sexta-feira, 26 de novembro de 2010

“CONTOS DE APRENDIZ”, 1951



CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


“FLOR, TELEFONE, MOÇA”







“Não, não é conto. Sou apenas um sujeito que escuta algumas vezes, que outras não escuta, e vai passando. Naquele dia escutei, certamente porque era a amiga quem falava, e é doce ouvir os amigos, ainda quando não falem, porque amigo tem o dom de se fazer compreender até sem sinais. Até sem olhos.
Falava-se de cemitérios? De telefones? Não me lembro. De qualquer modo, a amiga – bom, agora me recordo que a conversa era sobre flores – ficou subitamente grave, sua voz murchou um pouquinho.
– Sei de um caso de flor que é tão triste!
E sorrindo:
– Mas você não vai acreditar, juro.”

O conto é iniciado com a observação de que a história foi contada oralmente ao narrador por uma amiga, acompanhado pela negativa de que o texto seja conto. Dessa forma, o narrador se exime de todas as responsabilidades sobre tal estória e das possíveis críticas a esse respeito.
A amiga do narrador vai desenrolando o “caso de flor” pausadamente e acrescenta que a história a ser narrada é “triste”, além de levantar a dúvida sobre sua própria narrativa, antecipando o insólito.

– Mas você não vai acreditar, juro.”

O recurso narrativo de se contar a história para um “destinatário” permite que amplie o campo ficcional, pois transfere a posição de narrador para um passivo ouvinte.

“Quem sabe? Tudo depende da pessoa que conta, como do jeito de contar. Há dias em que não depende nem disso: estamos possuídos de universal credulidade. E daí, argumento máximo, a amiga asseverou que a história era verdadeira.”

Em seguida, a “emissora” apresenta a sua protagonista recorrendo às descrições dos aspectos físicos do ambiente real – o Rio de Janeiro urbano e comportamentais da personagem.

“– Era uma moça que morava na Rua General Polidoro, começou ela. Perto do Cemitério São João Batista. Você sabe, quem mora por ali, queira ou não queira, tem de tomar conhecimento da morte. Toda hora está passando enterro, e a gente acaba por se interessar. Não é tão empolgante como navios ou casamentos, ou carruagem de rei, mas sempre merece ser olhado. A moça, naturalmente, gostava mais de ver passar enterro do que não ver nada. E se fosse ficar triste diante de tanto corpo desfilando, havia de estar bem arranjada.
Se o enterro era mesmo muito importante, desses de bispo ou de general, a moça costumava ficar no portão do cemitério, para dar uma espiada. Você já notou como coroa impressiona a gente? Demais. E há a curiosidade de ler o que está escrito nelas. Morto que dá pena é aquele que chega desacompanhado de flores – por disposição de família ou falta de recursos, tanto faz. As coroas não prestigiam apenas o defunto, mas até o embalam. Às vezes ela chegava a entrar no cemitério e a acompanhar o préstimo até o lugar do sepultamento. Deve ter sido assim que adquiriu o costume de passear lá por dentro.”

Nessa passagem, evidencia o caráter documental que a amiga do narrador pretende dar a sua narrativa, inserindo digressões e opiniões próprias na tentativa de persuadir o ouvinte. Entretanto, quando questionada pelo narrador, ela não possui respostas exatas e contra argumenta que são informações secundárias.

“– Mas a moça era de Botafogo.
– Ela trabalhava?
– Em casa. Não me interrompa. Você não vai me pedir certidão de idade da moça, nem sua descrição física. Para o caso que estou contando, isso não interessa. O certo é que de tarde costumava passear – ou melhor, "deslizar" pelas ruinhas brancas do cemitério, mergulhada em cisma.. Olhava uma inscrição, ou não olhava, descobria uma figura de anjinho, uma coluna partida, uma águia, comparava as covas ricas às covas pobres, fazia cálculos de idade dos defuntos, considerava retratos em medalhões – sim, há de ser isso que ela fazia por lá, pois que mais poderia fazer? Talvez mesmo subisse ao morro, onde está a parte nova do cemitério, e as covas mais modestas.”

Até que um dia, a moça durante seu passeio pelo cemitério, arranca inconsequentemente, uma flor de um túmulo e, a partir desse acontecimento, sua vida transforma-se num caos.

“– Uma flor qualquer. Margarida, por exemplo. Ou cravo. Para mim foi margarida, mas é puro palpite, nunca apurei. Apanhou com esse gesto vago e maquinal que a gente tem diante de um pé de flor. Apanha, leva ao nariz – não tem cheiro, como inconscientemente já esperava –, depois amassa a flor, joga para um canto. Não se pensa mais nisso.
Se a moça jogou a margarida no chão do cemitério ou no chão da rua, quando voltou para casa, também ignoro. Ela mesma se esforçou mais tarde por esclarecer esse ponto, mas foi incapaz. O certo é que já tinha voltado, estava em casa bem quietinha havia poucos minutos, quando o telefone tocou, ela atendeu.
– Aloooô...
– Quede a flor que você tirou de minha sepultura?”

A moça, desde então, recebe insistentemente, estranhos telefonemas. Ela não consegue identificar a voz, se de homem ou de mulher, vinha longínqua como num interurbano, que reivindicava a flor que lhe fora “furtada da cova”.
Inicialmente, pensou tratar-se de um trote e chegou até desafiar a “voz”:

”Cinco minutos dão para a pessoa mais sem imaginação sustentar um trote. A moça riu de novo, mas preparada.
– Está aqui comigo, vem buscar.
No mesmo tom lento, severo, triste, a voz respondeu:
– Quero a flor que você me furtou. Me dá minha florzinha.”


A moça não se lembrava de ter visto nenhum conhecido. Com certeza se tratava de voz disfarçada. “Esquisito, uma voz fria” e, a moça começou ter medo.
A perseguição telefônica não parava. Sempre à mesma hora, no mesmo tom. A voz não ameaçava, não crescia de volume: implorava. Parecia que o diabo da flor constituía para ela a coisa mais preciosa do mundo, e que seu sossego eterno – admitindo que se tratasse de pessoa morta – ficara dependendo da restituição de uma simples flor. Mas seria absurdo admitir tal coisa, e a moça, além do mais, não queria se amofinar. No quinto ou sexto dia, ouviu firme a cantilena da voz e depois passou-lhe uma bruta descompostura. Fosse amolar o boi. Deixasse de ser imbecil (palavra boa, porque convinha a ambos os sexos). E se a voz não se calasse, ela tomaria providências.”
Nessa passagem, surge á possibilidade de tratar-se de uma pessoa morta, uma história de assombração ao modo do fantástico tradicional. A moça desesperada resolveu desabafar com o irmão e depois com o pai que depois de ouvirem às súplicas da “voz”, concluíram que se trata de um trote de algum desocupado.


O interessante é que quando se referiam a ele, diziam “a voz”.
Era preciso usar o cérebro. Indagar, apurar na vizinhança, vigiar os telefones públicos. Pai e filho dividiram entre si as tarefas. Passaram a frequentar as casas de comércio, os cafés mais próximos, as lojas de flores, os marmoristas. Se alguém entrava e pedia licença para usar o telefone, o ouvido do espião se afiava. Mas qual. Ninguém reclamava flor de jazigo. E restava a rede dos telefones particulares. Um em cada apartamento, dez, doze no mesmo edifício. Como descobrir?”
A moça deixou de atender telefone. Não falava mais nem com as amigas.
A família sentindo-se ameaçada foi queixar-se à polícia.
Ou a polícia estava muito ocupada em prender comunista, ou investigações telefônicas não eram sua especialidade – o fato é que não se apurou nada. Então o pai correu à Companhia Telefônica. Foi recebido por um cavalheiro amabilíssimo, que coçou o queixo, aludiu a fatores de ordem técnica...
– Mas é a tranquilidade de um lar que eu venho pedir ao senhor! É o sossego de minha filha, de minha casa. Serei obrigado a me privar de telefone?”
A moça não se lembrava de qual sepultura havia furtado a flor, então, a mãe comprou “cinco ramalhetes colossais, atravessou a rua como um jardim vivo e foi derramá-los votivamente sobre os cinco carneiros. Voltou para casa e ficou à espera da hora insuportável. Seu coração lhe dizia que aquele gesto propiciatório havia de aplacar a mágoa do enterrado – se é que os mortos sofrem, e aos vivos é dado consolá-los, depois de os haver afligido.”
Mas, nem esse procedimento saciou “a voz” que insistia ter de volta a sua flor e não outras que “não brotavam de seu estrume”.


Sobrou-lhe a última opção: procurarem auxílio através do espiritismo, “mas os poderes sobrenaturais se recusaram a cooperar, ou eles mesmos são impotentes, quando alguém quer alguma coisa até sua última fibra, e a voz continuou, surda, infeliz, metódica. Se era mesmo de vivo (como às vezes a família ainda conjeturava, embora se apegasse cada dia mais a uma explicação desanimadora, que era a falta de qualquer explicação lógica para aquilo), seria de alguém que houvesse perdido toda noção de misericórdia; e se era de morto, como julgar, como vencer os mortos?”
A voz não parou de atormentá-la sistematicamente e a tal ponto que a moça morre “no fim de alguns meses”, exaurida pela insistência das ligações do suposto “fantasma”.


O conto “Flor, telefone, moça” é narrado por insistência realística do testemunho da emissora aliado a ausência de descrições precisas que colocam em cheque a verossimilhança da narrativa, operando a dicotomia entre o real e o metafísico.
A linguagem, assim, não será do autor, mas a dos sentimentos pessoais, fermentados, cristalizados e expressos segundo os meios de comunicação de cada personagem.
O autor está, portanto, fora do texto: nada sabe, nada viu; apenas tece, nos seus pressentimentos, a débil teia ficcional. Preferiu que as personagens falassem em diálogos e como ponto de sustentação da trama, elegeu uma sondagem psicológica e moral.
O título do conto já traz uma carga significativa e sugestiva.
A moça é disposta numa determinada situação cotidiana e tem o seu perfil avaliado pela emissora. Ambientado num cenário urbano o lado absurdo do dia a dia apresenta uma aparente simplicidade no tocante ao desenvolvimento da trama, porém, que é interrompida pelos telefonemas misteriosos e anônimos. Esse suspense deixa no leitor a hesitação, a incerteza, em relação a essa voz, pois não é desvendado no desfecho, se ela era um fenômeno do além-mundo ou algum trote de alguém que tivesse visto a moça despretensiosamente pegar a flor do túmulo.
O conto torna-se ímpar em relação a outros contos fantásticos mais tradicionais; pois “a voz” ameaçadora vem pelo telefone, ou seja, um objeto da modernidade. Pode-se dizer que, nesse conto, o insólito não está no fato fantástico em si, mas também no fato de uma “assombração”, fazer do uso do telefone para aterrorizar sua vítima. Por essa razão, há, em alguma medida, o deslocamento do terror para o humor, o que provoca um efeito parodístico e carnavalizado no conto e comprova uma intenção do autor de experimentar e o de fazer, evidenciando a recorrente dupla face do criador e do crítico.
Dessa forma, o homem “normal” torna-se objeto do fantástico por excelência e o fato fantástico passa a ser a regra e não a exceção.

Nenhum comentário: