domingo, 6 de junho de 2010

SONHOS QUE SE ACABAM

PERSONAGEM: Bárbara
Mulher bonita, aparentando 45 anos de idade.

CENÁRIO: Uma sala com muitos objetos antigos e em desuso, dando a impressão que a decoração tenha parado no tempo e a sua imobilidade refletisse a vida da personagem.

ATO: ÚNICO

(Luz vai aumentando, mostrando os objetos da sala e focando uma mesa, uma cadeira e um livro aberto)

INTRODUÇÃO

Sou Bárbara, tenho 45 anos de idade, possuo curso superior, sou divorciada e tenho uma filha que não vive comigo.
Meu nome vem do latim e significa a estrangeira.
Busquei nos estudos astrológicos e no meu mapa astral e encontrei a minha marca do mundo: “sabe o que quer e, com sua determinação, sempre chega lá.
Está sempre muito preocupada com a situação financeira, busca segurança neste setor da vida, mesmo sendo alguém que vive em busca de prazeres. Dona de uma memória perfeita e cheia de hábitos enraizados, gosta de dividir suas experiências com alguém, especialmente com quem ama. Possui um lado vingativo e corre certo risco de tornar-se teimosa ou ciumenta demais.
Vista como liberal e simpática, é prestativa e não gosta de causar transtornos em seus relacionamentos sejam pessoais ou profissionais.
Evita os cargos de liderança, e não busca ser centro das atenções.
Gosta de agir sem holofotes e nem por isso deixa de ser notada.
Preocupa-se em saber como é vista pelos outros, fator que pode prejudicar seu rendimento. Porém persuasão é uma forte característica e tem sempre a coisa certa a dizer, sua diplomacia faz com que consiga um bom entendimento entre os diversos grupos com que se relaciona.
A capacidade e vontade em cooperar sempre são apreciadas pelos colegas. Discreta, prefere ambientes tranquilos para trabalhar.
Sempre que coloca de lado a insegurança faz com que as pessoas confiem mais em suas habilidades.
Esta mesma insegurança é o que faz com que hesite sempre que se encontre entre duas escolhas.
Para usufruir dos aspectos positivos deve acreditar mais em si mesma e usar a intuição.”
Será que a minha sina estava traçada pelos deuses, pelo Destino ou por minhas próprias mãos?
Não sei!
- Vocês, senhores! Serão os meus juízes, meus amigos, meus confidentes!
Convido-os a experimentar a especial sensação de nos colocarmos diante de nós mesmos, no desafio que representa o fato de existirmos e, de existindo, assumir a decisão de escolher o sentido de ser.
Enfim, ouvintes, acompanhem-me nesta desmesurada investigação íntima, ajudem-me contornar os obstáculos da minha travessia.
Preciso, urgentemente, que me conduzam e me auxiliem remover as pedras do meu caminho enquanto planto flores.
Enfim, senhores, vocês serão o meu apoio, minha referência – o meu ego!
Talvez não me entendam. Pouco me importa. Acho melhor, nem tentarem.
Não estou à procura de juízes, psicólogos ou críticos.
Refiro-me aos seres humanos sensíveis e frágeis, capazes de ouvir.
Dirijo-me ao senhor e à senhora! Quanto a nós, que importa se parecemos frágeis brinquedos do imponderável – Destino ou Acaso ou qualquer que seja o nome que se lhe dê?
Enquanto buscarmos o fundamento da ordem na qual nos inserimos em nós mesmos, ainda há esperança para o homem e para o amor!
O meu interesse é tentar decifrar e desnudar as “entrelinhas” da evolução do meu ser.
Depois de tantos anos passados, olho-me no espelho e tenho muitas dúvidas.
Ele reflete uma imagem desconhecida e isso me causa medo.
Minha pele e os meus sonhos já enrugados e envelhecidos denunciam o vazio que me restou.
Já fui feliz e já chorei, e a ânsia de viver o tudo me arrastou para uma perda própria.
Eu amei e errei ou errei por amar!
- Talvez, alguns dos senhores pensem que estarão perdendo o seu precioso tempo e que minha confissão não passa de um mero entretenimento. Não é verdade! É a minha vida que estou oferecendo a vocês!
Se não quiserem me ouvir, entenderei – a decisão é sua!
Mas, eu preciso me libertar desse incômodo! Buscar o meu perfeito entendimento.
No entanto, quanto mais me liberto dos meus temores mais me vejo nas malhas da fatalidade.
- Senhores, respondam-me! O que faço com essa verdade que machuca, me arrasa e faz me perder? E, o pior, me perdendo, também te perdi!
Mas o que ainda uma vez, sob a minha palavra de honra afirmo que apenas desejo fazer uma relação de fatos e são apenas fatos que eu relatarei.
Não se trata de uma novela passional mas, sim de uma confissão introspectiva, que através de digressões, vou-me lançando, espalhando todo o meu “eu” e os maus caminhos que trilhei.
Sei que minha história pode parecer banal e prosaica para aqueles que aqui vieram buscar diversão e descontração. Ou até alegórica a outros.
Peço-lhes desculpas! Vocês não precisam se identificar comigo e nem sofrerem com os meus devaneios...eu entendo que eles são somente meus!
Vamos pôr fim neste romantismo! Afinal, meu depoimento é um documento real e verdadeiro por mais incaracterístico que seja.
Peço-lhes, senhores, paciência!
Preciso de coragem para me enfrentar e soltar as rédeas com que eu mesma me aprisionei e que me impossibilitaram durante anos o meu prosseguir.
- Senhores, não me julguem! Apenas me ouçam, façam-me companhia e perdoem-me pelo meu pecado de pensar!
Ah! Mas, como as palavras doem!
Elas possuem a harmonia da musicalidade, a leveza de um vôo e a responsabilidade de uma catarse. Mas, machucam!
Principalmente, as palavras caladas, aquelas que a boca recusou-se a pronunciar por insegurança ou, simplesmente, por falta de coragem.
Eu sempre quis me desvincular do vazio dessas palavras caladas, que silenciosamente gritavam dentro de mim, sufocando-me, antes que a solidão me destruísse.
São palavras carregadas de todas as minhas certezas e dúvidas.
Palavras que preenchem a minha solidão e que desnudam minha vida, ao mesmo tempo em que me vestem de sentimentos que eu mesma não conhecia, transformando-me numa outra pessoa.
- Recebam-nas, por favor! Eu não aguento mais guardar esse silêncio gritante que não cabe dentro mim.
Assim...esta é a minha versão mais acabada de cuja existência eu não tinha conhecimento e que, agora, se apresenta perante mim, perante os senhores, desmascarando-me.
- Por favor! Eu imploro! Dividam comigo o meu “nada”, quem sabe no meu balancete final, reste-me algo.
Estou morta para a vida e para o amor! Sigo minha travessia, paradoxalmente, sentindo-me tranquila e gozando de certa clareza surreal, sem desejos e nem esperanças.
Não penso no futuro. E, quando revejo o meu passado mais estranho e distante, ele me surge como se não pertencesse a mim.
A verdade, senhores é que não me reconheço dentro deste passado.
E, quando busco encontrar caminhos que me levem a essa minha reconstrução, só me defronto com desordens e com um processo constante de destruição de meu próprio ser.
Juro que não sei por onde segui. Sei, somente, que estive, mas já não me sou!
- Conduzam-me, senhores! Deem-me sua mão! Sei que também guardam tantos segredos... Essa é a nossa diferença: vocês guardam-nos para si, e eu os revelo e me exponho ao mundo!
- Convido-os a repenseram em sua vida amorosa e desafio aqueles que não vivenciaram essa experiência.
- Vocês têm certeza de que são felizes e possuem a paz? Será?????
É evidente que é mais fácil vivermos em permanente acomodação.
Afinal, o medo do “novo” arrasta-nos viver no equilíbrio da realidade, amputa-nos a emoção e todo caminho obscuro que seja sinônimo de risco e limita-nos a vivermos na mesmice – Para sempre, amém!
Até a própria mentira disfarça o comodismo de nossa falsa felicidade, não é?
Mas, sejamos sinceros, todos almejam na vida um momento luminoso, a confirmação do êxtase e o clímax do prazer.
Logo, todos são infelizes e incompletos!
Dessa forma, considero-me uma pessoa privilegiada. Arrisquei-me na experiência amorosa da vida, e isso, me faz sentir orgulho de tê-la vivido.
Confesso que se eu tivesse a oportunidade de reviver a minha história e evitado alguns deslizes, tenho certeza de que nada seria diferente. Sou assim e é dessa maneira que a vida se apresenta a mim.
- Senhores! Previno-os: não esperem respostas de mim.
Não pretendo fazer uma investigação psicológica ou um discurso existencialista; a minha narrativa não é uma tese – é apenas uma constatação!
Eu busco o discurso simples, as palavras exatas, sólidas e absurdamente verdadeiras, que exprimam os meus sonhos e meus cansaços.
Vocês hão de concordar comigo que encontrar palavras para designar o ininteligível e o indecifrável é uma tarefa árdua reservada aos poetas, aos filósofos, aos loucos...
Eu sou apenas uma mulher a quem um dia a lucidez se fez imensamente maior que eu mesma, levando-me a mergulhar nas profundezas do meu âmago e decifrar os sentimentos mais íntimos adormecidos em minha alma.
- E, vocês? Já mergulharam na incansável busca da consciência plena?
É apavorante!!!!Mas, talvez, seja exatamente o que me salvará.
Sou uma fracassada? Talvez.
Agora, resta-me a dúvida: se a minha falha não foi necessária...
Assim, peço aos senhores que tirem as suas conclusões, se quiserem.

INFÂNCIA

Cresci acompanhando as idas e vindas do trem e seguindo seus trilhos paralelos e infindos.
Morávamos num bairro industrial, ou melhor, ferroviário.
Na época, não entendia a diferença e acreditava que éramos importantes perante a sociedade, pois diziam que alastrávamos um bairro de classe!
Minha casa ficava às margens da linha do trem e esta era a paisagem que eu via e admirava.
Para mim, nada era mais belo e invencível que aquela máquina metálica que rasgava o horizonte abrindo caminho para o novo.
Enquanto as meninas de minha idade preocupavam-se com seus namoricos, eu ficava atenta ao tremor do assoalho da nossa casa, pois era o primeiro sinal de que o trem estava se aproximando, como se ele fosse o meu amado que viesse me buscar.
Corria desesperadamente para ver a passagem daquela magnífica construção humana que desfilava toda poderosa impondo a sua vontade e com excentricidade ordenava que saíssem de sua frente.
A máquina prepotente esbanjava galhardias, abria passagens, chamava a atenção, causava algazarras, esvoaçava fumaças e espalhava acenos.
Eu, agarrada à cerca que nos separava, admirava-a e viajava com ela, imaginando até aonde seus trilhos paralelos chegariam, refletindo sobre a continuidade de seu percurso e sonhando com suas paragens tão imprevisíveis.
- Senhores! Confesso-lhes que, além da sua beleza, o que mais me impressionava era o seu poder quase divinal de transportar lembranças, vidas e sonhos.
Eu não me atentava às partidas e, sim às vidas daquelas pessoas que partiam, e me entristecia com a possibilidade de nunca mais encontrá-las, conhecê-las e amá-las...
Quem me dera poder segui-las na linha da vida, como uma sina, sem rumo, mas buscando um destino.
Eu acenava ansiosamente contra o vento que a máquina reluzente fazia, despedindo-me com saudades daqueles que eu não conhecia.
E pensava...será que estavam indo ou chegando? Buscando ou levando? Era o começo ou o fim?
Com olhos fixos, paralisada eu assistia ao desfile dos escolhidos para essa viagem: roupas coloridas, chapéus; uns com expressões pálidas, entristecidas; outros, sorridentes e de bem com a vida ...E refletia - será que iam para o mesmo lugar?
Imaginava que os passageiros fossem atores, poetas ou loucos que em sua incansável busca nunca deixavam de “viajar”.
Ou será que se tornaram atores, poetas ou louco depois de embarcaram????
Não sei!
A barca urbanizada se arrastava, não deixava trégua e seguia friamente o seu caminho, devagar, devagarinho como se estivesse passeando e sem pressa de chegar. Às vezes, diminuía a velocidade para termos tempo para lhe apreciar.
E o maquinista imponente seguia à frente, como um deus compenetrado, conduzindo esses destinos.
Eu sempre tentei captar e entender o impercebido desse momento...
Será que eram pessoas ou almas que eram transportadas? Quem as escolhia? Será que suas vidas estavam materializadas em suas bagagens?
Mas todos os sonhos cabiam naquelas pequenas malas?
Enquanto isso, o cobrador passeava pelo corredor desviando dos pedaços de sonhos e magias espalhados no chão e pedindo os bilhetes como fossem certidões de nascimento, confirmando a existência daquelas vidas.
Será que havia algum bilhete premiado?
Depois, seguiam os vagões... Meu Deus! Por que tantos vagões?
Por que eram diferentes? Lia-se em seu corpo “primeira classe, segunda classe, carga...”Não se tratava de um espetáculo com um único camarim?
Será que podemos mudar de vagão?
Eu me imaginava na janela, sentindo o vento em meu rosto, admirando a paisagem que passava tão rapidamente que até se confundia e deixando para trás a cerca que me impedia de partir.
Eu era criança na época e já tinha tantas dúvidas e sonhos...
Acreditava que todos tinham mais vida que eu; assim, restava-me partir ou sonhar eternamente.
E, para mim, não bastava somente sonhar...
Eu tinha que ultrapassar a cerca que me impedia de viver, tomar qualquer trem, sem me importar qual seria o meu destino.
Então, eu fechava meus olhos e sentia o balanço do trem que me embalava e convidava a uma coreografia realística e improvisada, onde cada um dançava, conforme “a sua música”.
E, num ritmo impreciso, ao longe soavam acordes de um violino que nos fazia flutuar, musicando pensamentos e sonhos, compondo uma grande ópera melancólica e eterna.
Até que eu era despertada por um maestro com seu uniforme impecável regendo sempre com o seu apito na mão, transportando-me para a realidade e congelando todas as minhas emoções.
Sentia vontade de chorar, gritar, romper os meus limites e experimentar coisas que eu jamais veria...
Mas, o trem passava e seguia o seu caminho abandonando-me estática às beiras da vida.
- Senhores, quantas dúvidas, quantas indagações, seria tão mais fácil se eu apenas enxergasse o trem passar...
Depois, eu corria para meu isolamento, deitava-me de comprido no chão do meu quarto e fantasiava histórias bonitas com princesas, cavaleiros, índios, encontros e desencontros amorosos, que eram interrompidos pelos berros de minha mãe, massacrando que eu era doente, apática e sem vida.
Até certo ponto ela tinha razão.
O problema é que meu corpo era pequeno demais para conter todos os meus desejos e isto me corroia por dentro...
Sou fruto de uma geração falida, educada num regime pós-militar, quando questionar era proibido e podia causar sérios danos e dissabores.
Estudei num de colégio freiras, educada para temer o improvável e seguir todas as condutas morais vigentes.
Criada com muito esmero para ser a santinha da família, cresci cheia de medos, monstros e limites.
Éramos uma família de classe média baixa, fundamentada nos conceitos de honestidade, conservadorismo e machismo, em que era proibido sonhar.
Vivi entre o mito e o sagrado; entre o pecado e o temor do inferno; entre a realidade e as histórias fantásticas que minha avó me contava, principalmente a história de um homem que morava na linha do trem, roubava criancinhas e leva-as para o além.
Eu ouvia atenta a história do homem solitário e imaginava onde se localizava “o além” e se não era mais bonito que “o aqui”....
Minha educação baseou-se em tipos inacabados e nas alegorias flutuantes que meu pequeno universo alicerçava.
- Senhores! Em meu íntimo e na minha condição de mulher, eu tentava paradoxalmente equilibrar-me como podia: entre mim e o Deus, que punia; entre mim e minha família insensível e entre mim e o outro que eu desconhecia.
Mas, entre mim e eu?
Talvez, nunca! Naquela época eu era míope de amor próprio....Eu tinha medo de pensar em mim e me revelar, então me ocultava dentro do meu eu.
- Perdoem-me, senhores! Fui disciplinada para um mundo incompreensível, assim, sentia o que podia e tornei-me uma pessoa incompleta e triste.
Será que as pessoas felizes são aquelas que não possuem sonhos?????
Melhor, é não se arriscar a sentir...
Minha vida mudou quando conheci Jorge.

DESCOBERTA

Era carnaval. Grande ironia do destino.
A mesma menina sonhadora descobria o amor através de fantasias e máscaras.
Confetes, pierrô e colombinas.........
Nunca estivera num baile de carnaval de salão. Ouvira somente comentários entre os alunos do colégio em que eu estudava.
Na época eu era diferente e estranha...acho que ainda sou!
Magra, alta, feia, de óculos “fundo de garrafa” e muito retraída.
Não era convidada para trabalhos em equipes, muito menos para festinhas.
Minha vida resumia-se entre a escola e a igreja.
Sonhei semanas com o baile de carnaval e de tanto insistir meu pai cedeu e levou-me.
Chegamos tarde e só conseguimos uma mesa vaga nos fundos do salão. Minha mãe não nos acompanhou: não perderia horas de sono por bobagem.
No salão tive uma sensação de deslumbramento com o colorido, com a música alta e com as poucas roupas das pessoas.
Observava todos os detalhes, era um mundo diferente daquele que eu conhecia e não me parecia real.
Meu pai balbuciou algumas palavras, mas eu nem ouvi. Até que ele gritou:
- Você parece uma barata morta! Vai pular o carnaval! Não viemos para isso?
Em seguida, segurou com força o meu braço, arrastou-me para o centro do salão e lá me deixou...
- Senhores! Encontrei-me perdida, presa num embaralhado em meio a uma multidão e quis fugir dali e voltar para o meu mundo.
O meu medo misturou-se com a minha vergonha e percebi meu grande erro! Senti-me não como uma barata morta, mas, sim uma barata tonta encurralada tentando se esconder e prestes a morrer.
A multidão alegre me empurrava para todos os lados.
Depois, vieram as marteladas de borracha, lança-perfume, bisnagas de água e os pisões.
Parecia um povo insano! Era isto o famoso carnaval?
Procurei por meu pai e não o avistei. Com certeza, tinha ido beber!
De repente, ouvi um apito!!!!!!!! Logo em seguida, estava formado um trenzinho que rodava pelo salão.
- Senhores! Não me peçam minúcias! Prometi-lhes narrar a verdade e essa é a verdade que eu tenho para lhes oferecer.
Duas mãos firmes tocaram a minha cintura convidando-me a “embarcar”...
Não sei dizer quanto tempo durou, se foram somente alguns minutos, para mim, foi uma eternidade!!!!
Consigo reviver esta cena até agora com tanta perfeição que parece que foi hoje!
Pela primeira vez eu “viajava” e não ia sozinha... Eu era reconhecida, descoberta e encontrada.
Aquelas mãos misteriosas me conduziam e eu não me importava para onde me levariam.
Não eram mãos vazias! Traziam vida!
Eram mãos libertadoras que vinham soltar minhas amarras.
Deixei-me conduzir.
Nesse momento só eu existia para mim mesmo, tudo o mais desaparecera e ansiei que essas mãos me livrassem do meu cativeiro descoberto.
Sem mordaça, sentindo-me protegida, deixei de ser apenas um retrato e criei laços e assim quis ficar...para sempre!
Desejei que a música não se acabasse, que o apito não soasse e que eu nunca tivesse que “desembarcar”!
Quando as luzes se acenderem, meus olhos desvendaram aquele que tinha mãos que me guiariam por muito tempo.
Jorge...
Separamo-nos com um sorriso de cumplicidade.
- Senhores! Hoje, percebo que na verdade, naquela época, eu era a condutora do “meu trem”.
Eu quem escolhia os caminhos, desviava das pessoas, fazia curvas, fugia dos obstáculos...
Por que não me deixei levar? Por que não deixei me descobrir? Por que não me revelei?
- Senhores! Tudo ocorreu muito rápido; aliás, eu tinha muita pressa de tudo! Não sei reconhecer se foi Amor à primeira vista ou se a primeira vista foi Amor.
Eu era inexperiente na arte do amor para entender o que estava acontecendo.
Em minha família, poucas vezes, presenciei uma manifestação de carinho.
Meu pai sempre foi ausente em nosso convívio.
Tinha muita ocupação: o seu trabalho, o seu time de futebol, os amigos do bar, suas músicas, seus livros e quase não sobrava tempo para nossa família.
Ele era uma pessoa intelectual e até tinha diploma, mas a “maldita” cachaça impedia-o de se manter em um bom emprego.
Minha mãe é quem regia em casa: limpava, lavava, cozinhava e vivia sempre de péssimo humor, dando broncas e reclamando da sua vida.
Não me lembro de um bom-dia, uma conversa informal, um afeto.
Raramente, minha família reunia-se. Não havia festas, aniversários, Natal, visitas...sempre a mesma desculpa: temos que economizar!
Às vezes, ao final de cada mês, quando já sem dinheiro para dar uma passadinha no bar, meu pai voltava direto do trabalho para casa.
Então, sentávamos juntos à mesa do jantar e vagávamos fazendo um grande sacrifício como fosse a nossa última ceia e cada um com sua cruz para carregar!
Meu pai ficava à cabeceira da mesa e mantinha seus olhos baixos e cansados, às vezes buscavam os olhos indefinidos de minha mãe, em seguida, fixavam-se em mim com certa compaixão.
Depois, conservava-os pausados como se fizesse uma pose para um retrato antigo.
Nenhuma palavra, cada um em seu mundo particular.
Eu brincava distraída de afogar meus legumes no caldo do feijão, sonhava acordada pensando no trem e disfarçadamente espiava a expressão desiludida de meu pai.
Ele segurava o garfo como se carregasse um grande peso...
O silêncio só era interrompido com os gritos de minha mãe, despertando a todos: come logo antes que esfrie!
Mas, parecia que ele nem ouvia, continuava distante, só seu olhar estava presente e expressava tudo que sentia e eu compreendia-o e sofria com ele.
Eu amava aquele homem que nunca me fez um carinho. Será que ele nos amava?
- Senhores! Expliquem-me: se ele não nos amava por que suportava calado?
Por que nunca pegou o trem e partiu????
Acho que.........ele não amava a si próprio.
Sinto muito nunca ter conversado com ele sobre esse assunto e nunca ter lhe dito que eu o amava.
Minha irmã, por sua vez, era muito nova e brincava no chão, despreocupada com o mundo e assim, cresceu e tornou-se.
- Senhores! Entendam-me quando recebi carinho e compreensão, acreditei que era amor e isso me bastava, ou melhor, me salvava!
Só depois de muitos anos a vida me ensinaria que era através das incompreensões é que se amava plenamente.
- Oh, senhores! Como somos ingênuos! Como o amor é ingrato! Ele exige demais e às vezes, não se contenta somente com lágrimas!
Quantas vezes amamos somente para sermos amados? Uma espécie de agradecimento concedido, amando sem esforços a quem nos ama espontaneamente, sendo-lhe grata...
Quantas vezes mentimos tentando agradar pessoas para vê-las felizes?
Ou deixamos de dizer algo que pensamos para não magoarmos alguém?
Ou então, falamos o que não pensamos e acabamos magoando muitos?
- Senhores, a verdade é que apostamos todos os nossos recursos para conseguirmos carinho, companheirismo, cumplicidade, sem esforço de pensamento, acreditando que o amor nasce naturalmente e sem imposição.
- Ah! Senhores! Como é difícil fingirmos para sermos aceitos!
Como nos esforçamos para não incomodar ninguém com a nossa presença?
- Acreditem-me, senhores, fazemos tudo para que os outros nos amem!
De repente a vida nos ensina que podemos amar espontaneamente sem saber que estamos amando! Mas, somos cegos e corremos o risco de perder um grande amor pelo simples motivo de termos medo de perdê-lo.
Até mesmo procuramos alguém que não queríamos, só para não buscarmos quem realmente queremos...
- Não é verdade, senhores?
A vida é uma violação de nossa existência e sempre exige urgências para quais não estamos preparados. E assim o todo coração sangra...
- O meu sangrou. E o seu?

RECONHECIMENTO

E, assim entre sonhos e fantasias, o meu amor chegou de mansinho como uma “graça” continuada, carente e necessária.
Uma espécie de aprendizagem, de interesses mútuos e de solidão compartilhada.
Descobríamos juntos, mas caminhávamos individualmente.
E se nos descaminhos procurávamos nos encontrar, era somente nas encruzilhadas que nossos ideais se cruzavam.
Enfim, o nosso amor percorria a via crucis.
Era litúrgico e profano, cheio de virtudes e sacrifícios, de purificações e de entregas.
Confesso aos senhores que mesmo assim sentia-me confortavelmente viva.
Acreditava que estava amando e era amada!
A vida passava lentamente e o amor pingava de grão em grão como em um caleidoscópio, até decidirmos seguir juntos!
O amor cresceu e chegou aos motéis de beira de estrada, de camas desarrumadas e de cactos na decoração da entrada.
- Senhores! Tenho certeza que éramos felizes!
Fazíamos juras de amor eterno, de fidelidade, plagiávamos poemas de Vinícius de Moraes em guardanapos de papel, viajávamos, enfim acreditávamos estar em pleno reconhecimento mútuo...
Então, marcamos o nosso noivado para o dia 12 de junho de 1978, dia dos namorados.

ENTRETANTOS

Senhores! Irei poupá-los de detalhes e partirei diretamente para os “entretantos”.
Era chegado o grande dia!!!!
A casa estava repleta de convidados e “bicos”; o vinil rodava na Sonata, na verdade, o LP não rodava e sim pulava de tão riscado que se encontrava, tanto é que colocamos uma caixa de fósforos para fazer peso no braçinho da vitrola. E não é que funcionou!?
Ao som do ABBA, dançávamos animados “aqueles” passinhos ensaiados; as bandeirinhas coloridas enfeitavam a garagem e o churrasco fazia sua vez, queimando no quintal e aromatizando toda a casa e a nossa roupa de festa.
Era a festa do meu noivado! E, todos comemoravam!!!!
Eu, vestida de “longo”; ele, de terno, e as famílias orgulhosas brindavam o evento.
Uma filha estava sendo encaminhada dentro das propostas da disciplina, da tradição e da religiosidade e assim, a “barata morta” passou a ser o orgulho da família.
Hoje, revivendo a cena, sinto que a alegria de meus pais estava vinculada com o alívio de “desencalhar” uma de suas filhas afinal haviam contribuído para a sobrevivência da espécie humana.
- Senhores, meus pais nunca me perguntaram se eu estava feliz, se eu amava Jorge...
Será que não sabiam como perguntar? Não tinham coragem? Ou, não conheciam o amor?
E, eu???
Confesso que eu procurava, refletia, analisava e tentava entender....
Naquele dia eu estava entregando a alguém todo o meu “eu” e tudo o que eu conhecia e eu conhecia muito pouco....sobre o amor, sobre a vida e principalmente sobre mim.
- Senhores! Sentia-me insegura. Foi quando, ouvi o apito do trem!!!
O mesmo que me serviu como alerta e acompanhou-me em toda a minha vida.
Arrepiei-me!!!!!
A mesma estranha e indefinível volúpia de partir renasceram em mim...
Revi as pessoas acenando em suas janelas; mas, dessa vez era diferente. Elas não estavam se despedindo e sim, convidando-me a embarcar.
O trem passava e eu assistia a minha vida esvair-se na frieza dos trilhos.
- Senhores! Eu lhes imploro! Segurem-me! Não me deixem partir! Eu não posso ir!
- Por favor, respondam-me: por que as estações ferroviárias ostentam tanta beleza? Será que é para esconder tristezas?
Será que suas muralhas escondem a realidade?
Para mim, sua arquitetura lembra-me um castelo!!!!!!!! Será que era?
O meu medo de amar era latente, mas o medo de ficar e de não ir era maior nesse momento.
- Entendam-me, senhores! Era medo de doar-me e de me perder! Ou de viver numa incompleta plenitude...
Naquele momento vivi um grande conflito e quanto mais eu buscava o meu referente, mais encontrava desequilíbrios e interrogações.
Percebi-me num mundo desconhecido, senti-me imperfeita e essa imperfeição consumia todo o meu ser até desintegrar-me por completo.
- Por que tudo isso, senhores? Não corria tudo bem? Eu não era amada e amava?
O que estava acontecendo comigo?
Por que depois de ter percorrido metade do caminho, resolvi retroceder?
Por que não pensei em tudo isso antes?
Eu não podia decepcionar minha família, meu namorado, os convidados...
- Oh, amigos! Desculpem-me chamá-los de amigos, mas depois de tanta intimidade, considero-os meus amigos, talvez os únicos que me restaram.
Quem aqui presente nunca amou e não temeu?
Aprendemos desde criança nas cartilhas da vida que “a” é de amor e com amor não se brinca. E, o amor segue religiosamente quatro ciclos: o encontro, o conhecimento, a aceitação e a eternidade ou fim, não é?
Eu não tinha o direito de estragar tudo! Nem inverter as regras impostas pela sociedade.
- Mas, senhores! Sentimentos não se prendem a regras; portanto não me cobrem!
E num átimo, revi minha história e a história de meus pais e tive medo de desembarcar na primeira estação.
- Senhores! Quisera ser uma ignorante e não pensar.
A inteligência machuca, dói e afasta-nos das felicidades momentâneas da vida.
Lembrei-me das palavras amigas e carinhosas de Jorge, dos nossos planos, do seu olhar sereno e concluí que não havia o que temer.
Mas, palavras são flores e espinhos; planos perdem-se ao vento e os olhares são dissimulados e murcham!!!
Bobagem! As palavras do meu noivo conseguiriam florir um jardim; os nossos planos soariam como cantigas provençais, seríamos menestréis de uma grande cantoria e seu olhar sempre brilharia para mim.
E, antes da primeira mágoa, da primeira lágrima – eu seria a noiva, pois esse momento era infinitamente maior que eu mesma.
Então me consenti!

FESTA

Depois de cantarmos os parabéns (excluindo a parte “quem será?”), cortarmos o bolo, estourarmos as bexigas e trocarmos as alianças, chegou à hora das juras de amor, fidelidade, lealdade e a cobrança da provável data do casamento.
Confesso que não sei o que me levou “fazer cena” nessa hora.
Refiro-me a “fazer cena” e não representar em seu sentido literário, pois não se tratava de um teatrinho amador; e, sim, de uma magnífica performance dramática à altura das tragédias clássicas com direito a coro, tenor e soprano.
- Acalmem-se! O episódio que narrarei e as reprovações que recebi na época, nada tem de Medéia, Édipo, Fausto, Otelo e outras “cositas mas”, onde o destino do herói está nas mãos dos deuses e em suas profecias.
Longe disso, mesmo porque o meu destino estava em minhas mãos.
- Então, me perguntarão senhores, qual era a minha profecia??!
E eu lhes responderei que: conhecem senhores a minha profecia, porque conhecem a si próprios!
- Desculpem-me! Não quero acusá-los de nada, quero apenas dividir as minhas dores com vocês.
Sou uma mulher fragilizada, sorvendo as horas e tentando reconstruir o meu passado.
Sei que estou cansando-os com os meus “rodeios”. Devem estar se perguntando por que ela não vai direto ao assunto?
Os senhores têm pressa, têm compromissos, família, assuntos importantes pendentes e eu só tenho medo de não conseguir me expressar, de não me fazer compreendida, de não sentir tudo o que realmente sinto e de sentir outra dor diferente daquela que sentia.
E, assim vou expondo minha história nessas tímidas palavras, tentando exprimir o absurdo, o vago e o inexplicável.
- Acreditem! Por afrontamento do desejo insisto na maldade de narrá-la de forma linear, como uma narradora sóbria, tranquila como uma borboleta e libertina como uma gata.
A verdade é que tenho medo de finalizar esta confissão, pois será o meu fim.
As palavras me delineiam....
A borboleta perdeu-se ao longe, reentranhou-se e tornou-se uma lagarta novamente; a gata sumiu no mundo e quanto à narradora sóbria, julguem os senhores!
- Mas, por favor, voltemos à história!
Sorridente e abraçada ao meu noivo, respirei fundo, peguei todos os meus cacos de identidade e falei:
- Jorge, meu querido e amado noivo. O mundo é como música que nos embala entre idas e vindas como num trem; rodopios e paradas; passos e contrapassos; movimentos repetitivos e outros livres e, nem sempre conseguimos acompanhar o seu ritmo, sua harmonia. E quando a música se rompe e a cortina se fecha, às vezes, desembarcamos em estações diferentes.
E com uma firmeza poética que eu até então desconhecia em mim, continuei:
- Se um dia a nossa união não embarcar no mesmo trem; não ocuparmos o mesmo vagão, não dançarmos a mesma melodia, não acertarmos os nossos passos, seja por desavenças, comentários desconexos, infortúnios ou outro motivo qualquer, prometemos que, mesmo que a nossa viagem acabe e a cortina se feche, reencontraremos.
Nesse momento percebi pelos olhares interrogativos que eu tinha que deixar as metáforas e ser mais denotativa e tentei descontrair.
- Dizem que até pedras rolam e se reencontram (eu e meu noivo éramos fãs dos Rolling Stones) e como pedra que rola não cria musgo, então:
- Vamos facilitar o nosso dharma!
Daqui a trinta anos - casados, amigos, inimigos ou amigados (termo horrível, mas muito usual na época!), independentemente do nosso perfil dentro de toda esfera mundial, atmosférica e do patrimônio histórico, marquemos um encontro.
Risos interromperam a minha explanação. Acreditavam tratar-se de uma brincadeira num momento tão solene. E, a desaprovação foi geral.
Ajeitaram meu “modelito”, retocaram minha maquiagem e fizeram-me recordar sobre o “manual das boas maneiras e das composturas de uma mocinha de família”.
Minha mãe disfarçou, desculpando-se e acusando a Cuba Libre.
Meu pai nada dizia, não aprovava e nem desaprovava.
- Senhores! Como eu precisei de meu pai nesse momento! Um gesto, uma reação qualquer...
Senti-me sozinha, desamparada e com uma vontade enorme de largar tudo e sumir.
- Senhores! Será que meu pai não se sentia no direito de manifestar qualquer reação?
Será que ele não se importava com a minha felicidade? Ou será que ele havia se colocado em meu lugar e minha coragem contrastava com a sua fraqueza?
- Não sei, senhores! Tenho medo que o fracasso seja hereditário e nato!!!
Busquei essas respostas durante toda minha vida e nunca as encontrei...
Fui despertada pelas risadas e comentários inviáveis para o momento.
Todos, principalmente os mais otimistas, afirmavam convictos que não teríamos tempo para esse encontro, pois estaríamos ocupadíssimos com nossos filhos.
Eu insistia em minha proposta. E, depois de muitas sátiras e argumentações, convenci Jorge a aceitar a minha proposta: no dia 12 de junho de 2008, às dezessete horas, independentemente de qualquer acontecimento, seja interno ou externo, introspectivo ou físico, estava agendado nosso compromisso, num barzinho perto da igreja da Catedral, em Campinas.
Os convidados comentavam que passados trinta anos com toda modernidade era improvável que o barzinho existisse até mesmo a Catedral e que era melhor eu desistir desse falatório ilógico, trocar o disco literalmente e carpe diem!

A VIDA CONTINUA...

A vida seguiu o seu rumo e o nosso amor mornamente também.
Estudei, mudei de emprego, conheci pessoas e me deslumbrei com novas oportunidades que a vida me apresentou.
E sem dúvida, devo tudo isso a Jorge.
Ele foi responsável pela base do meu caráter, pela minha personalidade e por tudo que eu me tornei.
- Senhores! Ao mesmo tempo em que ele me apresentava à vida, seus perigos e suas belezas, ele se estagnava como seus sonhos estivessem adormecidos.
Passou a viver às margens de si próprio, ouvindo as mesmas músicas, frequentando os mesmos lugares...
Eu já não me contentava com pouco, queria viver a vida intensamente.
Jorge aceitava minha transformação calmamente, sem nenhum entusiasmo, nem me apoiando nem criticando, porém com visível indisposição para me acompanhar.
- Senhores! Quero deixar claro que Jorge era uma pessoa maravilhosa! Certo que ele não me acompanhava, mas não posso negar que ele era meu grande companheiro.
As discussões começaram quando os opostos passaram a ser gritantes.
Eu queria viajar, ele falava em filhos!
Eu queria dançar, ele comprava um vinho para degustarmos em sua casa.
Eu queria comprar roupas novas, ele queria escolher o jogo de quarto para nossa casa.
- Senhores! Será que eu havia mudado tanto ou será que Jorge passivamente parou no tempo?
O seu amor era tão preciso, mas tornou-se pouco para mim.
- Respondam-me: de quem é a culpa? Existem culpados?
Eu me sentia só em sua companhia e ele nem sequer percebia.
Quanto mais eu tentava entender o nosso “nós”, mais me embaraçava em meu “eu”.
- Ah! Senhores! Se ele adivinhasse e pudesse ouvir o meu olhar....
Eu queria acertar nossas distâncias, ser sua mulher e sua amante na exata medida do seu bem querer.
Mas, eu não permitiria que ele tirasse a minha liberdade tão cara e agora conquistada.
- Oh, senhores! Ninguém roubaria a minha paz!

SEPARAÇÃO

Passados dois anos, por um desentendimento de ciúmes, eu disse adeus.
- Senhores! Percebam, que a explicação para o fim do nosso relacionamento foi tão completamente sem preâmbulos e sem explicações!
- Não foi?
Não tenho muito o que dizer.
- Vocês bem o sabem que um desequilíbrio na emoção de ambos, já percebido, foi à força de um vírus mortal...
- Senhores! Estou sendo sincera, sofri muito com o fim do nosso noivado. Afinal, eu não tinha mais ninguém em minha vida.
Nunca mais tive notícias de Jorge, somente que se mudara de Campinas e não deixara rastos.
Na época, achei melhor que tivesse sido assim. Evitaria encontros desconfortáveis.
Na ânsia de viver, busquei prazer na bebida, no cigarro, nas discotecas e nos encontros casuais.
Acreditava-me moderna, completa e feliz, como se depois de desfeita, tivesse passado a ser eu mesma.
- Senhores! Juro que nunca deixei de pensar em Jorge.
Mas, minha vida estava tão agitava que não havia espaço e nem tempo para ele.
Até que fui me cansando das amizades hipócritas, da falsa aparência, do consumismo e da superficialidade dessa vida tediosa.
Casei-me, tive uma filha, separei-me e fui infeliz.
É interessante como demoro a conquistar algo em minha vida e depois de tê-lo conquistado, perco-o e passo a viver a minha história como uma página virada.
Tento entender, mas não consigo entender esse meu comportamento.
Talvez um dia a vida possa explicar-me sobre essa ausência de justificativas

SOLIDÃO

- Senhores! Minha vida resumiu-se em lutar pelo presente e guardar lembranças do passado.
Durante anos pratiquei a solidão com pânico e vergonha e como não tinha com quem dividi-las, eu reservava-as para mim.
Liberdade, escolha, amor passaram ser palavras misteriosas e surreais para mim.
- Senhores! Surpreendi-me desejando ouvir uma boa música, degustando um bom vinho e tendo ao meu lado uma companhia agradável.
Como a vida nos surpreende! Tempos atrás eu acreditava que me doando perderia o meu rumo e agora sozinha, anseio por um braço que me apóie no meu caminhar.
Eu havia feito uma escolha e, certa ou errada, eu pagava por ela.
O problema é que eu não sabia o que fazer com essa escolha.
Meus dias tornaram-se iguais, mais longos e vazios,
e a solidão tornou-se a mais fiel companheira.
- Amigos! Acreditem! As criaturas solitárias permanecem irremediavelmente sozinhas no momento decisivo em que assumem o seu destino.
Um ato de liberdade, real ou ilusório, é sempre decidido na solidão da consciência. E eu tinha consciência de que apenas eu, mais ninguém, respondia por ele.
Eu tentava, tentava, mas nada me fazia concentrar e todos os meus pensamentos rumavam ao saudosismo de tempos de outrora.
- Senhores! Ajudem-me a romper com o meu passado.
Não me deixem às mínguas!
Aproximem-se de mim, vejam-me, toquem-me na minha vida! Preciso de calor humano!
- Senhores! Expliquem-me como sair e divertir-se, quando se têm certeza que se sentirá sozinho em qualquer lugar?
- Senhores! Tentei sair dessa inércia, busquei antigos amigos, mas estavam casados e felizes com vidas direcionadas a outro rumo.
- Senhores! Sejamos sinceros! Não há espaço para uma mulher divorciada em grupo de casais.
Ela é vista como uma ameaça às esposas fiéis e em “disponibilidade” aos maridos menos devotos.
Assim, fui morrendo internamente!
Uma pergunta não conseguia calar...Será que eu morria sozinha e Jorge continuava vivo?
- Senhores! O único motivo real e verdadeiro que me iluminava era o encontro marcado anos atrás.
Espero que me entendam como eu entendo os que buscam um caminho.
- Oh! Senhores! Vocês sabem como busquei arduamente o meu!
E como hoje busco com sofreguidão e aspereza o meu melhor modo de ser, o meu atalho, já que não ouso mais falar em caminho.
- Vocês bem sabem como eu tinha querido o caminho, com letra maiúscula, hoje me agarro ferozmente à procura de um modo de andar, de um passo certo.
O atalho com sombras refrescantes e reflexo de luz entre as árvores, onde eu seja finalmente eu, não encontrei.
Passei acreditar que o caminho não sou eu, é o outro - é Jorge!
Assim, quando eu me entregasse plenamente a ele, estaria salva.
Finalmente, eu havia encontrado a resposta para todos os meus porquês!
Celebrei a minha iniciativa de adolescente e me pegava a rir pelos cantos disfarçadamente e depois, com seriedade de uma mulher madura excitava-me com a idéia do reencontro e até imaginava cenas.
Outros momentos, as dúvidas prevaleciam... Será que ele se lembrava de mim? E da promessa do encontro? Será que realmente foi uma promessa ou só uma brincadeirinha para ele?
A única certeza que eu tinha era a de que nunca consegui esquecer Jorge.
- Acreditem! Eu não podia excluir da minha cabeça o que não saía do meu coração.
Trinta anos se passaram!
Trinta anos de espera...

O GRANDE DIA

Acordei aflita, dividida entre a esperança de revê-lo e o medo de ter mais uma mágoa acumulada em minha vida amorosa.
Depois de tantas nesses trinta anos...
- Senhores! Eu esperava desse encontro todas as soluções e decisões para a minha vida, como se ele fosse, ainda, o meu noivo que viesse me buscar como um príncipe encantado e me levasse ao paraíso, onde seríamos felizes para sempre!
Correria o dia inteiro: vestido novo, cabelo arrumado, desculpa para sair mais cedo do escritório. Afinal, eu era a noiva!
- Senhores! Graças a Deus, o barzinho ainda existia, e a Catedral também.
Pode ser romantismo de minha parte, mas o fato de eles ainda existirem, eu conciliava esse fato com a minha situação, como se o barzinho e a Catedral compartilhassem comigo e haviam esperado também o almejado e decisivo reencontro.
Dezesseis horas! O encontro estava marcado para as dezessete horas.
Meu Deus, o trânsito estava insuportável! Devia ter marcado em outro lugar? Outro horário? Quem iria imaginar esse “progresso” todo em Campinas?
Começou a chover e congestionou a avenida Francisco Glicério.
Ninguém passava.
Tudo parado, igualzinho a minha vida. Somente o meu cabelo que não parava no lugar que eu queria que ficasse.
Como Jorge estaria? Com certeza, lindo! E se eu não o reconhecesse? Lógico que o reconheceria, pois a sua imagem nunca saiu da minha mente. Será que me levaria para jantar, dançar, motel?
Eu estava preparada para tudo............Era o grande encontro!
Iríamos retomar desde o dia do nosso noivado, será que casaríamos?
Isso não me importava!
O essencial é que seríamos felizes!
E disso eu tinha certeza!
- Senhores, vocês me entendem! Agora eu tinha maturidade para entendê-lo e ser a esposa que ele sempre desejou!
Nada me desviaria do meu caminho.
Nenhum chamado, nenhum apito...
Não ansiava mais a “viagem” ao desconhecido, sem paragens em estações despersonalizadas.
Os trilhos firmes, fixos e seguros eram o que mais me atraíam agora.
O estacionamento era longe, molhei o vestido novo, meu penteado e acabei chegando atrasada.
Meu Deus, por que eu estava tão preocupada com a minha aparência?
- Senhores, que aflição!
Cheguei às dezessete horas e vinte minutos.
Sem problemas, a noiva sempre chega atrasada!
No barzinho, pessoas se amarrotavam, cheirando a suor, chuva e cigarro.
Tentei uma mesa e não consegui (devia ter vindo antes reservar!).
Encostei-me no balcão e pedi um chope.
Arrependi-me. Talvez ele não gostasse de me ver bebendo.
Substitui por um café.
Ajeitei a maquiagem, fiz uma pose bonita e fiquei a reparar em todos que ali estavam e entravam.
Dezessete horas e quarenta minutos...
Será que ele não vem? Impossível, ele era tão apaixonado por mim!
Outro café? Ah! Não dá! Garçom, um chope!
Se ele tiver que ser meu, terá que me aceitar como sou!...
Roí as unhas recém-esmaltadas e fumei um cigarro atrás do outro.
O sino da Catedral soou seis badaladas.
Fiquei irritada, o sino parecia que queria me trazer à realidade cumprindo a sina do apito do trem.
E nada, nem sombra de Jorge.
O relógio roubava as minhas esperanças, e os meus pensamentos transitavam em felicidades e infelicidades, misturadamente.
Não aguentava mais! Chega! Até quando vão me testar?
- Senhores! Entendam-me! Era a minha última esperança! Desesperei-me!
Maldito trem!!!!!!!Até quando o maquinista disfarçado de Caronte iria me desafiar! Tire-me desse limbo! Acabe de vez com meu sofrimento!
- Senhores! Será que Jorge era um impostor?
Ele que me ensinou a apaixonar-me por todas as possibilidades de vida e me fez acreditar sempre em que eu sentia...
Ele que me emprestou os primeiros livros que li, apresentou-me os Rolling Stones e me amparou na minha primeira bebedeira. E agora ele nem sequer se lembrava de que eu estava viva e esperando por ele!!!???
Será que a vida era uma grande mentira? Será que existe amor verdadeiro? Até quando eu serei punida, por um erro que não cometi?
- Senhores! Não era possível! Com certeza, era o trânsito.
A demora transformava-se em aflição como se o longe fosse o impossível.
Talvez, tivesse esquecido o local? Ou o encontro... Não, o encontro não!!! Não era possível! Ele me amava tanto...Nunca deixou de cumprir qualquer exigência minha...
A cada minuto que passava eu tentava meu acalmar, culpando o processo “civilizador”, o trânsito, os camelôs, São Pedro e as chuvas...
Não aguentava mais, dezenove horas!
Definitivamente, ele havia me esquecido!
Senti-me uma tola, como no dia do nosso noivado, fazendo aquela proposta imbecil. Não consegui me segurar e as lágrimas desabaram, manchando a maquiagem.
Então, um senhor bem vestido que estava sentado numa mesinha ao lado se aproximou e ofereceu-me seu lenço.
Eu estava transtornada. Pedi-lhe desculpas e desatei a falar.
Contava-lhe sobre o meu dia, soluçava em meio a olhares furtivos do bar e confessava-lhe como estava me sentindo uma idiota.
Falei sobre a discussão que tive com o meu chefe para poder sair mais cedo, reclamei da chuva, do meu vestido novo todo molhado, do meu penteado desfeito e ainda mais, era o dia dos namorados e eu estava sozinha naquele bar.
O senhor, gentilmente, tentou me acalmar, dizendo que nem todos os dias a vida se apresentava como queríamos!
Em seguida começou a falar:
- Você é uma bela mulher e está chorando por coisas supérfluas e por um dia mal e sucedido.
Desculpe-me pela intromissão e pelo desabafo e continuava:
- Imagine você que eu, há trinta anos, amei loucamente uma mulher e só sonhava viver ao seu lado; e no dia do nosso noivado, ela fez uma proposta indecente marcando um encontro absurdo, claro que só podia ser uma brincadeira!
Porém, como eu sempre fazia, por amá-la e para deixá-la feliz, aceitei pacificamente sua proposta!
Depois, por um motivo tolo, ela me deixou e nunca mais tive notícias suas.
Hoje, moro em Manaus. Sou casado com uma mulher maravilhosa, tenho uma profissão estável e posso me considerar um homem realizado, mas não feliz.
Nunca me esqueci do nosso encontro marcado e nem da minha noiva “eterna”.
É incrível, mas por ela, eu seria capaz de cometer loucuras, abandonar lar, esposa, emprego...
Então, esperei por trinta anos ter a chance de revê-la e o nosso encontro estava marcado para hoje e aqui.
Menti para minha família que tinha um compromisso comercial em Campinas, desembarquei há pouco em Viracopos e vim para cá ansioso para reencontrá-la.
Mas, como você vê, ela não apareceu, nem se lembrou do nosso encontro e com toda sinceridade, estou me sentindo aliviado.
Agora, finalmente posso referir-me a ela como minha ex-noiva, tratamento que eu nunca consegui dar-lhe...
Jorge acrescentava que nunca conseguiu sentir-se tão livre em sua vida como naquele momento e que, quase por um capricho, colocou toda a sua vida em jogo e da sua família que tanto amava.
Em seguida, desculpou-se pelo desabafo e disse que não tomaria mais meu tempo e que partiria naquela mesma noite, pois já sentia falta de sua família e desejava estar ao lado de sua esposa ainda naquela noite.
Despediu-se de mim com um simples aperto de mãos e se foi.
- Senhores!As mesmas mãos que um dia seguraram em minha cintura num dia de carnaval agora me diziam adeus.
Minha fantasia havia sido rasgada, a minha máscara caíra e era quarta-feira de cinzas para mim, eternamente!
O trem da minha vida não passou de uma ilusão.
A única certeza que eu tive é que Jorge “desembarcou” e eu sobrei........entre os dormentes do meu ser.
- Senhores! Não consegui dizer-lhe nada! Não tinha direito de lhe dizer nada, nem sequer vinham palavras à minha mente.
A única certeza era que eu não tinha direito de desmoronar aquele lar alicerçado nas bases do amor, que nós juramos no dia do nosso noivado.
Engoli minhas amarguras, tentei me recompor, mas deixei-o partir, sem me revelar, como quem descansa um fardo.
Meu silêncio demonstrava que a resposta existia, só faltava eu aceitar!
- Senhores, o que aprendi? Não sei.
Tenho 45 anos de idade, alguns perdidos, outros me tanto. Sou o que vocês vêem ou o que sobrou de mim.
E, nessa inconstância aparentemente distraída, quanto mais eu me aproximava da verdade, mais me distanciava de mim numa fuga incansável dos porquês.
Minutos depois, pedi ao garçom minha conta.
Ele respondeu que já estava paga.
Retruquei e ele esclareceu que o senhor que falava comigo, havia pagado e deixado um bilhete para mim.
Abri-o e com muita dor, pude reconhecer aquela letra que trinta anos atrás me deixava frases apaixonadas, poemas líricos e promessas de um amor infinito.
E estampado nos meus olhos, li a mensagem:
- Feliz dia dos namorados, Bárbara!

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