A condição dos gêmeos explicará esta inclinação dupla; pode ser também que alguma qualidade falte a um que sobre a outro, e vice-versa, e ela (Flora), pelo gosto de ambas, não acaba de escolher de vez”.

“Em caminho, depois do desembarque, não obstante virem os gêmeos separados e sós, cada um no seu cupê, cismou que os ouvia falar; primeira parte da alucinação. Segunda parte: as duas vozes confundiam-se de tão iguais que eram, e acabaram sendo uma só. Afinal, a imaginação fez dos dois moços uma pessoa única”.

“Flora passeava então pelo braço do mesmo garção amado, Paulo se não Pedro...”

“As duas cabeças estavam ligadas por um vínculo escondido”.

“Aires sabia que não era a herança, mas não quis repetir que eles eram os mesmos, desde o útero.”

Pedro e Paulo simbolizam a dualidade do ser humano: Pedro, o espírito e Paulo, o coração, os dois lados de uma mesma moeda; e em Esaú e Jacó, Machado de Assis, propõe uma investigação psicológica da alma humana.
Com o passar do tempo, os opostos vão surgindo e diferenciando a personalidade de cada um.
Paulo era impulsivo, arrebatado, republicano, “gostava mais de conversa que de piano”.
Pedro era dissimulado. Conservador, monarquista, “ia mais com o piano que com a conversa”.



VII - RESUMO:


Natividade e sua irmã Perpétua dirigem-se ao morro do Castelo para consultarem com uma adivinha, Bárbara. Natividade após dar a luz a dois meninos (os gêmeos, Pedro e Paulo) estava preocupada com o futuro de seus filhos.
Bárbara concentra-se e pergunta: ”se os meninos tinham brigado antes de nascer”.
Natividade ficou assustada e sem entender a pergunta, respondeu-lhe que “não tivera a gestação sossegada”, mas “brigariam por quê?”
A cabocla responde-lhe que eram “coisas futuras”, em seguida, Natividade acalma-se ao ouvir que as crianças teriam um grande futuro reservado.
Dá-lhe uma nota de cinquenta mil-réis e as mulheres seguem para o cupê que as esperava perto da igreja de S. José e a Câmara dos Deputados.
No caminho, depara-se com um “irmão das almas”, pedindo ajuda; ela dá-lhe uma valiosa nota de dois mil-réis.
O “irmão das almas” ficou chocado com o valor elevado da esmola e chegou a suspeitar que as mulheres “vinham de alguma aventura amorosa” ou “viram o passarinho verde”.
No caminho de volta à sua casa, passando pelo Catete, recorda-se que em 1869, ao voltar da missa por alma de João de Melo, seu cunhado, ela “confiou ao marido o estado de gravidez”.
Após dez anos de casamento, agora com trinta anos de idade estava grávida, “uma criatura tirada da coxa de Abraão, como diziam aqueles bons judeus...”, para Santos, seu marido, era o prazer da vida nova; para ela, fim dos bailes, das festas, da liberdade e da folga. Além de “deformá-la por meses, obrigá-la a recolher-se, pedir-lhe as noites, adoecer dos dentes e o resto?”
A sua primeira sensação foi “esmagar o gérmen” e sentiu raiva do marido. Depois, acostumou-se com a ideia.
Nasceram os gêmeos e o nome foi escolhido pela tia Perpétua, irmã de Natividade.
Foi quando, Natividade curiosa com o futuro das crianças, procurou a moça do Castelo. Ao narrar ao marido sobre a hipótese de uma possível briga durante a gestação levantada pela adivinha, leva-o a consultar um amigo espiritualista, doutor Plácido a respeito do assunto.
Os gêmeos crescem sadios, gulosos, graciosos, robustos e semelhantes. Ainda, quando crianças, acontece á primeira briga entre eles, depois seguiram muitas outras.
Ao completar quarenta anos, Natividade “sentia-se velha”, aos quarenta e um, recebe o título de baronesa de Santos. Nessa época os gêmeos começam apresentar divergências políticas.
A família Batista (Sr. Batista, D. Cláudia e Flora) torna-se frequentadora assídua na residência dos Santos.
Flora na época tinha quinze anos, era retraída e modesta, avessa a festas públicas e dificilmente consentiu em aprender dançar.
Quando Aires, amigo da família, a conheceu, julgou-a como “inexplicável”. Flora pede-lhe a explicação do rótulo e ele responde: “- Inexplicável é o nome que podemos dar aos artistas que pintam sem acabar de pintar. Botam tinta, mais tinta, outra tinta, muita tinta, pouca tinta, nova tinta, e nunca lhes parece que a árvore é árvore, nem a choupana, choupana”.
Flora não entendeu, mas confessou que pensava aprender desenho e pintura, “mas se havia de pôr tinta demais ou de menos, e acabar não pintando nada, melhor seria ficar só na música”.
Os gêmeos apaixonaram-se por Flora e esta, “ria com ambos, sem rejeitar nem aceitar especialmente nenhum”.
Cada um expôs a sua opinião acerca das graças da pequena. Pedro “eram os olhos, e para Paulo a figura, mas, acabam achando um total harmônico, era visto que não brigavam por isso”.
Com a abolição dos escravos, as opiniões dos gêmeos diferenciaram.
“Pedro era um ato de justiça, e para Paulo era o início da revolução.”
Paulo profere um discurso afirmando que: “A abolição é a aurora da liberdade; esperemos o sol; emancipando o preto, resta emancipar o branco”.
Natividade ficou preocupada com o filho, pois sua ideologia era uma “ameaça ao imperador e ao império”.
Natividade pede ajuda ao conselheiro Aires. “- Pode corrigi-los por boas maneiras, fazê-los unidos...”
Surge a possibilidade do Sr. Batista ser nomeado presidente de província e esse fato deixa Flora temerosa, pois a afastaria de Pedro e Paulo.
Perante tal impasse, Pedro diz:
“- Se ele for, eu peço ao governo o lugar de secretário e vou também”. “Sim, Paulo não iria também; a mãe não se deixaria ficar desamparada. Que perdesse um filho, vá; mas ambos...”
Saiu á presidência e era no Norte, a única esperança era Flora ficar...
Quinze de novembro, na “Rua do Ouvidor, soube que os militares tinham feito uma revolução, ouviu descrições da marcha e das pessoas, e notícias desencontradas”.
A Proclamação da República merece, na narrativa, mais do que a habitual atenção de Machado de Assis dispensada a um acontecimento político. Trata-se do episódio da tabuleta; ele, melhor do que ninguém define a exata posição do autor e do povo diante do fato.
Custódio, dono de uma confeitaria no Catete, vê-se em sérios problemas com a queda da monarquia e “se pudesse liquidava a confeitaria, afinal que tinha ele com política? Era um simples fabricante e vendedor de doces, estimado, afreguesado, respeitado e principalmente respeitador da ordem pública…”.
Este episódio inicia-se no capítulo 49 e só se completa no capítulo 63. Talvez em nenhuma outra passagem da obra de Machado de Assis a questão das relações entre credos políticos e o individualismo burguês tenha recebido tratamento tão irônico. O temor e a avareza qualificam o conceito de propriedade, expressando-se na busca de um título “simultaneamente definitivo, popular e imparcial” que o defenda em qualquer circunstância. Este diálogo se dá entre Custódio e o Conselheiro Aires. Tudo começa quando Custódio, dias antes da proclamação da República, manda pintar uma tabuleta que dizia “Confeitaria do Império”. Passo, então, após este introdutório que, certamente, despertou a curiosidade dos que não o conhecem, a transcrevê-lo.

“— Mas o que é que há? Perguntou Aires.
— A república está proclamada.
— Já há governo?
— Penso que já; mas diga-me V. Ex.ª: ouviu alguém acusar-me jamais de atacar o governo? Ninguém. Entretanto, uma fatalidade! Venha em meu socorro, Excelentíssimo. Ajude-me a sair deste embaraço. A tabuleta está pronta, o nome todo pintado. —“Confeitaria do Império”, à tinta é viva e bonita. O pintor teima em que lhe pague o trabalho, para então fazer outro. Eu, se a obra não estivesse acabada, mudava de título, por mais que me custasse, mas hei de perder o dinheiro que gastei? V.Ex.ª crê que, se ficar “Império”, venham quebrar-me as vidraças?
— Isso não sei.
— Pessoalmente, não há motivo; é o nome da casa, nome de trinta anos, ninguém a conhece de outro modo…
— Mas pode por “Confeitaria da República”…
— Lembrou-me isso a caminho, mas também me lembrou que, se daqui a um ou dois meses, houver nova reviravolta, fico no ponto em que estou hoje e perco outra vez o dinheiro.
— Tem razão… sente-se.
— Estou bem.
— Sente-se e fume um charuto.
Custódio recusou o charuto, não fumava. Aceitou a cadeira. Estava no gabinete de trabalho, em que algumas curiosidades lhe chamariam a atenção, se não fosse o atordoamento do espírito. Continuou a implorar o socorro do vizinho. S. Exª. com a grande inteligência que Deus lhe dera, podia salvá-lo. Aires propôs-lhe um meio-termo, um título que iria com ambas as hipóteses — “Confeitaria do Governo”.
— Tanto serve para um regímen como para outro.
— Não digo que não, e, a não ser a despesa perdida… Há, porém, uma razão contra. V.Exª. sabe que nenhum governo deixa de ter oposição. As oposições, quando descerem à rua, podem implicar comigo, imaginar que as desafio, e quebrarem a tabuleta; entretanto o que eu procuro é o respeito de todos.
Aires compreendeu bem que o terror ia com a avareza. Certo, o vizinho não queria barulhos à porta, nem malquerenças gratuitas, nem ódios de quem quer que fosse; mas, não o afligia menos a despesa que teria de fazer de quando em quando, se não achasse um título definitivo, popular e imparcial. Perdendo o que tinha, já perdia a celebridade, além de perder a pintura e pagar mais dinheiro. Ninguém lhe compraria uma tabuleta condenada. Já era muito ter o nome e o título no Almanaque de Laemmert, onde podia lê-lo algum abelhudo e ir com ou outros, puni-lo do que estava impresso desde o princípio do ano…
— Isso não, interrompeu Aires; o senhor não há de recolher a edição de um almanaque.
E depois de alguns instantes:
— Olhe, dou-lhe uma idéia, que pode ser aproveitada, e, se não a achar boa, tenho outra à mão, e será a última. Mas eu creio que qualquer delas serve. Deixe a tabuleta pintada como está, e à direita, na ponta, por baixo do título, mande escrever estas palavras que explicam o título: ‘Fundada em 1860'. Não foi em 1860 que abriu a casa?
— Foi, respondeu Custódio.
— Pois…
Custódio refletia. Não se lhe podia ler sim nem não; atônito, a boca entreaberta, não olhava para o diplomata, nem para o chão, nem para as paredes ou móveis, mas para o ar. Como Aires insistisse, ele acordou e confessou que a idéia era boa. Realmente, mantinha o título e tirava-lhe o sedicioso, que crescia com o fresco da pintura. Entretanto, a outra idéia podia ser igual ou melhor, e quisera comparar as duas.
— A outra ideia não tem a vantagem de pôr a data à fundação da casa, tem só a de definir título, que fica sendo o mesmo, de uma maneira alheia ao regímen. Deixe-lhe estar a palavra império e acrescente-lhe embaixo, ao centro estas duas, que não precisam ser graúdas: das leis. Olhe, assim, concluiu Aires, sentando-se à secretária, e escrevendo em uma tira de papel que dizia.
Custódio leu, releu e achou que idéia era útil; sim, não lhe parecia má. Só lhe viu um defeito: sendo as letras debaixo menores, podiam não ser lidas tão depressa e claramente como as de cima, e estas é que se meteriam pelos olhos ao que passasse. Daí a que algum político ou sequer inimigo pessoal não entende logo, e… A primeira idéia, bem considerada, tinha o mesmo mal, e ainda este outro: pareceria que o confeiteiro, marcando a data da fundação fazia timbre em ser antigo. Quem sabe que não era pior que nada?
— Tudo é pior que nada.
— Procuremos.
Aires achou outro título, o nome da rua, “Confeitaria do Catete”, sem advertir que havendo outra confeitaria na mesma rua, era atribuir exclusivamente a Custódio a designação local. Quando o vizinho lhe fez tal ponderação, Aires achou-a justa, e gostou de ver a delicadeza de sentimentos do homem; mas logo depois que o que fez falar o Custódio Foi á ideia de que este título ficava comum às duas casas. Muita gente não atinaria com o título e compraria na primeira que lhe ficasse à mão, de maneira que só ele faria as despesas da pintura, e ainda por cima perdia a freguesia. Ao perceber isso, Aires não admirou menos a sagacidade de um homem que, em meio a tantas tribulações, contava os maus frutos de um equívoco. Disse-lhe então que o melhor seria pagar a despesa feita e não por nada, a não ser que preferisse seu próprio nome: “Confeitaria do Custódio”. Muita gente certamente lhe não conhecia a casa por outra designação. Um nome, o próprio nome do dono, não tinha significação política ou figuração histórica, ódio nem amor, nada que chamasse a atenção dos dois regimens, e conseguintemente que pusesse em perigo os seus pastéis de Santa Clara, menos ainda a vida do proprietário e dos empregados. Por que é que não adotava esse alvitre? Gastava alguma coisa com a troca de uma palavra por outra, “Custódio” em vez de “Império”, mas as revoluções trazem sempre despesas.
— Sim, vou pensar, excelentíssimo. Talvez convenha esperar um ou dois dias, a ver em que param as modas, disse Custódio agradecendo.
Curvou-se, recuou e saiu. Aires foi à janela para vê-lo atravessar a rua. Imaginou que ele levaria da casa do ministro aposentado em lustre particular que faria esquecer por instantes a crise da tabuleta. Nem tudo são despesas na vida, e a glória das relações podia amaciar as agruras deste mundo. Não acertou desta vez. Custódio atravessou a rua, sem parar nem olhar para trás, e enfiou pela confeitaria dentro com todo sem desespero”.

Com a Proclamação da República, Pedro calava-se e Paulo vibrava com sua vitória.
Segue os preparativos para a viagem da família Batista e o primeiro baile da República.
Pouco tempo se passou e um ofício veio trazer de volta a família Batista para o Rio de Janeiro e torná-los hóspedes da casa dos Santos.
O “irmão das almas” (agora o Sr. Nóbrega), que recebeu das mãos de Natividade aquela grossa esmola, reaparece na história: “abandonou as almas e a si mesmas” e “foi a outras carreiras”.
O Sr. Nóbrega passando pela rua de S. José, local onde recebeu a esmola, depara-se com uma mulher que lhe pedia uma esmolinha. Nóbrega de início pensou em dar-lhe um níquel, mas, em seguida, “procurou e achou uma nota de dois mil-réis, não nova, antes velha, tão velha como a mendiga que a recebeu espantada, mas tu sabes que o dinheiro não perde com a velhice”.
E acabou murmurando: “- Talvez fosse a mesma!”
A família Batista tornou à sua residência, na rua de S. Clemente.
Nessa época, Flora começa a ter sonhos estranhos, ora com Paulo ora com Pedro e ora as imagens misturavam-se.
Aires tenta interceder pelos rapazes com relação à Flora. Sugere um acordo:
“...é certo que vocês gostam dela, e igualmente certo que ela ainda não escolheu entre os dois. Provavelmente, não sabe que faça. Um terceiro resolveria a crise...Não havendo terceiro, e não se podendo prolongar a situação, por que é que vocês não combinam alguma coisa?”
Aires segue com a sua proposta: “Combinem um modo de cortar este nó górdio. Cada um que siga a sua vocação. Você, Pedro tentará primeiro desatá-lo; se ele não puder, Paulo, você pegue a espada de Alexandre, e dê-lhe o golpe”.
Assim ficou combinado. Concordaram em esperar por ela durante um prazo curto de três meses. “Dada á escolha, o rejeitado obrigava-se a não tentar mais nada”.
Natividade tentar convencer os filhos para uma temporada em Petrópolis. Na época, eles não estavam estabelecidos profissionalmente, embora, Pedro cursava Medicina e Paulo, Direito.
Surge um terceiro interessado em Flora: Gouveia, um oficial de secretaria.
“Um domingo, à missa, reparou na filha do ex-presidente, e saiu da igreja tão apaixonado que não quis outra promoção”. Flora não o conhecia e quando os olhos dela encontravam os dele, retiravam-se logo indiferentes.
Flora começa a reclamar de vertigens e dor de cabeça. O conselheiro Aires aconselha-a que saísse daquela casa, fosse distrair-se e passar uma temporada em outro lugar. Flora passa viver em plena tristeza, e Aires insiste que ela passe alguns dias na casa de Rita, irmã do conselheiro.
Pensava, ele: “- Não os vendo, esquece-os e se na vizinhança houver alguém que pense em gostar dela, é possível que acabe casando”.
Aires foi um dia visitá-la. Flora mostrou-lhe os desenhos que fizera, mas o último tentou ocultá-lo.
“Era um pedaço de papel grosso em que estavam desenhadas duas cabeças juntas e iguais” e era o único que não tinha assinatura.
Flora encabulada deu o desenho ao Aires que imediatamente o rasgou. Flora “ficou por um instante parada, boca entreaberta, mas logo lhe apertou a mão, agradecida. Não pode evitar que lhe caíssem duas pequeninas lágrimas”.
Aires escreveu no Memorial: “Talvez seja uma lágrima para cada gêmeo”.
Nóbrega, o “ex-irmão das almas” começa a frequentar a casa de Rita e passa a cortejar Flora. Escreve uma carta à Rita, pedindo-lhe que consultasse a moça amada. Mesmo perante todas as qualidades de Nóbrega e de sua posição financeira, Flora fora radical: “(...) eu não quero casar”.
Perante a recusa da moça, Nóbrega afirmou que: “Aquela moça é doente”.
Dias depois, Flora adoeceu. Rita tratou de chamar o médico, avisar a família e Natividade, que veio imediatamente visitar a moça.
Flora pede que Natividade fique com ela alegando que:
“Só a senhora me pode curar, disse Flora; não creio nos remédios que me dão”. Esta ali “o ventre abençoado que gerara os dois gêmeos.”
O estado de saúde de Flora fica cada vez pior, a febre não abaixava.
A menina debilitada pede para abrirem a janela e nesse momento, escutou vozes, vinda da sala.
“-Quem é? perguntou Flora...”.
“- São os meus filhos que queriam entrar ambos”, responde Natividade.
“- Ambos quais? Perguntou Flora”.


Natividade acreditou que a moça estava delirando, mas tarde quando repetiram o diálogo ao Aires, ele descartou a hipótese do delírio.
Foram às últimas palavras de Flora, “a morte não tardou.”


Seguiu o enterro de Flora e Batista, Santos, Aires, Pedro, Paulo e Nóbrega, carregaram as alças do caixão.
Após enterrarem o corpo de Flora; Pedro e Paulo ficaram ao pé da cova.
“Como estivessem defronte um do outro, acudiu-lhes a ideia de um aperto de mão por cima da cova. Era uma promessa, um juramento”.
“- Ela nos separou, disse Pedro; agora que desapareceu, que nos una”.
“Paulo confirmou de cabeça. – Talvez morresse para isso mesmo, acrescentou”.
No aniversário de um mês da morte de Flora, os gêmeos tiveram a mesma ideia, foram ao cemitério.
Pedro já formado abriu um consultório médico e, Paulo já atuava como advogado, mas mesmo depois do juramento feito perante a cova de Flora, as divergências entre ois irmãos prosseguiram.
“Paulo entrou a fazer oposição ao governo, ao passo que Pedro moderava o tom e o sentido, e acabava aceitando o regímen republicano, objeto de tantas desavenças”.
Aires tinha viajado para a Europa e quando retornou recebeu a notícia que os gêmeos foram eleitos deputados, evidentemente, por partidos contrários.
Natividade, Perpétua e Aires foram assistir a cerimônia de posse dos gêmeos. O próximo passo seria o de Presidente da República, mas para isso acontecer, um teria que derrubar o outro.
Natividade adoeceu poucas semanas depois da sessão da Câmara. Antes de falecer, chamou os dois filhos e pediu-lhes que ficassem amigos, “sua mãe padecerá no outro mundo, se os não vir amigos neste” e eles juraram em seu leito de morte.
“Castor e Pólux foram os nomes que um deputado pôs aos dois gêmeos, quando eles tornaram à Câmara, depois da missa de sétimo dia”.
Os irmãos voltaram às suas atividades. Porém, algo havia mudado entre eles. Estavam tão unidos que o fato causou espanto a todos.
Como tinham sido eleitos por partidos diferentes, pensaram em renunciar ao cargo, para não traírem seus eleitores.
Em dezembro a Câmara entrou em recesso. Quando retornaram, a disputa entre eles tornou-se mais acirrada, e não faltou curiosos perguntarem “o que houvera no intervalo das duas sessões”.
“- São outros, disse o presidente na sala do café”.
O conselheiro Aires ficou sabendo do comentário através de um deputado, seu amigo e quando foi indagado se ele sabia a razão da mudança radical, o conselheiro respondeu:
“ - Mudar? Não mudaram nada; são os mesmos”.
O amigo deputado insistia:
“- Quem sabe se não será a herança da mãe que os mudou?”
“Aires sabia que não era a herança, mas não quis repetir que eles eram os mesmos, desde o útero. Preferiu aceitar a hipótese, para evitar debate, e saiu apalpando a botoeira, onde viçava a mesma flor eterna”.



VIII – CONSIDERAÇÕES FINAIS:


- Fatalismo: Nem ódio nem amor. Lê-se, em “Esaú e Jacó”, uma confissão de fatalismo que explica a indiferença professada nas frases acima: “Não se luta contra o destino; o melhor é deixar que nos pegue pelos cabelos e nos arraste até onde queira alçar-nos ou despenhar-nos.”

- “Menos do que “pessimismo” sistemático, melhor seria ver como suma filosofia machadiana um sentido agudo do relativo: nada valendo como absoluto, nada merece o empenho do ódio ou do amor. Para a antimetafísica do ceticismo, a moral da indiferença.” (BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira)

- Características simbolistas: Embora classificada como uma obra realista encontra-se várias características da escola simbolista que estava em vigor na época (1893). O crítico Calvalcânti Proença afirma que, “desde o título, há simbolismo...”; a procura de uma adivinha para saber o futuro; o velho Plácido, conhecedor de “gestos visíveis e invisíveis”; a descrição de Flora como “uma inexplicável”; a simbologia das cores em algumas passagens da obra (“Com esse lenço verde enxugou ela os olhos, e teria outros lenços, se aquele ficasse roto ou enxovalhado; um, por exemplo, não verde como a esperança, mas azul, como a alma dela”); as imagens vagas, abstratas; a metafísica; o sonho; alucinação e a morte são aspectos simbolistas.
Mas, como observa o citado crítico não ficam aí os exemplos, e, sem esforço, podemos lembrar que os dois namorados levam grinaldas à sepultura da moça que ambos amavam. Uma é de perpétuas, de simbolismo muito evidente, e a outra, mais obscura, de miosótis, o “forget-me-not” dos ingleses; um dos apaixonados diz de si mesmo “que o seu amor é que era um substantivo perpétuo, não precisando mais nada para se definir”.
Outra figura que lembra o Simbolismo é a moça Flora, que tem muito das virgens vaporosas que povoam a literatura simbolista e se aproximam das esferas celestes e etéreas. Também o velho Plácido, “doutor em matérias escusas e complicadas”, conhecedor de “gestos visíveis e invisíveis”, pode ser colocado aqui como exemplo nesse sentido.

- Citações bíblicas: “Quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a direita”, São Mateus, VI, 3; “Uma criatura tirada da coxa de Abraão”, Gênesis, XVIII, 11) etc


- Interferência do autor: “Talvez a leitora, no mesmo caso, ficasse aguardando o destino; mas a leitora, além de não crer (nem todos crêem), pode ser que não conte mais de vinte a vinte e dois anos de idade, e terá a paciência de esperar.”
Esse “leitor incluso” na própria narrativa é apresentado em geral como uma mulher – é bom lembrar que as mulheres formavam a maioria do público leitor de romances na época – que lê de modo impaciente e fútil. O capítulo XXVII - De uma reflexão intempestiva é todo dedicado a esse diálogo. O narrador flagra a reflexão de uma leitora hipotética sobre o que escrevera no capítulo anterior: “Mas se duas velhas gravuras os levam a murro e sangue, contentar-se-ão eles com a sua esposa? Não quererão a mesma e única mulher?” Ao responder, o narrador imagina as restrições da leitora vulgar, impregnada do romantismo mais banal, à sua obra:

“O que a senhora deseja, amiga minha, é chegar já ao capítulo do amor ou dos amores, que é o seu interesse particular nos livros. Daí a habilidade da pergunta, como se dissesse: ‘Olhe que o senhor ainda nos não mostrou a dama ou damas que têm de ser amadas ou pleiteadas por estes dois jovens inimigos. Já estou cansada de saber que os rapazes não se dão ou se dão mal; é a segunda ou terceira vez que assisto às blandícias da mãe ou aos seus ralhos amigos. Vamos depressa ao amor, às duas, se não é uma só a pessoa...’”
Francamente, eu não gosto de gente que venha adivinhando e compondo um livro que está sendo escrito com método. A insistência da leitora em falar de uma só mulher chega a ser impertinente. Suponha que eles deveras gostem de uma só pessoa; não parecerá que eu conto o que a leitora me lembrou, quando a verdade é que eu apenas escrevo o que sucedeu e pode ser confirmado por dezenas de testemunhas? Não, senhora minha, não pus a pena na mão, à espreita do que me viessem sugerindo. Se quer compor o livro, aqui tem a pena, aqui tem o papel, aqui tem um admirador; mas, se quer ler somente, deixe-se estar quieta, vá de linha em linha; dou-lhe que boceje entre dois capítulos, mas espere o resto, tenha confiança no relator destas aventuras.”

- Digressão: A atitude do narrador não é só digressiva afastando-se por uns instantes da linha narrativa básica, mas também metalinguística, pois através da interrupção da leitora, acaba por comentar seu método compositivo. Mas a “leitora” de fato antecipou um aspecto importante da narrativa que ainda estava por se desenrolar, o demonstra que não era tão fútil assim. O narrador irrita-se com a “reflexão intempestiva” da leitora, mas essa digressão é usada com maestria por Machado de Assis para já se desculpar pelo lance melodramático que irá se seguir: Pedro e Paulo ficarão realmente apaixonados pela mesma mulher. Basta lembrar o romance romântico “Os Irmãos Corsos” (1841), de Alexandre Dumas, para verificar que não se trata de entrecho muito original.

- Narrativa lenta: Em “Esaú e Jacó”, as paradas e digressões não são tão comuns côo em outras obras machadianas. Mas o velho hábito está presente em inúmeras passagens, como é percebida numa leitura atenta do livro. Basta, ver as várias referências políticas que estão disseminadas pelo romance, as considerações e reflexões filosóficas e morais, além das conversas constantes com o leitor.
- Objetividade a impessoalidade: Não resta dúvida que essa é uma característica que reflete a época da precisão, da imparcialidade e da observação. Ao contrário do Romantismo, no Realismo o escritor não interfere na conduta de suas personagens; tanto quanto possível, ele se afasta delas, desenvolvendo assim uma narrativa objetiva e impessoal. No romance específico, é fácil perceber essa característica, embora o Conselheiro Aires tenha muito de Machado de Assis: é um homem cordato, grave, ponderado, equilibrado, inteligente tomo o próprio escritor. Mas o livro em si retrata uma situação que é vista e narrada por um observador que procura ser objetivo e impessoal, como revela na passagem abaixo, do Cap. XLVIII:
“Ao cabo, não estou contando a minha vida, nem as minhas opiniões, nem nada que não sela das pessoas que entram no livro. Estas é que preciso por aqui integralmente com as suas virtudes e imperfeições, se as têm. Entende-se isto, sem ser preciso notá-lo, mas não se perde nada em repeti-lo”.

- Ironia amarga: “Quanto às larguezas do marido, não esqueças que o parente era defunto, e o defunto um parente menos.”


- Tempo linear: “Naquele mesmo dia, Batista foi ao marechal Floriano...”; “Falou de uma revolução, de dois ministros mortos, um fugido, os demais presos. O imperador, capturado em Petrópolis, vinha descendo a serra.”
- Enfoque do tempo presente: O Realismo retrata a vida contemporânea. Enquanto o romântico se volta para o passado ou se projeta no futuro, através do sonho, da imaginação, da idealização, o realista se fixa no presente, porque o que lhe interessa é a vida que o rodeia. Nesse sentido, justifica-se a crítica, a sátira e a ironia, que se tornam armas com que os escritores realistas combatem as depravações morais da sociedade, da qual riem e escarnecem.
- Narrativa lenta e pormenorizada: Se a grande preocupação do escritor realista é com a análise, claro está que o seu processo narrativo será lento. Os pormenores, detalhes aparentemente dispensáveis, contribuem, por outro lado, para o painel ou retrato da realidade que se quer expor. Em “Esaú e Jacó”, a narrativa está cheia de fatos e episódios que não fazem parte propriamente da história, o que retarda o desfecho: o processo é, pois, lento e pormenorizado.
Como exemplo, veja-se esta passagem do Cap. XI:
“Perdoa estas minúcias. A ação podia ir sem elas, Mas eu quero que saibas que casa era, e que rua e, mais digo que ali havia uma espécie de clube...”
- Fidelidade na descrição de situações e personagens: A verdade dos fatos é uma das principais preocupações realistas. Ser fiel àquilo que descreve é uma norma que o escritor realista, tanto quanto possível, procura seguir.
“Não me peças a causa de tanto encolhimento no anúncio e na missa, e tanta publicidade na carruagem, lacaio e libré. Há contradições explicáveis. Um bom autor, que inventasse a sua história, ou prezasse a lógica aparente dos acontecimentos, levaria o casal Santos a pé ou em caleça de praça ou de aluguel; mas eu, amigo, eu sei como as causas se passaram, e refiro-as tais quais. Quando muito, explico-as, com a condição de que tal costume não pegue”.
- Gosto pela análise: A análise é uma característica básica na ficção realista, principalmente a análise psicológica. Em inúmeras passagens de “Esaú e Jacó”, encontra-se a preocupação de analisar, onde Machado procura desvendar e esclarecer os segredos da alma humana, como é o caso do excerto extraído do Cap. XCIII:
“Talvez a causa daquelas síncopes da conversação fosse a viagem que o espírito da moça fazia à casa da gente Santos. Uma das vezes, o espírito voltou para dizer estas palavras ao coração: “Quem és tu, que não atas nem desatas? Melhor é que os deixes de vez. Não será difícil a ação, porque a lembrança de um acabará por destruir a de outro, e ambas se irão perder com o vento, que arrasta as folhas velhas e novas, além das partículas de cousas, tão leves e pequenas, que escapam ao olho humano. Anda, esquece-os: se os não podes esquecer, faze por não os ver mais; o tempo e a distância farão o resto”.
- Moralismo e Reflexões: Outra característica que marca o estilo machadiano é o gosto pelas considerações filosóficas e reflexões morais que vai espalhando ao longo do seu caminho: “o leitor agarra a história e vai até o fim levado pelo escritor que recheia a narrativa de suas contínuas e peculiares reflexões”, observa o crítico Massaud Moisés. No livro, não há melhor exemplo, nesse sentido, do que o Aires, com suas considerações e reflexões que vai reunindo no seu Memorial, como estas que transcrevemos aqui: “Na mulher, o sexo corrige a banalidade; no homem agrava”, escreveu ele no Memorial, justificando assim porque “preferia a conversação das mulheres”.
Noutra passagem, é digna de nota uma reflexão que está no capítulo “A Mulher é a desolação do Homem” (LV), onde afirma Machado que “o leitor atento, verdadeiramente ruminante, tem quatro estômagos no cérebro, e por eles faz passar e repassar, os atos e os fatos, até que deduz a verdade que estava, ou parecia estar escondida”.
- Intertexualidade e polifonia: “No fim do almoço, Aires deu-lhes uma citação de Homero, aliás duas, uma para cada um, dizendo-lhes que o velho poeta as cantara separadamente, Paulo no começo da Ilíada: “Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu, cólera funesta aos gregos, que precipitou à estância de Plutão tantas almas válidas de heróis, entregues os corpos às aves e aos cães...”; “Cita Goethe, amiga minha, cita um verso do Fausto, adequado: Ai, duas almas no meu sei moram!”
O texto literário realiza-se como um espaço no qual se cruzam diversas linguagens, variadas vozes, diferentes discursos. O procedimento pelo qual se estabelece esse múltiplo diálogo é a intertextualidade. Ora, as vozes que se cruzam nesse espaço intertextual são vozes diferentes e às vezes opostas, caracterizando-se, portanto, o fenômeno da polifonia.
O romance “Esaú e Jacó” é rico nesses dois procedimentos. Sirva de modelo o capítulo I. Natividade e sua irmã Perpétua sobem o Morro do Castelo para consultar Bárbara, a cabocla vidente. Essa motivação e a cena da entrevista com a adivinha caracterizam o discurso mítico, a esfera da religiosidade e da crendice. Nesse caso, relacionado a um contexto popular. Mas o narrador faz referência a Ésquilo, considerado o criador da tragédia grega, a sua peça “As Eumênides” e à personagem Pítia, sacerdotisa do templo de Apolo que pronunciava oráculos. Temos aqui novamente o discurso mítico, só que agora no contexto da antiguidade clássica, ambientado na sofisticada Grécia.
A referência ao teatro, por sua vez, remete a uma outra linguagem, e temos então a voz narrativa do romance dialogando com a voz da personagem teatral.
Observe-se, ainda, que durante a consulta, lá fora o pai da advinha tocava viola e cantarolava “uma cantiga do sertão do Norte”, portanto, outra voz / outro discurso se cruzando com os demais: a música e a poesia sertaneja.
E assim vamos encontrar ao longo do romance inúmeras referências, alusões, citações (inclusive em francês e latim) e situações relacionados com a Bíblia, com personagens famosos do mundo da política, da literatura, do teatro, da filosofia, da mitologia.

- Crítica ao determinismo: “Tinham o mesmo peso e cresciam por igual medida. A mudança ia-se fazendo por um só teor. O rosto comprido, cabelos castanhos, dedos finos e tais que, cruzados os da mão direita de um com os da esquerda de outro, não se podia saber que eram de duas pessoas.”, sabendo-se que foram concebidos com a mesma herança genética, no mesmo meio e momento, tornam-se opostos: “Viriam a ter gênio diferente, mas por ora eram os mesmos estranhões.”
- Monarquia versus República: Os gêmeos nos trazem reflexões políticas que, certamente, ocupavam o imaginário da época, além de Flora, apaixonada pelos irmãos, que caracteriza a indecisão, marca registrada da obra machadiana, que nada afirma sem, logo a seguir, meter a dúvida de permeio. Machado de Assis utiliza as duas personagens — Pedro e Paulo — para, em cada uma, incorporar seu espírito hesitante e em constante luta íntima na grande questão que nos traz esta obra: Monarquia X República.


“Há nos mais graves acontecimentos, muitos pormenores que se perdem, outros que a imaginação inventa para suprimir os perdidos, e nem por isso a história morre”, prega um trecho de “Esaú e Jacó”. O livro possui uma particularidade: refletir a posição política de um homem tido como alheio a movimentos de tal natureza. Acusado de indiferente, frio e inteiramente desligado das paixões políticas, Machado de Assis, nesta obra, discute e analisa uma das mais importantes épocas da política brasileira. Em “Esaú e Jacó”, Machado de Assis revela uma fina percepção do fenômeno, na época de seu desenrolar. No capítulo LX – Manhã de 15, narra o passeio de Aires por uma cidade convulsa e atordoada, em que ninguém sabe ao certo o que estava acontecendo:

“Notou que a pouca gente que havia ali não estava sentada, como de costume, olhando à toa, lendo gazetas ou cochilando a vigília de uma noite sem cama. Estava de pé, falando entre si, e a outra que entrava ia pegando na conversação sem conhecer os interlocutores; assim lhe pareceu, ao menos. Ouviu umas palavras soltas, Deodoro, batalhões, campo, ministério, etc. (…) Quando Aires saiu do Passeio Público, suspeitava alguma coisa, e seguiu até o largo da Carioca. Poucas palavras e sumidas, gente parada, caras espantadas, vultos que arrepiavam caminho, mas nenhuma notícia clara nem completa. Na rua do Ouvidor, soube que os militares tinham feito uma revolução, ouviu descrições da marcha e das pessoas, e notícias desencontradas.”

Apesar de “suspeitar alguma coisa”, depois de ouvir relatos exagerados e desencontrados do cocheiro do tílburi que o levou para a casa e de seu criado José, Aires “não acreditou na mudança de regime” (…). Também bestializado, como o resto da população, menospreza a situação:

“Reduziu tudo a um movimento que ia acabar com a simples mudança de pessoal.
— Temos gabinete novo, disse consigo.”
Almoçou tranqüilo, lendo Xenofonte: “Considerava eu um dia quantas repúblicas têm sido derribadas por cidadãos que desejam outra espécie de governo, e quantas monarquias e oligarquias são destruídas pela sublevação dos povos; e de quantos sobem ao poder, uns são depressa derribados, outros, se duram, são admirados por hábeis e felizes...”

Segue-se um dos momentos mais curiosos de toda a obra de Machado de Assis, a cena da “tabuleta” que mandara pintar para seu estabelecimento, a “Confeitaria do Império”. É Custódio que informa Aires sobre a Proclamação da República. Teme que sua confeitaria seja apedrejada. Aires sugere mudar o nome para “Confeitaria da República”, mas o confeiteiro adverte para o fato de que a situação pode mudar. Aires sugere “Confeitaria do Governo”, mas Custódio lembra que todo governo tem oposição… E assim sucedem-se as objeções do confeiteiro, preocupado em agradar a todos, até que o conselheiro:

“Disse-lhe então que o melhor seria pagar a despesa feita e não pôr nada, a não ser que preferisse o seu próprio nome: “Confeitaria do Custódio”. Muita gente certamente lhe não conhecia a casa por outra designação. Um nome, o próprio nome do dono, não tinha significação política ou figuração histórica, ódio nem amor, nada que chamasse a atenção dos dois regimes, e conseguintemente que pusesse em perigo os seus pastéis de Santa Clara, menos ainda a vida do proprietário e dos empregados. Por que é que não adotava esse alvitre? Gastava alguma coisa com a troca de uma palavra por outra, Custódio em vez de Império, mas as revoluções trazem sempre despesas.”

Essa cena comprova o que Aires iria escrever no seu Memorial: “Não há alegria pública que valha uma boa alegria particular.” Nos dois últimos romances de Machado de Assis essa preocupação com as relações entre o público e o privado aparecem ligadas a fatos históricos importantes do momento narrado.
A referência irônica à República, porém, está principalmente em dois comentários similares de Custódio diante das sugestões de Aires. O primeiro é quando o Conselheiro lhe propõe trocar o nome para Confeitaria da República, e ele pondera: ”Lembrou-me isso, em caminho, mas também me lembro que, se daqui a um ou dois meses, houver nova reviravolta, fico no ponto em que estou hoje, e perco outra vez o dinheiro.” E o segundo comentário, ao final do mesmo capítulo LXIII, é quando Aires então sugere Confeitaria do Custódio, e o comerciante considera: “- Sim, vou pensar, Excelentíssimo. Talvez convenha esperar um ou dois dias, a ver em que param as modas [...].”
Percebe-se, por aí, a insinuação de que seria de pouca seriedade e duração a República recém-proclamada. Esse ponto de vista depreciativo, aliás, aparece em outros momentos do romance, reafirmando a conhecida preferência do cidadão Machado de Assis pelo Império. Várias vezes o escritor se manifestou a esse respeito, opinando que, por razões históricas e culturais, o regime imperial era o mais adequado à realidade brasileira. Por outro lado, Machado de Assis também tinha consciência de que o Império apresentava rachaduras e estava se desmoronando.
Flora, simbolicamente, personifica essa perplexidade: não pode ficar só com Pedro [Monarquia] nem só com Paulo [República]. Seu desejo é a fusão, a síntese do que de melhor houvesse nos dois: ideal irrealizável!
A não-conciliação dos gêmeos representaria, então, a impossibilidade de se chegar a um regime político ideal, o que, nessa obra, explica o já tão comentado pessimismo e ceticismo machadiano
Retomando a análise de Pedro e Paulo, é através destas duas personagens que nos chegam ás pulsações políticas do autor.

“Para resumir o nível de confronto dos irmãos, digo apenas uma coisa: se perguntados sobre a data de seus aniversários — 7 de abril de 1870 — Paulo diria: “Nasci no aniversário do dia em que Pedro I caiu do trono”. E Pedro: “Nasci no aniversário do dia em que sua Majestade subiu ao trono”.

Flora oscila como um pêndulo entre o amor de Pedro e Paulo e, até a morte, hesita. Chega a ter alucinações. Ouve vozes. E, fundindo-as em apenas uma, de tão iguais que eram, transforma os gêmeos em uma única pessoa.
O drama de Flora consiste em não se decidir, tal era a atração pelos gêmeos. Machado de Assis resume os anseios da moça assim:

“Era um espetáculo misterioso, vago, obscuro em que as figuras visíveis se faziam impalpáveis, o dobrado ficava único, o único dobrado, uma fusão, uma confusão, uma difusão”.

A complexidade dos sentimentos que fazem de Flora um símbolo da indecisão de Machado de Assis põe a descoberto uma constante no espírito titubeante do seu criador. Tomar uma decisão constituiu, sem a menor dúvida, algo penoso, quase uma transgressão consigo mesma, para quem, de preferência, acreditava nas coisas boas e más, sem revoltas violentas ou medidas drásticas. A rebeldia machadiana, como a de Voltaire, se manifesta sutilmente nos ditos satíricos, na ironizante e particular maneira de mostrar, nos lábios, um sorriso de desdém e, nos olhos, ocultar as lágrimas de compaixão pelas aspirações humanas. Interrogações seguidas de resposta cética e imediata como esta: “Vives? Não quero outro flagelo”. Expõem feridas e cicatrizes íntimas. Em Machado de Assis, tão introvertido, o humor seria uma válvula de escape em textos carregados de impressões refinadas pela sua sensibilidade.

2 comentários:

Anônimo disse...

Ótimo resumo! Um dos melhores que li sobre este livro. Fusão perfeita entre a história explícita e o pensamentos subjetivos de Machado que estão nas entrelinhas. Parabéns!

Anônimo disse...

Parabéns pelo belíssimo trabalho! Sem dúvida alguma é uma das melhores análises literárias que eu já li! Ajudou-me muito!