sexta-feira, 4 de junho de 2010

ANTOLOGIA POÉTICA DE VINÍCIUS DE MORAES




"São demais os perigos desta vida
Pra quem tem paixão principalmente
Quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecida
E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher..."


I – AUTOR:

“Vinicius de Moraes foi diplomata, músico, boêmio, advogado, crítico de cinema e, sobretudo, poeta, que se auto-intitulava o "branco mais preto do Brasil".

Marcus Vinicius da Cruz e Mello Moraes nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 19 de outubro de 1913. Filho de Lydia Cruz de Moraes, que, dentre outras qualidades, era exímia pianista, e ao lado do pai, Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, poeta bissexto, desde cedo demonstra seu pendor para a poesia.
Aos nove anos de idade parece que pressente o poeta: quando São Paulo agitava-se com os escândalos modernistas, o garoto Vinícius alterou no cartório seu nome para Vinicius de Moraes e já vivia sua primeira paixão, Cacy (apelido de Maria Casemira), para quem escreveu um poema, plágio adaptado de uma composição de seu pai.


Cronologia da Vida e da Obra

1927 - Conhece e torna-se amigos dos irmãos Paulo e Haroldo Tapajoz, com os quais começa a compor. Com eles, e alguns colegas do Colégio Santo Inácio, forma um pequeno conjunto musical que atua em festinhas, em casa de famílias conhecidas.
1928 - Compõe, com os irmãos Tapajoz, "Loura ou morena" e "Canção da noite", que têm grande sucesso popular.
1929 - Bacharela-se em Letras, no Santo Inácio.
1930 - Entra para a faculdade de Direito, sem vocação especial.
1931- Entra para o Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR).
1933- Forma-se em Direito e termina o Curso de Oficial de Reserva.
1935- Publica “Forma e exegese”, com o qual ganha o prêmio Felipe d’Oliveira.
1936 - Publica, em separata, o poema "Ariana, a mulher".
Substitui Prudente de Morais Neto, como representante do Ministério da Educação junto à Censura Cinematográfica.
Conhece Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, dos quais se torna amigo.
1938 - Publica novos poemas e é agraciado com a primeira bolsa do Conselho Britânico para estudar língua e literatura inglesas na Universidade de Oxford (Magdalen College), para onde parte em agosto do mesmo ano.
Funciona como assistente do programa brasileiro da BBC.
1939 - Casa-se por procuração com Beatriz Azevedo de Mello.
Regressa da Inglaterra em fins do mesmo ano, devido à eclosão da II Grande Guerra. Em Lisboa encontra seu amigo Oswald de Andrade com quem viaja para o Brasil.
1941- Começa trabalhar no jornal “A Manhã”, como crítico cinematográfico e a colaborar no Suplemento Literário
1942 - Inicia seu debate sobre cinema silencioso e cinema sonoro, a favor do primeiro, com Ribeiro Couto, e em seguida com a maioria dos escritores brasileiros mais em voga, e do qual participam Orson Welles e madame Falconetti.
A convite do então prefeito Juscelino Kubitschek, chefia uma caravana de escritores brasileiros a Belo Horizonte.
1943 - Publica suas “Cinco elegias”, em edição mandada fazer por Manuel Bandeira, Aníbal Machado e Otávio de Faria.
Ingressa, por concurso, na carreira diplomática.
1944 - Dirige o Suplemento Literário de “O Jornal”.
1945 - Colabora em vários jornais e revistas, como articulista e crítico de cinema.
Faz amizade com o poeta Pablo Neruda. Faz crônicas diárias para o jornal Diretrizes.
1946 - Parte para Los Angeles, como vice-cônsul, em seu primeiro posto diplomático. Ali permanece por cinco anos sem voltar ao Brasil.
Publica em edição de luxo, ilustrada por Carlos Leão, seu livro, “Poemas, sonetos e baladas”.
1947 - Em Los Angeles, estuda cinema com Orson Welles e Gregg Toland. Lança, com Alex Viany, a revista “Film”.
1951 - Casa-se pela segunda vez com Lila Maria Esquerdo e Bôscoli. Começa a colaborar no jornal “Última Hora”, a convite de Samuel Wainer, como cronista diário e posteriormente crítico de cinema.
1953 - Nasce sua filha Georgiana. Colabora no tablóide semanário Flan, de “Última Hora”. Compõe seu primeiro samba, música e letra, "Quando tu passas por mim". Faz crônicas diárias para o jornal “A Vanguarda”, a convite de Joel Silveira. Parte para Paris como segundo secretário de Embaixada.
1954 - Sai a primeira edição de sua “Antologia Poética”. A revista “Anhembi” publica sua peça “Orfeu da Conceição”, premiada no concurso de teatro do IV Centenário do Estado de São Paulo.
1955 - Compõe em Paris uma série de canções de câmara com o maestro Cláudio Santoro. Começa a trabalhar para o produtor Sasha Gordine, no roteiro do filme “Orfeu Negro”. No fim do ano vem com ele ao Brasil, por uma curta estada, para conseguir financiamento para a produção da película, o que não consegue, regressando em fins de dezembro a Paris.
1956 - Volta ao Brasil em gozo de licença-prêmio.
Nasce sua terceira filha, Luciana.
Colabora no quinzenário “Para Todos” a convite de seu amigo Jorge Amado, em cujo primeiro número publica o poema "O operário em construção".
Paralelamente aos trabalhos da produção do filme “Orfeu Negro”, tem o ensejo de encenar sua peça “Orfeu da Conceição”, no Teatro Municipal, que aparece também em edição comemorativa de luxo.
1958 - Sofre um grave acidente de automóvel. Casa-se com Maria Lúcia Proença. Parte para Montevidéu.
Sai o LP “Canção do Amor Demais”: músicas suas com Antônio Carlos Jobim, cantadas por Elizete Cardoso. No disco ouve-se, pela primeira vez, a batida da bossa nova, no violão de João Gilberto, entre as quais o samba "Chega de Saudade”, considerado o marco inicial do movimento.
1959 - Sai o LP “Por Toda Minha Vida”, de canções suas com Jobim, pela cantora Lenita Bruno.
O filme “Orfeu Negro” ganha a Palme d’Or do Festival de Cannes e o Oscar, de Hollywood, como melhor filme estrangeiro do ano.
Aparece o seu livro “Novos Poemas II”.
Casa-se sua filha Susana.
1961 - Começa a compor com Carlos Lira e Pixinguinha.
1962 - Começa a compor com Baden Powell, dando inicio à série de afro-sambas, entre os quais, "Berimbau" e "Canto de Ossanha".
Compõe, com música de Carlos Lyra, as canções de sua comédia-musicada “Pobre menina rica”.
1963 - Começa a compor com Edu Lobo.
Casa-se com Nelita Abreu Rocha e parte em posto para Paris, na delegação do Brasil junto a UNESCO.
1969 - É exonerado do Itamaraty. Casa-se com Cristina Gurjão.
1973 - Publica "A Pablo Neruda".
1976 - Escreve as letras de "Deus lhe pague", em parceria com Edu Lobo.
Casa-se com Marta Rodrigues Santamaria.
1978 - Excursiona pela Europa com Toquinho.
Casa-se com Gilda de Queirós Mattoso, que conhecera em Paris.
1980 - É operado a 17 de abril, para a instalação de um dreno cerebral.
Morre, na manhã de 9 de julho, de edema pulmonar, em sua casa, na Gávea, em companhia de Toquinho e de sua última mulher.
Extraviam-se os originais de seu livro “O dever e o haver”.
Lançado postumamente, no “Livro de Letras”, publicado em 1991, estão mais de 300 letras de músicas de autoria de Vinícius, com melodias suas e de um sem número de compositores, ou parceirinhos, como carinhosamente os chamava.

Em 1992, é lançado um livro que hibernou anos junto ao poeta: “Roteiro Lírico e Sentimental da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, onde Nasceu, Vive em Trânsito e Morre de Amor o Poeta Vinicius de Moraes”.

No ano seguinte, uma coletânea de poesias é publicada no livro “As Coisas do Alto - Poemas de Formação”, mostrando a processo de formação do poeta, que é uma descida do topo metafísico à solidez do cotidiano.

Em 1996, é lançado livro de bolso com o título “Soneto de Fidelidade e Outros Poemas”, a preços populares. Essa publicação fica diversas semanas na lista dos mais vendidos, o que vem mostrar que mesmo após 16 anos de seu desaparecimento, sua poesia continuava viva entre nós.

No dia 08/09/2006, é homenageado pelo governo brasileiro com sua reintegração post mortem aos quadros do Ministério das Relações Exteriores, ocasião em que foi inaugurado o "Espaço Vinicius de Moraes" no Palácio do Itamaraty - Rio de Janeiro (RJ).

Música popular
O interesse de Vinícius pela música data de 1927, quando começou a compor com Paulo e Haroldo Tapajós, mas só se firmou a partir da década de 1950. Em 1956 Antonio Carlos Jobim (Tom Jobim) musicou sua peça “Orfeu da Conceição”, premiada no concurso de teatro do IV Centenário de São Paulo. Montada no mesmo ano no Rio de Janeiro, a peça ajudou a popularizar composições de Tom e Vinícius, como “Se todos fossem iguais a você”. A versão cinematográfica “Orphée noir” (Orfeu do carnaval, de Marcel Camus, ganhou a Palma de Ouro em Cannes em 1959 e o Oscar de melhor filme estrangeiro.
Cada vez mais voltado para a música, escreveu letras para músicas inéditas de Tom Jobim, como “Lamento do morro” e “Mulher, sempre mulher”, gravadas em 1956. Dois anos depois, o disco “Canção do amor demais”, de Elizete Cardoso, com canções de Tom e Vinícius. Em 1961, no Teatro Santa Rosa, no Rio de Janeiro, estreou sua peça “Procura-se uma rosa”. No mesmo ano, Vinícius conheceu Carlos Lira, seu parceiro em “Minha namorada” (1964) e outras canções. A parceria com o violonista Baden Powell, a partir de 1962, rendeu mais de cinquenta músicas, entre elas sucessos como “Berimbau” e “Samba em prelúdio”. Com Pixinguinha, Vinícius fez a música do filme “Sol sobre a lama” (1962), de Alex Viany, e com Francis Hime compôs, entre outras canções, “Sem mais adeus” (1963).
O maior sucesso de Vinícius foi “Garota de Ipanema” (1963), em parceria com Tom Jobim. Em 1965, “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinícius, venceu o I Festival de Música Popular Brasileira da TV Excelsior. Edu seria seu parceiro em outro sucesso, “Canção do amanhecer”. Seu último parceiro, a partir de 1970, foi o violonista Toquinho (Antonio Pecci Filho), com quem compôs “Morena flor”, “Tarde em Itapoã”, “Essa menina” etc. Vinícius também fez música para seus poemas, como “Serenata do adeus” e “Medo de amar”.
Vinícius de Moraes se tornou um marco, não só como poeta que é, mas no grande letrista que se transformou, enriquecendo a música popular brasileira, com seu lirismo. Seguia sua intuição arrisca. Para ele, poetas não deviam temer a sua intuição, sob pena de trair aquilo mesmo que os constitui. Poetas não devem evitar esses estados de contemplação gratuita em que, à sua revelia e muitas vezes contra seus próprios pensamentos, muitas sentimentalidades e miragens transcendentes sobre o amor e sobre a vida, passam.
Vinícius, segundo Castello (1994), se levarmos em consideração o temperamento dionisíaco e extremamente "quente" do compositor, percebe-se que os aspectos emocionalmente contidos da bossa nova não se harmonizam com sua imagem de boêmio e apaixonado por todas as informações que vêm dos mais diferentes redutos, dos refinados aos populares, ao trocar o status de poeta erudito pela condição de letrista popular, o que faz desde os anos 50, quando passa a ter mais contato com os músicos populares, Vinícius não busca um meio- termo; aliás, a moderação não é percebida em sua personalidade nem em seus discursos como pessoa pública e como eterno apaixonado pela vida. Procura, pelo contrário, entrar em profunda comunhão com a linguagem e a companhia pouca "elevada", dos sambistas, se comparadas com o mundo da diplomacia, onde atuava, e o dos poetas livrescos.
Logo, percebe-se que Vinícius sabia respeitar a sua própria cegueira, às vezes quase estupidez, que deu lastro a tantas de suas criações. Ia pelo faro, e o seu instinto fundido a sua sensibilidade aguçada lhe dizia que: "de repente não mais que de repente (...)" a poesia não estava mais nos livros, mas em barzinhos apertados, em rodas de violão, em esquinas, apartamentos, e por que não no meio da rua e na beira-mar, onde rapazes e moças até então desconhecidos se deixavam guiar pelo coração, resplandecendo as emoções únicas que o ato de amar, apaixonar favorecia para que o lirismo, o ser amante se legitimasse dentro do organismo social.

Crítico de cinema
“Creio no Cinema, arte muda, filha da Imagem, elemento original de poesia e plástica infinitas, célula simples de duração efêmera e livremente multiplicável. Creio no Cinema, meio de expressão total em seu poder transmissor e sua capacidade de emoção, possuidor de uma forma própria que lhe é imanente e que, contendo todas as outras, nada lhes deve. Creio no Cinema puro, branco e preto, linguagem universal de alto valor sugestivo, rico na liberalidade e poder de evocação."
No início dos anos 40, o já destacado poeta e escritor Vinicius de Moraes assumiu o cargo de crítico de cinema do jornal “A Manhã”, passando depois para o “Última Hora” e por outras publicações. Com humor inteligente e a visão poética que lhe é peculiar, ele acompanhou pelas décadas seguintes o crescimento da popularidade dessa arte e de artistas como Marilyn Monroe, Marcello Mastroianni, Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, James Stewart, Grace Kelly e uma constelação de estrelas que desfilavam por filmes antológicos. Sem se limitar ao que via na tela, mergulhou pelos bastidores, analisando o trabalho de diretores como Orson Welles, Alfred Hitchcock, Vitorio De Sica, François Truffaut e Billy Wilder, entre muitos outros.
Vinicius reportou o surgimento de mitos e descreveu a formação da identidade do cinema moderno. Dessas observações foi selecionada uma série de críticas cinematográficas e crônicas, especialmente entre 1940 e 1959.

II – COMO LER E APRECIAR UMA POESIA:
 Plano da Forma: o plano visual; a disposição e organização das palavras ou versos na página de modo a conseguir um determinado efeito (por exemplo: o soneto, entre tantas coisas, é uma forma de poema universalmente consagrada como agradável ao olhar, esteticamente atraente).
 Plano do Conteúdo: o plano do significado geral do que se quer dizer, a temática (conjunto de temas desenvolvidos no poema. O que se quer dizer para o leitor ou o que se quer nele suscitar (provocar). A temática pode ser filosófica, social, amorosa, religiosa, havendo quase sempre combinação de um ou mais temas, sob a predominância de um deles.
 Plano da Linguagem: a) plano semântico: significado das palavras, denotativos e conotativos; b) plano imagético: a criação, associação e combinação de imagens (figuras de linguagem) que se projetam na imaginação visual do leitor para atingir um determinado efeito, como por exemplo, estimular associações intelectuais ou emocionais em sua consciência. c) plano sonoro: a musicalidade das palavras, o ritmo, as rimas, a criação de efeitos sonoros (repetição de letras, palavras ou versos inteiros) que podem potencializar o sentido do texto ou simplesmente soar agradáveis ou inusitados ao ouvido produzindo emoções e reflexões no leitor.
 A mente precisa exercitar-se, como o corpo. É preciso ler para desenvolver a habilidade de ler, que é intrínseca a todo ser humano. É necessário ler e anotar (grifar, procurar palavras no dicionário, anotar idéias suscitadas pela leitura etc.)
 Quando se estiver lendo um poema, deve-se estar atento: a) à sonoridade das palavras, isoladas e combinadas entre si; b) às imagens criadas ao longo dos versos e como elas se relacionam; c) enfim às associações de idéias e sentimentos exploradas no texto.


III – ESTILO DE ÉPOCA:
Nas décadas de 30 e 40, a poesia brasileira vive um dos melhores dos seus momentos. Trata-se de um período de maturidade e alargamento das conquistas dos modernistas da Primeira Geração. Maturidade, porque já não há necessidade de escandalizar os meios culturais e acadêmicos e sim, substituí-la por uma poética mais preocupada com o mundo. Sem radicalismos e excessos, os poetas sentem-se à vontade tanto para escrever um poema como versos livres quanto para fazer um soneto.
A literatura que foi produzida nesse período ganhou um contorno diferenciado ao dialogar com um dos momentos mais agudos da história recente. Nesse momento, a poesia assume um tom politizado e se aprofunda na tentativa de rastrear as complexas relações que o homem tem que travar com o seu tempo.
No plano mundial, assiste-se à consolidação de movimentos totalitários (nazi-fascismo) que arrastaram a humanidade para a Segunda Guerra Mundial. Já, no plano nacional, o Brasil enfrentou um longo período da ditadura do Estado Novo varguista que levou a literatura local a se posicionar politicamente, incorporando a preocupação social ao seu ideário estético.


IV – ESTILO INDIVIDUAL:
“Porque ele tem o fôlego dos românticos, a espiritualidade dos simbolistas, a perícia dos parnasianos (sem refugar, como estes, as sutilezas barrocas), e, finalmente, homem bem do seu tempo, a liberdade, a licença, o esplêndido cinismo dos modernos.”


(Manuel Bandeira)

“Vinícius é o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão. Quer dizer, da poesia em estado natural (...) eu queria ter sido Vinícius de Moraes.”

(Carlos Drummond de Andrade)

O biógrafo de Vinicius, José Castello, autor do excelente livro "Vinicius de Moraes: o Poeta da Paixão - uma biografia" nos diz que o poeta foi um homem que viveu para se ultrapassar e para se desmentir. Para se entregar totalmente e fugir, depois, em definitivo. Para jogar, enfim, com as ilusões e com a credulidade, por saber que a vida nada mais é que uma forma encarnada de ficção. Foi, antes de tudo, um apaixonado — e a paixão, sabemos desde os gregos, é o terreno do indomável. Daí porque fazer sua biografia era obra ingrata.

Otto Lara Resende assim o definiu: "Manuel Bandeira viveu e morreu com as raízes enterradas no Recife. João Cabral continua ligado à cana-de-açúcar. Drummond nunca deixou de ser mineiro. Vinicius é um poeta em paz com a sua cidade, o Rio. É o único poeta carioca". Mas ele dizia nada mais ser que "um labirinto em busca de uma saída".

Drummond disse certa vez: "Vinícius é o único poeta brasileiro que viveu como um poeta". Ele vivia intensamente e era de sua vida que arrancava a poesia. Quanto mais veloz era a vida, mais numerosos os parceiros, mais envolventes as mulheres, melhor sua poesia. Essa multiplicidade emprestava ao poeta e letrista aquela imagem de que ele não acabaria nunca. Uma força, e uma coragem impar de sua alma. A imortalidade.

Vinícius favorecia a arte com a qualidade da linguagem de criação subjetiva e cotidiana articulada em suas letras e poesias fazendo apelo às emoções. Abordaremos a linguagem viniciana como criação poética, por meio da análise de discurso e pela apreensão de universos simbólicos. Assim, acreditamos que estaremos elaborando uma referência para o entendimento de sua linguagem como criação.

O que torna Vinicius um grande poeta é a percepção do lado obscuro do homem. E a coragem de enfrentá-lo. Parte, desde o princípio, dos temas fundamentais: o mistério, a paixão e a morte. Quando deixa a poesia em segundo plano para se tornar show-man da MPB, para viver nove casamentos, para atravessar a vida viajando, Vinicius está exercendo, mais que nunca, o poder que Drummond descreve, sem conseguir dissimular sua imensa inveja: "Foi o único de nós que teve a vida de poeta".

Em Vinícius de Moraes, a temática universalizante também estará presente, embora suplantada por uma poesia personalista. Poeta espiritualista desenvolve uma poesia intimista e reflexiva, de profunda sensibilidade feminina, reforça a tendência de sua geração. Contudo, a sua obra trilha caminhos próprios, caminha cada vez mais para uma percepção material da vida, do amor e da mulher. Partindo de uma poesia religiosa e idealizante, chega a ser um dos poetas mais sensuais de nossa literatura.

Qualquer que seja a análise feita da obra de VINÍCIUS DE MORAES, não se pode escapar das palavras mudança, evolução, transição. Sua poesia, além de ser a encarnação do movimento e do transitório, elege a busca como motor primordial: do divino, da coisa ordinária, do homem concreto, do homem social, do homem banal, do amante e, sobretudo, da mulher. E na busca da mulher, das infinitas mulheres que se concentram e se desprendem de uma mulher, a afirmação do motivo principal: mudança, evolução, transição. Poeta viril e terno, transcendental e carnal, caudaloso e contido, ele fez de sua obra o lugar do encontro e da despedida. Talvez, nenhum outro poeta personifique tão bem e ao mesmo tempo o apolíneo e o dionisíaco, tanto na obra quanto na vida: ao lado da sobriedade e da lucidez já bem precoces, surge e cresce o espírito da embriaguez e da entrega total, em nome da reflexão e da vitalidade que reinam em sua poesia. Enfim, não importa que Vinícius parta do etéreo para chegar ao real, o que mais vale em sua obra é a busca da fusão com a vida.

V - ANTOLOGIA POÉTICA:

Antologia Poética. Rio de Janeiro. (2ª ed. aumentada, Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1960); Editora A Noite, 1954.

As orelhas trazem o seguinte texto de Rubem Braga (1913-1990): Este livro reúne a maior e a melhor parte da obra de um dos grandes poetas do Brasil.

O que é uma antologia

Antes de qualquer coisa é preciso definir o que vem a ser "antologia". Antologia significa, etimologicamente, "coletânea de flores"; o termo remete à idéia de escolha, coleção. Sendo assim, antologia é uma coleção de trabalhos literários; neste caso, coleção de trabalhos poéticos.

A importância de se ler uma obra como esta ("Antologia Poética") está no fato de que estamos tendo contato com uma seleção de poemas feita pelo próprio autor.

Observações:

1. Ao indicar a 2ª edição revista e aumentada, de 1960, como texto de referência da mencionada Antologia, teve-se em vista proporcionar aos candidatos o contato com uma seleção de poemas feita pelo próprio autor, o qual fixou, naquela data, o conjunto de poemas depois reproduzido, com alterações de pormenor, nas edições sucessivas da Livraria José Olympio Editora S.A., a partir de 1967. Posteriormente, nos anos de 1990, a mesma seleção passou a ser publicada pela Editora Companhia das Letras, também com pequenas modificações. De todas essas edições, consta uma "Advertência" do Autor, na qual ele expõe seus critérios de seleção e o sentido que atribui ao conjunto.

2. O informe apresenta, ainda, a relação completa dos poemas que integram esse conjunto, a fim de dirimir possíveis dúvidas dos alunos:

**O título "O nascimento do homem" consta apenas da Antologia poética (1992) da Companhia das Letras, na qual designa um desmembramento do texto "O poeta".

Vindo de um misticismo de fundo religioso para uma poesia nitidamente sensual que depois se muda em versos marcados por um fundo sentimento social, a obra de Vinicius tem como constante um lirismo de grande força e pureza. Ainda com o risco de incorrer na censura dos que levam suas preocupações puritanas ao domínio das artes, não quiseram os amigos do poeta, principalmente o que assina esta nota, e assim se faz responsável por esta resolução, suprimir algumas palavras ou expressões mais fortes que de raro em raro aparecem em seus versos. Isso fará com que não seja recomendável a presença deste livro em mãos juvenis - mas resguarda a pureza de sua poesia, que tudo, em poesia, transfigura. Estamos certos de que, com a edição deste livro, a obra de Vinicius de Moraes ganhará uma popularidade maior, e passará a ter, entre o público, o lugar de honra que há muito ocupa no espírito e no sentimento dos poetas e dos críticos.
O volume abre-se com uma "Advertência" (do autor, sem dúvida, embora sem assinatura, com indicação de local e data): Poderia este livro ser dividido em duas partes, correspondentes a dois períodos distintos na poesia do A.

A primeira, transcendental, frequentemente mística, resultante de sua fase cristã, termina com o poema "Ariana, a mulher", editado em 1936. Salvo, aqui e ali, umas pequenas emendas, a única alteração digna de nota nesta parte foi reduzir-se o poema "O cemitério da madrugada" às quatro estrofes iniciais, no que atendeu o A. a uma velha idéia de seu amigo Rodrigo M.F. de Andrade.

À segunda parte, que abre com o poema "O falso mendigo", o primeiro, ao que se lembra o A., escrito em oposição ao transcendentalismo anterior, pertencem algumas poesias do livro Novos poemas, também representado na outra fase, e os demais versos publicados posteriormente em livros, revistas e jornais. Nela estão nitidamente marcados os movimentos de aproximação do mundo material, com a difícil, mas consistente repulsa ao idealismo dos primeiros anos.

De permeio foram colocadas as Cinco elegias (1943), como representativas do período de transição entre aquelas duas tendências contraditórias, - livro também onde elas melhor se encontram e fundiram em busca de uma sintaxe própria.

Não obstante certas disparidades, facilmente verificáveis no índice, impôs-se o critério cronológico para uma impressão verídica do que foi a luta mantida pelo A. contra si mesmo no sentido de uma libertação, hoje alcançada, dos preconceitos e enjoamentos de sua classe e do seu meio, os quais tanto, e tão inutilmente, lhe angustiaram a formação. Los Angeles, junho de 1949.

VI – FASES VINICIANAS: “Da transcendência espiritual ao amor sensual”

Frequentemente, os críticos dividem a produção poética de Vinicius de Moraes em duas fases, intitulando-as fase mística e social. Fazem parte da chamada “primeira fase” as seguintes obras: O caminho para a distância (1933), Forma e exegese (1935), Ariana, a mulher (1936), Novos poemas (1938) e Cinco elegias (1943) livro de transição.

A “segunda fase” é composta principalmente pelos seguintes livros: Poemas, sonetos e baladas (1946), Pátria minha (1949), Antologia poética (1954), Livro de sonetos (1957) e Novos poemas (II) (1959).

Alguns estudiosos, como Renata Pallotini e Otto Lara Resende, consideram a produção inicial de Vinicius, voltada para questões metafísicas, como um experimentalismo estético, logo abandonado para dar lugar ao verdadeiro poeta que se apresentaria em um segundo momento, dedicado à lírica de tendência social e amorosa.

Outros críticos, como Antonio Candido e David Mourão Ferreira, contrariando tal posicionamento, defendem a idéia de uma reelaboração destes princípios para uma espécie de “humanização do sentimento religioso”.

Inicialmente, foi feita uma revisão da fortuna crítica de Vinicius e, em seguida, realizou-se a análise das composições poéticas e musicais, tomando por base o texto bíblico e os fundamentos teóricos da lírica, da metafísica e do imaginário. A pesquisa permitiu caracterizar a poesia inaugural, no que tange à questão da religiosidade e, a partir disso, dar visibilidade à permanência destes elementos de caráter metafísico, tanto na poesia final quanto na canção, o que contraria a tese do artificialismo de sua produção inicial.

1ª Fase: Mística - Religiosa

Como poeta, Vinícius integra o grupo de poetas religiosos de sua geração. A primeira fase da poesia de Vinícius é marcada pela crise existencial diante da condição humana e pelo desejo de superar, por meio da transcendência mística, as sensações de pecado, culpa e desconsolo que a vida terrena lhe oferecia. De versos mais longos, melancólicos, tom declamatório, linguagem abstrata, alegórica, que nos lembram versículos bíblicos, mantêm o poeta ainda distante das conquistas expressivas mais modernas.

Em O caminho para a distância, o poeta manifesta a sua preocupação religiosa e sua angústia diante do mundo, revelando também o seu conflito entre o sensualismo e o sentimento religioso. O amor é tido como um elemento negativo que, ligando-o ao mundo terreno, impede a libertação do espírito. O livro guarda um tom adolescente e as imagens não têm a qualidade que alcançariam mais tarde. Trata-se de uma obra imatura.

Em sua obra, o poeta expressa, com intensa angústia, a constante oposição entre matéria e espírito, da qual resulta a sensação de pecado. A existência terrena configura-se para ele como o caos, o abismo. Procura no misticismo a solução para esse embate. Esta é a visão de mundo predominante em O caminho para a distância.

Nesse contexto, o amor - pelo fato de vincular o homem ao mundo terreno - tem conotação negativa, de início.

No livro seguinte, Forma e exegese, no entanto, o amor começa a assumir o papel de força que permitiria unir o material e o espiritual, sobretudo na figura da mulher idealizada. O poeta começa a desligar-se do plano místico e procura, na realidade do cotidiano, a saída para suas angústias.

A partir de Forma e exegese, os versos ganham liberdade expressiva e tornam-se mais extensos. O poeta volta-se para o cotidiano, sem abandonar o desejo de transcendência. A mulher torna-se figura central de sua poesia - mas ainda envolta por um forte misticismo, que contribui para a sua caracterização como um ser divinizado. A expectativa de que a mulher e a experiência amorosa pudessem ocupar o lugar da crença e da religiosidade, prestes a se diluírem. O poeta procura harmonizar sensualismo e erotismo com os apelos espirituais.

CARACTERÍSTICAS GERAIS DA 1ª FASE DE VINÍCIUS DE MORAES:

 Poesia mística, de tom bíblico-romântico, de espiritualidade católica e visionária, daí a expressão "o sentimento do sublime".

 Poesia transcendental e mística: resultante de sua fase cristã; elevação espiritual mística (participação em grupo simbolista).

 Poesia solene, de inspiração bíblica; religiosidade vista de maneira angustiada e duvidosa; linguagem alegórica; derramamento declamatório povoado de visões estranhas e presságios. (fruto da ligação do poeta com um grupo de poetas neo-simbolistas, religiosos e metafísicos).

 Expressão contraditória: a experiência amorosa e a mulher amada são vistas de maneira contraditória, entre a transcendência e o apelo físico, a espiritualidade e a materialidade.

 Duvida existencial: sentimento de pecado; constante e angustiada interrogação da existência; expressão de sofrimento e inconstância; aproximação de opostos (antíteses e paradoxos).

 Consciência torturada pela precariedade da existência: busca de superação pela transcendência mística.

 Linguagem abstrata e alegórica, solene, altissonante; “versos parágrafos” que se desdobram em largos movimentos. Adjetivação farta, tendência para enumeração. Tom declamatório e teatral.

 Imagens criadas a partir de impressões sensoriais, carregadas de intenso sensualismo sempre em contraste com o sentimento religioso.

 Amor: elemento negativo que prende ao mundo terreno e que impede a libertação espiritual. Concepção de vida como pecado: tortura insuportável.

 Passagem do sublime ao cotidiano: a partir de Novos poemas, de 1938, observa-se um novo tom poético; nova linguagem, novas formas e temas; substituição paulatina da linguagem solene (pedante) por uma linguagem mais coloquial (Soneto de Intimidade).

 Desejo de transcendência cede, aos poucos, lugar a aceitação da imanência: a angustia a insatisfação e o desespero deixarão de ser problemas místicos e metafísicos para se incorporar experiência de vida direta.

 A mulher cresce como foco de interesse: ocupa lugar primordial ainda envolvida em misticismo; a mulher e a experiência amorosa vão, aos poucos, substituindo a crença e a religiosidade.

 Divinização da mulher: ser superior para onde convergem as formas elevadas da existência;

 Amor experiência limite: síntese do platonismo amoroso medieval (trovadores), do amor espiritualizado dos românticos e do “amor louco” dos surrealistas, concebido como valor supremo acima mesmo da moral e da religião.

 Sensualismo e erotismo: dimensão integrada aos apelos espirituais (e não mais como “perdição da carne”; fusão carne espírito: poemas sensuais, realistas com espontaneidade e fluência.

 Trajetória acidentada: tal passagem se dá de forma acidentada, cheia de idas e vindas, em múltiplos atalhos, após a tentativa de vários temas estilos e direções.

 Essa primeira fase, segundo o próprio Vinícius, termina com Ariana, a mulher. Em Cinco elegias, livro de transição, a maior contenção formal e a liberdade de escolha e expressão prenunciam a adesão de Vinícius a uma dicção mais moderna.

A MÚSICA DAS ALMAS

Na manhã infinita as nuvens surgiram como a loucura numa alma
E o vento como o instinto desceu os braços das árvores que
[estrangularam a terra...
Depois veio a claridade, o grande céu, a paz dos campos...
Mas nos caminhos todos choravam com os rostos levados para o [alto
Porque a vida tinha misteriosamente passado na tormenta.

A VOLTA DA MULHER MORENA

Meus amigos, meus irmãos, cegai os olhos da mulher morena
Que os olhos da mulher morena estão me envolvendo
E estão me despertando de noite.
Meus amigos, meus irmãos, cortai os lábios da mulher morena
Eles são maduros e úmidos e inquietos
E sabem tirar a volúpia de todos os frios.
Meus amigos, meus irmãos, e vós que amais a poesia da minha alma
Cortai os peitos da mulher morena
Que os peitos da mulher morena sufocam o meu sono
E trazem cores tristes para os meus olhos.
Jovem camponesa que me namoras quando eu passo nas tardes
Traze-me para o contato casto de tuas vestes
Salva-me dos braços da mulher morena
Eles são lassos, ficam estendidos imóveis ao longo de mim
São como raízes recendendo resina fresca
São como dois silêncios que me paralisam.
Aventureira do Rio da Vida, compra o meu corpo da mulher morena
Livra-me do seu ventre como a campina matinal
Livra-me do seu dorso como a água escorrendo fria.
Branca avozinha dos caminhos, reza para ir embora a mulher morena
Reza para murcharem as pernas da mulher morena
Reza para a velhice roer dentro da mulher morena
Que a mulher morena está encurvando os meus ombros
E está trazendo tosse má para o meu peito.
Meus amigos, meus irmãos, e vós todos que guardais ainda meus últimos cantos
Dai morte cruel à mulher morena!

A MULHER NA NOITE

Eu fiquei imóvel e no escuro tu vieste.
A chuva batia nas vidraças e escorria nas calhas – vinhas andando e eu não te via
Contudo a volúpia entrou em mim e ulcerou a treva nos meus olhos.
Eu estava imóvel – tu caminhavas para mim como um pinheiro erguido
E de repente, não sei, me vi acorrentado no descampado, no meio de insetos
E as formigas me passeavam pelo corpo úmido.
Do teu corpo balouçante saíam cobras que se eriçavam sobre o meu peito
E muito ao longe me parecia ouvir uivos de lobas.
E então a aragem começou a descer e me arrepiou os nervos
E os insetos se ocultavam nos meus ouvidos e zunzunavam sobre os meus lábios.
Eu queria me levantar porque grandes reses me lambiam o rosto
E cabras cheirando forte urinavam sobre as minhas pernas.
Uma angústia de morte começou a se apossar do meu ser
As formigas iam e vinham, os insetos procriavam e zumbiam do meu desespero
E eu comecei a sufocar sob a rês que me lambia.
Nesse momento as cobras apertaram o meu pescoço.
E a chuva despejou sobre mim torrentes amargas.

Eu me levantei e comecei a chegar, me parecia vir de longe.
E não havia mais vida na minha frente.

A MULHER QUE PASSA

Meu Deus, eu quero a mulher que passa
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

Oh! Como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pelos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas .
E me encontrava se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida
Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacífica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.

ARIANA, A MULHER

Quando, aquela noite, na sala deserta daquela casa cheia da montanha em torno
O tempo convergiu para a morte e houve uma cessação estranha seguida de um debruçar do instante para o outro instante
Ante o meu olhar absorto o relógio avançou e foi como se eu tivesse me identificado a ele e estivesse batendo soturnamente a Meia-Noite
E na ordem de horror que o silêncio fazia pulsar como um coração dentro do ar despojado
Senti que a Natureza tinha entrado invisivelmente através das paredes e se plantara aos meus olhos em toda a sua fixidez noturna
E que eu estava no meio dela e à minha volta havia árvores dormindo e flores desacordadas pela treva.

Como que a solidão traz a presença invisível de um cadáver – e para mim era como se a Natureza estivesse morta
Eu aspirava a sua respiração ácida e pressentia a sua deglutição monstruosa mas para mim era como se ela estivesse morta
Paralisada e fria, imensamente erguida em sua sombra imóvel para o céu alto e sem lua
E nenhum grito, nenhum sussurro de água nos rios correndo, nenhum eco nas quebradas ermas
Nenhum desespero nas lianas pendidas, nenhuma fome no muco aflorado das plantas carnívoras
Nenhuma voz, nenhum apelo da terra, nenhuma lamentação de folhas, nada.

Em vão eu atirava os braços para as orquídeas insensíveis junto aos lírios inermes como velhos falos
Inutilmente corria cego por entre os troncos cujas parasitas eram como a miséria da vaidade senil dos homens
Nada se movia como se o medo tivesse matado em mim a mocidade e gelado o sangue capaz de acordá-los
E já o suor corria do meu corpo e as lágrimas dos meus olhos ao contato dos cactos esbarrados na alucinação da fuga
E a loucura dos pés parecia galgar lentamente os membros em busca do pensamento
Quando caí no ventre quente de uma campina de vegetação úmida e sobre a qual afundei minha carne.

Foi então que compreendi que só em mim havia morte e que tudo estava profundamente vivo
Só então vi as folhas caindo, os rios correndo, os troncos pulsando, as flores se erguendo
E ouvi os gemidos dos galhos tremendo, dos gineceus se abrindo, das borboletas noivas se finando
E tão grande foi a minha dor que angustiosamente abracei a terra como se quisesse fecundá-la
Mas ela me lançou fora como se não houvesse força em mim e como se ela não me desejasse
E eu me vi só, nu e só, e era como se a traição tivesse me envelhecido eras.

Tristemente me brotou da alma o branco nome da Amada e eu murmurei – Ariana!
E sem pensar caminhei trôpego como a visão do Tempo e murmurava – Ariana!
E tudo em mim buscava Ariana e não havia Ariana em nenhuma parte.
Mas se Ariana era a floresta, por que não havia de ser Ariana a terra?
Se Ariana era a morte, por que não havia de ser Ariana a vida?
Por que – se tudo era Ariana e só Ariana havia e nada fora de Ariana?
Baixei à terra de joelhos e a boca colada ao seu seio disse muito docemente – Sou eu, Ariana...
Mas eis que um grande pássaro azul desce e canta aos meus ouvidos – Eu sou Ariana!
E em todo o céu ficou vibrando como um hino o muito amado nome de Ariana.
Desesperado me ergui e bradei: Quem és que te devo procurar em toda a parte e estás em cada uma?
Espírito, carne, vida, sofrimento, serenidade, morte, por que não serias uma?
Por que me persegues e me foges e por que me cegas se me dás uma luz e restas longe?

[...]

INVOCAÇÃO À MULHER ÚNICA

Tu, pássaro – mulher de leite! Tu que carregas as lívidas glândulas do amor acima do sexo infinito
Tu, que perpetuas o desespero humano – alma desolada da noite sobre o frio das águas – tu
Tédio escuro, mal da vida – fonte! jamais... jamais... (que o poema receba as minhas lágrimas!...)
Dei-te um mistério: um ídolo, uma catedral, uma prece são menos reais que três partes sangrentas do meu coração em martírio
E hoje meu corpo nu estilhaça os espelhos e o mal está em mim e a minha carne é aguda
E eu trago crucificadas mil mulheres cuja santidade dependeria apenas de um gesto teu sobre o espaço em harmonia.
Pobre eu! Sinto-me tão tu mesma, meu belo cisne, minha bela, bela garça, fêmea
Feita de diamantes e cuja postura lembra um templo adormecido numa velha madrugada de lua...
A minha ascendência de heróis: assassinos, ladrões, estupradores, onanistas – negações do bem: o Antigo Testamento! – a minha descendência
De poetas: puros, selvagens, líricos, inocentes: O Novo Testamento afirmações do bem: dúvida
(Dúvida mais fácil que a fé, mais transigente que a esperança, mais oporturna que a caridade
Dúvida, madrasta do gênio) – tudo, tudo se esboroa ante a visão do teu ventre púbere, alma do Pai, coração do Filho, carne do Santo Espírito, amém!
Tu, criança! Cujo olhar faz crescer os brotos dos sulcos da terra – perpetuação do êxtase
Criatura, mais que nenhuma outra, porque nasceste fecundada pelos astros – mulher! tu que deitas o teu sangue
Quando os lobos uivam e as sereias desacordadas se amontoam pelas praias – mulher!
Mulher que eu amo, criança que amo, ser ignorado, essência perdida num ar de inverno.
Não me deixes morrer!... eu, homem – fruto da terra – eu, homem – fruto da carne
Eu que carrego o peso da tara e me rejubilo, eu que carrego os sinos do sêmen que se rejubilam à carne
Eu que sou um grito perdido no primeiro vazio à procura de um Deus que é o vazio ele mesmo!
Não me deixes partir... – as viagens remontam à vida!... e por que eu partiria se és a vida, se há em ti a viagem muito pura
A viagem do amor que não volta, a que me faz sonhar do mais fundo da minha poesia
Com uma grande extensão de corpo e alma – uma montanha imensa e desdobrada – por onde eu iria caminhando
Até o âmago e iria e beberia da fonte mais doce e me enlanguesceria e dormiria eternamente como uma múmia egípcia
No invólucro da Natureza que és tu mesma, coberto da tua pele que é a minha própria – oh mulher, espécie adorável da poesia eterna!

POEMA PARA TODAS AS MULHERES

No teu branco seio eu choro.
Minhas lágrimas descem pelo teu ventre
E se embebedam do perfume do teu sexo.
Mulher, que máquina és, que só me tens desesperado
Confuso, criança para te conter!
Oh, não feches os teus braços sobre a minha tristeza não!
Ah, não abandones a tua boca à minha inocência, não!
Homem sou belo
Macho sou forte, poeta sou altíssimo
E só a pureza me ama e ela é em mim uma cidade e tem mil e uma portas.

Ai! Teus cabelos recendem à flor da murta
Melhor seria morrer ou ver-te morta
E nunca, nunca poder te tocar!
Mas, fauno, sinto o vento do mar roçar-me os braços
Anjo, sinto o calor do vento nas espumas
Passarinho, sinto o ninho nos teus pêlos...
Correi, correi, ó lágrimas saudosas
Afogai-me, tirai-me deste tempo
Levai-me para o campo das estrelas
Entregai-me depressa à lua cheia
Dai-me o poder vagaroso do soneto, dai-me a iluminação das odes, dai-me o cântico dos cânticos
Que eu não posso mais, ai!
Que esta mulher me devora!
Que eu quero fugir, quero a minha mãezinha quero o colo de Nossa Senhora!

2ª Fase: Encontro com o Mundo Material, com o Cotidiano, com a Comunicabilidade e com a Ternura

Gradativamente a angústia, a insatisfação e o desespero deixarão de ser problemas místicos e metafísicos para se incorporar à experiência direta de vida; o desejo de transcendência (a busca do sublime) cede lugar à aceitação da imanência (o encontro do cotidiano).

Cinco elegias é a obra que marca a transição definitiva do misticismo para a realidade do dia-a-dia, nova fonte de inspiração de Vinícius. O mundo circundante oferece agora ao poeta não só a temática, mas a possibilidade de superação dos conflitos da primeira etapa de sua poesia.

O poeta passa a interessar-se por temas cotidianos, pelas coisas simples da vida e explora com sensualismo os temas do amor e da mulher. A linguagem também tende à simplicidade o verso livre passa a ser mais empregado, a comunicação torna-se mais direta e dinâmica.

Pode-se dizer que pela primeira vez, Vinícius de Moraes adere às propostas dos modernistas de 22, apesar de sempre terem feito parte de sua poesia certa dicção clássica e o gosto pelo soneto. Contudo, em suas mãos, o soneto ganha roupagem diferente, mais moderna e real, fazendo uso do vocábulo do cotidiano, pouco comuns nesse tipo de composição.

O poeta passa a escrever poemas intimistas, pessoais, voltados para o amor físico, carregado muitas vezes por um sensualismo erótico, o que viria acentuar uma contradição entre o prazer da carne e a formação religiosa.

O novo tom, a nova linguagem, as novas formas e temas, que vinham desde Novos poemas, de 1933, intensificam-se e diversificam-se nos livros posteriores - Poemas, sonetos e baladas (1946) e Novos poemas II (1959) -, em que se mostram tanto as formas clássicas (soneto de tradição camoniana e shakespeariana) quanto à poesia livre (em "A última elegia", os versos têm forma de serpente). O poeta sente-se à vontade para inventar palavras, muitas vezes bilíngues, ou praticar a oralidade maliciosa.

Por haver nessa fase uma renúncia à superstição e ao purismo, fortemente presentes na primeira fase, bem como um direcionamento para uma atitude mais brincalhona e amorosa perante a poesia, essa segunda fase ficou conhecida como "O encontro do cotidiano pelo poeta".
Nessa passagem do metafísico para o físico, do espiritual para o sensual, do sublime para o cotidiano, o poeta retoma sugestões românticas (como lua, cidade, samba). Refugia-se no erotismo: há contemplação do amor, poemas "sobre a mulher" e adoração panteística da natureza.

A partir de “Poemas, Sonetos e Baladas”, Vinícius consegue modernizar a perfeição clássica do soneto camoniano pela atualidade de seus temas, e pela convivência de palavras mais realistas, porém não abandonando o lirismo.

É nessa linha que, segundo Antonio Cândido observa:

“Esta linha se acentuará nos livros posteriores, que são de um lirismo fortemente marcado pela confidência, a plenitude dos sentidos, a visão familiar do mundo, que o tornam um poeta peculiar, e ao mesmo tempo de grande acessibilidade, fazendo da sua poesia um instrumento privilegiado de transfiguração lírica do mundo e das situações humanas.”

“Poemas, Sonetos e Baladas”, também conhecido como Encontro do Cotidiano, une o lirismo e a ideia de morte, de fim. A morte é a mais esperada, «os homens matam a/morte por medo/da vida», a morte é cruel, «aparece e leva/o homem sozinho, sem/amores para o chorarem/apenas ele envolvido pelo vento/ “num qualquer/ponto de treva”». Na «Balada do Cavalão», o poeta fala da morte de uma filha: «Levou o anjo o outro anjo/Da saudade de ser pai/Susana foi de avião/com quinze dias de idade/Batendo todos os recordes!». Em «Canção», volta-se à menina fenecida: «De que eu não queira comigo/A primogênita em mim/A fria, seca, encruada/Filha que a morte me deu». À ideia de morte física, junta-se a morte dos sentimentos, do amor. A paixão pode salvar um homem da ruína: «Na sua tarde em flor uma mulher/Me ama como a chama ama o silêncio/E o seu amor vitorioso vence/O desejo da morte que me quer». Mas o amor, com as mulheres e a vida, é efêmero, apaga-se. O final é trágico, não há esperança. O homem finalmente derrotado vai de encontro ao mar, ao infinito, e despedaça-se dentro da treva: «Para o silêncio onde o Silêncio dorme». Na «Balada do Enterrado Vivo», poema magistral pela forma como é descrita a sensação de uma criatura que quer fugir de dentro do caixão, o enterrado chega à conclusão de que não poderá chegar à morte de outra maneira que não seja morrendo.

Mas nem só de negro se enche “Poemas, Sonetos e Baladas”. Do meio da morte e dos desgostos amorosos, surge o sexo a trazer de volta o otimismo e uma inocência quase infantil. Se «Marina» se inspira numa paixoneta de Vinicius por uma filha de pescadores da Ilha do Governador, local que habitou durante a adolescência, em «Rosário» se descreveria a perda da virgindade de um rapaz de quinze anos com uma rapariga de vinte: «Toquei-lhe a dura pevide/Entre o pêlo que a guardava/Beijando-lhe a coxa fria/Com gosto de cana-brava./Senti, à pressão do dedo/Desfazer-se desmanchada/Como um dedal de segredo/A pequenina castanha/Gulosa de ser tocada». Veja-se como, através da utilização de lexemas como «dura pevide» ou «pequenina castanha», se entra na cabeça de um simples menino que descreve uma vagina. Mas mesmo na meninice se percebe que o encontro é sempre distância, que o que nasce morre e que o que se aproxima se afasta.

Poder-se-ia dizer que, pela falta de hedonismo, de voluptuosidade ou de sentido de humor, “Poemas, Sonetos e Baladas” não é o livro que mais reflete a biografia do seu autor. Não parece que estes poemas lúgubres tenham sido escritos em ambiente de banheira com água morna e whisky. Escrita em anos sombrios (Segunda Guerra Mundial), esta obra melancólica e triste reflete o estado de espírito de um Vinicius de Moraes ainda jovem e, por isso, abalado com questões existenciais, entristecido com a fatalidade que se abateu sobre o ser humano ao vir ao mundo sob a forma de animal que nasce, que come, que defeca e que morre.

O tom oscila entre o prosaico e o patético, semelhando mesmo a confissão de uma verdade muito íntima e reveladora de instâncias secretas, como um vício, um deslize moral, um pecado, uma perversão ou talvez um desejo de pureza maior que o "autorizado".

CARACTERÍSTICAS GERAIS DA 2ª FASE DE VINÍCIUS DE MORAES:

 Apelo ao cotidiano, à aparente banalidade da existência diária aproveitando os estímulos da realidade circundante, a pátria e as questões sociais

 Linguagem eclética: incorporação da conquistas da geração de 22: linguagem coloquial e enxuta mais simples e direta; espontaneidade, jogos verbais, estilo engenhoso, poder de síntese e concisão. Mescla de tradições (sonetos). Experimentações formais: verso livre incorporação da linguagem modernista ("A última elegia", os versos em forma de serpente).

 Linguagem clássica, forma fixa, soneto clássico, métrica perfeita (decassílabo), rima organizada (inspiração camoniana e shakespeariana);

 Linguagem tradicional: verso curto, tradição medieval, sonoridade e musicalidade herdada da cantiga;

 Exploração da sonoridade: rima, figuras de linguagem sonoras, sugestões musicais, inclusive nos títulos.

 Neologismos: invenção de palavras; utilização de estrangeirismos; linguagem oral e maliciosa.

 Abandono da superstição e do purismo, presentes na primeira fase; direcionamento para uma atitude mais bem humorada, descontraída e amorosa perante a poesia, daí o nome "O encontro do cotidiano pelo poeta".

 Passagem do metafísico para o físico, do espiritual para o sensual, do sublime para o cotidiano: o poeta retoma sugestões românticas (lua, cidade, samba).

 Poesia Erótica: refugia-se no erotismo: há contemplação do amor, poemas "sobre a mulher" e adoração panteística da natureza.

 Poesia Social: compôs também poemas de indignação social, cujos exemplares são: "Balada dos mortos dos campos de concentração", "O operário em construção" e "A rosa de Hiroshima".

É o caso, por exemplo, deste soneto, em que o erotismo é recriado a partir de uma forma clássica e de uma linguagem crua e direta:

SONETO DO MAIOR AMOR

1. Maior amor nem mais estranho existe
2. Que o meu, que não sossega a coisa amada
3. E quando a sente alegre, fica triste
4. E se a vê descontente, dá risada.

5. E que só fica em paz se lhe resiste
6. O amado coração, e que se agrada
7. Mais da eterna aventura em que persiste
8. Que uma vida mal-aventurada.

9. Louco amor meu, que quando toca, fere
10. E quando fere vibra, mas prefere
11. Ferir a fenecer – e vive a esmo

12. Fiel à sua lei de cada instante
13. Desassombrado, doido, delirante
14. Numa paixão de tudo e de si mesmo.

SONETO DO AMOR TOTAL

Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente.
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

 SONETO DE DEVOÇÃO

Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica em meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.

Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria

Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.

Essa mulher é um mundo! - uma cadela
Talvez... - mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela.


SONETO DE FIDELIDADE

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

SONETO DE SEPARAÇÃO

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo, distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente

SONETO DE CONTRIÇÃO

Eu te amo, Maria, eu te amo tanto
Que o meu peito me dói como em doença
E quanto mais me seja a dor intensa
Mais cresce na minha alma teu encanto.

Como a criança que vagueia o canto
Ante o mistério da amplidão suspensa
Meu coração é um vago de acalanto
Berçando versos de saudade imensa.

Não é maior o coração que a alma
Nem melhor a presença que a saudade
Só te amar é divino, e sentir calma...

E é uma calma tão feita de humildade
Que tão mais te soubesse pertencida
Menos seria eterno em tua vida.

MÁSCARA MORTUÁRIA DE GRACILIANO RAMOS

Feito só, sua máscara paterna
Sua máscara tosca, de acre-doce
Feição, sua máscara austerizou-se
Numa preclara decisão eterna.

Feito só, feito pó, desencantou-se
Nele o íntimo arcanjo, a chama interna
Da paixão em que sempre se queimou
Seu duro corpo que ora longe inverna.

Feito pó, feito pólen, feito fibra
Feito pedra, feito o que é morto e vibra
Sua máscara enxuta de homem forte.

Isto revela em seu silêncio à escuta:
Numa severa afirmação da luta
Uma impassível negação da morte.

MARINHA

Na praia de coisas brancas
Abrem-se às ondas cativas
Conchas brancas, coxas brancas
Águas-vivas.

Aos mergulhares do bando
Afloram perspectivas
Redondas, se aglutinando
Volitivas.

E as ondas de pontas roxas
Vão e vêm, verdes e esquivas
Vagabundas como frouxas
Entre vivas!

RECEITA DE MULHER

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança,
qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize
elegantemente em azul,
como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso
que súbito tenha-se a
impressão de ver uma
garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só
encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas
que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso,
é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que
umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como no âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
Nem se fala, que olhe com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas,
e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras:
uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável.
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas que haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!).
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser frescas nas mãos, nos braços, no dorso, e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.

A UM PASSARINHO

Para que vieste
Na minha janela
Meter o nariz?
Se foi por um verso
Não sou mais poeta
Ando tão feliz!
Se é para uma prosa
Não sou Anchieta
Nem venho de Assis.

Deixa-te de histórias
Some-te daqui!

A BRUSCA POESIA DA MULHER AMADA II

A mulher amada carrega o cetro, o seu fastígio
É máximo. A mulher amada é aquela que aponta para a noite
E de cujo seio surge a aurora. A mulher amada
É quem traça a curva do horizonte e dá linha ao movimento dos
astros.

Não há solidão sem que sobrevenha a mulher amada
Em seu acúmen. A mulher amada é o padrão índigo da cúpula
E o elemento verde antagônico. A mulher amada
É o tempo passado no tempo presente no tempo futuro
No sem tempo. A mulher amada é o navio submerso
É o tempo submerso, é a montanha imersa em líquen.
É o mar, é o mar, é o mar a mulher amada
E sua ausência. Longe, no fundo plácido da noite
Outra coisa não é senão o seio da mulher amada
Que ilumina a cegueira dos homens. Alta, tranqüila e trágica
É essa que eu chamo pelo nome de mulher amada.
Nascitura. Nascitura da mulher amada
É a mulher amada. A mulher amada é a mulher amada é a mulher
amada

É a mulher amada. Quem é que semeia o vento? – a mulher amada!
Quem colhe a tempestade? – a mulher amada!
Quem determina os meridianos? – a mulher amada!
Quem a misteriosa portadora de si mesma? A mulher amada.
Talvegue, estrela, petardo
Nada a não ser a mulher amada necessariamente amada
Quando! E de outro não seja, pois é ela
A coluna e o gral, a fé e o símbolo, implícita
Na criação. Por isso, seja ela! A ela o canto e a oferenda
O gozo e o privilégio, a taça erguida e o sangue do poeta
Correndo pelas ruas e iluminando as perplexidades.
Eia, a mulher amada! Seja ela o princípio e o fim de todas as coisas.
Poder geral, completo, absoluto à mulher amada!

POEMA ENJOADINHO

Filhos... Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete...
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los...
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem shampoo
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!

A ROSA DE HIROSHIMA

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A antirrosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa, sem nada.

A BOMBA ATÔMICA

e = mc2

Einstein

Deusa, visão dos céus que me domina
...tu que és mulher e nada mais!
(“Deusa”, valsa carioca) I

Dos céus descendo
Meu Deus eu vejo
De pára-quedas?
Uma coisa branca
Como uma forma
De estatuária
Talvez a forma
Do homem primitivo
A costela branca!
Talvez um seio
Despregado à lua
Talvez o anjo
Tutelar cadente
Talvez a Vênus
Nua, de clâmide
Talvez a inversa
Branca pirâmide
Do pensamento
Talvez o troço
De uma coluna
Da eternidade
Apaixonado
Não sei indago
Dizem-me todos
É A BOMBA ATÔMICA

Vem-me uma angústia

Quisera tanto
Por um momento
Tê-la em meus braços
E coma ao vento
Descendo nua
Pelos espaços
Descendo branca
Branca e serena
Como um espasmo
Fria e corrupta
De longo sêmen
Da Via-Láctea
Deusa impoluta
O sexo abrupto
Cubo de prata
Mulher ao cubo
Caindo aos súcubos
Intemerata
Carne tão rija
De hormônios vivos
Exacerbada
Que o simples toque
Pode rompê-la
Em cada átomo
Numa explosão
Milhões de vezes
Maior que a força
Contida no ato
Ou que a energia
Que expulsa o feto
Na hora do parto.

II

A bomba atômica é triste
Coisa mais triste não há
Quando cai, cai sem vontade
Vem caindo devagar
Tão devagar vem caindo
Que dá tempo a um passarinho
De pousar nela e voar...
Coitada da bomba atômica
Que não gosta de matar!

Coitada da bomba atômica
Que não gosta de matar
Mas que ao matar mata tudo
Animal e vegetal
Que mata a vida da terra
E mata a vida do ar
Mas que também mata a guerra...
Bomba atômica que aterra!
Bomba atônita da paz!

Pomba tonta, bomba atômica
Tristeza, consolação
Flor puríssima do urânio
Desabrochada no chão
Da cor pálida do hélium
E odor de rádium fatal
Loelia mineral carnívora
Radiosa rosa radical.

Nunca mais oh bomba atômica
Nunca em tempo algum, jamais
Seja preciso que mates
Onde houve morte demais:
Fique apenas tua imagem
Aterradora miragem
Sobre as grandes catedrais:
Guarda de uma nova era
Arcanjo insigne da paz!

III

Bomba atômica, eu te amo! és pequenina
E branca como a estrela vespertina
E por branca eu te amo, e por donzela
De dois milhões mais bélica e mais bela
Que a donzela de Orleães; eu te amo, deusa
Atroz, visão dos céus que me domina
Da cabeleira loura de platina
E das formas aerodivinais
— Que és mulher, que és mulher e nada mais!
Eu te amo, bomba atômica, que trazes
Numa dança de fogo, envolta em gazes
A desagregação tremenda que espedaça
A matéria em energias materiais!
Oh energia, eu te amo, igual à massa
Pelo quadrado da velocidade
Da luz! alta e violenta potestade
Serena! Meu amor... desce do espaço
Vem dormir, vem dormir, no meu regaço
Para te proteger eu me encouraço
De canções e de estrofes magistrais!
Para te defender, levanto o braço
Paro as radiações espaciais
Uno-me aos líderes e aos bardos, uno-me
Ao povo ao mar e ao céu brado o teu nome
Para te defender, matéria dura
Que és mais linda, mais límpida e mais
pura
Que a estrela matutina! Oh bomba
atômica
Que emoção não me dá ver-te suspensa
Sobre a massa que vive e se condensa
Sob a luz! Anjo meu, fora preciso
Matar, com tua graça e teu sorriso
Para vencer? Tua enérgica poesia
Fora preciso, oh deslembrada e fria
Para a paz? Tua fragílima epiderme
Em cromáticas brancas de cristais
Rompendo?Oh átomo, oh neurônio, oh germe
Da união que liberta da miséria!
Oh vida palpitando na matéria
Oh energia que és o que não eras
Quando o primeiro átomo incriado
Fecundou o silêncio das Esferas:
Um olhar de perdão para o passado
Uma anunciação de primaveras!

POÉTICA I

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
- Meu tempo é quando.

ÁRIA PARA ASSOVIO

Inelutavelmente tu
Rosa sobre o passeio
Branca! E a melancolia
Na tarde do seio.

As cássias escorrem
Seu ouro a teus pés
Conheço o soneto
Porém tu quem é?

O madrigal se escreve:
Se é do teu costume
Deixa que eu te leve.

(Sê...mínima e breve
A música do perfume
Não guarda ciúme).

AZUL E BRANCO

I

Massas geométricas
Em pautas de música
Plástica e silêncio
Do espaço criado.

Concha e cavalo-marinho.

O mar vos deu em corola
O céu vos imantou
Mas a luz refez o equilíbrio.

Concha e cavalo-marinho.

Vênus anadiômena
Multípede e alada
Os seios azuis
Dando leite à tarde
Viu-vos Eupalinos
No espelho convexo
Da gota que o orvalho
Escorreu da noite
Nos lábios da aurora.

Concha e cavalo-marinho.

Pálpebras cerradas
Ao poder violeta
Sombras projetadas
Em mansuetude
Sublime colóquio
Da forma com a eternidade.

Concha e cavalo-marinho.

II

Na verde espessura
Do fundo do mar
Nasce a arquitetura.

Da cal das conchas
Do sumo das algas
Da vida dos polvos
Sobre tentáculos
Do amor dos pólipos
Que estratifica abóbadas
Da ávida mucosa
Das rubras anêmonas
Que argamassa peixes
Da salgada célula
De estranha substância
Que dá peso ao mar.

Concha e cavalo-marinho.

Concha e cavalo-marinho:
Os ágeis sinuosos
Que o raio de luz
Cortando transforma

Em claves de sol
E o amor do infinito
Retifica em hastes
Antenas paralelas
Propícias à eterna
Incursão da música.

Concha e cavalo-marinho.

III

Azul... Azul...

Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco

Concha...

e cavalo-marinho



OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO

E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo: — Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu. E Jesus, respondendo, disse-lhe: — Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás

(Lucas, cap. IV, versículos 5-8).

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as asas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro dessa compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção,
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação.
– "Convençam-no" do contrário
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isto sorria.

Dia seguinte o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher,
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

Um comentário:

Maíra Ramos disse...

Muito bom o seu trabalho sobre o poetinha...