segunda-feira, 22 de novembro de 2010

SOLOMBRA, CECÍLIA MEIRELLES


Rio de Janeiro, 1901 – 1964


“Entre mim e mim, há vastidões bastantes para a navegação dos meus desejos afligidos.”




I – AUTORA:


BIOGRAFIA
Escreverás meu nome com todas as letras,
com todas as datas,
— e não serei eu.
Repetirás o que me ouviste,
o que leste de mim, e mostraras meu retrato,
— e nada disso serei eu
Dirás coisas imaginárias,
invenções sutis, engenhosas teorias,
— e continuarei ausente,
Somos uma difícil unidade,
de muitos instantes mínimos,
— isso serei eu,
Mil fragmentos somos, em jogo misterioso,
aproximamo-nos e afastamo-nos, eternamente,
— Como me poderão encontrar?
Novos e antigos todos os dias,
transparentes e opacos, segundo o giro da luz,
nós mesmos nos procuramos.
E por entre as circunstâncias fluímos,
leves e livres corno a cascata pelas pedras.
— Que mortal nos poderia prender?
(Poemas II, p.1118-9)

Sua vida e suas características são contadas pela própria autora, como se segue abaixo:

“Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a morte que docemente aprendi essas relações entre o efêmero e o eterno (...) Em toda a minha vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou sentimento de transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade.”
“Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde, foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano.”

Cecília Meireles foi criada no Rio de Janeiro pela avó materna. Formou-se em Magistério e tornou-se professora do nível fundamental.
Estreou com a publicação da obra “Espectros”, em 1919.


A partir de 1922, aproximou-se do grupo de escritores católicos que, por meio de revistas como Festa, dirigida pelo poeta Tasso da Silveira, defendia a poesia simbolista de Cruz e Sousa. Publicou na época Nunca Mais (1923), Poema dos Poemas (1923) e Baladas para El-Rei (1925). Anos depois, já mais independente, alcançou prestígio com “Viagem” (1939), premiado pela Academia Brasileira de Letras. Em 1953, publicou “Romanceiro da Inconfidência”, onde recriou poeticamente a história de Tiradentes e dos outros inconfidentes das Minas Gerais do século XVII. Paralelamente à poesia, dedicou-se ao estudo de línguas, música (canto, violão, violino), história, desenho, ao jornalismo e à educação. De 1930 a 1934, no Diário de Notícias, escreveu uma página sobre ensino e, no jornal A Manhã, de 1942 a 1944, sobre folclore infantil. Criou a primeira biblioteca especializada em literatura infantil (1934), em Botafogo. Lecionou Literatura Brasileira na Universidade do Distrito Federal (1936 a 1938) e na do Texas, Estados Unidos (1940).

Após o suicídio de seu marido, além das aulas de literatura ministradas em universidades, dedicou-se ao jornalismo.
Em 1938, publica “Viagem” que lhe garante um prêmio da Academia Brasileira de Letras.
Cecília Meireles reafirmou a importância de sua contribuição à poesia da língua portuguesa em vários outros livros, entre eles “Vaga música” (1942); “Mar absoluto” (1945); “Retrato natural” (1949); “Doze noturnos da Holanda” (1952); “Romanceiro da Inconfidência” (1953); “Metal rosicler” (1960); “Poemas escritos na Índia” (1962); “Solombra” (1964) e “Ou isto ou aquilo” (1964). Em português clássico, a autora serviu-se de todos os metros e ritmos com a mesma flexibilidade, a fim de construir uma obra ao mesmo tempo pessoal e universal. A autora intensificou seus trabalhos literários e em 1965, a Academia concede-lhe o Prêmio Machado de Assis, um ano após a sua morte.


II - OBRAS:

Poesia: Espectros
Nunca mais...e Poema dos Poemas
Baladas para El-rei
Viagem
Vaga Música
Mar absoluto
Retrato natural
Amor em Leonoreta
Doze Noturnos de Holanda e o Aeronauta
Romanceiro da Inconfidência
Pequeno Oratório de Santa Clara
Pistóia, Cemitério Militar Brasileiro
Canções
Romance de Santa Cecília
A Rosa
Metal Rosicler
Poemas Escritos na Índia
Antologia Poética
Solombra
Ou isto ou Aquilo
Crônica Trovada da Cidade de San Sebastiam
Poemas italianos

Teatro: O menino atrasado

Ficção: Olhinhos de Gato

Prosa Poética: Giroflê, Giroflá
Evocação Lírica de Lisboa
Eternidade de Israel

Crônica: Escolha o seu Sonho
Inéditos



III – OBRA:


“SOLOMBRA”, 1963.


“Levantei os olhos para ver quem falara. Mas apenas ouvi as vozes combaterem. E vi que era no Céu e na Terra. E disseram-me: Solombra.”



Eu sou essa pessoa a quem o vento chama,
a que não se recusa a esse final convite,
em máquinas de adeus,sem tentação de volta.

Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza:
Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:
já de horizontes libertada,mas sozinha.

Se a Beleza sonhada é maior que a vivente,
dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho?
Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.

Pelos mundos do vento em meus cílios guardadas
vão as medidas que separam os abraços.
Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:

Agora és livre, se ainda recordas.


TÍTULO:

Cecília Meirelles denominou sua obra por “Solombra”, remetendo ao português arcaico o símbolo da sombra, do noturno, das cinzas.
No próprio título, encontra-se a ideia de noite, de mistério e da aceitação da morte. Enfim, uma simbologia de ausência, do vago, do abstrato e do indefinível.
Cecília Meirelles através de seus versos objetiva transpor todas as barreiras de sua existência, mas depara-se com a barreira intransponível da morte, reduzindo-a em silêncio, melancolia e solidão, reflexo da sua própria existência. Porém, não reflete um sentimento negativista da vida, e, sim, a conscientização da efemeridade de todas as coisas.


CARACTERÍSTICAS:



“Vertente intimista – poeta neossimbolista – toca os limites da música abstrata. A poeta de Solombra parte de um certo distanciamento do real imediato e norteia os processos imagéticos para a sombra, o indefinido, quando não para o sentimento da ausência e do nada.”
(BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira)


“Não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar”.

A partir da publicação de “Viagem”, percebe-se uma maturidade da autora, perante as angústias da vida e a conscientização da efemeridade de todas as coisas. Distante do nacionalismo, das inovações linguísticas e do regionalismo, a autora opta por um mundo ageográfico e intemporal. Preferindo versos curtos de grande beleza e perfeição formal (preferentemente, as redondilhas) acompanhados pela fluidez e a musicalidade; o intimismo; o lirismo; a tendência ao misticismo; o indefinido; o sonho; a fuga e o abstrato, eleva sua temática a universalidade.
A partir desse livro, firmou-se sua integração ao modernismo, como resultado de uma evolução estética e pessoal que se iniciou no parnasianismo, passou pelo simbolismo e assimilou técnicas herdadas dos clássicos, dos gongóricos, dos românticos e dos surrealistas.
Cecília situa-se inicialmente na “corrente espiritualista”, influenciada pelos integrantes da Revista Festa de inspiração neo-simbolista.
A consciência de sua fragilidade, marcada por um forte tom melancólico, mas sustentada pela racionalidade, a poesia de Cecília Meireles transforma o que há de mais etéreo, a fugacidade da vida, em imagem, sem versos derramados, intimistas ou superficiais. Devido à precisão e à musicalidade de sua linguagem, muitas vezes seu trabalho é associado à dicção lusitana e ao simbolismo.


ESTRUTURA:

Composto por 28 poemas, sem numeração, aparentemente sem sequência, a obra apresenta uma linha temática contínua que remete a trajetória do eu lírico em construção até a sua transformação num ser completo através do aprendizado da vida. Há uma contemplação de sentimentos que são conduzidos à medida que os poemas são colocados na obra.
Inicialmente, um dos aspectos mais vivos de “Solombra” é o da poesia sobre a poesia, a poesia que se observa e se pensa, a metapoesia.
O eu lírico convida o receptor, a solombra ou sombra de que se refere o título, a mergulhar e acompanhá-la através de seus versos a sua travessia “Vens sobre noites sempre. E onde vives? Que flama”. Num segundo momento, o eu lírico parte de certo distanciamento do real imediato e dirige os processos imagéticos para a sombra, o indefinido, o sentimento de ausência e constata que através do silêncio e do ato solitário nascerá á grande poesia.


Vens sobre noites sempre. E onde vives? Que flama
pousa enigmas de olhar como, entre céus antigos,
um outro Sol descendo horizontes marinhos?

Depois de estabelecer esse diálogo inicial, o eu lírico cria a analogia a partir da ideia da sombra como um espaço para investigar, analisar, questionar a si próprio, em uma atitude claramente filosófica. Trabalhando com elementos móveis e etéreos, povoados de fantasias, forma, cor, o eu lírico projeta a desintegração de si mesmo ou busca o seu reconhecimento.

Caminho pelo acaso dos meus muros,
buscando a explicação de meus segredos.
E apenas vejo mãos de brando aceno,

Olhos com jaspes frágeis de distância,
lábios em que a palavra se interrompe:
medusas da alta noite e espumas breves.

Nestes versos, o eu lírico constata a solidão, embora em primeira pessoa, não se trata de uma solidão com tendências individualistas. A solidão de Cecília Meirelles contém a solidão do mundo, fundindo o “eu” e o “outro” numa única unidade de busca. Ela ultrapassa os seus muros (“meus muros,
buscando a explicação de meus segredos”) e atinge o mundo, inclusive o mundo do mistério, do transcendente.

Se agora me esquecer, nada que a vista alcança
parecerá mudado. E a sombra, exata e móvel,
seguirá com sossego o caminho dos vivos.

(...)
No meu dia seguinte encontrareis aquela
consequência de ser clarividente e pronta
- livre continuação de destinos antigos.

(Ah, mas se eu te esquecer ficará pelo mundo,
morto e desenterrado, um vago prisioneiro,
entregue à dúbia lei dos seus cinco sentidos!

Amarga morte: suposta vida...)


A fuga, a fluidez, a melancolia, as formas vagas e abstratas impregnam seus versos.


Arco de pedra, torre em nuvens embutida,
sino em cima do mar e luas de asas brancas...
Meu vulto anda em redor, abraçado a perguntas.

Anda em redor minha alma: e a música e a ampulheta
desmancham-se no céu, nas minhas mãos dolentes,
e a vastidão do amor fragmenta-se em mosaicos.

Ó calma arquitetura onde os santos passeiam
e com olhos sem sono observam labirintos
de terra triste em que os destinos se entrelaçam.

... – presa estou, como a rosa e o cristal, nas arestas
de exatas cifras delicadas que se encontram
e se separam: em polígonos de adeuses...

Alada forma, onde coincidimos?

Nestes versos o eu lírico retoma aspectos temáticos dos simbolistas como o desencanto, a nostalgia, a mística ansiedade, a precariedade da existência humana e a falta de sentido da vida. No entanto, seu tom melancólico é sereno, jamais toca o desespero. Daí o desprezo pela matéria como algo que impede a perfeição e a ascese espiritual (“Anda em redor minha alma”), ou seja, a plenitude da alma, sugerida através de associações vagas e esbatidas (“luas de asas brancas”; “Meu vulto anda em redor”), do misticismo lírico (“santos passeiam”;” destinos se entrelaçam”); do culto da beleza imaterial; a musicalidade aliada a fugacidade da vida (“música e a ampulheta”) .


O gosto da Beleza em meu lábio descansa:
breve pólen que um vento próximo procura,
bravo mar de vitória – ah, mas istmos de sal!

A maiúscula alegorizante do primeiro verso, mais uma vez, distancia-se do individualismo injustificável ao metaforizar a vida e sua efemeridade como uma flor.

Dizei-me vosso nome! Acendei vossa ausência!
Contai-me o vosso tempo e o coração que tínheis!
De que matéria é feito o passado infrutífero?

Que lírico arquiteto arma longos compassos
para a curva celeste a que os homens se negam?
Dizei-me onde é que estais, em que frágil crepúsculo!

(...)
Quem fostes vós? Quem sois? Quem vimos, nos lugares
da vossa antiga sombra? E por quem procuramos?
Que pretendem concluir impossíveis diálogos?

Longe passamos. Todos sozinhos.


O eu lírico consciente da proximidade da morte, reconhece seus limites, despoja o eu das ilusões cotidianas e entrega-se a um novo sentido da realidade, aceitando o término de sua travessia (“Longe passamos. Todos sozinhos”), numa só unidade universal.


Esses adeuses que caíam pelos mares,
declamatórios, a pregar sua amargura,
emudeceram: já não há tempos nem ecos.

Perdeu-se a forma dos abraços. De ar é a lousa
dos cemitérios: um suspiro momentâneo.
De ar esses mortos – que eram de ar enquanto vivos.

De ar, este mundo, esta presença, este momento,
estes caminhos sem firmeza. Dos adeuses
que vamos sendo – ó ramos de ossos, flor de cinzas! –

É que morremos – e num lúcido segredo –
sabendo, ouvindo – atravessados de evidências –
que somos de ar, de adeuses de ar... E tão de adeuses

Que já nem temos mais despedidas.


Trata-se de um exercício místico de aceitação da morte vista como inserção na dimensão noturna e compreendida como transformação em outro modo de ser, motivo por que o eu lírico a ela se entrega. Não propõe nenhuma transcendência religiosa, pois é agnóstica, nem conciliação imaginária para o sofrimento, pois a ferida aberta da condição humana é a sua matéria nuclear. Assim, nas viagens a instâncias metafísicas, o "mar" e a "noite" são em sua obra, símbolos eleitos para expressão e nomeação do incognoscível, da sobre humana vida que o sujeito lírico intui, eufemizando a morte e concebendo esse destino inevitável como uma transmutação em outra forma de ser, própria da condição supra-sensorial.

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