domingo, 6 de junho de 2010

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA - JOSÉ SARAMAGO

JOSÉ SARAMAGO



“É preciso deixar de fazer História de Portugal para se começar a fazer a história dos portugueses”. (José Saramago)


As tendências contemporâneas em Portugal assistem a aparição de José Saramago, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1998 e consagrado como “maior milagre da literatura portuguesa do século XX e responsável pelo reconhecimento internacional das letras portuguesas”.

Filho de camponeses, Saramago nasceu na aldeia de Azinhaga, província do Ribatejo. Mudou-se com a família para Lisboa, onde estudou somente até o nível secundário. Em virtude das dificuldades econômicas da família, o autor exerceu diversas profissões humildes até tornar-se jornalista autoditada e escritor.
Do campo para as fábricas e depois à redação jornalística, Saramago desde 1976, vive exclusivamente da carreira literária.
Ideologicamente, esquerdista defende as classes oprimidas, a “arraia-miúda”, que conhece muito bem.
Além do romance, desenvolveu a poesia e o teatro.
A diversidade linguística encontrada em sua obra reflete as diferentes camadas sociais e suas origens.
Alguns críticos relacionam a obra de Saramago com o estilo Barroco; porém com A jangada de pedra e em Ensaios sobre a cegueira, encontramos características surrealistas e aproximação com o realismo fantástico, onde longe de apontar soluções, o pós-modernismo nos faz refletir criticamente sobre o passado e o presente.

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA (1995)

“Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso”, disse o escritor José Saramago, por ocasião da apresentação pública do seu romance “Ensaio sobre a Cegueira”.

"Para mim o mundo é uma espécie de enigma constantemente renovado. Cada vez que o olho estou sempre a ver as coisas pela primeira vez. O mundo tem muito mais para me dizer do que aquilo que sou capaz de entender. Daí que me tenha de abrir a um entendimento sem baías, de forma que tudo caiba nele."

José Saramago, O Jornal, Janeiro de 1983.

“Essa obra vem representar a literatura européia contemporânea em língua portuguesa. Livro de 1995 em que o autor José Saramago também constrói uma forma metafórica ou alegórica de mostrar o avesso da condição humana. Vale-se da imagem da cegueira para denunciar o homem ao próprio homem. Por isso o texto chega a ser assustador. Como ele mesmo diz o livro é duro e carrega o sofrimento do começo ao fim. Portanto, torna-se fundamental essa forma de retomada, no século XX, de uma reflexão já presente no século XVIII (das luzes!) no pensamento estético de Denis Diderot.” (FGV-Direito/2008)

“Ensaio sobre a cegueira” não contraria a proposta pós-moderna, uma vez que o pós-modernismo, dada a sua característica de atuar dentro dos sistemas que subverte, não constrói paradigmas. Não há um modelo pós-moderno a ser seguido e sim um conjunto de estratégias mais ou menos frequentes que sugerem o que se convencionou chamar pós-modernismo.

No entanto, o pós-modernismo defende a capacidade de desvendar o mundo e reconhece que os instrumentos artísticos representam essa arma de poder; porém, paradoxalmente, não nos dá o caminho e sim, o problema, a reflexão.

A coletividade, a multiplicidade de vozes, a diversidade de identidades e o discurso intertextual, são características da pluralidade da obra do pós-modernismo.

“Ensaio sobre a cegueira” é obra que apresenta dificuldades de ser lida não apenas pelo seu conteúdo filosófico, mas pelo estilo de José Saramago: as falas entre vírgulas forçam o leitor a um verdadeiro mergulho em suas idéias, pois é impossível parar em meio às idéias do autor. A desconstrução do tempo linear em suas idas e vindas nas memórias das personagens, as características únicas, a mesquinhez presente evocam a reflexão sobre os valores que cada um de nós tem da vida, da moral, dos costumes e até mesmo do que nos é caro.

Uma “treva branca”, se espalhando pela cidade, torna cegas todas às pessoas, mas o autor se impõe às vésperas de um milênio sombrio, “a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam.” A cegueira branca é o ponto de partida para a desintegração da vida humana remetendo todos a uma desorganização estrutural e afetiva, desembocando numa total alienação do homem em relação a si próprio.

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”, uma epígrafe muito bem elaborada, para uma obra que nos faz enxergar e repensar a própria humanidade.

Dessa forma, o autor faz um questionamento entre as atitudes do “olhar” como percepção visual e “ver” como reflexão e investigação introspectiva que nos apresenta à vista. Enquanto que, reparar é desprender-se da artificialidade e mergulhar-se no interior humano em busca de autoconhecimento.

Através dessa obra, ele revela o nosso ponto de ofuscamento maior. Nós não percebemos que as imagens nos cegam. Nós não vemos que elas não nos permitem ver o que acontece conosco.

Marc Augé define muito bem a questão de espaços e de “não-lugar”; para ele, “os espaços em que vivemos carecem de uma reavaliação, pois vivemos num mundo que ainda não aprendemos a olhar” É impossível não relacionar a analogia do antropólogo e a epígrafe escolhida por Saramago.

O livro é de temática assustadora, pois reflete o retrato tão contundente da existência humana.

Logo de início, somos surpreendidos por um grito de um personagem: “Estou cego”, e com um ritmo acelerado, evitando pontuações e apropriando-se de um discurso corrente, vão desfilando cenas com uma rapidez incrível, que o leitor acaba mergulhando na narrativa e acompanhando-a com a mesma velocidade.

De uma maneira “surreal”, vão-se cegando outros personagens inexplicavelmente. O leitor absolvido pela barbárie que se instalara no local e acompanhando os acontecimentos com a mesma rapidez que é narrada deixam de notar a ausência das marcas usuais da historicidade do romance (tempo, espaço e identidade).

Na obra não há referência temporal que nos permite relacionar o seu contexto histórico; não identifica o espaço físico que ocorre a narrativa e mantém seus personagens no anonimato, rotulando-os por outros meios (profissão, parentesco e traços físicos) como: “a mulher do médico”, “o homem da venda preta”, “a rapariga dos óculos escuros”, “o cão das lágrimas” etc.

Ao desconstruir as referências de herança, raça e identidade das personagens deixam implícita a “travessia” que terão de seguir: a descoberta dolorosa do eu e do outro.

Ao eliminar os fatores espaço-temporal da obra, o autor além de universalizar à temática, faz dela um espelho e convida-nos a uma reflexão sobre o mundo e a história da humanidade.

Perante essa situação aterrorizante, temendo tratar-se de uma epidemia, as autoridades governamentais, decidem afastá-los do “mundo civilizado” e inseri-los num manicômio.

“A palavra Atenção foi pronunciada três vezes, depois a voz começou, O Governo lamenta ter sido forçado a exercer energicamente o que considera ser seu direito e seu dever, proteger por todos os meios as populações na crise que estamos a atravessar, quando parece verificar-se algo de semelhante a um surto epidêmico de cegueira, provisoriamente designado por mal-branco, e desejaria poder contar com o civismo e a colaboração de todos os cidadãos para estancar a propagação do contágio, supondo que de um contágio se trata, supondo que não estaremos apenas perante uma série de coincidências por enquanto inexplicáveis. A decisão de reunir num mesmo lugar as pessoas afectadas, e, em local próximo, mas separado, as que com elas tiveram algum tipo de contato, não foi tomada sem séria ponderação. O Governo está perfeitamente consciente das suas responsabilidades e espera que aqueles a quem esta mensagem se dirige assuma também, como cumpridores cidadãos que devem ser, as responsabilidades que lhe competem , pensando que o isolamento em que agora se encontram representará, acima de quaisquer outras considerações pessoais, um acto de solidariedade para com o resto da comunidade nacional. Dito isto, pedimos a atenção de todos para as instruções que se seguem, primeira, as luzes manter-se-ão sempre acesas, será inútil qualquer tentativa de manipular os interruptores, não funcionam, segundo, abandonar o edifício sem autorização significará morte imediata, terceiro, em cada camarata existe um telefone que só poderá ser utilizado para requisitar ao exterior a reposição de produtos de higiene e limpeza, quarto, os internados lavaram manualmente as suas roupas, quinto, recomenda-se a eleição de responsáveis de camarata, trata-se de uma recomendação, não de uma ordem, os internados organizar-se-ão como melhor entenderem, desde que cumpram as regras anteriores e as que seguidamente continuamos a enunciar, sexto, três vezes ao dia serão depositadas caixas de comida na porta da entrada, à direita e à esquerda, destinadas, respectivamente, aos pacientes e aos suspeitos de contágio, sete, todos os restos deverão ser queimados, considerando-se restos para este efeito, além de qualquer comida sobrante, as caixas, os pratos e os talheres, que estão fabricados de materiais combustíveis, oitavo, a queima deverá ser efectuada nos pátios interiores do edifício ou na cerca, nono, os internados serão responsáveis por todas as conseqüências negativas dessas queimas, décimo, em caso de incêndio, seja ele fortuito ou intencional, os bombeiros não intervirão, décimo primeiro, igualmente não deverão os internados contar com nenhum tipo de intervenção do exterior na hipótese de virem a verificar-se doenças entre eles, assim como a ocorrência de desordens ou agressões, décimo segundo, em caso de morte, seja qual for a sua causa, os internados enterrarão sem formalidades o cadáver na cerca, décimo terceiro, a comunicação entre a ala dos pacientes e a ala dos suspeitos de contágio far-se-á pelo corpo central do edifício, o mesmo por onde entraram, décimo quarto, os suspeitos de contágio que vierem a cegar transitarão imediatamente para a ala dos que já estão cegos, décimo quinto, esta comunicação será repetida todos os dias, a esta mesma hora, para conhecimento de novos ingressados. O Governo e a Nação esperam que cada um cumpra o seu dever. Boas noites.” (ESC, 51)

Confinados em um espaço limitado (um manicômio), “uma multidão de cegos precisará aprender a viver de novo, em quarentona”.

“Só num mundo de cegos as coisas serão o que verdadeiramente são”, Arthur Nestrovski. E de fato, o que se verá é uma redução da humanidade às necessidades e afetos mais básicos, um progressivo obscurecimento e correspondente iluminação das qualidades e dos terrores do homem (e das mulheres também, de maneira especial).

No manicômio os cegos vivem em condições não humanas e o autor nos guia para a desorganização e a superação dos valores mais básicos da sociedade, transformando suas personagens em animais egoístas na luta pela sobrevivência.

O manicômio ganha uma grande importância na narrativa, pois simboliza o poder e órgão regulador dos cegos.

Os cegos são expostos ao esquecimento e controlados através de um alto-falante que dita às ordens e regras do Governo.

A cegueira individual torna-se uma cegueira social no sentido em que os cegos submetem-se ao poder governamental e calam-se perante a essa imposição, restando-lhes somente à submissão e a luta pela sobrevivência.

Vive-se apenas o momento presente, a sobrevivência pura e simples, e não uma vida maior que ultrapassa o contexto inicial onde eles foram colocados.

Todos acabam inicialmente vivendo uma consciência sem ética e sem moral apenas direcionada para o aqui e agora.

O autor, no entanto, através da Arte propõe novas alternativas. Sendo um comunista convicto, ele não se deixa enganar pela beleza aparente do modelo capitalista. Ele identifica a sua essência, onde tudo vira mercadoria, onde tudo é produto de troca.

No entanto, entre tantos cegos presos, existe uma mulher que ainda consegue enxergar, trata-se da “mulher do médico”.

“Tenho de abrir os olhos, pensou a mulher do médico. Através das pálpebras fechadas, quando por várias vezes acordou durante a noite, percebera a mortiça claridade das lâmpadas que mal iluminavam a camarata, mas agora parecia-lhe ser o efeito do primeiro lusco-fusco da madrugada, poderia ser o mar de leite a afogar-lhe os olhos. (...) Não estou cega...”(ESC, 63)

De início, percebe-se a preocupação das personagens em desmascararem a sua identidade perante o outro, temendo muito mais a revelação do que realmente são do que a sensação de impotência causada pela cegueira. Com o tempo as máscaras deixam de ser necessárias, “(...) O mundo está todos aqui dentro” (ESC, 102) e ocorre uma desintegração da identidade particular para uma relação com o meio, restando apenas à maneira como as pessoas viviam através de suas descrições das casas, dos utensílios e das roupas.

Os nomes, as classes sociais, as ideologias, enfim, as vidas particulares, tomam outro rumo: é preciso aprender a viver de novo.

“Tão longe estamos do mundo que não tarda que comecemos a não saber quem somos, nem nos lembrarmos sequer de dizer-nos como nos chamamos, e para quê, para que iriam servir-nos os nomes, nenhum cão reconhece outro cão, ou se lhe dá a conhecer, pelos nomes que lhes foram postos, é pelo cheiro que identifica e se dá a identificar, nós aqui somos como uma outra raça de cães, conhecemo-nos pelo ladrar, pelo falar, o resto, feições, cor dos olhos, da pele, do cabelo, não conta, é como se não existisse, eu ainda vejo, mas até quando.” (ESC, 64)

As personagens passam a viver um “desmundo”, a única referência que lhe resta é o passado do qual as personagens se recordam e que representam o conjunto de atitudes e valores que incorporaram antes da cegueira, levando-as refletirem, acerca do seu significado. Sob esse aspecto o passado e o presente são julgados um à luz do outro.

Outro fator importante de ser notado é que, a cegueira branca é descentralizadora: não escolhe cor, raça, gênero e nem classe social.

“Aqui não há só gente discreta e bem-educada (...) por isto a atmosfera vai se tornando cada vez mais pesada...” (ESC, 99)

Dessa forma, a obra de Saramago critica os valores sociais, mostrando-os frágeis, pois onde ninguém vê, teoricamente nada aparece, elucidando que os valores, sejam morais ou materiais, são atribuições que homem faz. Neste contexto, a obra mostra desde aventuras sexuais, o pudor, que já não existe porque não é visto, até a imundície que se instala por toda a cidade.

Ao organizar-se como um grupo, terão de enfrentar outro desafio: a diversidade cultural e de identidade de cada um. Perante o caos que se estabelece (falta de comida, condição higiênica precária, doenças) reduz a convivência social a um estado de barbárie e regras são quebradas, pois ninguém mais vê quem está agindo errado; os mais fortes abusam do poder; e o instinto de sobrevivência vai tomando conta das personagens.

“(...) De pé, a mulher do médico olhava para os dois cegos que discutiam, notou que não faziam gesto, que quase não moviam o corpo, depressa haviam aprendido que só a voz e o ouvido tinham agora alguma utilidade, é certo que não lhes faltavam braços, que podiam brigar, lutar, vir às mãos, como se costuma dizer, mas uma cama trocada não valia tanto, todos os enganos da vida fossem como este, bastava que se pusessem de acordo. A dois é a minha, a três é a sua, que fique entendido de uma vez para sempre. Se não fôssemos cegos, este engano não teria acontecido, Tem razão, o mal é sermos cegos.”(ESC, 102)

“Já lá dizia o outro que na terra dos cegos quem tem um olho é rei, Deixa lá o outro, Este não é o mesmo, Aqui nem o zarolhos se salvariam.” (ESC, 103)

Diante das discórdias e das diferenças pessoais, a mulher do médico concluiu que a única escapatória era construir novos parâmetros para a identidade e a relação.

Assim, já não se pode mais pensar o “eu individual” sem a figura do “outro coletivo”.

Com a chegada do velho da venda preta, os internados terão notícias do mundo exterior através do relato do velho e do rádio de pilhas que carrega.

A música causou saudosismo e a melancolia abateu a todos. As notícias e as informações sobre as atitudes impensadas de quem está no poder tentando isolar o problema ao invés de solucioná-lo, trouxe mais desespero e desesperança ao grupo.

“O medo lá fora é tal que não tarda que comecem a matar as pessoas quando perceberem que elas cegaram.” (ESC, 120)

O velho da venda preta narra como e quando ficou cego:

“Tinha ido ao museu, era uma seara (quadro) com corvos e ciprestes e um sol que dava a idéia de ter sido feito com bocados doutros sóis. Isso tem todo o aspecto de ser de um holandês, Creio que sim, mas havia também um cão a afundar-se, já estava meio enterrado, o infeliz, Quanto a esse, só pode ser de um espanhol, antes dele ninguém tinha pintado assim um cão, depois dele ninguém mais se atreveu, Provavelmente, e havia uma carroça carregada de feno, puxada por cavalos, a atravessar uma ribeira, Tinha uma casa à esquerda, Sim, Então é de inglês, Poderia ser, mas não creio, porque havia lá também uma mulher é do mais que se vê em pintura, De facto, tenho reparado, O que eu não entendo é como poderiam encontrar-se em um único quadro pinturas tão diferentes e de tão diferentes pintores (...)” (ESC, 130)

As saudades e a consciência que estavam separados, ou melhor, isolados do mundo exterior leva o grupo a repensar em seu “mundo atual” e o seu “eu individual” passa a ser um dos elementos da “identidade partilhada”, transformando as personagens através da “desidentificação inicial”.

O velho da venda preta representa a sabedoria, a cultura e a experiência. A venda que utiliza oculta parte de seu rosto simbolizando o seu desprendimento com a aparência física automaticamente levando-o a sua interioridade.

Nota-se que até o ladrão de carros durante a sua agonia, “aprende a ver”:

“Assombrava-o o espírito lógico que estava descobrindo na sua pessoa e o acerto dos raciocínios, via-se a si mesmo diferente (...) estaria disposto a jurar que nunca em toda a sua vida se sentira tão bem.” (ESC, 79)

As cenas chocantes que se seguem na narrativa: os roubos, os estupros e as mortes revoltam o leitor diante da frieza dos cegos das outras camaratas, cada qual envolvido com a sua própria subsistência, fazendo uso da comida como instrumento de poder.

Nessa altura do livro emergem os sujeitos que são os verdadeiros representantes do modelo capitalista atual: cegos malvados, ladrões, que pensam apenas no próprio gozo. O que vale para eles é o seu próprio gozo. As pessoas são utilizadas para satisfazê-los ao máximo. Das jóias aos pertences pessoais, às mulheres como meros produtos de troca. O que interessa é apenas o seu gozo, caracterizando a lógica implacável do sistema onde apenas o objeto importa.

“Quietos todos aí, e calados, se alguém se atreve a levantar a voz, faço fogo a direito, sofra quem sofrer, depois não se queixem. Os cegos não se mexeram. O da pistola continuou, Está dito e não há volta atrás, a partir de hoje seremos nós a governar a comida, ficam todos avisados, e que ninguém tenha a idéia de ir lá fora buscá-la, vamos pôr guardas nesta entrada, sofrerão as conseqüências de qualquer tentativa de ir contra as ordens, a comida passa a ser vendida, quem quiser comer, paga...” (ESC, 140)

“Passada uma semana, os cegos malvados mandaram recado de que queriam mulheres. Assim, simplesmente, Tragam-nos mulheres.” (ESC, 165)

A situação torna-se insuportável: a sujeira, a fome, a humilhação, levando a mulher do médico a matar o chefe da camarata dos cegos oportunistas e malvados.

“Não chegarás a gozar, pensou a mulher do médico, e fez descer violentamente o braço. A tesoura enterrou-se com toda a força na garganta do cego...” (ESC, 185)

Neste momento a mulher do médico percebe que ela não pode mais se deixar iludir em função da aparência externa de humanidade. O “outro” é um inimigo que é preciso destruir, porque caso contrário, ele os atacará e matará.

A fome matava todos os dias e sem saída, decidem invadir e lutar contra os cegos da outra camarata.

“Vamos lá, tornou a dizer o velho da venda preta, vamos ao que estava decidido, ou é isso, ou ficamos condenados a uma morte lenta, Alguns morrerão mais depressa se formos, disse o primeiro cego, Quem vai morrer, está já morto e não o sabe, Que temos de morrer, sabemo-lo desde que nascemos, Por isso, de uma certa maneira, é como se já tivéssemos nascido mortos.” (ESC, 197)

Neste mundo, não há homens e mulheres. Apenas um uso da sexualidade que a torna mais um objeto que se pode ter à mão. Como os cegos malvados que obrigam as mulheres a se prostituírem para dar alimentos aos demais. O que revela que eles não apresentam nenhuma preocupação com o “outro”. Eles se voltam apenas sobre si mesmos, numa atuação sem ética ou qualquer respeito.

Saramago identifica é que há um olhar prévio que se antepõem aos sujeitos na sociedade atual. Um olhar que transforma tudo em coisa. Que visa o gozo máximo das pessoas, não se importando se isto possa destruí-las ou aos demais. Um olhar que Lacan e Jacques-Allain Miller denominaram o “outro” que não existe. Um olhar onde apenas o gozo do sujeito importa. O “outro” é deixado de fora. O “outro” é considerado apenas mais um objeto para consumo.

O ladrão que rouba o primeiro sujeito cego possibilita fazer a passagem para um processo de constituição do sujeito. É preciso que haja além do reconhecimento do sujeito, o reconhecimento do “outro”, para que o processo se complete. E em nenhum momento o ladrão se questiona pelo fato de ter roubado o carro do outro. O que o move é somente a acusação de que o “outro” o cegou. Ele pode apenas perceber o impacto das ações do “outro” nele, e não o efeito das suas ações no “outro”.

Isto porque ele já havia estabelecido uma relação prévia com o “outro”, onde ele o excluía; pois, o que lhe importava era apenas o seu gozo. Foi só através da atuação da prostituta que lhe ocasiona um ferimento mortal, que o leva a refletir melhor a respeito das suas ações. Com a introdução da estrutura da linguagem é possível os sujeitos perceberem que aquilo que acontece com o outro hoje, pode nos atingir amanhã. Tal como o primeiro movimento de humanização dos militares. Onde a relação EU/Outro passa a ter uma importância cada vez maior. O que o outro sente, eu posso sentir, o que ele está passando hoje, eu posso passar a amanhã. Uma concepção de Eu/Outro que é ainda bastante simplificada, que revela apenas as semelhanças entre os sujeitos, como se todos fossem iguais a mim.

Com isto, não há uma verdadeira relação entre os sujeitos. Os produtos, as mercadorias é que serão a tônica, a lógica do sistema tal como no caso dos cegos malvados ou dos militares. O que revela a predominância do circuito de mercadorias onde não existem sujeitos, apenas consumidores, transformados em novos objetos, passíveis de serem trocados entre si. A partir daí, revela-se o momento em que o homem torna-se o lobo do próprio homem e os homens passam a comer os demais, a torná-los objetos, que podem e devem satisfazê-los ao máximo.

Não haverá apenas a fome, mas esta terá que passar pelo crivo da cultura, como a mulher do médico que se recusa a se prostituir por um prato de comida.

Os olhos não se tornam mais objetos preciosos, mercadorias para serem postas à venda, uma vez que ninguém tem olhos que funcionam.

Mais mortes ocorrem e a última tentativa de sobrevivência, é através da fuga. A mulher do médico, então, incendeia a camarata dos cegos maldosos.

“A estas alturas já os outros cegos estão a fugir espavoridos para os corredores cheios de fumo. Há fogo, há fogo, gritam, e aqui se pode observar ao vivo como têm sido mal pensados e organizados estes ajuntamentos humanos de asilo, hospital e manicômio (...) lhes tapa a saída, não escapa ninguém, Felizmente, como a história humana tem mostrado, não é raro que uma coisa má traga consigo uma coisa boa...” (ESC, 207)

Destruir aqueles que nos atacam, torna-se o seu lema básico. Ela mata alguns dos cegos malvados, se vingando da situação a que as mulheres foram expostas: o estupro por alguns alimentos.

Para ela a humanidade emerge agora atrelada a uma nova ética, a luta pela manutenção da dignidade, onde não se pode aceitar qualquer coisa.

Com isto, há a perda da inocência. O ser humano não é mais concebido de uma forma ideal. Será preciso primeiro saber como ele age, para que determinadas medidas sejam tomadas em relação às suas ações.

Fora do manicômio (o médico, a mulher do médico, o velho com a venda no olho, a rapariga de óculos escuros, o menino estrábico, o primeiro cego, sua esposa e agora um cão, “o cão das lágrimas” que se junta ao grupo) enfrentam novos desafios. A cegueira branca havia dominado o local e as pessoas invadiam lojas, supermercados e casas na tentativa de conseguirem comida. Não havia mais luz, água, gás, autoridades, bancos, enfim o “mundo civilizado” tornara-se um “locus horrendus”.

“Como está o mundo, tinha perguntado o velho da venda preta, e a mulher do médico respondeu, Não há diferença entre o fora e o dentro, entre o cá e o lá, entre os poucos e os muitos, entre o que vivemos e o que teremos de viver, E as pessoas, como vão, perguntou a rapariga dos óculos escuros, Vão como fantasmas, ser fantasma deve ser isto, ter a certeza de que a vida existe, porque quatro sentidos o dizem, e não a poder ver...”

Os cegos ao vagarem pelas ruas da cidade discutem sobre a necessidade de reorganização, “organizar-se já é de certa maneira, começar a ter olhos” (p.282) como forma de conscientização, no entanto, essa possibilidade logo é desfeita vista à degradação que estão submetidos.

A inutilidade da memória e do que conheciam como “mundo”, são depreendidas pelo narrador quando reflete sobre: “(...) não há comparação entre viver num labirinto racional, como é, por definição, um manicômio, e aventurar-se, sem mão de guia nem trela de cão, no labirinto dementado da cidade, onde a memória para nada servirá, pois apenas será capaz de mostrar a imagem dos lugares e não os caminhos para lá chegar.” (ESC, 211).

A mulher do médico por ser a única que podia ver não se sentia afortunada, pois muitas vezes tinha que ver o que não queria. Como foi o episódio dos cachorros que devoravam o cadáver de um homem na rua.

Dessa forma, sabia se era abençoada ou amaldiçoada por enxergar em terra de cegos.

“Devia ter morrido há pouco tempo, os membros não estão rígidos, nota-se quando os cães os sacodem para arrancar ao osso a carne filada pelos dentes. Um corvo saltita à procura de uma aberta para chegar-se também à pitança...” (ESC, 251)

Decidem encontrar suas casas, buscar suas raízes e seu passado.

A casa da rapariga de óculos escuros tinha sido saqueada pela velha do andar térreo e não tinham notícias de sua família; a do velho da venda nos olhos, era um quarto alugado que não serviria de moradia ao grupo; a do rapazinho estrábico não tinha referência nenhuma; então, tentaram a do médico e da mulher do médico.

Ela estava disponível e lá se ajeitam como podem.

“Foi portanto a uma espécie de paraíso que chegaram os sete peregrinos, e tão forte foi esta impressão, a que, sem demasiada, ofensa do rigor do termo, poderíamos chamar transcendental, que se detiveram à entrada, como tolhidos pelo inesperado cheiro da casa, e era simplesmente o cheiro duma casa fechada...” (ESC, 257)

Chove e talvez o único episódio de beleza que aconteceu na história terrível da cidade é quando as três mulheres nuas lavam-se em plena varanda:

“(...) exposta aos reparos da vizinhança, menos ainda naquela figura, que importa que todos estamos cegos, são coisas que não se devem fazer, meu Deus, como vai escorrendo a chuva por elas abaixo, como desce entre os seios, como se demora e perde na escuridão do púbis, como enfim alaga e rodeia as coxas (...) talvez não sejamos é capazes de ver o que de mais belo e glorioso aconteceu alguma vez na história da cidade, cai do chão da varanda uma toalha de espuma, quem me dera ir com ela, caindo interminavelmente, limpo, purificado, nu.” (ESC, 266)

Podem viver situações como tomar banho de chuva sem roupas no terraço do apartamento. Os olhos que observam são apenas aqueles da própria pessoa, ou daqueles que se deixaram contagiar por este novo olhar, como o do velho.

Assim, os objetos vão perdendo a sua importância. Redefine-se a posse dos objetos. Eles passam a ser comunais. Cada um pode ficar na casa do outro ou ceder a sua própria casa ao outro.

A importância desta passagem na obra traduz a inclusão. Uma inclusão do “outro” da diferença, onde os produtos podem ser novamente trocados.

A água vira um artigo de luxo, que se cede aos amigos. As roupas podem ser trocadas entre si e os objetos perdem suas importâncias dando espaços para os sujeitos com os quais estão interagindo.

Em seguida, os homens foram se lavar. O velho da venda opta por lavar-se na casa de banho e a mulher do médico oferece-lhe ajuda. O velho retruca dizendo que não havia necessidade, afinal, ele deve servir para alguma coisa e completa com o ditado: “O trabalho do velho é pouco, mas quem o despreza é louco, Este ditado não é assim, Bem sei, onde eu disse velho, é menino, onde eu disse despreza, é desdenha, mas os ditados, se quiserem ir dizendo o mesmo por ser preciso continuar a dizê-lo, têm de adaptar-se aos tempos, És um filósofo, Que idéia, só sou um velho.” (ESC, 269)

Durante o banho do velho da venda preta, uma mão carinhosa esfrega suas costas, “(...) que iam recolher-lhe a espuma dos braços, do peito também, e depois lha espalhavam pelo dorso, devagar, como se, não podendo ver o que faziam, mais atenção tivessem de dar ao trabalho. Quis perguntar, Quem és, mas a língua travou-se-lhe, não foi capaz...” (ESC, 270)

A prostituta será uma das primeiras a adquirir novamente o olhar de desejo. Um olhar que, desde o início, irá posicioná-la em busca da sua singularidade, não se deixando enganar pela cegueira rasa das emoções. Com isto, se consolida a emergência de um novo olhar e dos novos olhos: os olhos interiores.

O primeiro cego e sua esposa pedem a mulher do médico que os acompanhe até a sua antiga casa. Lá, encontram um homem educado e culto. Tinha invadido aquela casa depois de ter tido à sua invadida. Morava com a esposa e duas filhas e era um escritor.

“Como se chama, Os cegos não precisam de nome, eu sou esta voz que tenho, o resto não é importante, Mas escreveu livros, e esses livros levam o seu nome, disse a mulher do médico, Agora ninguém os pode ler, portanto é como se não existissem.” (ESC, 275)

Os proprietários da casa, contam que estiveram presos no manicômio, de quarentona e o escritor pede que lhe relate tudo o que lá ocorreu “(...) Porquê, Sou escritor, Era preciso ter lá estado, Um escritor é como outra pessoa qualquer, não pode saber tudo nem pode viver tudo, tem de perguntar e imaginar, Um dia talvez lhe conte como foi aquilo, poderá depois escrever um livro, Estou a escrevê-lo, Como, se está cego, Os cegos também podem escrever.”

O escritor mostra o rascunho de sua obra e a mulher do médico, olhando a folha de papel, vê as “linhas muito apertadas, sobrepostas em um e outro pontos.”

“(...) Desculpe-me, de repente parece-me ridículo tudo o que tenho andado a escrever desde que nós cegamos, a minha família e eu, Sobre que é, Sobre o que sofremos, sobre a nossa vida.”

É importante notar que o escritor, embora cego, continua a exercer a sua profissão, revelando-nos a importância da escrita como forma de eternizar a memória e conscientizar o ser humano. Dessa forma, Saramago revela a preocupação com a trajetória humana através da sua história e memória.

A mulher do médico conta-lhe que ainda vê e “pegou nas folhas escritas, umas vinte seriam, passou os olhos pela caligrafia miúda, pelas linhas que subiam e desciam, pelas palavras inscritas na brancura do papel, gravadas na cegueira, Estou de passagem, dissera o escritor, e estes eram os sinais que ia deixando ao passar, (...) Não se perca, não se deixe perder, disse, e eram palavras inesperadas, enigmáticas, não parecia que viessem a propósito.” (ESC, 279)

Passados alguns dias, foram visitar o consultório do médico. Durante o caminho, observando o caos que se instalara no local, refletem se as pessoas não deveriam organizar-se: “(...) Um governo, disse a mulher, Uma organização, o corpo também é um sistema organizado, está vivo enquanto se mantém organizado, e a morte não é mais do que o efeito de uma desorganização ...(...) Eu acho que vamos morrer todos, é uma questão de tempo, Morrer sempre foi uma questão de tempo, disse o médico. Mas morrer só porque se está cego, não deve haver pior maneira de morrer, Morremos de doenças, de acidentes, de acasos, E agora morreremos também porque estamos cegos(...) Não somos imortais, não podemos escarpar à morte, mas ao menos nos devíamos não ser cegos, disse a mulher do médico, Como, se esta cegueira é concreta e real, disse o médico, Não tenho certeza, disse a mulher, Nem eu, disse a rapariga dos óculos escuros.” (ESC, 282)

Encontraram tudo remexido, com certeza devem ter sido os homens do ministério.

A mulher do médico consola-o afirmando que “(...) O único milagre que podemos fazer será o de continuar a viver, disse a mulher, amparar a fragilidade da vida um dia após outro dia, como se fosse ela a cega, a que não sabe para onde ir, e talvez assim seja, talvez ela realmente não o saiba (...) Falas como se também tu estivesses cega, disse a rapariga dos óculos escuros, De uma certa maneira, é verdade, estou cega da vossa cegueira, talvez pudesse começar a ver melhor se fôssemos mais os que vêem.” (ESC, 283)

No caminho de volta, encontraram um grupo que proclamava o fim do mundo e a mulher do médico acrescenta que “aqui não há ninguém a falar de organização”

De passagem na casa da rapariga de óculos escuros, encontram a velha do primeiro andar morta na porta do prédio, com as chaves da casa da rapariga nas mãos.

A rapariga gostaria de deixar um sinal qualquer aos seus pais, caso eles voltasse, saberiam que ela estava viva. Então, a mulher do médico, sugeriu-lhe que cortasse os seus cabelos e deixasse dependurado uma mexa na maçaneta da porta.

À noite, após da rala refeição, a mulher do médico lê para o grupo.

“Quando a leitura terminou, noite dentro, o velho da venda preta disse, A isto estamos reduzidos, a ouvir ler... (Enquanto puder, disse a rapariga dos óculos escuros, manterei a esperança, a esperança de vir a encontrar os meus pais, a esperança de que a mãe deste rapaz apareça, Esqueceste-te de falar da esperança de todos, Qual, A de recuperar a vista, Há esperanças que é loucura ter, Pois eu digo-te que se não fossem essas já eu teria desistido da vida, (...) O outro exemplo de esperança que me recusei a dar era esse, Esse, qual, A última auto-recriminação da minha lista(...) O monstruoso desejo de que não venhamos a recuperar a vista, Porquê, Para continuarmos a viver assim, Quer dizer, todos juntos, ou tu comigo(...) Eu contigo(...)Custou assim tanto a fazer a declaração de amor, Na minha idade, o ridículo mete medo...” (ESC, 291)

A partir desse momento passaram a viver juntos, “como um casal, e juntos continuaremos a viver se tivermos de nos separar dos nossos amigos, dois cegos devem poder ver mais do que um...” (ESC, 291)

“Quanto ao que aconteceu na sala, tudo indica que nesta primeira noite terá ficado finalmente esclarecido o caso da mão misteriosa que lavou as costas do velho da venda preta naquela manhã em que correram tantas águas, todas elas lustrais.” (ESC, 292)

No dia seguinte o médico e a sua mulher saem em busca de comida. Retornam ao armazém subterrâneo do supermercado, o mesmo do primeiro dia. No trajeto se deparam com outro grupo fazendo discurso e dissertando sobre os “princípios dos grandes sistemas organizados, a propriedade privada, o livre câmbio, o mercado, a bolsa, a taxação fiscal...”aqui fala-se de organização, disse a mulher do médico ao marido, Já reparei, respondeu ele, e calou-se.”

Ao abrir a porta que dava acesso ao corredor que ligava ao armazém da cave, “(...) saturado do fedor da putrefação, o ar parecia pastoso”, (...) devem ter dado com a cave, precipitaram-se pela escada abaixo à procura de comida, lembro-me de como era fácil escorregar e cair naqueles degraus, e se caiu um caíram todos (...) Mas tu disseste que a porta estava fechada, Fecharam-na com certeza os outros cegos, transformaram a cave num enorme sepulcro, e eu sou a culpada do que aconteceu, quando saí daqui a correr com os sacos suspeitaram de que se tratasse de comido e foram à procura...” (ESC, 298)

Tentando recuperar-se do mal-estar causado pela a cena, a mulher do médico, pede que a leve até uma igreja, “se me pudesse deitar um pouco ficaria como nova, Vamos lá. Entrava-se no templo por seis degraus...” (ESC, 299)

Quando se recuperou, “naquele momento pensou que tinha enlouquecido, ou que desaparecida a vertigem ficara a sofrer de alucinações, não podia ser verdade o que os olhos lhe mostravam, aquele homem pregado na cruz com uma venda branca a tapar-lhe os olhos, e ao lado uma mulher com o coração trespassado por sete espadas e os olhos também tapados...” (...) Não me acreditarás se eu te disser o que tenho diante de mim, todas as imagens da igreja estão com os olhos vendados...”(ESC, 301)

Ao relatar o acontecido ao restante do grupo, “o comentário do velho da venda preta foi assaz diferente, Percebo o choque que te terá causado, estou aqui a pensar numa galeria de museu, as esculturas todas com os olhos tapados...” (ESC, 305)

A igreja com os santos de olhos vendados pode ser caracterizada como um dos momentos poéticos da obra: se os céus não vêem, que ninguém veja, numa alusão velada às idéias do filósofo Friderich Nietzshe, "se deus está morto, então tudo posso".

À noite depois da leitura, a mulher do médico sugere se mudarem para um campo, pois as dificuldades ali chegaram aos extremos. O primeiro cego mantinha seus olhos fechados e pensava “a idéia de irem todos viver para o campo impedia-o de adormecer, parecia-lhe um grave erro afastar-se tanto da sua casa (...) quando de repente o interior das pálpebras se lhe tornou escuro (...) o pavor fê-lo gemer, Que tens, perguntou-lhe a mulher, e ele respondeu estupidamente, sem abrir os olhos, Estou cego(...), Vi tudo escuro, julguei que tinha adormecido, e afinal não, estou acordado(...) abriu os olhos e viu. Viu e gritou. Vejo...” (ESC, 306)

“(...) e o primeiro cego teve a lembrança de dizer à mulher que no dia seguinte iriam a casa.”

O segundo a recuperar a vista foi a rapariga dos óculos escuros, o terceiro foi o médico, “...agora já não podia haver dúvidas, recuperarem-na os outros era só uma questão de tempo...”(ESC, 309)

No dia seguinte, a rapariga dos óculos escuros pede ao velho da venda preta que a acompanhe até a sua casa; a mulher do primeiro cego e seu marido, decidem verificar se o escritor já havia recuperado a sua vista e tivesse partido para a sua casa e o menino estrábico “murmurava, devia de estar metido num sonho, talvez estivesse a ver a mãe...” (ESC, 310)

O médico e sua esposa questionam-se:

“Por que foi que cegamos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.

A mulher do médico levantou-se e foi à janela. Olhou para baixo, para a rua coberta de lixo, para as pessoas que gritavam e cantavam. Depois levantou a cabeça para o céu e viu-o todo branco. Chegou a minha vez, pensou. O medo súbito fê-la baixar os olhos. A cidade ainda ali estava.” (ESC, 310)

Ao final de “Ensaio sobre a cegueira”, o leitor está encantado com a literatura de Saramago e assustado com a dúvida que o autor nos coloca indiretamente. É assim que os homens verdadeiramente são? É preciso que ceguemos todos para que enxerguemos a essência de cada um?

As personagens ao voltarem enxergar ao final da obra não deixaram suas cegueiras funcionais, já que estavam submetidos ao regime do poder, que impõe regras, induz efeitos e garante a reprodução e a manutenção da alienação. Não seria possível, portanto, deixar de estar cego se o poder da verdade não fosse desvinculado das formas de hegemonia.

Afinal, os momentos críticos vividos enquanto estavam sem visão perdem-se da memória por causa da euforia de terem voltado a ver, como um sinal de que a alienação continua presente entre as personagens.


ANÁLISE CRÍTICA LITERÁRIA:

1. A obra analisa a relação do homem com o espaço, a questão da identidade e da coletividade;

2. A utilização da cegueira de forma alegórica representando a crise das sociedades capitalistas do século XX, traçando os limites entre a civilização e o caos;

3. Alerta para o fato de que a organização e a constituição de lugares são uns dos desafios e uma das modalidades das práticas coletivas e individuais;

4. A mulher do médico é uma personagem que além de ser a única que conserva a visão, torna-se uma líder e mantém sua sensibilidade, defendendo seu grupo perante a agressividade dos outros. Essa personagem leva-nos a refletir sobre a moral, os costumes, a ética e o preconceito, pois faz com que a mulher do médico se depare com situações inadmissíveis às pessoas em condições normais. Exposta à sujeira, a uma existência miserável em todos os sentidos, ela mata para preservar a si e aos demais, e se depara com a morte de maneira bizarra após a saída do hospício: os cadáveres se espalham pelas ruas, o fogo fátuo aparece debaixo das portas do armazém onde, dias antes, ela buscou víveres;

5. A luta da mulher do médico para que os cegos da primeira camarata não se entreguem à barbárie não é uma apologia do passado, do “mundo civilizado” que conheciam, mas o contraponto que há de evidenciar os sentimentos, as modulações de sentido, que nortearão as relações entre os cegos a partir da quarentona – a longa jornada do aprendizado da visão (Shirley de Souza Gomes Carreira);

6. O Médico da obra é cego a tudo aquilo que acontece com ele, com os seus próprios pacientes e em relação à cegueira que os atingem. Ao ser apanhado pela cegueira branca, ele também não sabe o que fazer. Ele também não tem resposta, como toda a medicina tradicional. A cegueira branca implanta um novo campo de investigação, que o oftalmologista não se interessa mais em conhecer;

7. A obra encaminha não só as personagens como também o leitor a refletirem sobre as relações entre o individual e o coletivo, pois diante das atitudes dos cegos maldosos, fazendo uso da comida como instrumento de poder, o autor dá atualidade à obra no sentido que esses instintos tão sórdidos que encontramos na ficção são os mesmos que disfarçamos no nosso cotidiano de homens, denominados “civilizados”.

8. Segundo Marx, “a valorização do mundo das coisas aumenta em proporção direta e a desvalorização do mundo dos homens”; assim, através do capitalismo desenfreado transforma o homem em uma mera mercadoria fazendo com que ele perca a sua consciência e se barbarizem.

9. O escritor que invadira à casa do primeiro cego, afirmara: ”Estou de passagem, dissera o escritor, e estes eram os sinais que ia deixando ao passar” e explica que escrevia “Sobre o que sofremos, sobre a nossa vida”, deixando-nos bem claro, a importância e a imortalidade das artes. Esse alter-ego do autor que “inscreve na brancura do papel, gravadas na cegueira” e aconselha a mulher do médico e a nós, leitores “(...) não se perca, não se deixe perder..”Sugerindo uma extensão da epígrafe: Cuidado, veja e não se deixe cegar!

10. A obra apresenta uma circularidade: o primeiro cego foi também o primeiro a voltar a enxergar; mas, não nos apresenta uma saída ou um caminho que devemos seguir. Assim, de maneira indireta, orienta-nos a traçarmos individualmente nossa travessia, porém construída através de um novo pensar coletivo.

11. Como numa obra de arte, onde o passado e o presente fundem-se e as estratégias inovadoras e passadistas se entrelaçam durante a criação, Saramago nos convida a repensar o mundo em que vivemos e recriá-lo;

12. Interessante é perceber que a cegueira que afeta a população é branca, portanto ao invés de atirar na escuridão as pessoas que a contraem, leva-as a iluminação e a revelação;

13. O antagonismo entre a desumanização (o caos, a barbárie estabelecida) e a humanização (a cumplicidade, a solidariedade e a compaixão);

14. Segundo Freud em “O mal-estar na civilização”, “o fato de que se combinem indivíduos isolados, depois famílias, raças e povos numa grande unidade, representa um grande esforço da humanidade, pois, em nome da conjunção, da civilização, ela tem de reprimir seu instinto latente de destruição”;

15. Através da Arte, em seu sentido maior, Saramago revela as diferentes faces e contra faces que o diferente pode apresentar no escrito. Uma tentativa de capturar o fracasso do olhar redutor estabelecido em suas inúmeras formas. Dos olhos assépticos, que partem de uma perspectiva de todos vêem iguais e sentem iguais. De uma perspectiva que achata o funcionamento dos olhos e dos sujeitos, reduzindo-os a serem apenas coisas comuns facilmente encontradas;

16. O que mais falta à maior parte dos cegos do livro é exatamente aquilo que caracteriza a natureza humana: o desejo. Sem o desejo o que vemos surgir são apenas organismos atuando passivamente. Falta-lhes algo que os energizem, retirando-os da apatia em que se encontram, levando-os a outro momento de ruptura nas suas vidas, fora do circuito da repetição. Falta-lhes a descoberta do desejo;

17. A obra apresenta que a consciência tem forjado, na história da humanidade, uma única forma de olhar o mundo. O que tem sido mais ainda reforçado no mundo atual, através da globalização, em função da presença maciça de um olhar industrializado. Um olhar que se tornou um produto a ser vendido para os demais, a partir das leituras estabelecidas pela sociedade de massas.


FRAGMENTOS:


• "Quando o médico e o velho da venda preta entraram na camarata com a comida, não viram, não podiam ver, sete mulheres nuas, a cega das insônias estendida na cama, limpa como nunca estivera em toda a sua vida, enquanto outra mulher lavava, uma por uma, as suas companheiras, e depois a si própria."

• "Não lhe parece que deveríamos comunicar ao ministério o que se está a passar, Por enquanto acho prematuro, pense no alarme público que iria causar uma notícia destas, com mil diabos, a cegueira não se pega, A morte também não se pega, e apesar disso todos morremos."

• "Quando o director veio ao telefone, Então, que se passa, o médico perguntou-lhe se estava só, se não havia gente por perto que pudesse ouvir, da telefonista não havia que recear, tinha mas que fazer que escutar conversas sobre oftalmopatias, a ela apenas a ginecologia lhe interessava."

• "O medo cega, disse a rapariga dos óculos escuros, São palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegámos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos, Quem está a falar, perguntou o médico, Um cego, respondeu a voz, só um cego, é o que temos aqui. Então perguntou o velho da venda preta, Quantos cegos serão precisos para fazer uma cegueira. Ninguém lhe soube responder."

• "Lutar foi sempre, mais ou menos, uma forma de cegueira, Isto é diferente, Farás o que melhor te parecer, mas não te esqueças daquilo que nós somos aqui, cegos, simplesmente cegos, cegos sem retóricas nem comiserações, o mundo caridoso e pitoresco dos ceguinhos acabou, agora é o reino duro, cruel e implacável dos cegos, Se tu pudesses ver o que eu sou obrigada a ver, quererias estar cego, Acredito, mas não preciso, cego já estou, Perdoa-me, meu querido, se tu soubesses, Sei, sei, levei a minha vida a olhar para dentro dos olhos das pessoas, é o único lugar do corpo onde talvez ainda exista uma alma, e se eles se perderam"

• "Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem’

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