domingo, 6 de junho de 2010

PRIMEIRAS ESTÓRIAS - JOÃO GUIMARÃES ROSA

“Miguilim, vou ensinar o que agorinha eu sei, demais: é que a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que acontece acontecendo...”

Guimarães Rosa, Campo Geral


“Que nasci no ano de 1908, você já sabe. Você não deveria me pedir mais dados numéricos. Minha biografia, sobretudo minha biografia literária, não deveria ser crucificada em anos. As aventuras não têm tempo, não têm princípio nem fim. (...) Escrevendo descubro sempre um novo pedaço de infinito.(...) Vou lhe revelar um segredo: creio já ter vivido uma vez. Nesta vida, também fui brasileiro e me chamava João Guimarães Rosa. Quando escrevo, repito o que já vivi antes.(...) Amo ainda uma coisa dos nossos grandes rios: sua eternidade. Sim, rio é uma palavra mágica para conjugar eternidade.(...)

Não gosto de falar em infância. É um tempo de coisas boas, mas sempre com pessoas grandes incomodando a gente, intervindo, estragando os prazeres.(...) Já era míope e, nem mesmo eu, ninguém sabia. Gostava de estudar sozinho e de brincar de geografia. Mas, tempo bom de verdade, só começou com a conquista de algum isolamento, com a segurança de poder fechar-me num quarto e trancar a porta. Deitar no chão e imaginar estórias, poemas, romances, botando todo mundo conhecido com personagem, misturando as melhores coisas vistas e ouvidas.”

Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, cidade do interior de Minas Gerais. Foi alfabetizado em sua terra natal e em seguida, matriculou-se no Colégio Arnaldo, em Belo Horizonte.

Desde jovem era um apaixonado pela natureza (colecionava insetos e borboletas) e por línguas (um poliglota).

Cursou Medicina e clinicou em cidades do interior mineiro. Regresso a Belo Horizonte e serviu como médico voluntário da Força Pública durante a Revolução de 32.

Ingressou na carreira diplomática e exerceu atividades na Colômbia, França e no Rio de Janeiro.

Estreou sua carreira literária em 1946, com Sagarana, mas, só adquiriu prestígio literário em 1956, com Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile.

Faleceu aos 59 anos, três dias depois de assumir a sua cadeira na Academia Brasileira de Letras.

I – OBRAS:

Prosa:

Sagarana

Corpo de Baile

Grande Sertão: Veredas

Primeiras Estórias

Tutaméia – Terceiras Estórias

Estas Estórias

Ave, Palavra

A partir da 3ª edição, Corpo de Baile, tripartiu-se em: Manuelzão e Miguilim, (Campo Geral e Uma Estória de Amor); No Urubuquaquá ,no Pinhém (Recado do Morro, Cara de Bronza e A Estória de Lélio e Lina) e Noites no Sertão (Lão-Dalalão e Buriti).

II - CARACTERÍSTICAS:

- Renovação da tendência regionalista assumindo de experiência estética universal. UNIVERSALIZAÇÃO

“ O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe, pão ou pães é questão de opiniães...O sertão está em toda a parte.”

Grande sertão: veredas

- Fusão entre o real e o mágico, numa tentativa de justificar a existência humana, apresentando o homem dividido entre Bem X Mal, o Sagrado X Profano, aproximando-o do estilo Barroco – MITOPOÉTICO

“ – Eu acho boa essa idéia de se mudar para longe, meu filho. Você não deve pensar mais na mulher, nem em vinganças. Entregue-se para Deus, e faça penitência. Sua vida foi entortada no verde, mas não fique triste, de modo nenhum, porque a tristeza é aboio de chamar o demônio, e o Reino do Céu, que é o que vale, ninguém tira de sua algibeira, desde que você esteja com a graça de Deus, que ele não regateia a nenhum coração contrito!”

Sagarana

- A palavra como instrumento – INSTRUMENTALISTA. A linguagem “roseana” , provém de suas experiências com outras línguas estrangeiras (no mínimo 18) , mais o domínio da linguagem arcaica, do português contemporâneo, do erudito e de suas anotações do falar do povo brasileiro, apresenta-nos um leque de significados e significantes:

- Neologismos (“A bela-adormeceu” , “perpensava”)

- Popular (“Só pra azedar a mandioca”, “eu ponho a mesa e pago a despesa”)

- Erudito (“indúcias” (trégua), “inóxio” (inócuo)

- Arcaísmos (“preguntar”, “alembro”)

- Aliterações e assonâncias (“A moça estava paralela, lá, longe...”), (“a mandada, manchada, malfadada”)

- Onomatopéias (“Chégochégochégochégo”)

- Rimas internas

- Metáforas, anáforas, metonímias

- Musicalidade

- Melopéia (cadências populares e medievais)

- Repetições binárias ou ternárias (“mumumundos”, “dançandoando”)

- Prosopopéias

- Antíteses e Paradoxos (“Pequena multidão”, “terminando o interminável”)

- Trocadilhos

- Provérbios

- Excesso de pontuação

- Aglutinação de palavras (“pensamor = pensamento + amor”)

- Derivação imprópria (“Desço em pulos passos’)

- Estrangeirismo (“capisquei, do italiano capire = compreender)

“Não, não sou romancista; sou um contista de contos críticos. (...) Escrevo, e creio que este é o meu aparelho de controle: o idioma português, tal como usamos no Brasil; entretanto, no fundo, enquanto vou escrevendo , extraio de muitos outros idiomas. Disso resultam meus livros, escritos em um idioma próprio, meu, e pode-se deduzir daí que não me submeto à tirania da gramática e dos dicionários dos outros. A gramática e a chamada filologia, ciência lingüística, foram inventadas pelos inimigos da poesia.”

“Eu trazia sempre os ouvidos atentos, escutava tudo o que podia e comecei a transformar em lenda o ambiente que me rodeava, porque este, em sua essência, era e continua sendo uma lenda.(...)”

(Guimarães Rosa)

III) OBRA:

PRIMEIRAS ESTÓRIAS (1962)

A. INTRODUÇÃO:

A partir do título da obra, Guimarães Rosa, nos revela a sua intenção: Primeiras (não no sentido cronológico, mas, no sentido primordial), pois foi a primeira vez que o autor praticou o gênero estórias (conto curto) e Estórias (neologismo de sabor popular, aproximando-se dos “causos”, da oralidade, do antigo, do inacreditável) geralmente ligados a episódios reais, fantásticos, extraordinários, autobiográfico, psicológicos, envolvendo-nos em diferentes tons: poético, mítico, trágico, irônico, popular e erudito

“Era uma velha, uma velhinha – de história, de estória – velhíssima, a inacreditável.”

“Nenhum, nenhuma”, Primeira Estórias

A obra traz um índice ilustrado, autoria de Luís Jardim, contendo um desenho pequeno e um símbolo enigmático, geralmente o do infinito e outros do zodíaco ou sinais esotéricos, relacionando as estórias e seus significados.

B. PERSONAGENS:

“...bichos e plantas tem nome e atributos seguros; costumes e hábitos, misteres e fainas revivem na sua autencidade minuciosa. As cenas enquadram-se na moldura de altos morros e vastos horizontes, amplos rios margeados de brejos, campos extensos de muito pastoreiro e escassa lavoura, fazendo enormes – as do Pãodolhão, do Torto Alto, do Casco, Congonha, Santa Cruz, Lagoa dos Cavalos – forçosamente auto-suficientes, que se abastecem a si mesmas de víveres, artigos de primeira necessidade, folguedos, superstições e justiça. Acostumados a não encontrarem vivalma por muitas léguas, fazendeiros e agregados, desconfiados e pouco comunicativos, tornam-se reticentes mesmo no recesso da família; a falta de intercâmbio aparta-os dos demais; acabam encaramujando-se. Do ensimesmamento ao isolamento, deste à mania, o caminho é direto; os taciturnos calam-se de vez, e um dia surpreendem a família com o estouro de sua demência.”

RÓNAI, Paulo, Os Vastos Espaços.

Crianças, loucos, velhos, seres rústicos e “em disponibilidade”. Por estarem à margem do processo produtivo, por não possuírem o que chamamos de “civilização” ou “cultura”, estes seres podem ceder “ao encanto”, à “iluminação” que transcende os conflitos humanos. “São seres de exceção: alguns, pela faixa etária (infância ou senilidade), ou por atitudes inéditas, transgressões às regras sociais, anormalidade físico-psíquica, “ignorãças”, oscilação entre “loucura essencial e loucura aparente”, afirma Lenira Marques Cavizzi.

Os protagonistas de Primeiras Estórias são seres desprovidos de racionalidade, agem por intuição, ultrapassando o real, o social e a ordem. São videntes, poetas, místicos, metafísicos, filosóficos, adivinham milagres.

“Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo”.

C. ESPAÇO:

A maioria dos contos desenrola-se num espaço não definido, mas facilmente identificado, levando-se em conta a vivência do autor nos “campos dos geraes”, entre rios, brejos, morros, fazendas.

Lugares afastados, primitivos, distantes de uma organização social, dando margens à imaginação, ao fatalismo e ao devaneio.

D. TEMPO:

“As aventuras não têm tempo, não têm princípio nem fim. E meus livros são aventuras(...).

Vivo no infinito; o momento não conta. Vou lhe contar um segredo: creio já ter vivido uma vez. (...) Quando escrevo, repito o que vivi antes.”
(fragmento extraído de “Diálogo com Guimarães Rosa”, entrevista concedida pelo autor a Günter Lorenz, em Guimarães Rosa, coleção Fortuna Crítica.)

Únicos dados cronológicos que aparecem são nos contos: Um moço muito branco (11/11/1872) e em Nenhum, nenhuma (1914, mas na memória do protagonista, não do narrador)

E. FOCO NARRATIVO:

O narrador faz uso dos três tipos de discurso: direto, indireto e indireto livre.

Contos em primeira pessoa: Famigerado; A terceira margem do rio; Pirlimpsíquice; O espelho; O cavalo que bebia cerveja; Luas-de-mel; A Benfazeja; Darandina e Tarantão, meu patrão.

Contos em terceira pessoa: As margens da alegria; Sorôco, sua mãe, sua filha; A menina de lá; Os irmãos Dagobé; Nenhum, nenhuma; Fatalidade; Seqüência; Nada e a nossa condição; Um moço muito branco; Partida do audaz navegante; Substância e Os cimos.

As narrações em terceira pessoa às vezes possuem um narrador-onisciente, outras um narrador-testemunha e as de primeira pessoa, o narrador, muitas vezes incontido, adentra a narrativa, perdendo-se a distinção de primeira e terceira pessoa.

F. TEMÁTICA:

- Infância – a sensibilidade infantil, “a descoberta”, estórias de ” travessias”: As margens da alegria; Os cimos; A menina de lá; Pirlimpsiquice e Partida do audaz navegante.

- Loucura – solidariedade, misticismo, desprendimento, rejeição: Sorôco, sua mãe, sua filha; Nada e nossa condição; O cavalo que bebia cerveja; A benfazeja; Darandina; Tarantão, meu patrão; A terceira margem do rio; Nenhum, nenhuma; O espelho e Um moço muito branco.

- Violência – estórias de anticlímax, astúcia, regeneração, fatalismo: Famigerado; Os irmãos Dagobé e Fatalidade.

- Amor – a união, destino, amor senil e amor juvenil: Seqüência; Luas-de-mel e Substância

G. ENREDOS:

São 21 estórias e a obra apresenta uma estrutura cíclica ou circular, na medida em que o primeiro conto, As margens da alegria e o último; Os cimos, são narrativas de viagem (para o mesmo lugar) e envolvendo a mesma personagem (um menino).

O conto XI O espelho (o do centro do livro) forma o elo, o amadurecimento, a “viagem interior”, o conhecimento e a especulação (especular vem do latim, speculum, que significa espelho), servindo como espelho da própria obra ou como, relação essência e aparência, entre o ser e a imagem da alma humana.

Em As margens da alegria, o Menino durante a sua travessia, faz sua aprendizagem através da dor, do sofrimento e da perda e, em Os cimos, encontramos a aprendizagem da magia, da superação do medo e da dor.

Heloísa Vilhena de Araújo, ensaísta e crítica literária, cita uma passagem bíblica que concentra a temática desses três contos:

“Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança; uma vez homem feito, fiz desaparecer o que era da criança. Hoje, na verdade, vemos num espelho, de uma maneira confusa, mas então será face a face; mas então conhecerei como sou conhecido.”

(São Paulo, I Coríntios, XIII, 11-12)

Outra fonte de estudo sobre Primeiras Estórias é sobre a quantidade de contos que perfazem a obra.

O número 21 possui um simbolismo forte no Tarô. Ele representa à realização, à plenitude e o objetivo alcançado. No próprio título da obra, encontramos evocações ao Tarô, que se traduz como “um caminho iniciático” que objetiva operar a transmutação do mundo real em valor psíquico ou metafísico. Composto por 78 cartas, “os arcanjos” (mistérios), sendo 56 cartas de arcanjos menores e 22, de arcanjos maiores, constando iconografias medievais misturada com símbolos cristãos, porém as cartas referentes aos arcanjos maiores, somente 21 são numeradas, a última representa o Mundo; sobrando uma não numerada, que corresponde à figura do Louco (aquele que se apossa da palavra).

No conto O espelho, o narrador elabora uma análise da própria alma e dos questionamentos da existência humana.

“O espelho inspirava receio supersticioso aos primitivos, aqueles povos com a idéia de que o reflexo de uma pessoa fosse à alma. Via de regra, sabe-o o senhor, é a superstição fecundo ponto partida para a pesquisa.”

“Mas, o senhor estará achando que desvario e desoriento-me, confundindo o físico, o hiperfísico e o transfísico, fora do melhor equilíbrio de raciocínio ou alinhamento lógico – na conta agora caio.”

I. As margens da alegria:



“Esta é a estória. Ia um menino, com os Tios, passar dias no lugar onde se construía a grande cidade.”

Narrada em terceira pessoa, a onisciência do narrador confunde-se com o Menino pela própria metalinguagem no início do conto e pela linguagem infantil empregada. As personagens são identificadas alegoricamente, através do seu grau de parentesco e a “grande cidade”, refere-se à Brasília.

O Menino fazia a sua primeira viagem de avião e a descoberta de um mundo novo, a paisagem colorida, as atenções e os carinhos tornavam “a viagem inventada no feliz”.

“A vida podia às vezes raiar numa verdade extraordinária.” O Menino gozava de uma imensa alegria, “...tinha tudo de uma vez, e nada, ante a mente.”

Até avistar o peru, “no centro do terreiro, entre a casa e as árvores da mata.”

“O Menino riu, com todo o coração. Mas só bis-viu. Já o chamavam, para passeio.”

Durante o passeio, fica deslumbrado com tudo que via, mas não conseguia deixar de pensar no peru.

Ao voltar para casa, após o almoço, “mal comeu dos doces” de tanta ansiedade de rever o peru.

“Não viu: imediatamente. A mata é que era tão feia de altura. E – onde? Só umas penas, restos, no chão. – “Ué, se matou. Amanhã não é o dia-de-anos do doutor?”

A morte do peru despertou no Menino sentimentos de rancor, sofrimento e de perda. Nada mais o animava e sua tristeza irá se agravar ao ver derrubar uma árvore “simples, sem nem notável aspecto, à orla da área matagal.”

Regressando à casa, o Menino “não queria sair mais ao terreirinho, lá era uma saudade abandonada, um incerto remorso.” Até o dia que ele avistou um outro peru, “sua chegada e presença, em todo o caso um pouco consolavam.”

Mas, ao ver o segundo peru bicar com ódio a cabeça do primeiro, tudo se transformou em uma grande revolta: “O Menino não entendia. A mata, as mais negras árvores, eram um montão demais; o mundo.”

Somente com a aparição de um vaga-lume, “ ...a luzinha verde, vindo mesmo da mata...”, “era, outra vez em quando, a Alegria.”

O próprio título do conto remete-nos à sua temática: a margem da descoberta e do encantamento; depois, a travessia, o contato com a efemeridade, com morte e com a crueldade dos homens; para em seguida, o amadurecimento, a iluminação e o reencontro com a alegria.



II. Famigerado:


“- Famigerado é inóxio, é célebre”, “notório”, “notável”...”

O conto trabalha com a metalinguagem e uso do registro culto, coloquial, regional e neologístico das palavras.

Um valentão do sertão, Damásio, das Siqueiras, acompanhado por “outros, tristes três”, procuram o narrador (um médico ou farmacêutico) após terem viajado muitas léguas, para perguntar a ele “o que é mesmo que é: fasmisgerado...faz-megerado...falmisgeraldo...familhas-gerado...?”

O narrador estava desesperado, pois conhecia a história de Damásio, “o feroz de estórias de léguas, com dezenas de carregadas mortes, homem perigosíssimo.”, tenta disfarçar seu medo e enumerada vários significados cultos da palavra. O jagunço não entendendo, pede-lhe que defina “em fala de pobre, linguagem de em dia-de-semana?”

O narrador explica que é “importante”, “que merece louvor, respeito...”

Depois de esclarecida a tensão, Damásio dispensa os três que o acompanhavam e explica o motivo de sua aparição: um moço do governo atribuíra ao jagunço esse termo e ele querendo saber se era alguma afronta, havia procurado um homem letrado.

Segundo o Aurélio, famigerado significa: célebre, famoso, muito notável, porém é um termo geralmente relacionado a malfeitores e com certeza, foi nesse sentido que o moço do governo referiu-se a Damásio.

Esse conto representa a astúcia de um homem culto que utiliza de seu conhecimento semântico (contornando o sentido popular dado ao termo) para evitar em ato de violência.

III. Sorôco, sua mãe, sua filha:

“Ia servir para levar duas mulheres, para longe, para sempre.”

Trata-se de Sorôco, um homem rude: “(...) homenzão, brutalhudo de corpo, com a cara grande, uma barba fiosa, encardida de amarelo, e uns pés com alpercatas: as crianças tomavam medo dele; mais, da voz, que era quase pouca, grossa, que em seguida se afinava.” que encaminha sua mãe e sua filha, para embarcarem num vagão especial que as levará para um hospício, em Barbacena.

Um narrador-testemunha (habitante do povoado) descreve o sofrimento de Sorôco: viver com a loucura das pessoas que ama e ter que se separar delas.

A quebra da rotina e a curiosidade atraíam as pessoas do povoado. “(...) As muitas pessoas já estavam de ajuntamento, em beira do carro, para esperar. As pessoas não queriam poder ficar se entristecendo; então conversavam cada um porfiando no falar com sensatez, como sabendo mais do que os outros a prática do acontecer das coisas.”

Surge Sorôco de braços dados com as duas. A filha vinha cantando uma cantiga que “não vigorava certa, nem no tom nem no se-dizer das palavras”, erguia as mãos e o olhar para o céu, como uma santa e vestia-se com espantalho. A mãe estava vestida de preto. A cena lembrava “entrada em igreja, num casório. Era uma tristeza. Parecia enterro.”

As pessoas presentes consolidavam com Sorôco, que só respondia: “ – Deus vos pague essa despesa...”

De repente a mãe soltou-se de Sorôco, senta-se no estribo do trem e passa acompanhar a neta na cantiga, como num dueto.

Sorôco avisa: “– Ela não faz nada, seo Agente...”, “ela não acode, quando a gente chama...”

O trem iria partir e Nenêgo e o José Abençoado acompanhariam as passageiras.

Sorôco não aguentou esperar o trem partir, virou-se para ir embora, “...como se estivesse indo para longe, fora de conta.”

Mas, parou e começou a entonar a mesma cantiga e todos os presentes, num momento de solidariedade e companheirismo, “...principiaram também a acompanhar aquele canto sem razão.”

“A gente estava levando agora o Sorôco para a casa dele, de verdade. A gente, com ele, ia até aonde que ia aquela cantiga.”

O nome do protagonista do conto, Sorôco, pode ser relacionado a socorro, como pode ser notado no texto: “ Daí, com os anos, elas pioraram, ele não dava mais conta, teve de chamar ajuda, que foi preciso. Tiveram que olhar em socorro dele, determinar de dar as providências de mercê.” E confirmado, com a sua resposta: “ Deus vos pague essa despesa...”

Como também, podemos relacionar o nome Sorôco, com oco: sua voz (“...mais, da voz, que era quase pouca, grossa, que em seguida se afinava.”); com a música, remetendo-nos ao canto mágico de Orfeu, que quando cantava, dava vida às coisas inanimadas e acalmava as mais terríveis feras (“...ele começou a cantar, alteado, forte, mas sozinho para si.”, “A gente se esfriou, se afundou – um instantâneo”, “... principiaram também a acompanhar aquele canto sem razão.”) e com a sua vida vazia (“O triste do homem, lá, decretado, embargando-se de poder falar algumas palavras. Ao sofrer o assim das coisas, ele, no oco sem beiras, debaixo do peso, sem queixa, exemploso.”

Ainda é possível pensar no verbo em tupi, sororocar, que significa agonizar. Sorôco perdido em seu mundo, “ ...a gente estava levando agora o Sorôco para a casa dele de verdade.”

Para o crítico Dácio Antônio de Castro, “a figura de Sorôco evoca o paciente Jó, da Bíblia, que apesar de todos os sofrimentos, nunca deixou de reverenciar a Deus.”

Outra informação do conto que merece atenção é que o vagão do trem: “...lembrava um canoão no seco, navio.” Esse dado poderíamos relacionar com a “nau dos insensatos”, que na Idade Médica transportava os loucos.

A idéia do infinito, da morte também está presente no conto, afinal: “...Ia servir para levar duas mulheres, para longe, para sempre”; “...parecia um enterro” e “...Estava voltando para casa, como se estivesse indo para longe, fora de conta.”

E por fim, a música como forma de êxtase, pois “quem canta seus males espanta”, diz o ditado popular.

IV. A menina de lá:

“ – Eeu? Tou fazendo saudade.”

Maria ou Nhinhinha é uma criança “com seus nem quatro anos, não incomodava ninguém, e não se fazia notada, a não ser pela perfeita calma, imobilidade e silêncios.” Ela morava para trás da Serra do Mim, num lugar chamado o Temor-de-Deus, com a família: o pai, que ela chamava de Menino pidão; a mãe, Menina grande e a Tiantônia.

Nhinhinha era amiga do narrador, conversava com os animais e com a natureza utilizando-se de uma linguagem própria e possuía dotes paranormais.

Ela nascera muito miúda, cabeçuda e com olhos enormes. Não brincava, “sempre sentadinha onde se achasse, pouco se mexia”; “inventava” estórias, falava da “precisão de se fazer lista das coisas todas que no dia por dia a gente vem perdendo” e dizia que logo iria se encontrar com os parentes mortos.

De repente alguns desejos da menina começam a se realizar “como milagres”: “Eu queria o sapo vir aqui”; “Eu queria uma pamonhinha de goiabada”, enfim, “o que ela queria, que falava, súbito acontecia.” Até a cura da doença de sua mãe, Nhinhinha consegue através de um beijo e um abraço.

A família decide guardar em segredo os poderes da menina, “não viessem ali os curiosos, gente maldosa e interesseira, com escândalos.”

Vem à seca, destruindo tudo. Os pais pedem a Nhinhinha que quisesse a chuva e ela responde que: ” – Mas, não pode, ué...” Insistiram, argumentando se não acabaria os mantimentos.

Depois de duas manhãs, Nhinhinha, quis o arco-íris e choveu. Nhinhinha ficou tão feliz, pulou e correu pela casa e pelo quintal. Mas, durante o seu contentamento, Tiantônia a repreendeu.

“Pai e Mãe cochichavam, contentes: que, quando ela crescesse e tomasse juízo, ia poder ajudar muito a eles, conforme à Providência decerto prazia que fosse.”

Mas, a menina adoeceu e morreu. Foi muito grande a dor para a família, mas, precisavam fazer os preparativos para o enterro. “Ai, Tiantônia tomou coragem, carecia de contar; que, naquele dia, do arco-íris da chuva, do passarinho, Nhinhinha tinha falado despropositado desatino, por isso com ela ralhava. O que fora: queria um caixãozinho cor-de-rosa, com enfeites verdes brilhantes...”

Houve discórdias na família em atender o seu pedido. Mas, concluiu-se que não era preciso encomendar, “pois havia de sair bem assim...”, “pelo milagre, o de sua filhinha em glória, Santa Nhinhinha.”

V.Os irmãos Dagobé:

“- Moço, o senhor vá, se recolha. Sucede que o meu saudoso Irmão é que era um diabo de danado...”

O conto inicia-se criando um clima de tensão e violência. Liojorge, “um lagalhé pacífico e honesto” matara o mais velho dos quatro terríveis irmãos do povoado: Damastor Dagobé.

Eram “...gente que não prestava. Viviam em estreita desunião, sem mulher em lar, sem mais parentes, sob a chefia despótica do recém-finado. Este fora o grande pior, o cabeça, ferrabrás e mestre, que botara na obrigação da ruim fama os mais moços – “os meninos”, segundo seu rude dizer.”

O narrador-testemunha, também presente no velório, relata o suspense que envolve a todos no arraial, pois esperavam uma grande vingança e o fato de Liojorge não ter fugido, “permanecia ainda no arraial, solitário em casa, resignado já ao péssimo, sem ânimo de nenhum movimento.”

Damastor havia ameaçado cortar as orelhas de Liojorge; o rapaz defendeu-se e atirou no coração do valentão.

Todos do povoado preferiam ficar próximo do morto e amontoavam-se na pequena casa.

Os irmãos faziam as honras aos visitantes: “Desculpe os maus tratos...” (Derval); “Deus há-de-o-ter!”(Doricão) e “Meu bom irmão...” (Dismundo).

As pessoas acreditavam que os irmãos agiriam por parte: primeiro, enterrariam o Damastor; depois, matariam Liojorge.

De repente, o inesperado: “Liojorge se oferecia, para ajudar a carregar o caixão.”

Autorizavam, mas que viesse depois do caixão ter sido fechado. Liojorge chega com “uma humildade mortal”, pega na alça da frente à esquerda e caminham para o cemitério. No portão havia um letreiro: ” Aqui, todos vêm dormir.”

Quando o caixão é depositado na cova, “o silêncio se torcia. Os dois, Dismundo e Derval, esperavam Doricão. Súbito, sim: o homem desenvolveu os ombros; só agora via o outro, em meio àquilo?”

“Olhou-o curtamente. Levou a mão ao cinturão? Não. A gente, era que assim previa, a falsa noção do gesto. Só disse, subitamente ouviu-se: - Moço, o senhor vá, se recolha. Sucede que o meu saudoso Irmão é que era um diabo danado...”

Em seguida, agradeceu a presença de todos e comunicou que estava de partida “morar em cidade grande...”

Nesse conto temos a temática do fraco (Liojorge) que vence o mal (os irmãos Dagobé) e uma narrativa de anticlímax. Vários fatores deixam dúvidas sobre as ações; principalmente, o fato dos irmãos não se vingarem, levam-nos a pensar se realmente eram terríveis ou se sofriam com a má fama do irmão mais velho.

O substantivo próprio, Jorge significa agricultor, e “lio” vem do grego “lyén”, que significa dissolver, calhando muito bem com o desenrolar do conto: Liojorge era um agricultor na narrativa e dissolveu o mal do local.

Outro fato interessante é que chovia muito forte durante o velório e voltou a chover, após o enterro, simbolizando a limpeza da terra, em que o bem vence o mal.

VI. A terceira margem do rio:

“ – Pai, o senhor me leva, nessa sua canoa?”

Narrada por um filho que vê seu pai, “homem cumpridor, ordeiro, positivo”, mandar construir uma canoa só para si. “Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueda em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos.”

A família estranhou o procedimento do pai e quando a canoa ficou pronta, ele “nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação.” A mãe gritou:

“ – Cê vai, ocê fique, você nunca volte!” O pai nada respondeu, nem mesmo ao pedido do filho (o narrador) de levá-lo junto. Entrou na canoa, partiu e nunca mais voltou – não voltou, porque “não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais.”

Parentes, vizinhos, conhecidos vieram auxiliar a família “abandonada”. Alguns diziam que era “doideira”; outros acreditavam que era “alguma promessa, “feia doença.”

Vinham notícias de todos os lados: “nosso pai nunca se surgia a tomar terra.” A mãe e alguns parentes concluíram que quando acabasse a comida que ele escondera na canoa; ou ele partiria para sempre, ou voltaria para a casa.

Mas, a verdade era que o narrador diariamente levava comida “furtada” para seu pai, “mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho.”

Mais tarde o narrador, afirma que sua mãe sabia dessa sua proeza, inclusive facilitava o “furto” e a sobra da mesma.

Vieram o tio, para ajudar na fazenda; o mestre, para os meninos e o padre, para convencer o pai desistir da “tristonha teima.”

Apareceu até um jornalista com uma lancha insistindo tirar um retrato dele, mas não conseguiu.

A família evita falar no acontecido. O filho jamais deixou de pensar nela: “de dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo, só com o chapéu velho na cabeça, por todas as semanas, e meses, e os anos – sem fazer conta do se-ir do viver.”

A irmã casou-se e não teve festa. Às vezes alguém comentava que o narrador estava ficando parecido com o seu pai, e ele pensava “ele agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos, com o aspecto de bicho...”

A irmã tem um filho e na esperança de convencer o pai voltar, veste-se de noiva e a família sobe com a criança num barranco, para mostrar ao pai. Todos choraram e o pai não voltou.

A irmã se mudou com o marido; o irmão partiu para a cidade e a mãe foi morar com a filha.

“Eu fique aqui, de resto. Eu nunca podia querer me casar. Eu permaneci, com as bagagens da vida.”

O narrador procurou o construtor da canoa, talvez o pai tivesse lhe revelado algum segredo, mas o homem já tinha morrido. Chegaram a relacionar o pai com Noé e a previsão do fim do mundo.

O narrador começa envelhecer e sentir-se culpado “do que nem sei.”

Então, ele decide assumir o lugar do pai, na canoa.

“Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto...”

Ao ver o pai, o narrador gritou:

“ – Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto...Agora, o senhor vem, não carece mais...O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!...”

O pai aproxima-se, fica em pé, parecia que vinha “da parte de além”; o narrador temeu, fugiu e nunca mais teve notícias de seu pai.

Sentindo-se um homem falido, implora perdão por sua fraqueza e pede que, quando morresse, “peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras; e, eu, rio abaixo, rio a fora, ria a dentro – o rio.”

A narrativa tem conotações filosóficas e metafísicas.

O rio, metáfora universal da vida e do destino do homem, é das temáticas sempre presentes nas obras de Guimarães Rosa, associada a idéia de “travessia”, a busca da sublimação e do autoconhecimento.

Como o autor afirma: “Amo os grandes rios, pois são profundos como a alma do homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como os sofrimentos dos homens. Amo ainda mais uma coisa de nossos grandes rios: a eternidade...Sim, o rio é uma palavra mágica para conjugar eternidade.”

O número três (terceira) é sagrado e corresponde a perfeição da unidade divina. O narrador inicia o conto afirmando que: “NOSSO PAI era homem cumpridor, ordeiro, positivo...”

O pai ao abandonar a família, a casa e o conforto material e sair em busca do mistério, da transcendência e do metafísico; é como se ele, abandonasse o físico, o concreto, o material e buscasse a elevação da alma, do espírito e da eternidade - como um ritual iniciático.

A opção do pai “não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais”, foi atribuída a loucura, a falta de amor, a doença e ao descaso com a família, por personagens limitados em seu modo de pensar e de querer; porém, através da metafísica, pode significar a passagem para uma nova vida e o encontro com o “eu profundo”,

O próprio narrador ao referir-se à sua existência diz: o nosso pai, a nossa casa; demonstrando forte apego material e de herança; portanto, inapto a substituir o pai na canoa. Sua fragilidade e medo do desconhecido, faz sentir-se um impotente perante a situação e, na dialética de “ser ou não ser” ou “ir ou não ir”, optou em ...sou o que não foi, o que vai ficar calado.”

Seu remorso é tão grande, que pede para colocá-lo “numa canoinha de nada, nessa água que não pára...” quando morrer, pois em vida não conseguiu cruzar “a terceira margem do rio...”

VII. Pirlimpsiquice:

“ – Representar é aprender a viver além dos levianos sentimentos, na verdadeira dignidade.”


Um grupo de alunos de um colégio interno ensaiava uma peça teatral, “Os Filhos do Doutor Famoso”. A peça era composta por cinco atos e dirigida pelo Dr. Perdigão, homem sisudo e professor de História e Geografia.

O narrador era o “ponto” da peça, enquanto que Zé Boné, um aluno relaxado e parvo, havia conseguido um papel.

Por vaidade, resolve não contar o texto da peça aos outros colegas e decide inventar “a nossa estória”, para despistá-los.

A turma do Gamboa, líder negativo da classe, também inventou “uma estória”.

As duas estórias circulam no meio escolar, concorrendo entre si. O grupo do teatro não via à hora da estréia para se vingarem da turma do Gamboa.

No dia da apresentação, acontece um imprevisto: o pai de Ataualpa, o menino que faria o personagem principal, adoece e ele tem que viajar às pressas. O narrador, “o ponto”, assume o seu lugar, pois sabia de cor “todas as falas” da peça, mas não tinha decorado os versos em homenagem à Virgem Padroeira e à Pátria, que abriam a encenação.

A confusão está montada. Vaias explodem de todos os lados e o narrador parado no centro do palco, sem nenhuma iniciativa. Foi então que, Zé Boné, o parvo do grupo, surpreendendo a todos, começa a representar com perfeição a estória, mas não verdadeira da peça e sim, da turma do Gamboa.

Os outros membros do grupo teatral, como forma de magia, foram envolvendo-se extraordinariamente com o enredo, como “ah, a gente: protagonistas, outros atores, as figurantes figuras, mas personagens personificantes.”

Foi um grande sucesso, só tinham um problema: não sabiam como terminar aquela magia que fazia “cada um de nós se esquecera de seu mesmo, e estávamos transvivendo, sobrecrentes, disto: que era o verdadeiro viver?”

Então, o narrador teve uma idéia: chegou à frente e deu uma cambalhota, de propósito, despencou e caiu, parecendo que para ele “o mundo também se acabou.”

No dia seguinte, “o Gamboa veio, falou assim: - Eh, eh, hem? Viu como era que a minha estória também era a de verdade? ”Pulou-se, ferramos fera briga.”

O texto mostra tendência metalingüística, já que existe uma estória da estória. O título é um neologismo que mistura psique=alma e pirlim= magia. A peça do Dr.Perdigão era conservadora e moralizante, com o encantamento provocado pela arte, a estória inventada, fluiu naturalmente e de forma espontânea.

VIII. Nenhum, nenhuma:

“A dúvida que isso marcou, no Menino, ajuda-o agora a muito se lembrar.”

Um menino convive com algumas pessoas de comportamento estranho, numa casa de fazenda, talvez no ano de 1914.

Partindo do título do conto, já percebemos a densidade psicológica do enredo. Na tentativa que “rever” aquelas imagens que se fixaram em sua lembrança, o menino, agora já adulto, perde-se em meio a descrições, objetos e pessoas, pois tudo aparece emaranhado e disperso como um sonho.

Lembra-se de um Moço e de uma Moça e de um casal de velhinhos. O Moço amava a Moça e queria casar-se com ela e o Menino percebia através do olhar dos dois e sentia ciúmes do Moço, embora A Moça que era “linda e recôndita” cuidava de Nenha, a “trebisavó”, uma velhinha que se encolhera e tornara-se tão pequenina como uma criança. A Moça levou o Menino para conhecer a velhinha. A velha não estava morta como o Menino imaginou e ele sentiu vontade de brincar com a velhinha como se ela fosse uma boneca (Nenha, Nenê ou Nênia, poesia sobre a morte). Enquanto que, lá de fora se ouvia o barulho da tesoura, que o Homem Velho podava as rosas. A Moça recusa-se a casar com o Moço e como argumento diz que como pode ter a certeza “se é amor certo, o único? Devia esperar, até a hora da morte...” O Moço desiludido com a recusa, escreve um bilhete para a Moça e parte de lá, levando o Menino até a casa de seus pais. O Homem velho despedia-se fazendo sinais à distância e o Moço questionava se conseguiria viver sem a Moça. À volta à realidade, o reencontro com os pais produz um imenso choque no Menino: “Vocês não sabem de nada, de nada, de nada, ouviram? Vocês já se esqueceram de tudo o que, algum dia, sabiam?”

Dácio de Castro destaca a presença de dois mundos: “o inteligível, representado pela fazenda onde o Menino associa a idéia de amor à figura da Moça, e o mundo sensível, relacionado à casa dos pais, onde o Menino vê a vida como coisa imperfeita.”

Os pais abaixaram a cabeça e estremeceram.

“Porque eu desconheci meus Pais – eram-me tão estranhos; jamais poderia verdadeiramente conhecê-los, eu; eu?”

No desfecho do conto, o menino acusa os pais por terem realizado o ato de amor que a Moça se negou transportando um amor do mundo inteligível para o sensível e finito. Entretanto, a falta de concretização desse amor impediria a existência do Menino. Daí o final do conto: “eu”

Outra leitura possível do conto é a linha psicanalítica freudiana sobre o Complexo de Édipo.

“Nenhum e Nenhuma” podem representar o pai e a mãe, no plano real, como a Moça e o Moço, no plano ideal. O Homem Velho e a Velhinha representam a experiência da vida, a velhice e a morte. Durante o conto o Menino não esconde o seu amor pela Moça e seu ódio pelo Moço, “...ele tinha ira desse moço, ira de rivalidades”, deixando-nos claro o Complexo de Édipo.

IX.Fatalidade:

“Se o destino são componentes consecutivos – além das circunstâncias gerais de pessoa, tempo e lugar...e o karma...”

A história envolve três personagens: o delegado Meu Amigo, homem versado nas armas como na poesia e na filosofia, homem “de vasto saber e pensar, poeta, professor, ex-sargento da Cavalaria e delegado de polícia”; José Centeralfe, homenzinho caipira, honesto, trabalhador e obediente que procura o delegado para reclamar de Herculinão Socó, valentão que vivia falando desaforos à sua esposa.

José Centeralfe revelou que não podia nem por os pés para fora de casa; que já mudara para outro arraial fugindo de Herculinão, mas que o valentão os seguira e continuava cobiçando sua esposa.

Enquanto José Centeralfe desabafava, o delegado, aqui denominado como “meu amigo”, mexia em suas tantas armas. Depois de ouvir as reclamações de José Centeralfe, o delegado escolheu uma arma e disse que é para esses casos que existem as armas de fogo.

Saem os dois em captura de Herculinão e ao encontrá-lo ouvem dois tiros: um, na testa, outro no coração de Herculinão. O delegado faz o Boletim de Ocorrência, oralmente: ”resistência à prisão, constatada”. E foram almoçar, pois a Justiça fora feita.

Ao fazer justiça com as próprias mãos, o conto remete-nos a dimensão filosófica e religiosa, onde a personagem Meu Amigo, representa o Anjo que protegerá o mais fraco. Centeralfe ao fazer sua queixa fala de Deus e da lei. Ele fugia da violência, evitando uma fatalidade, mas Herculinão tinha que morrer, pois ele já havia traçado o seu destino e a morte era o fim inevitável dos que semeiam o mal.

X. Sequência:

“Suas duas almas se transformavam? E tudo à sazão do ser. No mundo nem há parvoices: o mel do maravilhoso, vindo a tais horas de estórias, o anel dos maravilhados. Amavam-se”

Conto narrado em terceira pessoa e tematiza a predestinação, o destino e o acaso.

Uma vaca de propriedade de seu Rigério foge da fazenda da Pedra e atravessa o sertão. A vaca não fugiu por acaso; fugiu por amor às suas raízes, sua “querência”, a fazenda do Pãodolhão.

Ela conhecia “o seu caminho” e estava determinada a chegar ao seu destino.

O filho de Seo Rigério prontifica-se a encontrar a vaca e trazê-la de volta.

A vaca faz o “um caminho de volta”, enquanto o vaqueiro que a persegue caminha “de oeste para leste”, chegando a perder o rastro três vezes, pois ela entrara no riacho para despistar o moço.

Por onde a vaca passava, as pessoas tentavam detê-la, mas ela escapava sempre.

À noite, o moço segue a sua busca orientando-se pelo brilho das estrelas e refletindo “aonde o animal o levava”.

A vaca chegou à fazenda Pãodolhão, atravessou a porteira-mestra dos currais, estava de volta à sua origem, cumprira o seu destino. O rapaz chega e apressa-se a subir a escada da casa-fazenda do Major Quitério e desculpar-se pelo inconveniente.

Lá, o rapaz é bem recebido. Major Quitério tinha quatro filhas. O moço apaixona-se pela segunda das filhas do Major Quitério, a mais alta, alva e mais amável. Deu-lhe de presente a vaca, já que ela era a condutora de sua travessia e de seu destino e entrega a moça “o anel dos maravilhados”.

Para Alfredo Bosi, “a trajetória das personagens exercita a noção de que o direito do livre arbítrio, possível para a vaca, é imprescindível para o homem, pois quem elegeu a busca não pode recusar a travessia.”

XI. O espelho:

“Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.”

Com um narrador em primeira pessoa, o conto possui tom de monólogo, supondo um interlocutor (“senhor”, talvez o leitor) que não tem direito a palavra e questiona a existência humana.

“Se quer seguir-me, narro-lhe; não uma aventura, mas experiência, a que me induziram, alternadamente, séries de raciocínios e intuições.” “(...) O senhor, por exemplo, que sabe e estuda, suponho nem tenha idéia do que seja na verdade – um espelho?”

Refletindo sobre a realidade dos fenômenos, busca respostas mediante um espelho, não “das noções de física, com que se familiarizou, as leis da óptica. Reporto-me ao transcendente. Ou a ausência deles.”

Parte do princípio que os espelhos refletem o real, porém que há dois tipos de espelhos: Os bons e os maus, “os que favorecem e os que detraem”.

Com a fotografia, a situação é a mesma, “ainda que tirados de imediato um após outro, os retratos sempre serão entre si muito diferentes. Se nunca atentou nisso, é porque vivemos, de modo incorrigível, distraídos das coisas mais importantes.”

Através de digressões, o narrador retoma a lenda de Narciso, onde Tirésias avisara a Narciso que “ele viveria enquanto a si mesmo não visse...”

Recorda a sua infância e seus medos: não se podia olhar no espelho “às horas mortas da noite, estando-se sozinho. Porque, neles às vezes, em lugar de nossa imagem, assombra-nos alguma outra e medonha visão.”

Afirma que “o espelho inspirava receio supersticioso aos primitivos, aqueles povos com a idéia de que o reflexo de uma pessoa fosse à alma.”

Lembra-nos que o espelho sempre foi objeto de magia e que quando falecia alguém, tapavam os espelhos ou voltava-os contra a parede.

Um dia o narrador estando num lavatório de edifício público, quando ainda era moço e vaidoso, ao contemplar-se no espelho, viu uma imagem que achou repugnante. “Deu-me náusea, aquele homem, causava-me ódio e susto, eriçamento, espavor. E era – logo descobri...era eu, mesmo!”

A partir desse acontecimento, o narrador relata que começou uma longa procura “ao eu detrás de mim”.

O narrador se baseia no seguinte pressuposto: “parecer-se cada um de nós com determinado bicho, relembrar seus faces, é fato.” Ao buscar seu “sósia inferior na escala”, conclui que se parece, com uma onça. Começou o delicado trabalho de extrair todos os traços do felino de sua imagem, recorrendo a diversos métodos, desde a capacidade de concentração dos jesuítas e dos “exercícios espirituais”.

Quando conseguiu, a sua imagem refletida no espelho era lacunar, “quase apagada de todo”.

Prosseguiu em seu objetivo, partindo agora de subtrair o elemento hereditário – “as parecenças com os pais e avós”; o contágio das paixões; as desordenadas pressões psicológicas; as idéias e sugestões de outrem e os efêmeros interesses.

Passado um tempo, o narrador começa a sentir dores de cabeça e decidiu para por alguns meses a investigação.

“Mas, com o comum correr quotidiano, a gente se aquieta, esquece-se de muito.”

Um dia, “simplesmente lhe digo que me olhei num espelho e não me vi”

“E a terrível conclusão: não haveria em mim uma existência central, pessoal, autônoma? Seria eu um...des-almado?”

Passado algum tempo, depois de ter superado vários sofrimentos, “de novo me defrontei”. De início, nada enxergou; depois, “o tênue começo de um quanto como uma luz” e, enfim, “sim, vi a mim mesmo, de novo, meu rosto, um rosto; não este, que o senhor razoavelmente me atribui. Mas o ainda-nem-rosto – quase delineado, apenas – mal emergindo, qual uma flor pelágica, de nascimento abissal...E era não mais que: rostinho de menino, de menos-que-menino, só”.

O narrador confessa que nesse tempo, “eu já amava – já aprendendo, isto seja, a conformidade e a alegria.”

Finalmente, encontrara o seu eu-interior e pergunta se “será este nosso desengonço e mundo o plano – intersecção de planos – onde se completam de fazer as almas?

Caso a resposta seja afirmativa, a vida consiste no “despojamento, de tudo o que obstrui o crescer da alma, o que a atulha e soterra? Depois, o “salto mortale”...

“(...) E o julgamento problema, podendo sobrevir com a simples pergunta: - “Você chegou a existir?” Sim? Mas, então, está irremediavelmente destruída a concepção de vivermos em agradável acaso, sem razão nenhuma, num vale de bobagens?”

“O espelho” é o conto mais complexo da obra. Partindo de um fato real (sua imagem refletida no espelho), o narrador tece questionamentos e especulações (“speculum” significa espelho, em latim) metafísicas e místicas, em busca da sua imagem interior, o seu próprio encontro. Para isso, anula o seu eu exterior, eliminado “as aparências”. Em seguida, através da dor e do amor, o narrador retorna às suas raízes, a pureza de um menino e o auxílio da iluminação para recomeçar.

XII. Nada e a nossa condição:

“- Pai, a vida é feita só de altos – e – baixos? Não haverá, para a gente, algum tempo de felicidade, de verdadeira segurança? E ele, com muito caso, no devagar da resposta, suave a voz: – Faz de conta, minha filha...Faz de conta...”

Tio Man’Antônio era proprietário da fazenda Torto-Alto. Casado com tia Liduína, “a fina música e imagem” e pai de três filhas, entre as quais, Felícia e Francisquinha, a outra não é nomeada no conto, vivia acumulando terras e dinheiro.

Com a morte de sua esposa, tio Man’Antônio escuta de Felícia a seguinte pergunta: “ – Pai, a vida é feita só de altos e baixos? Não haverá , para a gente, algum tempo de felicidade, de verdadeira segurança?” E ele, com muito caso, no devagar da resposta, suave a voz: “- Faz de conta, minha filha...Faz de conta...”

A partir daí, seu comportamento mudou, causando estranheza a todos os que conheciam, chegando a chamá-lo de “caduco maluco estafermo”.

Mandou derrubar árvores, poupando somente àquelas que tia Liduína gostava; alargou os pastos fazendo os empregados pensarem que ele tinha um espírito prático, pois o negócio de bois estava em alta; fez uma grande festa no dia do aniversário da esposa morta, convidando muitas pessoas: primos de longe, moços bonitos, que conheceram as três filhas, noivaram, casaram e partiram com os seus maridos.

Seus negócios prosperavam, mas o tio Man’Antônio não estava mais preocupado em acumular bens, “tão próspero em seus dias, podia larguear, tinha o campo coberto de bois – tudo se inestimava, porém para Tio Man’Antônio, ali, onde, tudo o que não era demais, eram humanas fragilidades.”

De repente, faz uma espécie de reforma agrária, divide sua propriedade com seus empregados; vende o gado e manda todo o dinheiro para os genros e as filhas; deixa um documento escrito que só poderia ser lido, após a sua morte e fica somente com a casa-sede da fazenda.

Como não queria que os novos proprietários perdessem dinheiro, vigiava-os, orientava-os e administrava-os.

Um dia ele é encontrado morto em um pequeno cômodo da enorme casa, sozinho sem amor ou amigos. O capataz lê o documento deixado e nele, Tio Man’Antônio pedia que cremassem seu corpo, juntamente com a casa. Vestiram-o de terno de sarja cor de ameixa com botas pretas, avisaram os parentes e amigos, acenderam as velas, tocou-se o sino e puseram fogo na casa. O fogo durou dias, consumindo-se o morto em cinzas.

A personagem de “Nada e a nossa condição” inverta a travessia encontrada em “Seqüência”, pois enquanto o moço buscava a sua iniciação através do amor, tio Man’Antônio “encaminhou-se, senhor, para a terra, gleba tumular, só; como as conseqüências de mil atos, continuadamente.”

XIII. O cavalo que bebia cerveja:

“Irivalini, eco, a vida é bruta, os homens são cativos...”

Reivalino Belarmino, narrador-personagem do conto, é um rapaz simples que morava próximo a uma chácara de propriedade de um italiano chamado Giovânio. Através da ótica de Reivalino, são apresentados os costumes e os comportamentos estranhos do italiano: comia caramujo, rã e braçadas de alface dentro de um balde de água, além de pedir constantemente a Reivalino que comprasse caixas e caixas de cerveja para que seu cavalo bebesse.

Reivalino não gostava do estrangeiro (xenofobia) e referia-se a ele com termos pejorativos: “cogotudo, panturro, rouco de catarros, estrangeiro às náuseas”.

O velho italiano vivia numa chácara escondida pelo matagal, cercado de muitos cães, um de nome Mussolino e de cavalos, um deles que bebia cerveja.

Os hábitos esquisitos do italiano causavam nojo a Reivalino e despertava a curiosidade do delegado local.

Giovânio gostava da mãe de Reivalino e essa defendia-o, afirmando sempre que: “o italiano havia penado muito na guerra”. Quando ela “se foi para as escuridões”, Giovânio pagou todas as despesas do enterro e convidou Reivalino para trabalhar para ele – serviço pouco, comprar cervejas para o cavalo e guarnecer a chácara com suas armas.

Reivalino cada vez mais estranhava as atitudes do italiano: não tinha amigos, não entrava em casa que ficava sempre trancada e “sem temor em seus altos”.

Giovânio insistia em chamar Reivalino de “Irivalíni”, o que deixava-o mais irritado.

Um dia, o delegado e dois estrangeiros interrogaram Reivalino sobre o italiano. Queriam saber se ele não tinha uma marca de ferro nas pernas; diziam que ele era muito perigoso e fugitivo da guerra. Reivalino despistou as autoridades e nada contou. Sua curiosidade era conhecer a casa do italiano por dentro. Giovânio parece ter adivinhado seus pensamentos, pois neste dia, convidou Reivalino para entrar na casa. A casa não tinha mobílias e cheirava casa fechada. Olhou atentamente tudo ao seu redor, mas não conseguiu saber o que tinha nos quartos e desconfiou que havia lá dentro um cavalo escondido

Reivalino foi chamado outra vez pelo subdelegado, ofereceram dinheiro pela informação e ele acabou comentando sua suposição.

O outro dia, seo Priscílio, o subdelegado e mais um soldado foram à casa de Giovânio. Queriam saber a verdade sobre o cavalo que bebia cerveja. O italiano mandou trazer o cavalo alazão canela clara, despejou cerveja numa gamela, e o cavalo bebeu tudo e com muito gosto.

O subdelegado sem nada poder comprovar foi embora intrigado com a situação. Reivalino instiga o delegado afirmando que tem algo escondido nos quartos. O subdelegado retorna à casa de Giovânio e exige que ele mostre toda a casa.

Num dos quartos havia um cavalo branco morto e empalhado e novamente o seo Príscilio se retira frustrado.

Com o passar dos dias, Reivalino acaba sentindo simpatia pelo velho, a ponto de não querer mais fornecer informações às autoridades.

Depois de um tempo, Giovânio “abriu de em par a casa. Me chamou: na sala, no meio do chão, jazia um corpo de homem, debaixo de lençol. – “Josepe, meu irmão”... – ele me disse, embargado.”

Giovânio “quis o padre, quis o sino da igreja para badalar as vezes dos três dobres, para o tristemente.”

Veio o subdelegado e ao levantar o lençol o que viram chocou a todos: “o morto não tinha cara, a bem dizer – só um buracão, enorme, cicatrizado antigo, medonho, sem nariz, sem faces – a gente devassava alvos ossos, o começo da goela, gargomilhos, golas. – “Que esta é a guerra...” – seo Giovânio explicou – boca de bobo, que se esqueceu de fechar, toda doçuras.”

Reivalino decide partir. Na despedida bebe cervejas com o ex-patrão, que lhe pede que leve o cachorro Mussolino e o cavalo que bebe cerveja.

Passado algum tempo, Reivalino fica sabendo da morte de seo Giovânio e da herança que ele havia deixado para ele: a chácara.

Reivalino mandou rezar missas para sua mãe, seo Giovânio e seo Josepe; ergueu as sepulturas e vendeu a chácara, não antes de mandar cortar todas as árvores, enterrar o cavalo empalhado e beber toda a cerveja que restou.

No final deixa uma declaração afirmando que, ele é que bebia toda a cerveja que seo Giovânio mandava comprar.

“Eu, Reivalino Belarmino, capisquei. Vim bebendo nas garrafas todas, que restaram, faço que fui eu que tomei consumida a cerveja, toda daquela casa, para fecho de engano.”

XIV. Um moço muito branco:

“Ele andava muito na lua, passeava por todo o lugar e alhonde, praticando aquela liberdade vaporosa e o espírito de solidão; parecesse alquebrado de um feitiço, segundo os dizeres do povo.”

O conto se inicia com uma data e uma localização geográfica definida, porém relata um misterioso fato:

“Na noite de 11 de novembro de 1872, na comarca do Serro Frio, em Minas Gerais, deram-se fatos de pavoroso suceder, referidos a folhas da época e exarados nas Efemérides. Dito que um fenômeno luminoso se projetou no espaço, seguido de estrondos, e a terra se abalou, num terremoto que sacudiu os altos, quebrou e entulhou casas, remexeu vales, matou gente sem conta; caiu outrossim medonho temporal, com assombrosa e jamais vista inundação, subindo as águas de rio e córregos a sessenta palmos da plana....”

Após descrever a ocorrência estranha, surge um moço detrás do cercado das vacas, na fazenda do Casco, de propriedade de Hilário Cordeiro, localizada na rua do Arraial do Oratório, no dia de São Félix.

O rapaz era “(...) distintas formas, mas em lástima de condições, sem o restante de trapos com que se compor, pelo que enrolado em pano, espécie de manta de cobrir cavalos, achada não se supõe onde; e, assim em acanho, foi ele avistado, de muito manhã, aparecendo e se escondendo por detrás do cercado das vacas. Tão branco; mas não branquicelo, senão que de um branco leve, semidourado de luz: figurando ter por dentro da pele uma segunda claridade. Sobremodo se assemelhava a esses estrangeiros que a gente não depara nem nunca viu; fazia para si outra raça.”

Hilário acolheu o moço em sua casa. O moço parecia ter perdido a memória e a fala. Todos os que o visitavam se afeiçoavam com ele. Porém, foi José Kakende, um escravo meio alforriado, desorientado e vidente (na noite anterior ao terremoto, José Kakende tira visto uma aparição nas margens do Rio do Peixe). Somente Duarte Dias, homem rude, invejoso e pai de Viviana que não gostou do moço.

A partir da chegada do moço, Hilário sarou de todas as doenças e sua propriedade começou a prosperar.

Um dia Hilário levou o moço à missa e ele pareceu sentir bem à vontade, porém a sua expressão era de saudades de coisas distantes. Na saída, um cego pede-lhe esmola e o moço entrega-lhe uma semente. O cego enfureceu-se, mas guardou a semente.

Duarte Dias inveja a situação de prosperidade de Hilário e reivindica o moço para ele, afirmando tratar-se de um parente.

A discussão foi parar nas mãos da autoridade local, Quincas Mendanha, que dá vitória para Hilário.

O moço revela ter uma grande criatividade e passa a consertar máquinas e engrenagens.

Certa feita, José Kakende e o moço foram à casa de Duarte e o moço ao ver a bela Viviana, colocou delicadamente e sem malícia a palma de sua mão nos seios da filha de Duarte.

O pai transtornado com o ocorrido e preocupado com a reputação da filha exige casamento.

O padre Bayão acalmou Duarte mostrando-lhe que era uma insensatez de sua parte. A partir daquele dia, Viviana despertou para a alegria.

No dia 5 de agosto, dia da Dedicação de Nossa Senhora das Neves, Duarte foi à casa de Hilário implorando que “lhe desse” o moço. Dizia que não era inveja, mas era por amor. O moço segurou em sua mão e junto com José Kakende conduziu-os até as terras de Duarte; apontou um lugar e pediu que cavassem. Lá, encontraram depósito de diamantes ou um panelão de dinheiro, depende como se contava.

Duarte tornou-se um homem riquíssimo e bondoso.

No dia de Santa Brígida, o moço saiu debaixo de trovoadas e junto de Kakende subiu aos altos. O negro contou que ajudara a acender nove fogueiras e que vira nuvens, chamas, ruído, redondos, rodas, geringonça e entes. “Com a primeira luz do sol, o moço se fora, tinha asas.”

Tempos depois, Duarte morreu; Viviana continua em sua plena alegria e Kakende uniu-se ao amigo cego e Hilário sente “uma saudade meia-morte”.

A semente que o moço dera ao cego, depois de plantada nasceu uma árvore de diversas flores e diferentes cores, “desconhecidas no século”.

A aparição do moço através de uma luminosidade, como se sua brancura fosse interior, simbolizando a pureza dos Anjos, traz ao povoado alegria, saúde e prosperidade. Outro conto místico e mítico de Guimarães Rosa, que representa o mistério e a existência de outras vidas.

XV.Luas-de-mel:

“- Vamos dormir abraçados...As coisas que estão para a aurora, são antes à noite confiadas.”

Narrado em primeira pessoa, Joaquim Norberto, homem que fora no passado um “homem de desmandos, desordens e desgraças”, agora, mais amadurecido, vive calmo, sentindo-se enfraquecido junto de sua esposa, Sá-Maria Andreza, “meio passada mulher” e seu filho Seo Fifino, na fazenda Santa-Cruz-da-Onça.

Um dia, Joaquim Norberto recebe uma carta das mãos de Baldualdo, homem “com grande e morta freguesia” da parte de um amigo de Joaquim Norberto, o Seo Seotaziano.

Seo Seataziano pedia ao amigo que hospedasse em sua fazenda um casal que estava sendo perseguido, “para um moço e uma moça, lhe peço forte resguardo, o mais se verá, mais tarde.” Na verdade, tratava-se de um rapaz que raptara uma moça , filha do Major Dioclécio, por a família não aceitar o união dos dois.

Joaquim Norberto providenciou tudo: mandou trazer vários capangas para a defesa dos noivos, mandou chamar o padre, para o casamento e ordenou que Sá-Maria Andreza, prepara-se os aposentos para receber os hóspedes.

O fazendeiro temia uma represália do Major Dioclécio que viesse resgatar a noiva.

A meia-noite...ainda não eram um casal!

Em seguida, chegou outro sujeito, que vinha acompanhando os noivos à distância, sem que eles percebessem.

No dia seguinte, chegaram mais homens para protegerem o local, devidamente armados, faziam vigília por precaução. O padre chegou na segunda-feira e trazia um rifle curto nas mãos.

Sá-Maria Andreza se fez bonita, arrumou o altar e Joaquim Norberto colocou a sua melhor roupa.

A noiva era filha do Major Dioclécio e o noivo, parente do Seo Seataziano.

Depois a cerimônia, começou o banquete. Todos comeram e beberam, mas sempre alertas.

Quando o casal se retira para a lua-de-mel, o amor entre Joaquim Norberto e sua esposa é despertado: “Eu, feliz, olhei minha Sa-Maria Andreza; fogo de amor, verbigrácia. Mão na mão, eu lhe dizendo – na outra o rifle empunhado -: - “Vamos dormir abraçados...”

No dia seguinte, chega o irmão da noiva em visita de paz. Cumprimentou a irmã, depois o cunhado e convido-os para partirem juntos e ter a bênção pai e participarem da nova festa de núpcias que estava sendo preparada.

O convite se estendeu a todos. Joaquim Norberto manda seu filho, o Seo Fifino representá-lo, em seguida abraça a esposa “com os olhos desnublados”.

XV. Partida do audaz navegante:

“- Sem saber o amor, a gente pode ler os romances grandes?”

Brejeirinha é uma menina muito criativa e sensível. Ela, suas irmãs Pele e Ciganinha, mais o primo Zito passaram as férias em uma fazenda. Chovia sem parar e as crianças brincam em casa, perto do fogo, de boneca, enquanto a cachorra Norka dormia ao lado.

Ciganinha e Zito estavam de namorico e brigados. Brejeirinha aproveitava para dizer frases singelas e de mistério: “Eu sei porque é que o ovo se parece com um espeto”; “Eu vou saber geografia”; “Eu queria saber o amor” ou “Sem saber o amor, a gente pode ler os romances grandes?”

Zito queria sair debaixo de chuva e Brejeirinha começa a inventar uma estória, sobre o Audaz Navegante:

“- O navio dele, chegou o dia de ir. O Audaz Navegante ficou batendo o lenço branco, extrínseco, dentro do indo-se embora do navio. O navio foi saindo do perto para o longe, mas Audaz Navegante não dava as costas para a gente, para trás. A gente também inclusive batia os lenços brancos.” (...)

Parando a chuva, a mãe consente que as crianças brinquem lá fora desde que Zito as acompanhem e que não se aproximem do rio.

Brejeirinha continua a “inventar a estória” e quando vê num estrume de vaca um cogumelo entre os tufos de capim, ela começa a materializar a estória: era o Audaz Navegante que voltara para a sua namorada.

As crianças passam a enfeitar com flores o estrume cada uma faz uma oferenda-pedido ao Audaz Navegante (moeda, chiclé, grampo e um cuspe); em seguida, o coloca na água e “ele” parte levando os presentes e os recados pelo mar. Mas não parte só leva a sua amada.

Ciganinha e Zito reconciliam-se e se dizem “coisas grandes em palavras pequenas”.

Um trovão amedronta e traz Brejeirinha à realidade. Mas, surge uma “fada” que vem protegê-la, é sua mãe, ainda em tempo de ver o Audaz Navegante partindo.

Recomeça a chover.

Neste conto encontramos uma tendência Roseana de criar micronarrativas dentro da narrativa principal, onde as duas estórias se entrelaçam. Utilizando-se de uma linguagem “nonsense”, o conto une o real e o mundo mágico da criatividade.

XVII. A Benfazeja:

“Mumbungo queria à sua mulher, a Mula-Marmela, e, contudo, incertamente, ela o amedrontava. (...) Talvez pressentisse que só ela seria capaz de destruí-lo, de cortar, com um ato de “não”, sua existência doidamente celerada.”

Narrada por um morador de um povoado revela-nos a trajetória de uma mulher, que por não saberem o seu nome, tratam-a por Mula-Marmela. “(...) A mulher malandraja, a malacafar, suja de si, misericordiada tão em velha e feia, feito tonta, no crime não arrependida – e guia de um cego.”

O cego era Retrupé, filho de Mumbungo, homem de muitas crueldades que carregava muitas mortes e era temido no povoado. Mula-Marmela casou-se com esse terrível homem que a amava e que somente ela, amedrontava-o e podia destruí-lo.

Um dia, Mula-Marmela mata o marido, livrando o povoado das aflições que viviam, tornando-se a “Benfazeja”.

Passa a cuidar de Retrupé, herdeiro de todas as qualidades negativas do pai: grita, xinga, anda armado e ameaça as pessoas do povoado. Nessa época não era cego. Cegou-se dos dois olhos, dizem que, graças às ervas venenosas, que Mula-Marmela lhe deu, para torná-lo inofensivo.

Mesmo assim, Mula-Marmela não o abandonou, servia-lhe como guia e cuidava de sua sobrevivência. Negava-lhe cachaça; mas, levava-o às casas de prostituição e esperava-o do lado de fora, temendo que o maltratassem.

Mesmo depois de ter livrado o povoado de maldições, com o assassinato de Mumbungo, as pessoas ainda a criticavam, dizendo-lhe ofensas e inventando boatos (que ela e Retrupé eram amantes).

Um dia, Retrupé tentou matar Mula-Marmela. Estavam sentados à beira da rua e de repente, Retrupé tirou o facão de sua cintura e atacou Mula-Marmela. Ela não fugiu e Retrupé não conseguiu acertá-la. Gritando descontroladamente, Retrupé chama-a de “minha mãe”. Mula-Marmela apanhou o seu chapéu do chão, colocou em sua cabeça; guardou o facão em sua cintura; abraçou-o e chamou-o de “meu filho”. Dizem que ficaram abraçados até o anoitecer...No dia seguinte, Retrupé amanheceu morto. Mula-Marmela “esganou estranguladamente o pobre-diabo, que parou de se sofrer, pelos pescoços”.

“Só não a acusaram e prenderam, porque maior era o alívio de a ver partir, para nunca, daí que, silenciosa toda, como era sempre, no cemitério, acompanhou o cego Retrupé às consolações. Vocês, distantemente, ainda a odiavam?”

Depois partiu sem se despedir de ninguém, mas sem antes de recolher um cachorro morto, abandonado e “meio já podre, na ponta-da-rua, e pegou-o às costas, o foi levando – se para livrar o logradouro e lugar de sua pestilência perigosa, se para piedade de dar-lhe cova em terra, se para com ele ter com quem ou o quê se abraçar, na hora de sua grande morte solitária? Pensem, meditem nela, entanto.”

Mula-Marmela tem seu destino traçado para livrar o povoado da existência do mal: mata Mumbungo; cega Retrupé; mata Retrupré e carrega o cachorro morto, para evitar doenças e pestes no local.

A relação de Mula-Marmela e Retrupré retomam a temática edipiana: Retrupé e Édipo (pé inchado) têm seus nomes relacionados com pé; Édipo ao ter consciência do incesto, cega-se.

Para Heloísa Vilhena, “a Mula-Marmela encarna o Destino, a Fatalidade, enquanto seu amante e o cego Retrupé representam a falta de luz, a incompletude do que não chegou a ser humano.”

XVIII. Darandina:

“- Viver é impossível!”

Narrado em primeira pessoa, por um narrador-testemunha, um “interno de plantão”, de um hospício.

O conflito inicia-se com a perseguição de um homem pelas ruas, acusado de ter roubado uma caneta tinteiro.

Tentando se livrar dos perseguidores, o homem se refugia em uma palmeira-real da praça da cidade, escalando-a numa rapidez e sem tirar os sapatos.

Todos que seguindo o “ladrão” ficam surpresos com a sua atitude, também por a palmeira-real ser a mais alta da praça.

Adalgiso, outro “interno de plantão”, chama o narrador para acompanhar o caso, descobrir como o homem fugiu do manicômio e encontrarem uma forma para capturá-lo.

Começa a aglomerar pessoas debaixo da palmeira-real a proferir insultos ao ladrão: “do demo e aqui-da-polícia”.

O ladrão dizia que era louco, mas os internos afirmam que ele não estava internado no hospício.

Sandoval reconhece o homem, tratava do Secretário das Finanças Públicas. Neste momento, o aglomerado cala-se e decide chamar o “dr. Diretor, a Polícia, o Palácio do Governo”.

O dr. Dartanhã ao tomar contato com o caso dá o seu diagnóstico: “psicose paranóide hebefrênica, dementia praecox” , mas que não se desesperasse, pois “nada deixará afetada a capacidade civil” e completa comentando que, o ladrão antes do ocorrido se buscara ajuda no hospício:

”Disse que era são, mas que, vendo a humanidade já enlouquecida, e em vésperas de mais tresloucar-se, inventara a decisão de se internar, voluntário; assim, quando a coisa se varresse de infernal a pior, estaria já garantido ali, com lugar, tratamento e defesa, que à maioria, cá fora, viriam a fazer falta...”

Do topo da palmeira, o homem gritava frases desconexas: “Eu nunca me entendi por gente”; “Vocês me sabem é de mentira!”; “Cão que ladra não é mudo”; “O feio está ficando coisa”; “Querem comer-me ainda verde” e “A vida é impossível!”

Uma confusão geral se formara: a multidão ora cala-se para ouvi-lo ora vibrava. Vêm a polícia, o Diretor, os enfermeiros, o Capelão, o dr. Enéias, o dr. Bilolô

Quando o Diretor anuncia que os bombeiros já estão a caminho, a multidão vaia e chama-o de “demagogo”.

O homem ao escutar a notícia da vinda dos bombeiros, ameaça “vomitar-se” de lá de cima e começa a balançar-se na palmeira.

O Diretor preocupado que o homem saltasse, pega um megafone e tenta comunicar-se com ele: “Excelência!...Excelência!...”, sem obter resposta, passa o megafone ao narrador, que também foi em vão.

Chega o verdadeiro Secretário de Finanças Públicas e desfaz o mal-entendido, afirmando tratar-se de intrigas da oposição.

O ladrão então começa a fazer um grotesco strip-tease, ficando totalmente nu, “in puris naturalibus”. Adalgiso comenta ser um caso de “Síndrome exofrênico de Bleuler”. Na multidão encontravam-se senhoras, velhos, crianças, moças e houve uma grande correria.

O fato atraiu jornalistas, fotógrafos, repórteres e estudantes que trouxeram “invisa bandeira, além do fervor hereditário”, “(...) cantavam inacionais hinos, contagiando a multaturba”.

O Secretário da Justiça e Segurança aproveitou o momento para fazer um discurso político, prometendo tudo que os estudantes reivindicavam e foi aplaudido.

De repente, o homem começa a gritar por socorro. Sua consciência voltara e agora lúcido tinha medo de alturas. Sua fala perde a força e a multidão decepcionada, querem linchá-lo.

“Desprojetava-se, coitado, e tentava agarrar-se, inapto, à Razão Absoluta? Adivinhava isso o desvairar da multidão espaventosa enlouquecida. Contra ele, que, de algum modo, de alguma maravilhosa continuação, de repente nos frustava. Portanto, em baixo, alto bramiam. Feros, ferozes. Ele estava são. Vesânicos, queriam linchá-lo."

Mas, na hora que começa a descer pela escada dos bombeiros, vira-se para a multidão e grita: “Viva a luta! Viva a Liberdade!” levando o povo a vibrar e ele, “nu, Adão, nado, psiquiartista” é carregado nos ombros e levado.

“Ninguém poderia deter ninguém, naquela desordem do povo pelo povo”.

A praça esvazia, resta somente a palmeira-real e o comentário de Sandoval: “Vejo que ainda não vi bem o que vi” e dr. Bilolô completa: “A vida é constante, progressivo desconhecimento”.

Darandina satiriza o cientificismo, a política e o comportamento das pessoas, que são facilmente influenciadas.

O título significa confusão, pressa. O fato de um homem ter subido numa árvore para escapar dos perseguidos, retrata a sua “ascensão”; a caneta roubada simboliza o escritor e a confusão, a escrita.

XIX. Substância:

“ – Você, Maria, quererá, a gente, nós dois, nunca precisar de se separar? Você, comigo, vem e vai?”

Maria Exita trabalha na fazenda do Samburá, de propriedade de Sionésio, o melhor produtor de polvilho da região.

Sua trajetória de vida não foi fácil: a mãe, “mulher da vida”; um irmão assassino preso e outro foragido; o pai, leproso, desaparecera. Nhatiaga, mulher de bom coração, traz Maria Exita para trabalhar na fazenda. No início, receosa, pois temia que o patrão não fosse aceitá-la. Todos a evitavam: “nela homem nunca tocava”, tinham medo de seus irmãos criminosos, da doença de seu pai e da leviandade de sua mãe.

Maria Exita trabalha quebrando polvilho nas lajes. Não têm folga, nem nos domingos e nem em feriados, mas não reclama, ao contrário, até gosta do que faz.

Sionésio era sisudo, tímido e solitário. Herdara essas terras pobres e tirara o seu sustento delas.

A presença de Maria Exita na fazenda transforma a vida de Sionésio, que antes não tinha nenhum sentido. Ele se apaixona pela moça e passa a visitá-la durante o serviço.

Maria Exita era muito bonita e calada. Desde o dia que Sionésio a viu na festa, não conseguiu esquecê-la.

Um dia Sionésio resolve conversar com Maria Exita e pergunta-lhe: “ – Você tem vontade de confirmar o rumo de sua vida?”. Ela responde: “ – Só se for já.”

Mesmo preocupado com os antecedentes da família de Maria Exita, o seu amor era mais forte; posiciona-se ao seu lado e começa a quebrar o polvilho junto com ela.

Dácio Castro afirma que o nome de Maria Exita, traz a ambigüidade que ela provoca em Sionésio: hesitação e êxtase.

O filósofo Benedito Nunes observa que esta estória gira em torno da “pedra filosofal”, simbolizada pelo trabalho de Maria Exita. Essa pedra “é o arquétipo da transfiguração da alma e do cosmo, redimindo de suas impurezas e imperfeições, limpos de qualquer sujeira.”

Associando ao latim e ao tupi: ex-ita é á saída da pedra. Maria Exita quebrava na pedra a tapioca para conseguir o polvilho.

XX. Tarantão, meu patrão:

“O Velho só se crescia. Supremo sendo, as barbas secas, os históricos dessa voz: e a cara daquele homem, que eu conhecia, que desconhecia.”


João-de-Barros-Diniz-Robertes, era um senhor de idade, irresponsável e sofria de uma doença no intestino incurável.

Vaga-lume, empregado do fazendo, narrador-personagem da estória conta que um dia, o patrão, “já sem o escasso juízo na cabeça”, sela o cavalo e diz que vai pegar o Magrinho, seu sobrinho-neto, que lhe havia aplicado umas injeções e feito uma lavagem intestinal.

Vaga-lume mesmo contra vontade, teve de segui-lo. Amaldiçoava “os muitos parentes, que não queriam seus incômodos e desmandos na cidade”.

Calçando uma bota amarela e outra preta, com o colete abotoado sem paletó, calças sujas e desgastada e um colete enfiado no braço que ele falava que era a sua toalha de enxugar, cavalgava. Sua arma era uma faca de mesa gasta e enferrujada. Dizia que iria matar o Magrinho e ordenava que Vaga-lume voltasse, não o queria envolvido em confusões terríveis.

Durante a sua travessia, no Breberê, um homem mal-encarado, com aparência de criminoso, juntou-se ao grupo, não sem antes o velho tê-lo intimado. Mais adiante, encontrou uma mulher pobre com uma criança e um feixe de lenha. Fez a mulher montar em seu cavalo e Vaga-lume carregar no colo a criança. Outro filho da mulher, o Felpudo, por gratidão, juntou-se ao grupo.

No povoado de M’engano, o Curucutu, primo de Vaga-lume, integra-se ao grupo.

Ao encontrar-se com uma procissão em homenagem a um Santo e ouvindo os fogos de artifício, o velho acha que a festa é em sua homenagem e começa atirar moedas no chão.

Seguiu até a igreja, pedir bênção ao padre e o vizinho do padre que devia alguns favores à família do velho, decide acompanhá-los. E Jiló por ganância, resolve ir também.

Encontraram um bando de ciganos. O cigano Pé-de-Moleque, Gouveia “Barriga Cheia” e o “Corta-Pau”, acompanham-os.

Ainda o grupo vai crescendo gradativamente: o “Bobo”, o Gorro-Pintado...

Vaga-lume orgulha-se da grandeza de seu patrão:

“Me passei para o lado do velho, junto. - ...tapatrão, tapatrão...tarantão...tarantão... – e ele me disse: nada. Seus olhos, o outro grosso azul, certeiros, esses muito se mexiam. Me viu mil, - “Vaga-lume!” – só, só, cá me entendo, só de se relancear o olhar. – “João é João, meu Patrão...”Aí: e – patrapão, tampatrão, tarantão...- cá me entendo. Tarantão, então...- em nome em honra, que se assumiu, já se vê. Bravos! Que na cidade já se ia chegar, maiormente, à estrupida dos nosso cavalos, desbestada.”

Ao chegarem à cidade, foram à casa de Magrinho. Havia muitas pessoas, comemoravam o batizado da filha do Magrinho. Entraram sem medo.

O velho pediu a palavra, falou com eloqüência, porém ninguém entendeu suas palavras, “diz-se que, o que falou, eram baboseiras, nada, idéias já dissolvidas”. Vaga-Lume chorou e todos sed emocionaram.

Os parentes comovidos se abraçaram e o velho ordenou que seus cavaleiros sentassem à mesa comessem e bebessem com ele.

“Com alegrias. Não houve demo. Não houve mortes.”

“O velho parou em suspensão, sozinho em si, apartado mesmo de nós, parece, que. Assaz assim encolhido, em pequenino e tão em claro: quieto como um copo vazio. O caseiro Sô Vicêncio não ia ver, nunca mais, à doidiva, nos escuros da fazenda. Aquele meu esmarte Patrão, com seu trata excelentriste – Iô João-de-Barros-Diniz-Robertes.”

Para o velho, Magrinho simbolizava o demônio, portanto a sua travessia quixotesca era uma verdadeira cruzada.

A semelhança do velho com a personagem D.Quixote, de Cervantes é muito nítida: ambos são “cavaleiros andantes”; são tristes, ridículos em seu modo de vestir e agir; são dotados de grande carisma; ambos têm um acompanhante, Vaga-lume e Sancho Pança; são corteses com as mulheres...

A loucura do velho torna-o espontâneo, autêntico e puro. Com o fim do delírio, trazendo-o ao seu estado “real”, torna-se quieto, encolhido, vazio para continuar existindo.

Tarantão deriva de “atarantado”, que significa “doido”, “atrapalhado”.

XXI. Os cimos:

“Sorria fechado: sorrisos e enigmas, seus. E vinha a vida.”

Narrado em terceira pessoa, esse conto retoma a temática do primeiro, “As Margens da Alegria”, retratando os ritos de travessia do mesmo Menino da primeira estória, agora em sua segunda viagem

Dividida em quatro partes:

I – O Inverso Afastamento:



O menino ia viajar com o tio, de avião, onde estava sendo construída uma grande cidade. Por mais que ele se esforçasse, não consegui sorrir, afinal, era uma viagem de tristeza: sua mãe estava doente. “Por isso o mandavam para fora, decerto por demorados dias, decerto porque era preciso.”

Trazia como acompanhante um bonequinho macaquinho de chapéu vermelho. Mas, sentia remorso de tê-lo ali no bolso: “Devia jogá-lo fora?” Decidiu não maltratar o macaquinho e jogar somente o chapéu fora.

O Menino não consegue dormir, só pensa na mãe:

“Se soubesse que a mãe ia adoecer, teria ficado sempre junto dela. Nem teria brincado.”

II –Aparecimento do Pássaro

A casa era a mesma, mas o Menino não tinha vontade de brincar, nem de passear de jipe, com o Tio.

Calado, sofria e dividia sua amargura com o macaquinho, “um muito velho menino”.

De manhã, avistou um tucano, “em brando batido horizontal. Tão perto!”

III-O trabalho do Pássaro

Todas as manhãs, o Menino esperava o tucano que vinha embelezar a aurora.

Queria saber notícias da mãe, mas tinha medo de perguntar. “A mãe da gente era a Mãe da gente, só: mais nada.”

Restava-lhe a visita matinal do tucano.

Chega o telegrama informando que “a mãe estava bem, sarada!”

Felizes, preparavam para regressar no dia seguinte, mas.....e o tucano?

IV-O Desmedido Momento

Na volta o Menino olhava pela janelinha, via as nuvens e refletia sobre as coisas que ficaram para trás: o tucano, o amanhecer, a casa, o jipe, a poeira, as ofegantes noites.

Quando percebe que se esqueceu o bonequinho macaquinho, fica desesperado e chorou.

Mas, o ajudante do piloto, veio até o Menino e disse: “ – Espia, o que foi que eu achei, para você” – e era, desamarrotado, o chapeuzinho vermelho...”

Não podia imaginar-se sem o macaquinho e chorava desesperadamente. Então, pensou que “(...) ele só passeava por lá, porventura e porvindouro, na outra-parte, aonde as pessoas e as coisas sempre iam e voltavam.”

Então, o Menino sorriu e sonhou estar com a Mãe naquele lugar, vivendo novamente tudo.

Quando o tio anunciou a chegada, o Menino respondeu:

“ – Ah, não. Ainda não...”

“Sorria fechado: sorrisos e enigmas, seus. Vinha a vida.”

“Os cimos” que é anagrama de “Micos” (o menino e o macaquinho) é uma estória de culpa, de fé e aprendizado.

Durante a viagem à cidade que está sendo construída (Brasília), a alegria do Menino é bloqueada pela tristeza da doença da mãe. Sentindo-se sozinho e culpado, o Menino joga o chapéu do macaquinho e o humaniza, transferindo seus sentimentos a ele: “O pobre macaquinho, tão pequeno, sozinho, tão sem mãe”.

Sua tristeza é tão grande, que o leva a não acreditar na doença da mãe e quando parece que tudo estava perdido (nota-se na expressão apreensiva do Tio), aparece o tucano para iluminar e fortalecer a fé do Menino.

A notícia da cura da Mãe, a separação com o tucano, a perda do macaquinho correspondem ao aprendizado através da dor, que o Menino atravessará.

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