quarta-feira, 13 de outubro de 2010

MORTE E VIDA SEVERINA (1956)



I – AUTOR:


JOÃO CABRAL DE MELO NETO
(Recife, 1920 – Rio de Janeiro, 1999)





"Ele tem um lado popular que se chama João Cabral e tem um lado aristocrático que se chama Melo Neto. Então, ele é, um pouco, todo este universo conflituado e passou quarenta anos tentando resolver este conflito." (Décio Pignatari)



JOÃO CABRAL DE MELO NETO nasceu no Recife-PE, em 9 de janeiro de 1920.
Descendente de tradicionais famílias de Pernambuco e da Paraíba, João Cabral de Melo Neto foi o segundo dos seis filhos de Luiz Antonio Cabral de Melo, senhor de engenho, e de Carmem Carneiro Leão Cabral de Melo. Irmão do historiador Evaldo Cabral de Melo; primo do poeta Manuel Bandeira e do sociólogo Gilberto Freyre; amigo do pintor Joan Miró e do poeta Joan Brossa.
Cabral passou parte da infância e adolescência em engenhos de açúcar. Primeiro no Poço do Aleixo, em São Lourenço da Mata, e depois nos engenhos Pacoval e Dois Irmãos, no município de Moreno. Na infância feliz, seu tempo era dividido entre as brincadeiras na casa grande com Virgínio, seu irmão mais velho a quem era muito unido, os passeios a cavalo pelo canavial e leitura de folhetos de cordel aos empregados do engenho.
Cabral era uma criança sensível, ainda na infância, demonstrava preocupação com o ser humano, numa atitude muito particular para um garoto de oito anos.
A vida no campo marcou-o profundamente, transformando essa experiência pessoal em subsídios para retratar o verdadeiro painel nordestino em suas obras.
Durante a Era Vargas, sua família por conflitos políticos abandonou o engenho e estabeleceu-se no Recife.
Cabral passou estudar no colégio Marista onde cursou até o secundário. Apesar da vivência nos grandes centros, Cabral nunca se adaptou à cidade grande e à agitação do mundo urbano, sentindo-se angustiado e desenvolvendo uma personalidade introspectiva.
A visão dos retirantes fugitivos da seca, dos miseráveis habitantes dos manguezais, o contraste entre os casarões e os mocambos construídos dentro da lama também afetariam o poeta.
Uma realidade que mais tarde se transformaria num outro elemento importante de sua poesia participante.
O seu interesse por literatura iniciou-se em 1936 quando entrou em contato com os poemas de Manuel Bandeira, Jorge de Lima e Carlos Drummond de Andrade.

“O Carlos Drummond de Andrade, quando eu o li ainda no Recife, foi uma revelação. Eu tenho a impressão de que eu escrevo poesia porque eu li o primeiro livro dele “Alguma Poesia”. Foi ele quem me mostrou que ser poeta não significava ser sonhador, que a ironia, a prosa cabiam dentro da poesia.” (João Cabral de Melo Neto)

Esse foi o percurso de Cabral. Através da poesia abre-se para ele todo o universo da arte em que ele mergulha decididamente, transformando-se num grande intelectual.
Em 1938, Cabral participa em Recife de um grupo de intelectuais interessados em literatura. Entre eles, o pintor Vicente do Rego Monteiro e Ville Levy que dava especial atenção aos surrealistas e incentivava os jovens escritores para que lessem novos autores principalmente os franceses.
Cabral lê Beaudelaire e Mallarmé. Mas foram os ensaios críticos de arquitetura, de Paul Valéry, que mais influenciaram o pensador e intelectual João Cabral de Melo Neto.
João Cabral era um autodidata e não se animou a fazer nenhum curso superior. Começou a trabalhar. Surgem os sintomas de uma forte dor de cabeça, celebrizada em versos (Num monumento à aspirina) e que o acompanharia ao longo da vida,
fragilizando sua saúde. Num período de hospitalização Cabral intensificou seu interesse pela poesia; datam dessa época seus primeiros poemas.

"João começou a escrever por volta de mil novecentos e trinta e poucos, mas trancava tudo nas gavetas. Ele só ia escrevendo e trancando. Ninguém via nada. Em 1940 nós fomos passar umas férias no Rio de Janeiro e ele mostrou as poesias dele a Murilo Mendes que escreveu, no Jornal do Brasil, um artigo sobre o poeta de 20 anos. Eu li essa notícia e como eu era meio bisbilhoteiro e além de bisbilhoteiro eu era o primogênito, criado dentro daquele regime do norte em que o primogênito tem uma certa ascendência sobre os demais, eu procurei descobrir onde é que João guardava esses escritos. Descobri, tirei e mostrei a papai. Papai gostou e procurou a Empresa Gráfica Brasileira que era a melhor tipografia que tinha naquele tempo, aqui em Recife, e assim nasceu “Pedra do Sono”." (Virgílio Cabral de Melo)

Nessa viagem, Cabral conheceu Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Lima e outros intelectuais da época.
Em 1942, muda-se para o Rio de Janeiro e começou a escrever “O Engenho”, onde apresentava características construtivistas negando o surrealismo e o subjetivismo da fase anterior.

"Eu era muito amigo de Joaquim Cardozo que era o calculista de cimento armado de Oscar Niemayer e tudo isso me encorajou muito a levar a poesia pra esse lado arquitetônico." (João Cabral de Melo Neto)

No Rio de Janeiro, Cabral frequenta os variados espaços culturais, publica, “Os três mal amados” inspirado no poema “Quadrilha” de Carlos Drummond de Andrade e conhece o poeta Vinicius de Moraes que sempre considerou como seu irmão.
Em 1945, prestou concurso para a carreira diplomática para a qual foi nomeado em dezembro e no mesmo ano publicou, “O engenheiro”, em que se manifestam influências da arquitetura e das teorias de Le Corbusier, características definitivas de sua obra.
Cabral casou-se com Stela Maria Barbosa de Oliveira com quem teve cinco filhos e em 1947, em função da carreira diplomática, viveu quarenta anos no exterior.
Na Europa, Cabral desenvolveu vasta produção literária, ampliou suas impressões sobre o Brasil e nunca se esqueceu de Pernambuco, além de manter contato com intelectuais e artistas brasileiros que o visitavam no exterior ou trocavam correspondência com o poeta.
O contato com a Espanha ampliou o conceito dialético da sofisticada poesia de Cabral. Tensões e encontros: do litoral com o sertão, da Zona da Mata com o agreste, o encontro dos rios Beberibe e Capibaribe, e destes rios com o mar e também de duas cidades de países distintos: Sevilha, na Espanha e Recife, em Pernambuco. Aos poucos, sem abandonar a linhagem profundamente nordestina de seus poemas, Cabral passou a tecer constantes paralelos entre o universo dos engenhos, do mar e do sertão nordestino com a também seca e quente, cigana e exoticamente árabe região da Andaluzia.
A Espanha estava vivendo um dos períodos mais difíceis do regime ditatorial do General Francisco Franco e suas fronteiras estavam fechadas. Para os artistas, uma vez que a arte contemporânea era proscrita pelo regime franquista, a convivência com João Cabral significava a possibilidade de estarem em contato com novas ideias e de manterem-se informados sobre o que acontecia no mundo exterior.
João Cabral, por sua vez, era um crítico extraordinário e, com sua visão marxista, procurava influenciar este grupo de artistas na produção de uma arte mais humanista e menos apegada às correntes de vanguarda da época como o surrealismo e o dadaísmo.
Em Barcelona, Cabral ampliou suas considerações sobre o livro como suporte instrumental e artístico do poema. Ao lado das artes plásticas, o amor pelas artes gráficas se tornou tão manifesto que o poeta adquiriu uma pequena tipografia artesanal com a qual imprimia livros de poetas brasileiros e espanhóis, além de seus próprios poemas.
A partir de 1950, o poeta pernambucano apresenta uma poesia, cada vez mais engajada, aprofundando assim a temática social, como em “O cão sem plumas” e “O rio”, ou seja, o próprio rio Capibaribe como tema e personagem, que recolhe os detritos do Recife.
Poeta do rigor, não existe em sua obra "o livro mais importante", mas, sim um conjunto de poemas fundamentais da literatura brasileira. Em prosa, Cabral sempre escreveu pouco, seu ensaio mais significativo foi “Joan Miró” sobre o pintor espanhol, publicado em Barcelona ainda em 1950, com ilustrações do próprio Miró.
João Cabral permaneceu no Brasil de 1953 até 1956.
Neste período, além de “Poemas Reunidos”; publicou “Duas Águas” com os inéditos “Morte e Vida Severina”; “Paisagem com Figuras”, considerado seu momento espanhol e “Uma Faca só Lâmina”, concretiza a trajetória da melhor poesia moderna que é a de permitir várias leituras e interpretações da obra e não aceitar o leitor passivo.
Entretanto, a poesia participante só traria o reconhecimento popular a João Cabral a partir do poema dramático MORTE E VIDA SEVERINA (Auto de Natal pernambucano) musicado por Chico Buarque de Holanda e encenado no TUCA (Teatro da Universidade Católica de São Paulo) em 1965, com a direção de Silney Siqueira, adaptação de Roberto Freire e tendo o ator Paulo Autran no elenco.
O espetáculo tornou-se um marco na história do teatro brasileiro e percorreu várias capitais européias e brasileiras, ganhou inúmeros prêmios e aproximou, pela primeira vez, do grande público a obra de João Cabral de Melo Neto. Porém, sua poesia, altamente intelectualizada, é difícil para o leitor comum, por isso, até hoje, em função da adaptação teatral, "Morte e Vida Severina" é um dos seus trabalhos mais lidos, estudados e encenados.
Sua obra "A Educação pela Pedra" de 1966, traz no próprio título a idéia de pedra, símbolo da secura sertaneja e do solo pedroso da região.
A obra é dividida em 4 partes: a, A, b e B, onde encontram-se os poemas curtos nas partes minúsculas e nas partes maiúsculas os poemas longos.
Os temas dos poemas também são distribuídos conforme as letras. Esta maneira de organizar os poemas pode exemplificar a preocupação do poeta com um livro cuidadosamente projetado.
Em 50 anos de intensa atividade literária, João Cabral de Melo Neto publicou 18 livros de poemas e 2 autos dramáticos "Morte e Vida Severina" e "Auto do Frade".
O poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto recebeu inúmeros prêmios literários importantes como o New Stadium International Prize, em 1992, nos Estados Unidos e na Espanha, em 1994, o prêmio Rainha Sofia de Poesia pelo conjunto de sua obra.
Membro da Academia Pernambucana de Letras e da Academia Brasileira de Letras, além disso, João Cabral foi, durante vários anos, um dos fortes candidatos ao Nobel de Literatura, mas estes fatos não abalaram ou comoveram o escritor que não acreditava em vitórias literárias.
Nos últimos anos de sua vida, Cabral estava quase cego (o que o impedia de ler e escrever) e enfrentava muitos problemas de saúde. Mesmo assim o poeta continuava com grande vitalidade intelectual. O poeta sempre foi exigente e corajoso, nunca se sentia plenamente satisfeito como criador. Considerava que sua obra estava ainda em processo. Poesia é risco, costumava avaliar.



II – ESTILO LITERÁRIO:


“Entre 1946 e 1964, a sociedade brasileira tentou, de maneira inédita, a implantação de um modelo democrático no processo político da nação. O fim da ditadura do Estado Novo, a vitória das democracias na Segunda Guerra Mundial e a influência do “american way of life” marcaram esse período.”
Nicolina Luiza de Petta e Eduardo Aparício Baez Ojeda, História – uma abordagem integrada.

O Terceiro Tempo Modernista é o período que compreende a geração pós-guerra (1945) até as décadas de 60 e 70, com os Novos Tempos.
Porém, deixamos claro que estas datas servem como base para um formalismo didático, com o intuito de melhor visualizar os planos históricos e estéticos da época.


III – CARACTERÍSTICAS GERAIS:


A prosa da Geração de 1945 verificou-se uma continuação do Neo-Realismo, quer na vertente urbana quer na regionalista. Enquanto autores da Geração de 30 concentravam-se em uma temática nordestina; em 45, a preocupação passa a ser Universal.
As inovações linguísticas; a redescoberta da linguagem, como elemento de comunicação e como elemento que instaura o real; a atração pelo trans-real; a preocupação com o Homem; a prosa intimista, de investigação psicológica; o realismo fantástico são algumas das características temáticas que vieram renovar a literatura dos anos 45 a 60.
Há um retrocesso em relação às conquistas de 22, uma volta ao passado com a revalorização da rima, da métrica, do vocabulário erudito e das referências mitológicas.
A terceira fase modernista pode ser considerada uma síntese do experimentalismo da fase heróica, acrescentando a maturidade artística da segunda fase alcançando o universalismo e servindo de alicerce aos poetas contemporâneos.


IV – CARACTERÍSTICAS INDIVIDUAIS:


“Poeta engenheiro”



“Embora o que se costuma chamar de “poesia moderna” seja uma coisa multiforme demais, não é excessivo querer descobrir nela um denominador comum: seu espírito de pesquisa formal.” (João Cabral de Melo Neto)


A poesia de João Cabral de Melo Neto pode ser dividida em dois módulos distintos, propostos pelo próprio poeta ao publicar o livro “Duas Águas”, de 1956. Uma água construtiva e outra participante.
A primeira água seria formada pelos poemas experimentais, arquitetônicos, feitos para poetas e que versam sobre o próprio fazer poético.
A água participante volta-se para a problemática social do homem do nordeste e é formada por obras como "O cão sem plumas" e "O rio" que são poemas longos sobre os miseráveis habitantes dos manguezais do rio Capibaribe. Apesar do mesmo rigor estético das obras construtivistas, atingem com mais facilidade o leitor comum, pois lidam com problemas universais do ser humano: a fome, a miséria, as diferenças sociais. O escritor e ensaísta Décio Pignatari não concorda com esta divisão.

"Eu acho que é reducionista e prejudica o entendimento da obra de João Cabral. O pessoal da Academia de Letras e os acadêmicos da Universidade se contentam com esta divisão e acham que ela explica tudo. Mas não é bem assim. João Cabral sustenta uma enorme crise, um debate que nunca se resolve, entre a obra de arte em si e a obra de arte enquanto instrumento de melhoramento e aperfeiçoamento social. Ele mantém esta contradição constantemente, e isto impregna toda a obra dele. O conflito é rico e é muito mais entranhado."

João Cabral de Mello Neto é um poeta construtivista, ligado por temperamento às formas visuais de expressão fato que o levou a, desde cedo, dialogar com artistas plásticos contemporâneos como Mondrian ou Juan Miró e tem afinidade com os cubistas. Além das influências literárias, seus poemas são inspirados nas teorias arquitetônicas de Le Corbusier. Conhecido por “poeta engenheiro”, Cabral valoriza a forma visual dos poemas, a geometrização, com palavras concretas, denotativas e uma preocupação formal. Propõe para a poesia um verso construído, desmistificando o ato de "criar com inspiração".

“Para mim, esse negócio de inspiração não funciona. Sou incapaz de em uma sentada produzir um poema definitivo.”

João Cabral costumava dizer que o livro não é um depósito de poemas e, portanto, deveria ser concebido como uma estrutura total, uma macroestrutura.
O autor recuperando o valor formal e uma linguagem sóbria só é considerado poeta da Geração de 45, cronologicamente, pois esteticamente, afasta-se das propostas modernistas, por ter aberto caminhos próprios, apresentando uma poesia objetiva, cerebral e sensacionalista, tornando-se, portanto, um caso particular na evolução da poesia brasileira moderna.
Para João Cabral, o ato de escrever consiste num trabalho de depuração; as palavras são degustadas e selecionadas pelo seu sabor e peso, não podem boiar à toa.
Quando veio a público, a poesia de Cabral chocava. A secura da linguagem, o rigor construtivo do poeta que não acreditava em inspiração punha em cheque toda uma tradição. Cabral passou então a ser muito combatido pela crítica e pelos escritores de 1945. Acusavam-no de ser um poeta sem alma, que fazia poemas frios, racionalistas, medidos a fita métrica e sem coração.
Apesar das críticas Cabral se manteve impassível em suas convicções estéticas. Em diversos depoimentos dados à imprensa durante toda a sua vida ele sempre deixou clara a sua posição.

"A poesia é a linguagem para a sensibilidade. E a prosa é uma linguagem pra razão. São duas maneiras muito categóricas de ver a coisa porque existe uma prosa como a do James Joyce - é uma prosa que é poesia também - e existe uma poesia como a do Carlos Drummond - é uma poesia que também é prosa, Poesia e prosa são dois extremos mas exatamente o poeta e o prosador muitas vezes ganham de jogar em dois lados. O que acontece com muitos poetas é que eles escrevem os poemas e depois poetizam o poema. Eu tenho a impressão de que a poesia é uma forma de expressão diferente da prosa e não é preciso poetizar o poema. O poema bom, o poema verdadeiro já é poético não precisa fazer poético. A poesia é... nós estivemos falando de corrida de touros ... aquele meu poema sobre Manolete termina assim sem perfumar sua flor, sem poetizar seu poema." (João Cabral de Melo Neto)

Cabral é caracterizado pela objetividade na constatação da realidade percebida a partir de algumas dualidades antitéticas entre o espaço e o tempo, entre o dentro e o fora, entre o masculino e o feminino, entre o Nordeste desértico e a Andaluzia fértil, ou entre a Caatinga e o úmido Pernambuco. Além, da reflexão do próprio fazer poético.
Por temperamento, apesar de ter vivido em meio à exuberância sonora dos ritmos pernambucanos, João Cabral de Melo Neto foi um poeta não-musical, avesso principalmente à melodia e à musicalidade do verso. Através de rigoroso trabalho de linguagem e construção, a dura poesia de Cabral feita de "pedras" e a "palo seco", como gostava de dizer, inspira-se na aridez geográfica e humana do sertão para se tornar, também ela, uma poesia seca e exterior.
João Cabral é tido como o único poeta da geração de 45 que influencia a forte geração posterior, formada pela vanguarda brasileira dos anos 50 e 60, sobretudo, a vanguarda concreta.

"Pode-se dizer que ele não tem antecedentes na poesia brasileira, a obra dele tem consequentes. Porque é a poesia concreta que vai manter, continuar, expandir e levar para outros caminhos essa linhagem de uma poesia não sentimental, de uma poesia objetiva, uma poesia de concretude, uma poesia crítica, como é a poesia de João."
(Augusto de Campos, poeta e ensaísta
A este respeito disse João Cabral:

"A poesia concreta é muito mais visual do que auditiva e talvez resida aí a possível influência minha sobre ela. A poesia concreta é muito interessante e não precisava de mim pra ser o que ela é."

Assim, pode-se distinguir em sua obra três temáticas principais:
a) O Nordeste com sua gente, seus costumes, suas tradições, seu folclore, a herança medieval e os engenhos; de modo muito particular, seu estado natal, Pernambuco, e sua cidade, o Recife e o rio Capibaribe.
b) A Espanha e suas paisagens relacionando-a com o Nordeste brasileiro.
c) A arte e suas várias manifestações: a pintura de Miró, de Picasso e de Vicente do Rego Monteiro; a literatura de Paul Valéry, Cesário Verde, Augusto dos Anjos, Graciliano Ramos e Drummond e a própria arte poética.

V – MORTE E VIDA SEVERINA OU AUTO DE NATAL PERNAMBUCANO:



"O Homem pra mim é, precisamente, o homem sofredor do Nordeste. O homem que me interessa é o cidadão miserável, do nordeste cujo futuro, menos miserável,
está ligado ao desenvolvimento do Brasil." (João Cabral de Melo Neto)

João Cabral relata o processo de criação de “Morte e vida Severina”:
"[...] Sempre escrevi poemas sobre o Recife longe da cidade. Eu não precisava estar lá para recriar o universo sobre o qual falo em meus poemas. Não acabaram as favelas nem as populações ribeirinhas do Capibaribe, que conheci na minha adolescência andando pelos mangues perto de casa, na Jaqueira. Algumas pessoas chegaram a me perguntar se eu tinha me inspirado em Josué de Castro e sua Geografia da Fome na hora de escrever esses dois poemas. Conheci, admiro e respeito Josué de Castro, que foi meu chefe em Genebra. Mas não me inspirei nele. Fiz poesia e emoção sobre aquela realidade miserável do Recife. Ele fez ciência. Essa é a diferença entre nós.

A história desses dois poemas é bem simples. Eu era cônsul-geral do Brasil em Barcelona quando li numa revista que a média de vida na Índia era de 29 anos. Isso significava um ano a mais que os 28 anos de perspectiva de vida do recifense. Fiquei absolutamente estupefato com esse dado estatístico.(...)
Comecei a lembrar do Recife de minha infância. Eu brincava com aqueles miseráveis que só viveriam em média 28 anos! E as senhoras da sociedade pernambucana faziam crochê para doar aos mortos de fome da Índia, sem olhar para o quintal delas. Foi isso que me chocou e que me levou a escrever esse poema, o primeiro sobre o Recife. Tinha escrito três anos antes Psicologia da Composição, um livro teórico, e achava que minha produção literária estava encerrada. Na verdade, apenas começava.

Fui então para Londres e trabalhei como nunca. Não dava tempo para escrever. Em 1952 alguns idiotas denunciaram a mim e a outros diplomatas como militantes comunistas. Fomos afastados do Serviço diplomático e eu voltei ao Recife por quase dois anos. Fui trabalhar no escritório do meu pai e tentar sustentar a família enquanto processava o governo. Aí cruzei com Maria Clara Machado, filha do meu bom amigo mineiro Aníbal Machado. Ela me encomendou um Auto de Natal para encenar. Escrevi Morte e Vida Severina. Ela leu e devolveu. Disse que não servia. Como o poema era grande e José Olympio queria lançar minha primeira antologia, cortei as marcações para o teatro e incluí Morte e Vida Severina no livro, para dar volume. Foi uma surpresa quando encontrei com Vinicius de Moraes no Rio e ele me disse: "Joãozinho, estou maravilhado com Morte e Vida Severina". Aí eu não entendi nada. "Vinicius, eu não escrevi Morte e Vida Severina para intelectuais como você, respondi. "Escrevi para os sujeitos analfabetos que ouvem cordel na feira de Santo Amaro, no Recife." O poema é simples, retrata a típica realidade do pernambucano que foge da seca em busca do Recife e termina morando numa favela ribeirinha. Foi um sucesso mundial. Isso me orgulha, mas também me surpreende porque Morte e Vida Severina passou a ser coisa de eruditos.
O que me chateou muito também a respeito do sucesso mundial de Morte e Vida Severina foi que a burrice nacional brasileira começou a fazer inferências políticas sobre o poema. Muita gente queria que depois de cada espetáculo eu subisse ao palco e gritasse "Viva a Reforma Agrária". Recusei-me a fazer isto. Não faço teorias para consertar o Brasil, mas não me abstenho de retratar em poesia o que vejo e sinto. Eu mostrei a miséria que havia no Nordeste. Cabia aos políticos cumprirem seu papel. Essas exigências de engajamento político me irritaram muito. Ainda bem que logo depois fui para Sevilha, Genebra, Assunção e fiquei muito tempo longe do Brasil. Foi o tempo necessário para que parassem de achar que eu deveria fazer arte engajada em vez de poesia pura."
Morte e Vida Severina foi, portanto, escrito em 1954/55, por encomenda de Maria Clara Machado, então diretora do grupo O Tablado, que já havia levado ao palco, no ano de 1953, em tradução de João Cabral de Melo Neto, a peça A Sapateira Prodigiosa do poeta espanhol Federico Garcia Lorca.

"Esse texto não poderia ser mais denso. Era obra para teatro, encomendada por Maria Clara Machado. Foi à coisa mais relaxada que escrevi. Pesquisei num livro sobre o folclore pernambucano, publicado no início do século, de autoria de Pereira da Costa. Eu era consciente de que não tinha tendência para o teatro, não sabia criar diálogos no sentido da polêmica. Meus diálogos vão sempre na mesma direção, são paralelos. Observe o episódio das pessoas defronte do cadáver: todos trazem uma imagem para a mesma coisa. A cena do nascimento, com outras palavras, está em Pereira da Costa. “Compadre, que na relva está deitado” é transposição deste folclorista, pois no Capibaribe há lama, e não grama. “Todo céu e terra lhe cantam louvor” também é literal do antigo pastoril pernambucano. O louvor das belezas do recém-nascido e os presentes que ganha existem no pastoril. As duas ciganas estão em Pereira da Costa, mas uma era otimista e a outra pessimista. Eu só alterei as belezas e os presentes, e pus as duas ciganas pessimistas. Com Morte e Vida Severina, quis prestar uma homenagem a todas as literaturas ibéricas. Os monólogos do retirante provêm do romance castelhano. A cena do enterro na rede é do folclore catalão. O encontro com os cantores de incelências é típico do Nordeste. Não me lembro se a mulher da janela é de origem galega ou se está em Pereira da Costa. A conversa com Severino antes de o menino nascer obedece ao modelo da tenção galega."
Além deste material poético, seja da antiga poesia ibérica, seja do folclore pernambucano, outra influência clara na concepção do livro é o Regionalismo de 30. As preocupações de escritores como José Américo de Almeida, Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos, que se voltaram criticamente para a dura realidade sertaneja antes de João Cabral de Melo Neto, acham-se sintetizadas poeticamente em Morte e Vida Severina.
O que João Cabral de Melo Neto conseguiu com Morte e Vida Severina foi exatamente colocar uma inteligência mais requintada a serviço do regionalismo, revelando para o mundo aspectos despercebidos da realidade nordestina e brasileira.

VI – TÍTULO E SUBTÍTULO:
Segundo Marta de Senna:

"Ao inverter a ordem natural do sintagma "vida e morte", o poeta registra com precisão a qualidade da vida que seu poema visa a descrever: uma vida a que a morte preside. E ambas, morte e vida, têm por determinante o adjetivo "severina". Igualam-se nisso de serem ambas pobres, parcas, anônimas. O procedimento de adjetivação do substantivo é recorrente na poesia de Cabral, e aqui adquire especial relevo por estar em posição privilegiada, no título da peça. “Morte e Vida Severina”, porque é Severino o protagonista, que, desde a apresentação, insiste no caráter comum de seu nome, antes um "a-nome" no contexto em que vive. De substantivo próprio, "Severino" passa a ser comum; daí a ser adjetivo é um passo. (...) Será interessante advertir que o uso de "severino" como adjetivo no auto cabralino não é senão a reversão da palavra à sua origem. Diminutivo de "severo", "severino" é originariamente um adjetivo. (...)”
É importante acrescentar que, além de descrever uma vida presidida pela morte, o título também demonstra o percurso feito por Severino durante a peça. Sai da morte para alcançar a vida. A estrutura geral da peça, ou sua macroestrutura, apresenta exatamente este caminho.
“Morte e Vida Severina” traz como subtítulo “Um Auto de Natal Pernambucano”. Trata-se, portanto, de uma obra que procura aclimatar a Pernambuco o espírito dos autos sacramentais ou hieráticos da península ibérica.
O professor Segismundo Spina assim nos apresenta essa forma dramática:
"Os autos (que assim se chamaram estas representações teatrais peninsulares por conterem apenas um ato) eram composições dramáticas de caráter religioso, moral ou burlesco (mas preferentemente devoto e com personagens alegóricas) desenvolvidas ao longo da Idade Média, de cujo teatro religioso se originaram, adquirindo sua forma típica na Península Ibérica entre os séculos XV e XVI. Suas origens se prendem às representações religiosas do teatro medieval (aos "mistérios", aos "dramas litúrgicos" e às "moralidades"), portanto ligadas ao teatro litúrgico europeu, embora não tenhamos hoje senão vestígios muitos imperfeitos dessas representações peninsulares anteriores a Gil Vicente (em Portugal) e a Juan del Encina e Lucas Fernandes (na Espanha)."
Cabral ao caracterizar as personagens da obra, age de acordo com os modelos dos Autos, pois se trata de “tipos”, que podem ser vistos como alegóricos. No final da peça, no momento em que ocorre a crise do protagonista se intensifica, surge o Mestre Carpina (São José, o carpinteiro), outra personagem “tipo” que representa a luta pela vida e que não consegue convencê-lo através de palavras não suicidar-se. Nesse momento, á anunciado (Anjo da anunciação) o nascimento do filho do carpinteiro (filho de Deus), numa clara alegoria ao Natal e a renovação da vida. Além de que, o Mestre Carpina vive num mocambo que metaforicamente servirá de manjedoura ao seu filho recém-nascido e os visitantes saúdam o nascimento do menino e trazem presentes aludindo os três reis magos.

VII – TEMPO, ESPAÇO, LINGUAGEM E FOCO NARRATIVO:

O tempo e o espaço contribuem para o caráter de denúncia social do texto. O tempo não é determinado cronologicamente, o único indício que aparece é a situação da seca e a estação do verão, na época em que o Capibaribe seca.
O espaço possui um movimento de deslocamento: o retirante faz a travessia do Agreste para a Caatinga, da Zona da Mata para o Recife, ou seja, sai da serra, mais especificamente da Serra da Costela, e vai para o litoral, para Recife.
A linguagem de “Morte e Vida Severina” é concisa, mas fluída e permeada de lirismo que soletra a vida e a celebra. A repetição anafórica de estruturas iniciais de vários versos, assim como a reiteração de certos vocábulos, expressa a condição de miserabilidade do nordestino. Ao longo do texto, a oralidade é reforçada pelo recurso constante da repetição, que constitui elemento estrutural das ladainhas, intensificando no plano sonoro, a monotonia e a repetitividade da vida.
A história é narrada em primeira pessoa, pelo personagem Severino e é composta de monólogos e diálogos com outros personagens.

VIII - ESTRUTURA:

Morte e Vida Severina se divide em 18 cenas ou fragmentos poéticos, todos precedidos por um título explicativo de seu conteúdo, praticamente resumos do que encontramos nos poemas em si. Podemos separá-los em dois grandes grupos.
As primeiras 12 cenas descrevem a peregrinação de Severino, seguindo o rio Capibaribe, fugindo da morte que encontra por toda parte, até a cidade do Recife, onde, para seu desespero, volta a encontrar apenas a miséria e a morte. Trata-se do Caminho ou Fuga da Morte. Nesta parte o poeta habilmente alterna monólogos de Severino a diálogos que trava ou escuta no caminho.
As últimas 6 cenas apresentam O Presépio ou O Encontro com a Vida, em que é descrito o nascimento do filho de José, mestre carpina, em clara alusão ao nascimento de Jesus. A peça se encerra, portanto, com uma apologia da vida, mesmo que seja severina. Toda esta parte, com exceção do monólogo final do mestre carpina, foi adaptada por João Cabral de Melo Neto dos Presépios ou Pastoris do folclore pernambucano

Vejamos, através dos títulos explicativos, como o enredo do drama se constrói:

I - Caminho ou Fuga da Morte
1. (Monólogo) - O retirante explica ao leitor quem é e a que vai.
2. (Diálogo) - Encontra dois homens carregando um defunto numa rede, aos gritos de: "ó irmãos das almas! irmãos das almas! não fui eu que matei não!"
3. (Monólogo) - O retirante tem medo de se extraviar porque seu guia, o rio Capibaribe, cortou com o verão.
4. (Diálogo) - Na casa a que o retirante chega estão cantando excelências para um defunto, enquanto um homem, do lado de fora, vai parodiando as palavras dos cantadores.
5. (Monólogo) - Cansado da viagem o retirante pensa interrompê-la por uns instantes e procurar trabalho ali onde se encontra.
6. (Diálogo) - Dirige-se à mulher na janela que depois descobre tratar-se de quem se saberá.
7. (Monólogo) - O retirante chega à Zona da Mata, que o faz pensar, outra vez, em interromper a viagem.
8. (Diálogo) - Assiste ao enterro de um trabalhador de eito e ouve o que dizem do morto os amigos que o levaram ao cemitério.
9. (Monólogo) - O retirante resolve apressar os passos para chegar logo ao Recife.
10. (Diálogo) - Chegando ao Recife, o retirante senta-se para descansar ao pé de um muro alto e caiado e ouve sem ser notado a conversa entre dois coveiros.
11. (Monólogo) - O retirante aproxima-se de um dos cais do Capibaribe.
12. (Diálogo) - Aproxima-se do retirante o morador de um dos mocambos que existem entre o cais e a água do rio.
II - O Presépio ou O Encontro com a Vida
13. (Presépio) - Uma mulher, da porta de onde saiu o homem, anuncia-lhe o que se verá.
14. (Presépio) - Aparecem e se aproximam da casa do homem, vizinhos, amigos,
duas ciganas, etc.
15. (Presépio) - Começam a chegar pessoas trazendo presentes para o recém-nascido.
16. (Presépio) - Falam as duas ciganas que haviam aparecido com os vizinhos.
17. (Presépio) - Falam os vizinhos, amigos, pessoas que vieram com presentes, etc.
18. (Conclusão da Peça) - O carpina fala com o retirante que esteve de fora, sem tomar parte em nada.

Se em O Rio já se revelava, além do cuidadoso estudo da hidrografia do Capibaribe, uma preocupação fundamental com a miséria que o rio corta, com os retirantes que o acompanham, nas 12 primeiras cenas de Morte e Vida Severina, o poeta dá voz ao retirante Severino que, fugindo da morte, segue as águas do rio Capibaribe desde a serra da Costela até sua foz em Recife.


IX - ANÁLISE DA OBRA:


1. O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI



- O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.

Mais isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem falo
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue,
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
alguns roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.


Para compor o primeiro monólogo de Severino, assim como todos os outros monólogos do livro, João Cabral de Melo Neto tomou como modelo o romanceiro ibérico. Como os romances portugueses medievais, os monólogos são compostos em medida velha, em versos redondilhos maiores ou heptassílabos, e apresentam rimas alternadas, algumas perfeitas ou consoantes e a grande maioria toante, entre vogais, como as prefere João Cabral.
O monólogo de abertura, composto por 64 versos, pode ser dividido em três partes.
Antes de narrar à história de sua vida, nos trinta primeiros versos, Severino inutilmente tenta apresentar-se ao público/leitor, mas esbarra na falta de individualidade, na despersonalização do sertanejo empobrecido, pois seu nome e também os de seus pais (Maria e Zacarias), como o lugar onde nasceu são comuns ao coletivo. Além disso, há o fato de que Severino também não consegue se diferenciar dos demais nordestinos, seja no tipo físico anêmico, seja na curta expectativa de vida, seja na luta pelo sustento tirado da terra seca e improdutiva.
Nestes versos, em que predominam as rimas consoantes, encontramos também referências ao papel dos coronéis na vida do sertão, e temos um isomorfismo, uma identificação total, entre Severino e o local em que vivia, a serra da "Costela", magra e ossuda como o sertanejo esfomeado.
Apresentando-se como um entre tantos retirantes "sem nome", Severino aparece como sinédoque (a parte pelo todo) de todo o povo sofrido do sertão.
Nos 28 versos seguintes Severino apresenta a descrição dos severinos, iguais na forma e no destino de morrer antes dos trinta de tanto tentar tirar algo da terra intratável. Note-se que a descrição da vida severina começa pela apresentação da morte severina.
As rimas neste fragmento já são predominantemente toantes. Severino apresenta a sua vida/morte em 28 versos, exatamente o mesmo número de anos a que, segundo João Cabral, reduzia-se a expectativa média de vida do pernambucano na época: antes dos trinta.
Já nos 6 últimos versos, Severino apresenta-se como um retirante, personalizando um tipo regional brasileiro e anuncia o início de sua peregrinação, desistindo de se individualizar, e apresentando-se como o severino que se vê, portanto aquele que representa todos os outros que os leitores/espectadores devem sempre ter em mente ao acompanhá-lo.
Ao observar que "somos muitos Severinos/iguais em tudo na vida:/na mesma cabeça grande/que a custo é que se equilibra..." o retirante funde sua saga a saga dos outros nordestinos, cuja vida é determinada pelas condições climáticas, devido às omissões e descasos que mantêm irreparáveis as desigualdades econômicas.
Assim, o protagonista, Severino é uma personagem-tipo, que representa o nordestino sertanejo despersonalizado. Quanto ao ponto de vista alegórico, Severino representa o próprio Homem que, em busca de uma condição existencial verdadeiramente humana, oscila entre os pólos da morte e da vida.

Além disso, como observado por Homero Araújo:

“Depois dos versos clássicos que definem a condição severina e referem seu caráter coletivo e desgraçado (Somos muitos Severinos), o poema volta a dirigir-se ao público na segunda pessoa do plural do pronome de tratamento, o que dá um caráter cerimonioso ao apelo (Mas, para que me conheçam / melhor Vossas Senhorias). Tal referência é incluída na oração adversativa de caráter elucidativo e pedagógico a enfatizar que o Severino que em vossa presença emigra é um artifício poético a simbolizar a classe / condição severina.” (ARAUJO, 2002, p. 139-140)


2. ENCONTRA DOIS HOMENS CARREGANDO UM DEFUNTO NUMA REDE, AOS GRITOS DE "Ó IRMÃOS DAS ALMAS! IRMÃOS DAS ALMAS! NÃO FUI EU QUEM MATEI NÃO!"


- A quem estais carregando,
irmãos das almas,
embrulhado nessa rede?
dizei que eu saiba.
- A um defunto de nada,
irmão das almas,
que há muitas horas viaja
à sua morada.
- E sabeis quem era ele,
irmãos das almas,
sabeis como ele se chama
ou se chamava?
- Severino Lavrador,
irmão das almas,
Severino Lavrador,
mas já não lavra.
- E de onde que o estais trazendo,
irmãos das almas,
onde foi que começou
vossa jornada?
- Onde a caatinga é mais seca,
irmão das almas,
onde uma terra que não dá
nem planta brava.
- E foi morrida essa morte,
irmãos das almas,
essa foi morte morrida
ou foi matada?
- Até que não foi morrida,
irmão das almas,
esta foi morte matada,
numa emboscada.
- E o que guardava a emboscada,
irmão das almas
e com que foi que o mataram,
com faca ou bala?
- Este foi morto de bala,
irmão das almas,
mas garantido é de bala,
mais longe vara.
- E quem foi que o emboscou,
irmãos das almas,
quem contra ele soltou
essa ave-bala?
- Ali é difícil dizer,
irmão das almas,
sempre há uma bala voando
desocupada.
- E o que havia ele feito
irmãos das almas,
e o que havia ele feito
contra a tal pássara?
- Ter uns hectares de terra,
irmão das almas,
de pedra e areia lavada
que cultivava.
- Mas que roças que ele tinha,
irmãos das almas
que podia ele plantar
na pedra avara?
- Nos magros lábios de areia,
irmão das almas,
os intervalos das pedras,
plantava palha.
- E era grande sua lavoura,
irmãos das almas,
lavoura de muitas covas,
tão cobiçada?
- Tinha somente dez quadras,
irmão das almas,
todas nos ombros da serra,
nenhuma várzea.
- Mas então por que o mataram,
irmãos das almas,
mas então por que o mataram
com espingarda?
- Queria mais espalhar-se,
irmão das almas,
queria voar mais livre
essa ave-bala.
- E agora o que passará,
irmãos das almas,
o que é que acontecerá
contra a espingarda?
- Mais campo tem para soltar,
irmão das almas,
tem mais onde fazer voar
as filhas-bala.
- E onde o levais a enterrar,
irmãos das almas,
com a semente do chumbo
que tem guardada?
- Ao cemitério de Torres,
irmão das almas,
que hoje se diz Toritama,
de madrugada.
- E poderei ajudar,
irmãos das almas?
vou passar por Toritama,
é minha estrada.
- Bem que poderá ajudar,
irmão das almas,
é irmão das almas quem ouve
nossa chamada.
- E um de nós pode voltar,
irmão das almas,
pode voltar daqui mesmo
para sua casa.
(...)

A segunda cena apresenta o primeiro diálogo da peça. Ao iniciar sua travessia a procura de vida, a morte já se coloca diante do retirante. Dá-se o encontro de Severino com dois homens que levam um defunto embrulhado em rede, o Severino Lavrador, para ser enterrado no cemitério de Toritama, sobre o qual o poeta escreve, na mesma época da redação de Morte e Vida Severina, um dos poemas intitulados Cemitério Pernambucano do livro Paisagem com Figuras (1956).
Neste quadro alternam-se quartetos de versos com 7 e 4 sílabas poéticas e se repetem no segundo verso de cada quarteto as expressões “Irmão/irmãos da almas”, formando uma espécie de refrão, de ladainha, de coro, que fortalece a dramaticidade e o lirismo da passagem.
No cenário desolado, os irmãos das almas explicam a Severino como e porque morreu o Severino que carregam.
O fragmento revela que a disputa pela terra leva ao assassinato do Severino Lavrador. Através das imagens da “ave-bala” e dos “magros lábios de terra”, metáfora e prosopopéia, respectivamente, observa-se a impunidade do crime quanto à estreiteza do pedaço de terra que o deflagra.
Neste diálogo de Severino com os irmãos das almas (comum no sertão nordestino, a eles cabe, gratuitamente, lavar e vestir o defunto, velar e, posteriormente enterrá-lo em lugar digno), a crítica à tirania e à injustiça social está implícita na imagem metonímica “bala voando/desocupada” significando que quer mais espaço para voar, João Cabral apresenta os proprietários de terra que, matando impunemente lavradores (com ou sem terra), vão conquistando sempre mais espaço para atirar.
Ao final, um dos carregadores decide voltar, já que Severino tomará seu lugar, pois está indo para o mesmo destino, enquanto o outro reflete que maior sorte teve o defunto, “pois já não fará a caminhada de volta”. Nessa passagem temos, pela primeira vez, a sensação de que a morte é a melhor saída para aqueles severinos. Eles têm consciência de que sua vida não melhorará; ao contrário, a tendência é de que piore até a chegada da morte, momento em que poderão descansar sem preocupações.
Em entrevista recente, Cabral aponta para o humor negro existente em certa passagem desta cena:

"A crítica nunca se preocupou com o humor negro de minha poesia. Leia Dois Parlamentos, por exemplo. É puro humor negro. Em Morte e Vida Severina, também existe humor negro. Você lembra daquele trecho: "Mais sorte tem o defunto / irmão das almas / pois já não fará na volta / a caminhada"? Pois bem. A origem disso é uma história que me contaram na Espanha. Dizem que, na época de Franco, ele mandava fuzilar seus inimigos num lugar chamado Sória, que é o mais frio do país. Conta-se que, um dia, um condenado virou-se para os soldados que iriam executá-lo e disse: "Puxa, como faz frio neste lugar". Ao que um dos soldados respondeu: "Sorte tem você, que não precisa fazer o caminho de volta. Foi assim que essa frase foi parar no meio de Morte e Vida Severina. Há mais humor negro do que isso?"



3. O RETIRANTE TEM MEDO DE SE EXTRAVIAR PORQUE SEU GUIA, O RIO CAPIBARIBE, CORTOU COM O VERÃO



- Antes de sair de casa
aprendi a ladainha
das vilas que vou passar
na minha longa descida.
Sei que há muitas vilas grandes,
cidades que elas são ditas
sei que há simples arruados,
sei que há vilas pequeninas,
todas formando um rosário
cujas contas fossem vilas,
de que a estrada fosse a linha.
Devo rezar tal rosário
até o mar onde termina,
saltando de conta em conta,
passando de vila em vila.
Vejo agora: não é fácil
seguir essa ladainha
entre uma conta e outra conta,
entre uma e outra ave-maria,
há certas paragens brancas,
de planta e bicho vazias,
vazias até de donos,
e onde o pé se descaminha.
Não desejo emaranhar
o fio de minha linha
nem que se enrede no pêlo
hirsuto desta caatinga.
Pensei que seguindo o rio
eu jamais me perderia:
ele é o caminho mais certo,
de todos o melhor guia.
Mas como segui-lo agora
que interrompeu a descida?
Vejo que o Capibaribe,
como os rios lá de cima,
é tão pobre que nem sempre
pode cumprir sua sina
e no verão também corta,
com pernas que não caminham.
Tenho que saber agora
qual a verdadeira via
entre essas que escancaradas
frente a mim se multiplicam.
Mas não vejo almas aqui,
nem almas mortas nem vivas
ouço somente à distância
o que parece cantoria.
Será novena de santo,
será algum mês-de-Maria
quem sabe até se uma festa
ou uma dança não seria?


Na terceira parte, o monólogo apresenta a insegurança do retirante quanto a que caminho seguir, pois acreditava não se perder graças ao rio Capibaribe, seu guia até Recife, mas este secara devido à seca do verão e sua viagem precisará ser interrompida, já que não vê ninguém.
Cabe lembrar que, de fato, o rio Capibaribe é, desde a sua foz até a cidade de Limoeiro, intermitente, ou seja, corta ou seca durante o verão. A partir de Limoeiro, na entrada da Zona da Mata, até Recife, trata-se de um rio perene.
As comparações religiosas e geométricas das vilas as estradas por onde Severino-retirante vai passar (as vilas com um rosário e as estradas com uma linha) enriquecem-se com a imagem do Capibaribe. O rio guia, identificado com o homem do nordeste, tem uma sina a cumprir, mas no verão a seca o interrompe, e ele se transforma, por meio de prosopopéia, em “pernas que não caminham...”
Perdido e atônito, Severino ouve ao longe uma cantoria. Estas vozes o orientam, embora à distância não lhe permita perceber se o cântico é religioso ou festivo. É outro Severino que encontra. E, mais uma vez, encontra-o sob o signo da morte que permeia a sua vida.


4. NA CASA EM QUE O RETIRANTE CHEGA ESTÃO CANTANDO EXCELÊNCIAS PARA UM DEFUNTO, ENQUANTO UM HOMEM, DO LADO DE FORA, VAI PARODIANDO A PALAVRAS DOS CANTADORES



- Finado Severino,
quando passares em Jordão
e o demônios te atalharem
perguntando o que é que levas.
- Dize que levas cera,
capuz e cordão
mais a Virgem da Conceição.
- Finado Severino,
etc...
- Dize que levas somente
coisas de não:
fome, sede, privação.
- Finado Severino,
etc...
- Dize que coisas de não,
ocas, leves:
como o caixão, que ainda deves.
- Uma excelência
dizendo que a hora é hora.
- Ajunta os carregadores
que o corpo quer ir embora.
- Duas excelências...
- ... dizendo é a hora da plantação.
- Ajunta os carreadores...
- ... que a terra vai colher a mão.


Severino aproxima-se de uma casa em que se cantam excelências, isto é, cantigas de velório, para um defunto chamado Severino. Composta em versos livres, esta cena caracteriza-se pela ironia, pois fora da casa, as palavras religiosas da música são trocadas parodicamente por palavras de protesto contra a miséria.
É interessante notar, no entanto, que a morte é sempre compartilhada. O camponês nunca está desacompanhado, isto é, quando falece, outras pessoas, solidariamente, tomam conta dele, compartilham o momento.


5. CANSADO DA VIAGEM O RETIRANTE PENSA INTERROMPÊ-LA POR UNS INSTANTES E PROCURAR TRABALHO ALI ONDE SE ENCONTRA.

- Desde que estou retirando
só a morte vejo ativa,
só a morte deparei
e às vezes até festiva
só a morte tem encontrado
quem pensava encontrar vida,
e o pouco que não foi morte
foi de vida severina
(aquela vida que é menos
vivida que defendida,
e é ainda mais severina
para o homem que retira).
Penso agora: mas por que
parar aqui eu não podia
e como Capibaribe
interromper minha linha?
ao menos até que as águas
de uma próxima invernia
me levem direto ao mar
ao refazer sua rotina?
Na verdade, por uns tempos,
parar aqui eu bem podia
e retomar a viagem
quando vencesse a fadiga.
Ou será que aqui cortando
agora minha descida
já não poderei seguir
nunca mais em minha vida?
(será que a água destes poços
é toda aqui consumida
pelas roças, pelos bichos,
pelo sol com suas línguas?
será que quando chegar
o rio da nova invernia
um resto de água no antigo
sobrará nos poços ainda?)
Mas isso depois verei:
tempo há para que decida
primeiro é preciso achar
um trabalho de que viva.
Vejo uma mulher na janela,
ali, que se não é rica,
parece remediada
ou dona de sua vida:
vou saber se de trabalho
poderá me dar notícia.


A morte severina já havia sido descrita no primeiro monólogo e somente agora Severino se refere à vida severina.
A constatação de que só encontrou morte, e o pouco que não era morte era vida severina, abala a confiança do retirante na sua viagem. As suas falas parecem indicar que não existe uma divisão entre morte e vida severina – uma está na outra, é inevitável. Mais do que isso: a vida severina é uma morte em vida, é a sensação de que não há motivo para viver e talvez seja melhor livrar-se dele. Mas o retirante ainda não perdeu completamente as esperanças e decide interromper sua linha, assim como o Capibaribe, pelo menos até este estar cheio novamente. Então, decide procurar “um trabalho de que viva”. Essa expressão demonstra que viver é trabalhar, pois sem trabalho a vida severina aproxima-se mais rápido da morte.


6. DIRIGE-SE À MULHER NA JANELA QUE DEPOIS DESCOBRE TRATAR-SE DE QUEM SE SABERÁ


- Muito bom dia senhora,
que nessa janela está
sabe dizer se é possível
algum trabalho encontrar?
- Trabalho aqui nunca falta
a quem sabe trabalhar
o que fazia o compadre
na sua terra de lá?
- Pois fui sempre lavrador,
lavrador de terra má
não há espécie de terra
que eu não possa cultivar.
- Isso aqui de nada adianta,
poucos existe o que lavrar
mas diga-me, retirante,
o que mais fazia por lá?
- Também lá na minha terra
de terra mesmo pouco há
mas até a calva da pedra
sinto-me capaz de arar.
- Também de pouco adianta,
nem pedra há aqui que amassar
diga-me ainda, compadre,
que mais fazias por lá?
- Conheço todas as roças
que nesta chã podem dar
o algodão, a mamona,
a pita, o milho, o caroá.
- Esses roçados o banco
já não quer financiar
mas diga-me, retirante,
o que mais fazia lá?
- Melhor do que eu ninguém
sei combater, quiçá,
tanta planta de rapina
que tenho visto por cá.
- Essas plantas de rapina
são tudo o que a terra dá
diga-me ainda, compadre
que mais fazia por lá?
- Tirei mandioca de chãs
que o vento vive a esfolar
e de outras escalavras
pela seca faca solar.
- Isto aqui não é Vitória
nem é Glória do Goitá
e além da terra, me diga,
que mais sabe trabalhar?
- Sei também tratar de gado,
entre urtigas pastorear
gado de comer do chão
ou de comer ramas no ar.
- Aqui não é Surubim
nem Limoeiro, oxalá!
mas diga-me, retirante,
que mais fazia por lá?
- Em qualquer das cinco tachas
de um banguê sei cozinhar
sei cuidar de uma moenda,
de uma casa de purgar.
- Com a vinda das usinas
há poucos engenhos já
nada mais o retirante
aprendeu a fazer lá?
- Ali ninguém aprendeu
outro ofício, ou aprenderá
mas o sol, de sol a sol,
bem se aprende a suportar.
- Mas isso então será tudo
em que sabe trabalhar?
vamos, diga, retirante,
outras coisas saberá.
- Deseja mesmo saber
o que eu fazia por lá?
comer quando havia o quê
e, havendo ou não, trabalhar.
- Essa vida por aqui
é coisa familiar
mas diga-me retirante,
sabe benditos rezar?
sabe cantar excelências,
defuntos encomendar?
sabe tirar ladainhas,
sabe mortos enterrar?
- Já velei muitos defuntos,
na serra é coisa vulgar
mas nunca aprendi as rezas,
sei somente acompanhar.
- Pois se o compadre soubesse
rezar ou mesmo cantar,
trabalhávamos a meias,
que a freguesia bem dá.
- Agora se me permite
minha vez de perguntar:
como senhora, comadre,
pode manter o seu lar?
- Vou explicar rapidamente,
logo compreenderá:
como aqui a morte é tanta,
vivo de a morte ajudar.
- E ainda se me permite
que volte a perguntar:
é aqui uma profissão
trabalho tão singular?
- é, sim, uma profissão,
e a melhor de quantas há:
sou de toda a região
rezadora titular.
- E ainda se me permite
mais outra vez indagar:
é boa essa profissão
em que a comadre ora está?
- De um raio de muitas léguas
vem gente aqui me chamar
a verdade é que não pude
queixar-me ainda de azar.
- E se pela última vez
me permite perguntar:
não existe outro trabalho
para mim nesse lugar?
- Como aqui a morte é tanta,
só é possível trabalhar
nessas profissões que fazem
da morte ofício ou bazar.
Imagine que outra gente
de profissão similar,
farmacêuticos, coveiros,
doutor de anel no anular,
remando contra a corrente
da gente que baixa ao mar,
retirantes às avessas,
sobem do mar para cá.
Só os roçados da morte
compensam aqui cultivar,
e cultivá-los é fácil:
simples questão de plantar
não se precisa de limpa,
as estiagens e as pragas
fazemos mais prosperar
e dão lucro imediato
nem é preciso esperar
pela colheita: recebe-se
na hora mesma de semear.

Na sequência, Severino dialoga com uma mulher à janela. Ele lhe pergunta se há algum trabalho naquela região, ao que a mulher lhe indaga suas habilidades.
Severino responde às perguntas delas, enumerando os ofícios que já teve (lavrador, vaqueiro, moedor de cana em engenho, tratar de gado) e a mulher diz que aqueles trabalhos eram dispensáveis naqueles roçados, pois o banco nem quer mais financiar.
Então, o retirante pergunta à mulher qual era sua lida, recebendo uma resposta intrigante: a mulher é rezadora em velórios, a melhor que há, e com frequência é chamada de longe para trabalhar.
A mulher, então, informa-lhe que na região não há trabalho para lavradores como ele, apenas profissionais ligados à morte, rezadeiras como ela, coveiros, ou mesmo farmacêuticos e médicos, têm algo a fazer por lá, além de dar lucro imediato.


7. O RETIRANTE CHEGA À ZONA DA MATA, QUE O FAZ PENSAR, OUTRA VEZ, EM INTERROMPER A VIAGEM.


- Bem me diziam que a terra
se faz mais branda e macia
quando mais do litoral
a viagem se aproxima.
Agora afinal cheguei
nesta terra que diziam.
Como ela é uma terra doce
para os pés e para a vista.
Os rios que correm aqui
têm água vitalícia.
Cacimbas por todo lado
cavando o chão, água mina.
Vejo agora que é verdade
o que pensei ser mentira
Quem sabe se nesta terra
não plantarei minha sina?
Não tenho medo de terra
(cavei pedra toda a vida),
e para quem lutou a braço
contra a piçarra da Caatinga
será fácil amansar
esta aqui, tão feminina.
Mas não avisto ninguém,
só folhas de cana fina
somente ali à distância
aquele bueiro de usina
somente naquela várzea
um bangüê velho em ruína.
Por onde andará a gente
que tantas canas cultiva?
Feriando: que nesta terra
tão fácil, tão doce e rica,
não é preciso trabalhar
todas as horas do dia,
os dias todos do mês,
os meses todos da vida.
Decerto a gente daqui
jamais envelhece aos trinta
nem sabe da morte em vida,
vida em morte, severina
e aquele cemitério ali,
branco de verde colina,
decerto pouco funciona
e poucas covas aninha.


Continuando a viagem, Severino alcança a Zona da Mata, uma terra “mais fácil, doce e rica” e "decerto a gente daqui/jamais envelhece aos trinta" que enche de esperanças o coração do retirante, acreditando que ali a vida será produtiva e pensa estabilizar-se por lá. Vê uma usina, mas apesar de tanta riqueza, não encontra ninguém à vista neste paraíso e pressupõe que todos estejam “de folga”.
Engana-se: só encontra um banguê velho em ruína. O lugar está vazio porque as usinas prescindem dos homens, tudo é mecânico, nada requer o trabalho braçal de gente igual a ele. Em seguida, Severino avista um cemitério.


8. ASSISTE AO ENTERRO DE UM TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE O LEVARAM AO CEMITÉRIO


- Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a cota menor
que tiraste em vida.
- é de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
neste latifúndio.
- Não é cova grande.
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
- é uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
- é uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
- é uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.
- Viverás, e para sempre
na terra que aqui aforas:
e terás enfim tua roça.
- Aí ficarás para sempre,
livre do sol e da chuva,
criando tuas saúvas.
- Agora trabalharás
só para ti, não a meias,
como antes em terra alheia.
- Trabalharás uma terra
da qual, além de senhor,
serás homem de eito e trator.
- Trabalhando nessa terra,
tu sozinho tudo empreitas:
serás semente, adubo, colheita.
- Trabalharás numa terra
que também te abriga e te veste:
embora com o brim do Nordeste.
- Será de terra
tua derradeira camisa:
te veste, como nunca em vida.
- Será de terra
e tua melhor camisa:
te veste e ninguém cobiça.
- Terás de terra
completo agora o teu fato:
e pela primeira vez, sapato.
- Como és homem,
a terra te dará chapéu:
fosses mulher, xale ou véu.
- Tua roupa melhor
será de terra e não de fazenda:
não se rasga nem se remenda.
- Tua roupa melhor
e te ficará bem cingida:
como roupa feita à medida.
- Esse chão te é bem conhecido
(bebeu teu suor vendido).
- Esse chão te é bem conhecido
(bebeu o moço antigo)
- Esse chão te é bem conhecido
(bebeu tua força de marido).
- Desse chão és bem conhecido
(através de parentes e amigos).
- Desse chão és bem conhecido
(vive com tua mulher, teus filhos)
- Desse chão és bem conhecido
(te espera de recém-nascido).
- Não tens mais força contigo:
deixa-te semear ao comprido.
- Já não levas semente viva:
teu corpo é a própria maniva.
- Não levas rebolo de cana:
és o rebolo, e não de caiana.
- Não levas semente na mão:
és agora o próprio grão.
- Já não tens força na perna:
deixa-te semear na coveta.
- Já não tens força na mão:
deixa-te semear no leirão.
- Dentro da rede não vinha nada,
só tua espiga debulhada.
- Dentro da rede vinha tudo,
só tua espiga no sabugo.
- Dentro da rede coisa vasqueira,
só a maçaroca banguela.
- Dentro da rede coisa pouca,
tua vida que deu sem soca.
- Na mão direita um rosário,
milho negro e ressecado.
- Na mão direita somente
o rosário, seca semente.
- Na mão direita, de cinza,
o rosário, semente maninha,
- Na mão direita o rosário,
semente inerte e sem salto.
- Despido vieste no caixão,
despido também se enterra o grão.
- De tanto te despiu a privação
que escapou de teu peito à viração.
- Tanta coisa despiste em vida
que fugiu de teu peito a brisa.
- E agora, se abre o chão e te abriga,
lençol que não tiveste em vida.
- Se abre o chão e te fecha,
dando-te agora cama e coberta.
- Se abre o chão e te envolve,
como mulher com que se dorme.


Este quadro é o mais conhecido da peça. Severino assiste novamente ao enterro de outro trabalhador (esta sequência ficou consagrada como “Funeral de um lavrador”, na voz de Chico Buarque) e acompanha as palavras amargas dos amigos que conduzem o morto ao cemitério.
O coro dos amigos do morto é uma forma de condenar, agora mais concretamente, o que já vinha sendo denunciado desde o início: a desigualdade social, o desamparo dos pobres perante os latifúndios que matam àqueles que se dispõe a lutar pela terra. E os consomem como “espigas debulhadas”, roendo-lhes as forças, a mocidade, a fibra de trabalhador. Trata-se, portanto, da mesma morte severina que persegue o lavrador onde ele esteja.
Os versos, ironicamente dirigem ao morto, cuja cova é a paga do trabalho exaustivo que teve em vida. Assim, numa enumeração de imagens que de irônicas passam a sarcásticas, configurando um humor negro e desencantado, o morto agora sob a terra, finalmente obterá o que em vão procurara.



9. O RETIRANTE RESOLVE APRESSAR OS PASSOS PARA CHEGAR LOGO AO RECIFE



- Nunca esperei muita coisa,
digo a Vossas Senhorias.
O que me fez retirar
não foi a grande cobiça
o que apenas busquei
foi defender minha vida
de tal velhice que chega
antes de se inteirar trinta
se na serra vivi vinte,
se alcancei lá tal medida,
o que pensei, retirando,
foi estendê-la um pouco ainda.
Mas não senti diferença
entre o Agreste e a Caatinga,
e entre a Caatinga e aqui a Mata
a diferença é a mais mínima.
Está apenas em que a terra
é por aqui mais macia
está apenas no pavio,
ou melhor, na lamparina:
pois é igual o querosene
que em toda parte ilumina,
e quer nesta terra gorda
quer na serra, de caliça,
a vida arde sempre com
a mesma chama mortiça.
Agora é que compreendo
por que em paragens tão ricas
o rio não corta em poços
como ele faz na Caatinga:
vivi a fugir dos remansos
a que a paisagem o convida,
com medo de se deter,
grande que seja a fadiga.
Sim, o melhor é apressar
o fim desta ladainha,
o fim do rosário de nomes
que a linha do rio enfia
é chegar logo ao Recife,
derradeira ave-maria
do rosário, derradeira
invocação da ladainha,
Recife, onde o rio some
e esta minha viagem se fina.

Neste monólogo, Severino fala com o espectador, afirmando não ter encontrado diferença “entre o Agreste e a Caatinga, e entre a Caatinga e aqui a Mata”, de certa maneira contradiz o monólogo anterior, em que se mostrava otimista em relação à Zona da Mata. Decepcionado com o que ouvira no cemitério decide apressar o passo para chegar logo “ao fim dessa ladainha”, ao Recife, pois em todas as paragens a morte venceu a vida.


10. CHEGANDO AO RECIFE O RETIRANTE SENTA-SE PARA DESCANSAR AO PÉ DE UM MURO ALTO E CAIADO E OUVE, SEM SER NOTADO, A CONVERSA DE DOIS COVEIROS


- O dia hoje está difícil
não sei onde vamos parar.
Deviam dar um aumento,
ao menos aos deste setor de cá.
As avenidas do centro são melhores,
mas são para os protegidos:
há sempre menos trabalho
e gorjetas pelo serviço
e é mais numeroso o pessoal
(toma mais tempo enterrar os ricos).
- pois eu me daria por contente
se me mandassem para cá.
Se trabalhasses no de Casa Amarela
não estarias a reclamar.
De trabalhar no de Santo Amaro
deve alegrar-se o colega
porque parece que a gente
que se enterra no de Casa Amarela
está decidida a mudar-se
toda para debaixo da terra.
- é que o colega ainda não viu
o movimento: não é o que se vê.
Fique-se por aí um momento
e não tardarão a aparecer
os defuntos que ainda hoje
vão chegar (ou partir, não sei).
As avenidas do centro,
onde se enterram os ricos,
são como o porto do mar
não é muito ali o serviço:
no máximo um transatlântico
chega ali cada dia,
com muita pompa, protocolo,
e ainda mais cenografia.
Mas este setor de cá
é como a estação dos trens:
diversas vezes por dia
chega o comboio de alguém.
- Mas se teu setor é comparado
à estação central dos trens,
o que dizer de Casa Amarela
onde não para o vaivém?
Pode ser uma estação
mas não estação de trem:
será parada de ônibus,
com filas de mais de cem.
- Então por que não pedes,
já que és de carreira, e antigo,
que te mandem para Santo Amaro
se achas mais leve o serviço?
Não creio que te mandassem
para as belas avenidas
onde estão os endereços
e o bairro da gente fina:
isto é, para o bairro dos usineiros,
dos políticos, dos banqueiros,
e no tempo antigo, dos bangunlezeiros
(hoje estes se enterram em carneiros)
bairro também dos industriais,
dos membros das
associações patronais
e dos que foram mais horizontais
nas profissões liberais.
Difícil é que consigas
aquele bairro, logo de saída.
- Só pedi que me mandasse
para as urbanizações discretas,
com seus quarteirões apertados,
com suas cômodas de pedra.
- Esse é o bairro dos funcionários,
inclusive extranumerários,
contratados e mensalistas
(menos os tarefeiros e diaristas).
Para lá vão os jornalistas,
os escritores, os artistas
ali vão também os bancários,
as altas patentes dos comerciários,
os lojistas, os boticários,
os localizados aeroviários
e os de profissões liberais
que não se libertaram jamais.
(...)
- é, deixo o subúrbio dos indigentes
onde se enterra toda essa gente
que o rio afoga na preamar
e sufoca na baixa-mar.
- é a gente sem instituto,
gente de braços devolutos
são os que jamais usam luto
e se enterram sem salvo-conduto.
- é a gente dos enterros gratuitos
e dos defuntos ininterruptos.
- é a gente retirante
que vem do Sertão de longe.
- Desenrolam todo o barbante
e chegam aqui na jante.
- E que então, ao chegar,
não tem mais o que esperar.
- Não podem continuar
pois têm pela frente o mar.
- Não têm onde trabalhar
e muito menos onde morar.
- E da maneira em que está
não vão ter onde se enterrar.
- Eu também, antigamente,
fui do subúrbio dos indigentes,
e uma coisa notei
que jamais entenderei:
essa gente do Sertão
que desce para o litoral, sem razão,
fica vivendo no meio da lama,
comendo os siris que apanha
pois bem: quando sua morte chega,
temos que enterrá-los em terra seca.
- Na verdade, seria mais rápido
e também muito mais barato
que os sacudissem de qualquer ponte
dentro do rio e da morte.
- O rio daria a mortalha
e até um macio caixão de água
e também o acompanhamento
que levaria com passo lento
o defunto ao enterro final
a ser feito no mar de sal.
- E não precisava dinheiro,
e não precisava coveiro,
e não precisava oração
e não precisava inscrição.
- Mas o que se vê não é isso:
é sempre nosso serviço
crescendo mais cada dia
morre gente que nem vivia.
- E esse povo de lá de riba
de Pernambuco, da Paraíba,
que vem buscar no Recife
poder morrer de velhice,
encontra só, aqui chegando
cemitério esperando.
- Não é viagem o que fazem
vindo por essas caatingas, vargens
aí está o seu erro:
vêm é seguindo seu próprio enterro.


A partir deste quadro, Severino encontra-se na cidade grande.
Senta-se para descansar exatamente ao pé do muro de um cemitério e escuta a conversa de dois coveiros. Eles falam sobre morte, o que permeia esta jornada severina, e impressionam o retirante a veemência de suas falas ríspidas que anunciam diferenças entre enterrar ricos e pobres.
Para o cemitério de Santo Antônio vão os homens como jornalistas, escritores, artistas e os de profissão liberal; para os da Casa Amarela, onde agora Severino está, vão os miseráveis de toda a sorte, "gente dos enterros gratuitos".
Assim, comentam as diferenças de classe e de condição econômico-social dos mortos segundo os diferentes bairros e avenidas existentes nos cemitérios.
Nesta conversa ouvida por Severino, observa-se um dos momentos da obra em que a veia crítica-irônica de Cabral aproxima-se do humor farsesco das sátiras de Gil Vicente.
Um dos coveiros comenta que o rio Capibaribe devia dar-lhes uma mortalha macia, sem que precisassem de dinheiro ou coveiro, sugerindo, então, que os retirantes morram no rio, a fim de facilitar-lhes o trabalho e assusta o retirante ao anunciar que quando vêm da caatinga, "Vêm seguindo o próprio enterro."

Não há como não lembrar, em relação a esta cena, o célebre diálogo dos coveiros no Ato V, Cena I, da peça Hamlet, de Shakespeare. Ao retornar a Elsenor, Hamlet pára no cemitério e ouve os coveiros (apresentados por Shakespeare como clowns: bobos, palhaços) conversarem sobre o suicídio de sua amada Ofélia. A conversa é absurda, mas não deixa de ter pontos de contato com a situação de Severino. Diz um dos coveiros: "Se o homem vai à água e se afoga, de qualquer modo, queira ou não queira, ele vai, presta atenção nisso. Mas a água vai a ele e o afoga, ele não se afoga - "ergum", aquele que não é culpado de sua própria morte não abrevia a sua própria vida."


11. O RETIRANTE APROXIMA-SE DE UM DOS CAIS DO CAPIBARIBE


- Nunca esperei muita coisa,
é preciso que eu repita.
Sabia que no rosário
de cidade e de vilas,
e mesmo aqui no Recife
ao acabar minha descida,
não seria diferente
a vida de cada dia:
que sempre pás e enxadas
foices de corte e capina,
ferros de cova, estrovengas
o meu braço esperariam.
Mas que se este não mudasse
seu uso de toda vida,
esperei, devo dizer,
que ao menos aumentaria
na quartinha, a água pouca,
dentro da cuia, a farinha,
o algodãozinho da camisa,
ao meu aluguel com a vida.
E chegando, aprendo que,
nessa viagem que eu fazia,
sem saber desde o Sertão,
meu próprio enterro eu seguia.
Só que devo ter chegado
adiantado de uns dias
o enterro espera na porta:
o morto ainda está com vida.
A solução é apressar
a morte a que se decida
e pedir a este rio,
que vem também lá de cima,
que me faça aquele enterro
que o coveiro descrevia:
caixão macio de lama,
mortalha macia e líquida,
coroas de baronesa
junto com flores de aninga,
e aquele acompanhamento
de água que sempre desfila
(que o rio, aqui no Recife,
não seca, vai toda a vida).

O último monólogo de Severino inicia-se, como o anterior, com o verso Nunca esperei muita coisa.
Esta parte é um lamento com a quebra das expectativas de Severino.
Ele não esperava que sua vida mudasse muito com sua chegada ao Recife, tinha consciência de que continuaria trabalhando muito, com ferramentas semelhantes (senão iguais) às que usava na sua terra natal. Mas acreditava que seu trabalho ali poderia lhe trazer mais água, comida e roupas para o corpo magro.
Sonhos de um homem simples que se desmancharam ao saber que viera seguindo o próprio enterro e que sua vida está por um triz.
A morte não era sua companheira de viagem, e sim sua anfitriã. O retirante, chegando a seu objetivo, contempla pela primeira vez a ideia do suicídio e seu último desejo é que seu enterro seja como o descrito pelos coveiros, no rio.

12. APROXIMA-SE DO RETIRANTE O MORADOR DE UM DOS MOCAMBOS QUE EXISTEM ENTRE O CAIS E A ÁGUA DO RIO


- Seu José, mestre carpina,
que habita este lamaçal,
sabes me dizer se o rio
a esta altura dá vau?
sabe me dizer se é funda
esta água grossa e carnal?
- Severino, retirante,
jamais o cruzei a nado
quando a maré está cheia
vejo passar muitos barcos,
barcaças, alvarengas,
muitas de grande calado.
- Seu José, mestre carpina,
para cobrir corpo de homem
não é preciso muito água:
basta que chega o abdome,
basta que tenha fundura
igual à de sua fome.
- Severino, retirante
pois não sei o que lhe conte
sempre que cruzo este rio
costumo tomar a ponte
quanto ao vazio do estômago,
se cruza quando se come.
- Seu José, mestre carpina,
e quando ponte não há?
quando os vazios da fome
não se tem com que cruzar?
quando esses rios sem água
são grandes braços de mar?
- Severino, retirante,
o meu amigo é bem moço
sei que a miséria é mar largo,
não é como qualquer poço:
mas sei que para cruzá-la
vale bem qualquer esforço.
- Seu José, mestre carpina,
e quando é fundo o perau?
quando a força que morreu
nem tem onde se enterrar,
por que ao puxão das águas
não é melhor se entregar?
- Severino, retirante,
o mar de nossa conversa
precisa ser combatido,
sempre, de qualquer maneira,
porque senão ele alarga
e devasta a terra inteira.
- Seu José, mestre carpina,
e em que nos faz diferença
que como frieira se alastre,
ou como rio na cheia,
se acabamos naufragados
num braço do mar miséria?
- Severino, retirante,
muita diferença faz
entre lutar com as mãos
e abandoná-las para trás,
porque ao menos esse mar
não pode adiantar-se mais.
- Seu José, mestre carpina,
e que diferença faz
que esse oceano vazio
cresça ou não seus cabedais
se nenhuma ponte mesmo
é de vencê-lo capaz?
- Seu José, mestre carpina,
que lhe pergunte permita:
há muito no lamaçal
apodrece a sua vida?
e a vida que tem vivido
foi sempre comprada à vista?
- Severino, retirante,
sou de Nazaré da Mata,
mas tanto lá como aqui
jamais me fiaram nada:
a vida de cada dia
cada dia hei de comprá-la.
- Seu José, mestre carpina,
e que interesse, me diga,
há nessa vida a retalho
que é cada dia adquirida?
espera poder um dia
comprá-la em grandes partidas?
- Severino, retirante,
não sei bem o que lhe diga:
não é que espere comprar
em grosso tais partidas,
mas o que compro a retalho
é, de qualquer forma, vida.
- Seu José, mestre carpina,
que diferença faria
se em vez de continuar
tomasse a melhor saída:
a de saltar, numa noite,
fora da ponte e da vida?

Severino está por se atirar ao rio quando dele se aproxima José, o mestre carpina (carpinteiro), de Nazaré da Mata, que mora num dos mocambos à beira do Capibaribe.
Quando Severino pergunta-lhe se vale à pena insistir numa vida tão miserável. Seu José, de imediato defende tomando como exemplo sua própria história, pois sempre lutara duramente para preservar a existência, tendo aprendido valorizá-la.
A metáfora "saltar da ponte e da vida", renunciar à existência, não surpreende o homem que ouve a conversa do retirante a lhe perguntar sobre o rio, também metaforicamente aí significando a própria existência, com suas águas fundas e lodosas. É um diálogo figurado, intenso. Mesmo assim, Severino está irredutível.
Os dois são interrompidos por uma mulher que vem avisar Seu José que seu filho nascera.
A partir deste quadro, por meio das falas de seu José tentando convencer Severino a não se suicidar, e também da alegoria do Natal que envolve o nascimento de seu filho, a dimensão crítica do poema é relativizada pela recusa em aceitar passivamente a morte, em deixar-se derrotar por ela, isto é, por um discurso mais esperançoso, embora destituído de otimismos baratos.
Neste ponto se inicia o Presépio que finaliza a peça. Interrompida a conversa, Severino e o mestre carpina assistem ao espetáculo do nascimento do filho de José.


13. UMA MULHER, DA PORTA DE ONDE SAIU O HOMEM, ANUNCIA-LHE O QUE SE VERÁ


- Compadre José, compadre,
que na relva estais deitado:
conversais e não sabeis
que vosso filho é chegado?
Estais aí conversando
em vossa prosa entretida:
não sabeis que vosso filho
saltou para dentro da vida?
Saltou para dento da vida
ao dar o primeiro grito
e estais aí conversando
pois sabeis que ele é nascido.


O nascimento de outro Severino aproxima o auto, dos modelos pastoris das peças medievais. É, metaforicamente, o nascimento de Jesus, em meio à pobreza. O subtítulo do poema se explica agora: Auto de Natal Pernambucano.


14. APARECEM E SE APROXIMAM DA CASA DO HOMEM VIZINHOS, AMIGOS, DUAS CIGANAS, ETC



- Todo o céu e a terra
lhe cantam louvor.
Foi por ele que a maré
esta noite não baixou.
- Foi por ele que a maré
fez parar o seu motor:
a lama ficou coberta
e o mau-cheiro não voou.
- E a alfazema do sargaço,
ácida, desinfetante,
veio varrer nossas ruas
enviada do mar distante.
- E a língua seca de esponja
que tem o vento terral
veio enxugar a umidade
do encharcado lamaçal.
- Todo o céu e a terra
lhe cantam louvor
e cada casa se torna
num mocambo sedutor.
- Cada casebre se torna
no mocambo modelar
que tanto celebram os
sociólogos do lugar.
- E a banda de maruins
que toda noite se ouvia
por causa dele, esta noite,
creio que não irradia.
- E este rio de água, cega,
ou baça, de comer terra,
que jamais espelha o céu,
hoje enfeitou-se de estrelas.


Duas ciganas, mais os vizinhos e amigos do mestre carpina entoam palavras de boas-vindas ao recém-nascido, tal como os reis magos e vão saudá-lo dentro da pobreza, como ela lhes permitirá. Ao chegar ao mundo, ele magicamente melhora as coisas que o rodeiam.


15. COMEÇAM A CHEGAR PESSOAS TRAZENDO PRESENTES PARA O RECÉM-NASCIDO


- Minha pobreza tal é
que não trago presente grande:
trago para a mãe caranguejos
pescados por esses mangues
mamando leite de lama
conservará nosso sangue.
- Minha pobreza tal é
que coisa alguma posso ofertar:
somente o leite que tenho
para meu filho amamentar
aqui todos são irmãos,
de leite, de lama, de ar.
- Minha pobreza tal é
que não tenho presente melhor:
trago este papel de jornal
para lhe servir de cobertor
cobrindo-se assim de letras
vai um dia ser doutor.
- Minha pobreza tal é
que não tenho presente caro:
como não posso trazer
um olho d'água de Lagoa do Cerro,
trago aqui água de Olinda,
água da bica do Rosário.
- Minha pobreza tal é
que grande coisa não trago:
trago este canário da terra
que canta sorrindo e de estalo.
- Minha pobreza tal é
que minha oferta não é rica:
trago daquela bolacha d'água
que só em Paudalho se fabrica.
- Minha pobreza tal é
que melhor presente não tem:
dou este boneco de barro
de Severino de Tracunhaém.
- Minha pobreza tal é
que pouco tenho o que dar:
dou da pitu que o pintor Monteiro
fabricava em Gravatá.
- Trago abacaxi de Goiana
e de todo o Estado rolete de cana.
- Eis ostras chegadas agora,
apanhadas no cais da Aurora.
- Eis tamarindos da Jaqueira
e jaca da Tamarineira.
- Mangabas do Cajueiro
e cajus da Mangabeira.
- Peixe pescado no Passarinho,
carne de boi dos Peixinhos.
- Siris apanhados no lamaçal
que já no avesso da rua Imperial.
- Mangas compradas nos quintais ricos
do Espinheiro e dos Aflitos.
- Goiamuns dados pela gente pobre
da Avenida Sul e da Avenida Norte.


Declarando-se pobres, cada um entrega ao menino que tem de mais precioso. São ofertas de homens simples que tiram de si mesmos, os melhores presentes para saudar a vida que começa. Outra vez a solidariedade é posta à vista e largamente exercida por todos.
João Cabral adapta o original à situação de vida das populações ribeirinhas ao Capibaribe, tornando concretos os locais e os presentes oferecidos. Nesta cena enumera uma série de localidades - cidades pernambucanas e bairros de Recife - de onde se originariam os presentes. Representam, assim, a presença dos reis magos, no nascimento de Cristo.
Coerentemente com o significado de alegoria natalina deste nascimento, alguns dos presentes remetem às idéias de união, solidariedade e esperança; alimentada com os caranguejos do mangue, a mãe do menino passar-lhe-á em seu leite o mesmo “sangue de lama” de todos dali; o leite de outra mulher servirá também ao menino, pois naquele lugar “são todos irmãos”; aquecido pelas letras do jornal-cobertor, o menino “um dia vai ser doutor”.


16. FALAM AS DUAS CIGANAS QUE TINHAM APARECIDO COM OS VIZINHOS



- Atenção peço, senhores,
para esta breve leitura:
somos ciganas do Egito,
lemos a sorte futura.
Vou dizer todas as coisas
que desde já posso ver
na vida desse menino
acabado de nascer:
aprenderá a engatinhar
por aí, com aratus,
aprenderá a caminhar
na lama, como goiamuns,
e a correr o ensinarão
o anfíbios caranguejos,
pelo que será anfíbio
como a gente daqui mesmo.
Cedo aprenderá a caçar:
primeiro, com as galinhas,
que é catando pelo chão
tudo o que cheira a comida
depois, aprenderá com
outras espécies de bichos:
com os porcos nos monturos,
com os cachorros no lixo.
Vejo-o, uns anos mais tarde,
na ilha do Maruim,
vestido negro de lama,
voltar de pescar siris
e vejo-o, ainda maior,
pelo imenso lamarão
fazendo dos dedos iscas
para pescar camarão.
- Atenção peço, senhores,
também para minha leitura:
também venho dos Egitos,
vou completar a figura.
Outras coisas que estou vendo
é necessário que eu diga:
não ficará a pescar
de jereré toda a vida.
Minha amiga se esqueceu
de dizer todas as linhas
não pensem que a vida dele
há de ser sempre daninha.
Enxergo daqui a planura
que é a vida do homem de ofício,
bem mais sadia que os mangues,
tenha embora precipícios.
Não o vejo dentro dos mangues,
vejo-o dentro de uma fábrica:
se está negro não é lama,
é graxa de sua máquina,
coisa mais limpa que a lama
do pescador de maré
que vemos aqui vestido
de lama da cara ao pé.
E mais: para que não pensem
que em sua vida tudo é triste,
vejo coisa que o trabalho
talvez até lhe conquiste:
que é mudar-se destes mangues
daqui do Capibaribe
para um mocambo melhor
nos mangues do Beberibe.

Duas ciganas prevêem o futuro da criança. Enquanto em Pereira da Costa uma delas era pessimista e a outra otimista, em “Morte e Vida Severina” a variação das previsões se dá pelo fato da primeira cigana prognosticar um futuro enlameado, terminando como pescador de siri e camarão, e a segunda preconiza-o como operário, mudando-se das margens do Capibaribe para um mocambo melhor nos mangues do Beberibe, o outro rio que corta Recife. Assim, nos dois casos o destino do menino é o dos explorados.


17. FALAM OS VIZINHOS, AMIGOS, PESSOAS QUE VIERAM COM PRESENTES, ETC



- De sua formosura
já venho dizer:
é um menino magro,
de muito peso não é,
mas tem o peso de homem,
de obra de ventre de mulher.
- De sua formosura
deixai-me que diga:
é uma criança pálida,
é uma criança franzina,
mas tem a marca de homem,
marca de humana oficina.
- É tão belo como as ondas
em sua adição infinita.
- Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.
- Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
- Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
- Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.
- E belo porque o novo
todo o velho contagia.
- Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.
- Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.
- Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.


Nesta cena apresenta todos os visitantes do recém-nascido elogiando a sua beleza. Trata-se de uma beleza diferente: pálida, franzina, fraca e magra, porém, ele possui “mãos que criam”, simbolizando a força do trabalhador lutando por sua sobrevivência e ao mesmo tempo, ele é “belo como o coqueiro/que vence a areia marinha”, comparando-o a natureza nordestina.
A descrição do menino, dessa forma, constitui alegoricamente, a beleza que é a afirmação da vida, o brotar da novidade contra o fracasso e a fraqueza da morte. O encadeamento de imagens antitéticas remete ao poder social e a esperança de um futuro melhor.
Nos versos: "belo como uma coisa nova/ na prateleira até então vazia" e "Belo como um caderno novo/quando a gente principia", ressaltam através de metáforas as necessidades fundamentais do homem; alimentação e educação.



18. O CARPINA FALA COM O RETIRANTE QUE ESTEVE DE FORA, SEM TOMAR PARTE DE NADA


- Severino, retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga
(...)
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
- E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida
como a de há pouco, franzina
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.


Durante o ritual do nascimento do menino, Severino assiste “de fora”, sem participar ativamente. Somente no final do quadro, o Mestre Carpina dirige-se a ele e retoma a discussão sobre suas dúvidas existencialistas, “salto ou não fora da ponte e da vida”.
Mestre Carpina, então, apresenta-lhe elementos suficientes para que ele continuasse lutando e acrescenta que a própria vida, através da celebração do nascimento do menino é prova disso.
Esse procedimento vem apenas reforçar a mensagem final da peça: a de que mesmo a vida severina, aparentemente sem saída ou esperança, pode e deve ser vivida.
Com o nascimento da criança, a paisagem do mocambo fica mais bonita, menos severina, até o céu fica estrelado.
Mas a cena final deixa dúvidas já que a fala do mestre carpina pode ser lida como otimista, mas ficamos sem saber se seu discurso tocou Severino a ponto dele desistir da ideia do suicídio.
O próprio João Cabral confessou que queria o final ambíguo, mas deu autorização a Roberto Freire quando este montou a peça, para dividir o monólogo final em um diálogo, em que o retirante falava a última estrofe.

"Nenhum nordestino é indiferente ao meio em que vive, em que se criou." (João Cabral de Melo Neto)

Um comentário:

Anônimo disse...

Parabens, perfeita análise.